Let the Snow
26 Despedida

[...]
Algumas horas se passaram, e eu simplesmente me neguei. Ele não poderia fazer aquilo comigo, não poderia simplesmente me mandar embora. Plantada no sofá, eu tentava não fazer contato visual com Douglas.
– Você não... — Sua voz falha — Não imagina como eu fiquei desesperado quando aquilo começou. Eu não sabia o que fazer, eu me senti inútil e...
– Não chame de "aquilo". Chame de convulsão. — Digo, repetindo o que Fred Welsome disse a Douglas algumas horas atrás. — E ela já passou, e pretende não voltar tão cedo. Dá pra entender?
– Alexandra, isso é para o seu próprio bem. Não é para você ficar aqui, sem assistência médica, se você tem acompanhamento com os médicos no Brasil. Isso não é brincadeira, o que aconteceu com você foi grave e...
– Você só está tentando se livrar de mim, aposto! — Fungo.
Douglas se levanta ao meu lado do sofá, esfregando as mãos no rosto.
– Não comece com isso. — Ele diz, frio.
– Começar com o quê? Começar a citar essas probabilidades? Começar a enxergar hipóteses?
– NÃO COMECE COM ESSAS CRISES EXISTENCIAIS RIDÍCULAS! — Ele berra.
Sua voz soa alta e dura, o que me assusta e me faz ficar calada. Seco algumas lágrimas que escorreram em meu rosto, me levantando e subindo as escadas com um pouco de dificuldade devido a tontura que me inflingia. Dentro do meu dormitório eu me afundo nas cobertas e caio em um sono sem sonhos.
~
– Alexandra? — Ouço a voz de Fred Welsome perto.
Esfrego os olhos. Ele estava ali, sentado na cama ao meu lado. O relógio ao lado da cama marcava duas horas da manhã.
– O que você quer? — Resmungo.
– Eu vim conversar com você.
– Olha, se Douglas o mandou aqui para isso, eu realmente acho melhor você ir embora. — Falo, me virando para o lado oposto de onde ele estava sentado.
– Na verdade não foi Douglas que me mandou aqui. Eu estava esperando o momento em que ele descolasse de você para que pudéssemos conversar a sós. É algo seu, algo que eu não tenho direito de dizer a mais ninguém.
Me sento, assustada. Sua voz parecia realmente preocupada, seus olhos estavam sérios.
– O que foi, Fred? O que está acontecendo? — Pergunto, temerosa.
– Você sabe que ontem teve uma convulsão. E esse é o pior sinal que poderíamos ter. Observando o seu quadro antigo desses seus documentos de exames do hospital....
– Como você conseguiu meus exames do hospital?...! — A pergunta é ignorada.
– Vejo que você não está melhorando, Alexandra. Preste atenção; É pequena, porém, existe uma taxa de pessoas que não tem o organismo compatível com os remédios que você está tomando. Eu não tenho recursos necessários, porém, tenho motivos para cogitar a hipótese de que você se encaixe nessa parcela. Seu quadro está se intensificando, Alexandra, e você precisa voltar para casa e continuar o tratamento... Ao menos se quiser continuar vivendo.
~
Ouço as batidas na porta, mas não me viro para ver quem era.
– O... O voô está pronto. Estamos prontos para sair. — Ouço a voz de Fred.
– Eu... Só preciso de um minuto. — Murmuro — Só um minuto, já estou descendo.
Aquele não parecia o dormitório que eu dormira. Ele parecia vazio, parecia morto, sem minhas roupas espalhadas pelo chão — Já que Fred as dobrara e arrumara em minha mala de acordo com suas cores -, nem com os lençois bagunçados. Eu não mais o reconhecia.
Douglas nos levaria até o aeroporto de New York, onde seríamos separados. Eu tentava não pensar nesse momento, que estava tão próximo, pois sentia um buraco negro se abrir em meu peito, uma escuridão me envolvendo, apenas em imaginar.
Assim que desço, ele segura a minha mão.
~
O trajeto do carro foi tranquilo, porém, rápido demais. Era estranho; Quanto mais você quer curtir o momento, mais rápido ele parece passar. Todos nós — Fred, Doug e eu — não nos olhavamos ou conversavamos, o silêncio como um peso em minhas costas. A ficha ainda não tinha caído. Parecia que estavamos apenas passeando, não prestes a nos separar para sempre.
~
– Douglas, eu não vou conseguir, eu não vou coseguir. — Digo, agarrada a ele.
As lágrimas escorriam de meus olhos livremente, meu rosto estava escondido em seu peito. As pessoas passavam por nós, de vez em quando nos lançando olhares curiosos, mas nada mais. Eu não tinha vergonha, eu simplesmente me agarrei a ele e ali fiquei por um bom tempo, e ele também não me afastou. Doug fungava, notei que lutava para não deixar as lágrimas que dançavam em seus olhos rolarem.
– Alexandra, eu... Por favor, não faça isso comigo. Não faça isso comigo. — Ele diz, encarando meu rosto com uma expressão de dor.
– Eu não vou conseguir ficar longe de você, Douglas, eu preciso de você, eu preciso de você. — Digo, ignorando-o suas palavras, eu só queria naquele momento que ele sentisse, por aquele abraço, a intensidade do amor que eu tinha por ele.
– Alexandra, eu prometo que não vou te deixar sozinha. Isso não é um adeus. Tudo bem? Eu vou dar um jeito na minha vida, você vai voltar para mim. Até porque eu não teria mais motivos para continuar aqui sem você. — Ele me dá um sorriso fraco, as lágrimas vencem. Elas escorrem silenciosas por seu rosto.
– Prometa que vamos nos ver em breve. Por favor. Prometa. — Praticamente imploro.
– Sim, eu juro por Deus, eu prometo, que não vamos ficar longe por muito tempo. Está bem? Podemos nos falar, por e-mail, e p-por celular, até que... Entende? São muitas coisas que precisamos arrumar. Eu vou dar um jeito na minha vida, e quando você menos esperar, estaremos juntos de novo, tá legal? — Ele beija minha testa.
– T-Tá. Tá legal. — Digo, ficando na ponta dos pés e lhe dando um beijo. Um último beijo.
Eu e Fred Welsome somos guiados para a área dos voôs particulares, por uma enorme porta dupla. Eu olho para trás uma última vez, e ele continua ali, parado, me observando. Palavras. Ele está me dizendo algo, proferindo palavras sem som.
"Eu amo você".
As portas se fecham antes que eu pudesse responder.
– Eu também te amo, Douglas Smith. — Digo, para mim mesma.
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