Let the Snow
27 Lembranças ocultas

[...]
O mesmo avião. A mesma poltrona incrivelmente confortável.
Eu afundo naquela maciez e fecho os olhos, ouvindo Fred se atrapalhar ao guardar nossas malas no porta-malas.
– Eu não sei porquê você veio junto. Como se eu não soubesse ficar sentada em uma cadeira.
– É o meu trabalho. — Ele murmura.
– Falando nisso... O quê vai aconteceu com você, agora que eu vou embora? Onde você vai trabalhar? — Digo, encarando-o.
– Você sabe, hospitais, ou talvez editando livros, ou talvez sendo contratado para espiar mais alguém... — Ele murmura, fazendo pouco caso.
Seu celular começa a tocar. Ele atende, e apenas responde "Ok", antes de desligar.
– Alexandra, eu preciso ser rápido, ele está chegando. — Ele diz, com sussurros rápidos que eu tenho certa dificuldade de entender.
– Como assim? Quem está chegando, Welsome? — Pergunto, irritada.
– Eu não poderia deixar você ir embora, ainda tem muita coisa em jogo. Douglas cumpre o que promete, e eu sei que você voltarão a se ver, mas tem uma certa pessoa que talvez não faça muita questão ou coisa parecida, e eu me senti na obrigação de arriscar minha carreira e salário mensal para dizer a ele que ele estava errado. — Ele continua a sussurrar.
– De quem você está falando? Por que estamos sussurrando?
– De Alex Watts, garota burra! — Ele exclama, sussurro-gritando.
– O QUÊ?! — Deixo escapar.
– Ele é seu pai, eu não pude evitar, eu xinguei ele. Xinguei ele porque você é uma menina incrível e ele é um idiota que não lhe dá atenção. Ele está chegando, inclusive, como esse avião é dele, e... Eu só quero o melhor para você. Talvez se vocês conversassem, ou algo parecido...
– Tá, o quê uma conversa vai mudar? Quer que eu perdoe ele? Quer que eu perdoe os doze anos em que ele se tornou um empresário milhonário enquanto minha mãe fazia um milhão de horas extras para poder pagar o aluguel? Quer que eu o perdoe?!
No mesmo momento o homem entra. Novamente ele usa terno escuro, formal. Casualmente, senta-se em uma das poltronas, enquanto segura uma taça de champagne na mão esquerda.
Fred e ele me encaram. Fred assustado, Alex Watts com o rosto inexpressível.
– Prazer conhecê-la, Alexandra.
~
Alex Watts era um homem elegante. Suas palavras, suas gesticulações, até mesmo seu cheiro exalava glamour. Fred se retirou assim que o homem entrou, e ficamos em silêncio por mais ou menos uma hora antes que ele decidisse puxar assunto, dizendo como eu havia crescido.
– Só diz isso por que não estava lá para me ver crescer. — Murmuro.
– Ah, então eu sou o vilão de história? — Ele pergunta, seu rosto sério, porém, seus olhos brilhavam, quase que com diversão.
– Depois de abandonar eu e minha mãe para viajar para o exterior com a amante, e virar um bem sucedido empresário e nem dar as caras? Acho que você se encaixa em "vilões". — Não olho seu rosto enquanto falo.
Alex, ou "Alexandre", solta um riso forçado, tomando o resto da champagne de sua taça e jogando-a na lixeira a seu lado. Uma taça de cristal usada. Lixo. Aquele era o raciocínio dos ricos?
– Eu amei sua mãe. — Ele diz, quase indiferente — Porém, nós nunca nos demos bem. Só nos casamos — na verdade nem isso fizemos, apenas estabelecemos uma união estável — devido a sua chegada inesperada. Eu sempre deixei claro o que eu queria, que eu queria viajar em busca de talentos, eu sempre quis algo amais.
Suspiro, suas palavras me eram tão estranhas, e ao mesmo tempo tão familiares, como uma canção de ninar. Aquele homem, que desapareceu quando eu tinha três anos, me trazia lembranças que eu nem sabia que tinha. Seu sorriso, o brilho de seus olhos, como um aconchegante cobertor.
– Porém, ela sempre foi uma mulher que se negava a sonhar. Ela sempre aceitou a realidade em que vivia, nunca se esforçou para nada, nunca apoiou o que eu julgava poder conseguir, e enfim melhorar a nossa vida. E o que eu era? Um misero carpinteiro. O dinheiro mal dava para nos sustentar.
– Tá. E por minha mãe não apoiar o seu sonho você arranjou outra mulher e saiu do mapa, é isso? Acha que isso justifica? Acha? — Digo, fitando-o com fúria.
– ENTÃO — Ele me ignora — Eu encontrei Chloe Watts. Assim que reparei seu interesse por mim, me afastei. Porém, um dia, em uma festa, eu acabei exagerando nas bebidas, e aconteceu. Eu estava carente? Sim. Sua mãe e eu não transavamos a meses, se quer saber — Ele fala como se dissesse a previsão do tempo — E eu me arrependi amargamente. Porém, a minha relação com sua mãe foi ficando cada vez pior, e eu buscava refúgio com a doce e estrangeira Chloe, que estava de férias no Brasil. Enfim, ela acaba por me oferecer abrigo em sua casa nos EUA, apoiando totalmente o meu sonho. Então eu... Me deixei levar. E tudo deu certo.
Encaro-o, ele dizia aquelas palavras sem qualquer tipo de emoção, como se fosse um discuso que ele tivesse repetido milhares de vezes. Eu o encaro por um tempo, antes de virar meu olhar para a janela do avião novamente.
– Não existe justificativa para o que você fez. Minha mãe virava a noite trabalhando, enquanto eu ficava na escolinha em período integral. Sabe como é ruim, em todos os desenhos que eu fazia na escolinha, concrentar minha família apenas com duas pessoas, eu e minha mãe? Sabe a sensação de abandono que eu sentia quando todos os pais dos meus colegas iam nas reuniões de dia dos pais na escola, e quando eu procurava o meu, eu não encontrava?
Alex Watts esfrega o rosto com as mãos.
– São consequências que você teria que arcar, Alexandra. Eu pensei em tudo isso quando parti. Apenas queria o melhor e...
– Consequências que eu teria que arcar? Você só pode estar brincando! — Rio alto e amargamente — Você fugiu com uma vadiazinha qualquer e me abandonou, e ainda por cima me deixou sequelas que eu teria que superar mesmo não tendo culpa! Você está nadando em dinheiro, e sequer procurou saber sobre mim, sequer se preocupou em ver se não estávamos morrendo de fome, você não...
– MAS EU VOLTEI! — Ele berra, com um movimento rápido derrubando algumas outras taças de champagne que estavam arrumadas e empilhadas em uma bandeija ao seu lado.
Minha voz vacila.
– V-você... Voltou...? — Pergunto, surpresa e extremamente confusa.
– Você tinha cinco anos. Eu já tinha bastantes condições, quando eu voltei para ver como vocês estavam, disposto a dar qualquer coisa que me pedissem para ressarcir minha ausência. Não, eu não ia voltar para a sua mãe, apenas... Dizer que eu me importava.
Fico muda.
– Sua mãe é uma mulher teimosa, e guarda rancor como ninguém. Ela me jogou um prato na cabeça, e me chutou de sua casa, nem me deixou vê-la. Eu ofereci dinheiro, afinal, era tudo o que eu podia fazer, porém, orgulhosa como Mariane é, não aceitou. E ainda por cima me mandou ficar longe dela e de você para sempre. — Ele dá de ombros — Foi o que eu fiz.
Engulo em seco. Minha mãe nunca havia me dito que ele havia voltado. Não era suficiente para justificar o que ele havia feito, mas pelo menos ele ainda se importava...
– Quando eu recebi aquele email, tendo seu nome citado nele, não soube o que sentir no momento. Eu não sabia se ficava feliz, ou ficava triste, não soube como reagir.
– Então fez de tudo para que eu não realizasse meu sonho. Mesmo eu tendo câncer.
Alex Watts suspira.
– Não faça esse jogo para o meu lado. — Ele diz, duro.
Pisco algumas vezes.
– Jogo?
O avião começa a tremer. Sinto que ele está planando. Já estávamos chegando. Eu estava chegando em casa.
– Não use chantagem emocional para o meu lado. Eu não caio nessas. — Ele grita mais alto que a agitação do avião.
– Eu não estou... — Falo, aborrecida.
– Se você tem câncer, culpe a genética. Minha mãe morreu por causa de um. Agora, eu já ofereci dinheiro para a sua mãe, e ela negou, eu não posso fazer mais nada. Você pode dizer palavras bonitas, porém, eu não sou um homem que deixa-se levar pela emoção facilmente.
Pisco algumas vezes, cravando as unhas nos braços da poltrona. O que ele estava dizendo?
– Eu não QUERO e não ESTOU fazendo PORRA de chantagem emocional nenhuma! — Digo, minha voz soa embargada.
– É igual a mãe. — Ele suspira, revirando os olhos — O que você quer que eu te diga? Já te dei ida e volta de avião além de aturar que Douglas Alexander dê atenção integral para você. Acho que é suficiente para o resto breve da sua vida. Então, por favor, eu já gastei bastante tempo e saliva com você, além de muita paciência. Não pense que é porque você tem um mínimo de sangue meu que eu tenha algum tipo de ligação com você, porque eu não tenho.
Meu peito subia e descia como se eu tivesse corrido uma maratona.
– E você não é meu pai. Sabe por que? — "Não vou chorar, não vou chorar", penso — Porque ele fugiu com uma amante e desapareceu. — Falo, minha voz soa amarga.
Alex Watts balança a cabeça e murmura "Tsc, tsc".
– Eu olho para você e só vejo Mariane. Isso me enoja. Eu tenho filhos, e eles estão em algum lugar de Miami com minha mulher agora, então nem ouse me cogitar em chamar de pai! — Ele ri. — De preferência, Alexandra Neves, continue denominando-se apenas Alexandra Neves. Você não é digna de usar Bittercout.
Desde que eu descobrira o que meu suporto pai havia feito com nossa família, eu havia desistido de usar o seu sobrenome em meu nome. Alexandra Neves Bittercout não existia mais. Era apenas Alexandra Neves.
Havia feito isso com um ar de vitória, como se eu pudesse, onde quer que ele estivesse, atingi-lo de alguma forma com aquela pequena rebeldia.
O que não era o caso.
– Eu não consigo acreditar que sangue seu corra em minhas veias. — Digo, cuspindo as palavras em sua direção.
– Talvez não corra. Pode ser que o sague de cobra da sua mãe tenha o corroído completamente do seu DNA. — Ele ri com deboche.
Eu me levanto, eu sentia o avião parado, provavelmente já estavamos no aeroporto. A fúria me cega por alguns intantes, suficientes para que eu agarre um pratinho de petiscos que estava pousado no centro do vagão do avião e jogasse em seu rosto.
– Nunca... Nunca mais repita o nome da minha mãe com essas suas palavras sujas. Eu tenho nojo de você. Nojo! — Grito, tentando engolir o nó em minha garganta.
Alex Watts me encara, sem expressão.
Ouço uma porta se abrindo enquanto eu fico nas pontas dos pés para pegar minha mala vermelha do porta-malas que era visivelmente fabricado na intenção de ser manuseado por pessoas altas, que não era o meu caso. Meu lábio inferior tremia, eu sabia que estava a beira de uma crise de choro.
Eu já tinha vaga noção do que significava para meu pai. Um grande nada. Porém, ouvir aquelas palavras do próprio me fez relembrar toda a falta que ele me fez, todas as cartas de dia dos pais que eu tive que entregar para a minha mãe. Doía demais. Demais.
Fred Welsome está ali, nos observando.
– O que aconteceu aqui? — Ele pergunta, parece temeroso.
Ninguém responde.
Eu mesma abro a porta do avião e arrasto a mala escada abaixo, com um pouco de dificuldade e tendo que fazer algumas pausas durante o percurso dos degraus para evitar tontura e visão dupla.
Não olho para trás.
~
O mesmo homem alto de pele escura que me guiara até o avião com seu carrinho de mini-golfe me esperava no final da escada. Ele me deseja boa noite, mas eu não consigo responder, pois tenho certeza de que se disser algo vou explodir em soluços.
Eu havia ligado para minha mãe para avisá-la de que eu estava voltando, no mesmo dia que havia recebido a notícia da convulsão, porém, não tinha lhe contado o real motivo, para evitar que ela ficasse preocupada. Ela provavelmente estaria me esperando dali a alguns metros. Será que ela notaria que tinha algo de errado comigo? Que eu estava destruída, tanto emocionalmente quanto em questões de saúde?
~
A porta se abre.
O aeroporto estava lotado, várias pessoas zuniam para todos os lados, apressadas.
Corro meus olhos pelo lugar, a procura de um rosto familiar, e inicialmente não encontro nada, até, depois de alguns minutos desesperadores, fixar meus olhos no olhar negro e carinhoso que fora o principal motivo de eu ter vivido toda essa história dos últimos dias.
Largo a mala, nada mais importava; Corro na direção de Emily e a abraço com força, afundando meu rosto em seu ombro e tentando, com todas as forças, resisitir àquela tristeza. Seu cheiro familiar de cidra me dava sono.
Não consegui falar com Emily durante todo o tempo que viajei, talvez, por puro egoísmo, afinal, eu tinha o número do seu celular. Somente ali percebi quanta falta ela me fazia, como eu poderia contar com ela para qualquer coisa.
– Bem vinda de volta, Alexandra. — Ela sussurra.
Nos afastamos apenas para podermos olhar no rosto uma da outra. Meus olhos marejam.
– Eu tenho tanta coisa para te contar. — Minha voz não passa de um sussurro.
– Ainda teremos bastante tempo para isso. — Ela parece preocupada, porém, não me pressiona a dizer nada naquele instante, uma das coisas que eu mais admirava nela.
Emily pega a alça da minha mala e passa o braço por meus ombros, me guiando em linha reta. Me informa que minha mãe ficou presa no trânsito, porém, que provavelmente já estaria chegando em alguns minutos para me levar para casa.
– ALEXANDRA! ALEXANDRA, ESPERE! — Ouço a voz cortar o tumulto do aeroporto.
Me viro a tempo de ver um Fred Welsome bufando e suado, segurando uma visivel pesada mala preta.
– Se não é muito incomodo, posso ficar com você durante um tempo? — Ele pergunta, apoiando as mãos nos joelhos para pegar fôlego — Acabei de ser despedido por difamar meu chefe.
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