Let the Snow
8 Minha mãe arrombando as portas chiques?
No total, foram seis semanas e cinco dias de quimioterapia antes de me liberarem para casa.
Talvez as oito semanas mais turbulentas da minha vida.
Eu poderia ir para casa, desde que continuasse a tomar os remédios — quatro dozes por dia — e voltasse dali há três semanas, para um recomeço de mais seis semanas de quimioterapia novamente.
Emily me disse que o voo seria para dali há cinco dias, ou seja, dali há dois dias, no mesmo dia da minha liberação do hospital, um avião estaria me esperando no Aeroporto Salgado Filho, o único que tínhamos em Porto Alegre, a cidade pouco notada do Sul do país.
Então ele percorria 8.208,7 km pelos céus até New York, onde eu viajaria de carro 25 minutos rumo simplesmente até A CASA DELE.
Eu precisaria dar um jeito na minha vida. Eu precisaria fugir, precisaria fazer alguma coisa.
Minha mãe aparecia as vezes, checava minha temperatura e saia. Não me olhava direito ou sequer dizia algo.
Ela não deveria estar chateada. Eu também não deveria olhar para a cara dela, afinal, olha o que ela estava fazendo comigo! Porra, eu estava morrendo. Estava entregue de bandeja o meu sonho, ela só precisaria anotar uns papéis e me levar até o aeroporto, porra. Aquilo era a mais pura maldade.
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Eu contei para Emily sobre a decisão da minha mãe. Ela me abraçou quando eu me desesperei e me alcançou a lixeira quando eu passei mal, e naquele momento eu percebi que jamais poderia perder a amizade de Emily, pois ela era o meu porto seguro naquele momento de dor. Nenhuma pessoa faria o que Emily fez por mim sem esperar nada em troca além da minha eterna gratidão e um abraço apertado. Acima de tudo eu amava o jeito que Emily lhe deu com as coisas, seus olhos escuros jamais demonstravam nenhum resquício de pena ou compaixão. Ela fazia piadas com o câncer que ninguém jamais ousaria fazer, e me arrancava risadas, as únicas espontâneas que eu dava.
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– Então, senhorita, está liberada. Não esqueça que...
– Devo tomar os anticonvulsivos todos os dias, quatro vezes por dia junto com os corticosteiroides. Eu sei. — Murmuro, cansada de tanto ouvir a mesma coisa.
Minha mãe entra na sala. Ela não usava o jaleco do hospital, mas uma roupa leve e normal, seus cabelos loiros presos em um rabo de cavalo.
Minha mãe, a senhora Mariane Neves, como eu, parecia ser uns dez anos mais nova do que realmente era. Não tinha vinte e cinco anos, e sim trinta e cinco, seus olhos verdes sempre brilhando. Eu não me lembrava mais do rosto do meu pai, afinal, a última vez que o vi tinha cinco anos apenas, antes dele viajar para longe e nunca mais voltar. Mas minha mãe me dizia que eu tinha seus olhos e meus cachos descendiam dele. Mesmo tendo feito o que fez, não consigo odiá-lo, afinal, eu não gosto de julgar as pessoas sem estar inteirada do assunto.
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Minha mãe age de maneira estranha antes de sairmos do hospital. Ela me entrega uma sacola de roupas novas de uma marca cara e manda-me trocar-me, logo depois prendendo um lenço luxuoso em minha cabeça, para evitar transpassar a total falta de cabelos. Enquanto me troco, noto que minha pele está um pouco amarelada e que também há hematomas roxos debaixo de meus olhos. Estou mais magrela do que o normal, tão fina quanto um graveto.
Nada que eu via no espelho me agradava.
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Estávamos dentro do Celta prateado de duas portas da minha mãe, e ainda não trocamos uma palavra sequer. Eu não disse nada nem quando ela me entregou aquele envelope, nem quando ela começou a discursar como se tivesse ensaiado cada palavra.
– Ai dentro está o seu passaporte e todas as comprovações e documentos assinados que você precisa para viajar. Na sua mala, que está ali atrás está o seu celular com a bateria completamente carregada, ou seja, irei ligar de três em três minutos, e se você não atender na primeira chamada eu pego uma jetsky e viajo pelo mar até Manhattan. Emily me passou o endereço da casa onde você vai ficar, a ficha completa desse moço e o telefone residencial, que eu realmente não quero precisar utilizar, ou seja, não duvide que eu arrombe aquela porta chique e lhe dê umas boas vassouradas. Entendido?
– Mas mãe, isso quer dizer que...?
– Entendido?
As lágrimas caem de meus olhos, e eu lhe lanço um olhar tão agradecido que sinto minha alma tremer.
– Entendido.
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