Let the Snow
9 Fred Welsome

A despedida com minha mãe foi incrivelmente tensa.
Não me lembrava a última vez que havíamos nos abraçado, ou demonstrado qualquer tipo de afeto por meio de palavras ou gestos.
Nos informamos no balcão principal sobre o voo particular e fomos guiadas por uma jovem secretária até outro balcão, em outro andar do aeroporto. O homem alto de pele escura informou-me que apenas o viajante poderia continuar a partir daquele ponto.
Minha mãe e eu nos encaramos. Tantas diferenças separavam-nos; Porém, tantas ligações nos juntavam.
Eu a abraço, e ela retribui. Lágrimas escorriam por seu rosto quando ela murmurou "Minha menina tão crescida", e afagou meus cabelos. Ela me faz prometer que não iria me meter em confusão e atender o telefone, além de tomar os remédios na quantidade e horários certos, e não fazer muito esforço.
Assinto e murmuro "Tá, mãe", dando um meio sorriso ao ouvir suas recomendações.
Murmuro um muito obrigada antes de lhe dar as costas e seguir o homem que me guiava pelos corredores, arrastando minha mala vermelha de rodinhas.
~
Em um ponto da marcha, eu comecei a me sentir mal. Minha cabeça latejava, meus dedos faziam rápidos movimentos flexíveis como um tique nervoso, e eu pensava que estava chegando minha hora, eu ia morrer ali mesmo.
Um pouco grogue, apresentei todos os documentos que foram-me fornecidos por minha mãe, e perdi a conta de tantas assinaturas que fiz.
Finalmente, quando dei por mim, estávamos no pátio do aeroporto. Aviões estacionados me rodeavam, e eu observava aquilo com fascínio; Nunca havia voado antes, apenas como um pássaro em meus sonhos.
Entrei em um tipo de carrinho daqueles encontrados em campos de golfe, e o homem alto me leva até um jatinho isolado dos outros aviões. Lá ele me deseja uma boa viajem, e parte assim que a escada aparece e eu subo o primeiro degrau.
Estava lá pelo terceiro quando um homem de três metros de altura, magro e esguio, desse em uma velocidade alarmante e pega a mala de minha mão, logo voltando para dentro do jatinho.
Eu pisco algumas vezes, confusa, e quando dou por mim, estou no ar. Ele havia me pegado no colo, e agora me arrastava para dentro do jato.
Eu penso em gritar por socorro ou algo parecido, mas aquilo não parecia um sequestro. Ele murmurava "Onde está com a cabeça ao subir tudo isso sozinha?", e "Calma, aqui tem todo o conforto que você precisa".
O homem me senta delicadamente em uma cadeira incrivelmente macia, e eu afundo.
– O-o que está acontecendo? — Digo, atenta, tentando não me render ao conforto da cadeira magnífica.
– Não houve nada! Está respirando? Como estão seus batimentos? — Ele diz, agarrando meu pulso e checando.
– Eu estou bem! — Grito, um pouco temerosa.
– DESCULPE! — Ele diz, dando alguns passos para trás.
Passo minhas mãos em meu rosto.
– Quem é você? — Pergunto depois de um tempo.
– Sou Fred. Fred Welsome. Poliglota, editor, e serei seu guia até o final dessa viajem, prazer em conhecê-la, Alexandra.
Pisco.
– Ah. Olha... — Fito seu rosto. Seus cabelos loiros eram lambidos em gel, em estilo mauricinho, e os óculos retangulares eram estranhos em seu rosto — Não faça aquilo novamente, ok? Estou com câncer, não aleijada.
– Como quiser! — Ele diz, se virando para guardar minha mala.
Nesse momento me deixo ser levada pela maciez da poltrona.
~
Fred Welsome me oferecia um pouco de tudo a cada cinco segundos. Comida? Bebida? Canais de televisão? Música? Jogos? Livros? Revistas? Quer ir ao banheiro?
Eu não queria nada. Apenas chegar logo ao meu destino com paz, era pedir muito?
Observando pela janela, tudo parecia tão pequeno e frágil. Eu imaginava todas as vidas que moravam dentro dos apartamentos e casas minúsculos abaixo de mim, como parecia impossível sobreviver, como a morte era fácil. O avião poderia cair em um prédio e matar milhares de pessoas. Um asteroide poderia colidir com a Terra e acabar com tudo de uma vez.
Morrer é fácil. O difícil é sobreviver.
~
Eu durmo. Fred Welsome me informa de que a poltrona era reclinável, e eu faço apenas para experimentar, e mergulho em um sono profundo.
Sonhos estranhos me dominam. Sonhos de que ele não estaria lá quando eu chegasse, eu perdida em plena Street Center.
Acordo e me sinto aliviada, porém... O rosto de Fred Welsome estava muito perto.
Eu grito e o empurro.
– O que você estava fazendo? — Berro, meu coração pulando.
– Estava observando você dormir e vendo se você ainda respirava. Seu peito subia e descia, conferido. Gás carbônico saia de suas narinas, conferido.
– Você é louco!
– E você fala dormindo. E chora também. Fica murmurando "Douglas, eu te amo, Douglas"...
– Pare com isso! — Digo, meu rosto queima.
– Só estou falando a verdade. — Ele se senta na outra poltrona. — Gosta de azeitonas?
~
– Chegamos. — Fred Weslome me liberta de meus devaneios.
– M-mas já? — Um nó gigante de forma em minha garganta.
– Já! — Ele cantarola, e começa a tirar minha mala da gaveta.
Eu me levanto, minhas pernas bambeiam. Eu estava perto demais, eu ia vê-lo.
As portas se abrem, o vento sopra, porém eu não tinha cabelos para serem balançados. Apenas a ponta de um lenço de linha. A noite brilhava, estrelas iluminavam o céu escuro.
Fred Welsome trás minha mala, e eu desço as escadas para o chão. Olho para os lados e vejo que há algo de errado. Não vejo a continuação do solo. As luzes que piscam em meus olhos são ofuscantes, fico um pouco atordoada.
– Que horas são? — Pergunto.
– Onze horas e trinta e seis minutos.
– E... Onde estamos?
– Na cobertura do prédio de Alex Watts. Acabei de receber uma ligação dele, há um carro nos esperando lá embaixo para nos levar até Manhattan. São vinte e cinco minutos de carro. Estamos chegando! — Ele diz, batendo palmas.
Estamos chegando, penso.
~
Dentro do carro, começa a chover lá fora.
Fred Welsome canta a música que está dando no rádio, um tipo de música country que ninguém fora do país conhece.
A chuva está violenta, me impossibilitando ver muito das casas e lugares que estamos passando.
O motorista não fala, apenas dirige.
Fred Welsome não cansou de cantar.
O frio faz nuvens de ar saírem de minha boca a cada respiração.
Meu coração bate cinco vezes por segundo.
~
O carro para.
O motorista sai do carro e abre a porta para mim, segurando um guarda chuva. Eu agradeço e Fred Welsome me acompanha, se escondendo comigo debaixo do guarda-chuva para não ser encharcado.
A casa a minha frente é... Incrível.
Dois andares, as paredes são de gesso branco com detalhes em pedras minúsculas juntas. O jardim é elegante, e as portas são duplas de vidro. Fred Welsome me acompanha pelo jardim, e quando nos posicionamos em frente às portas, toca a campainha.
Tumdum. Tumdum.
Ele atenderia a porta? Ele estaria me esperando no sofá? Ele me abraçaria? Me daria oi? Me chamaria pelo nome, sorriria para mim?
Mas nada daquilo aconteceu.
Uma senhora ainda menor que eu atende a porta com um sorriso maroto.
Ela fala inglês, e naquele momento percebo que todas aquelas aulas no sábado valeram a pena, pois entendo fluentemente cada palavra que sai da sua boca enquanto ela nos guia para dentro.
– Douglas não está, parece que teve um teste para algum papel em New Jersey. Mas ele deixou tudo pronto, vamos, sigam-me os dois.
Eu e Fred seguimos a senhora calados, a sensação de estar na casa dele, pisar no mesmo chão que ele pisou, abafa a sensação de decepção que tenta me atingir.
Passamos pelo hall de entrada e nos deparamos com a sala. Ela me lembra aquelas cabanas das montanhas, uma lareira acesa, um tapete visivelmente macio, paredes de tecido e um sofá marrom com algumas almofadas bagunçadas.
Ai meu Deus, ele passou por ali, ele sentou naquele sofá. Seguro o impulso de correr e me jogar sobre o sofá, porque provavelmente eu rolaria para dentro da lareira e a senhora não ficaria muito feliz de ter que aspirar minhas cinzas do tapete caro.
Subimos um lance de uma escada rústica e eu engulo cada detalhe daquela casa com os olhos, os quadros presos nas paredes, o clima aconchegante, as iluminações amareladas.
No segundo andar, havia um corredor longo e largo, com várias portas. Todas estão fechadas, e são de madeira pintadas de branco.
A senhora — que seria a doméstica da casa, agora concluo — nos leva até as duas últimas portas. Ela me diz que a última é a minha, para eu me sentir em casa, e dá as costas. Fred Welsome me dá minha mala e sai, para voltar ao carro e pegar as dele.
E eu fico ali sozinha, encarando a porta.
Os trovões rugem.
O vento assovia.
Eu abro a porta e me deparo com um quarto de hospedes. A cama de casal possui uma cobertor rosa florido, há um banheiro particular e um armário branco. Ao lado da cama há uma escrivaninha com um abajur em formato de cristal, sua luz branca ilumina parcialmente o quarto.
Eu jogo a mala em qualquer canto e me sento em uma cadeira de balanço que fica posicionada perto da janela. Me encaro no grande espelho que cobria metade de uma parede.
Pele amarelada.
Olheiras roxas.
Lenço bagunçado.
Nada apresentável.
O cheiro de baunilha e cravo que dominava o quarto era confortável. Eu balanço a cadeira para frente e para trás, para frente e para trás.
Estou em um balanço, embaixo de mim existe um imenso oceano azul.
Para frente e para trás.
Pássaros cantam, o Sol queima minhas bochechas.
Para frente e para trás.
~
Abro meus olhos com um susto. Os raios de Sol que atingem meu rosto me cegam momentaneamente.
Era dia. Era dia.
Checo o relógio de cabeceira.
09h45 minutos.
Será que ele já havia chegado?
Meu reflexo no espelho é como um soco do esôfago.
Eu me aproximo e arrumo o meu lenço, ajeito minhas roupas amarrotadas.
Não, não, não, não!
Eu estava horrível, horrível, parecia um cadáver.
Ele não podia me ver daquele jeito.
Não, não, não.
Eu sento na cama, um pouco atordoada, e choro, porque eu me sinto horrível, porque eu não quero que Douglas Smith me veja e tenha pena de mim por eu parecer já estar morta.
Naquela confusão, eu esqueço o primeiro comprimido.
~
Minha mãe liga, e eu deixo minha voz o mais feliz possível.
Conto para ela minha viajem até ali, deixando de lado Fred Welsome, pois não quero que ela fique receada de algum outro pedófilo.
Conto que preciso me arrumar para ver Douglas Smith e que preciso desligar, e ela me deseja boa sorte.
~
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