Let the Snow

10 Chulé de Douglas


– Fred? Fred Welsome? — Bato na porta ao lado da minha, mas não tenho resposta.

– Sim? — A voz que já me era tão familiar diz por trás de mim.

Fred Welsome usa um roupão de algodão azul e segura uma xícara de café.

– Ele... Ele já está ai? — Pergunto, temerosa

– Não, não, aquela senhora, Julia, disse que ele chega apenas no almoço.

– Ah. — Engulo em seco, um pouco aliviada.

– O que aconteceu com você? — Ele se aproxima mais — Estava chorando?

– Eu não choro! — Berro.

– Vamos, vamos, o que aconteceu? Porque não vai se arrumar e ter aquelas mini crises de adolescente? — Ele pergunta, tomando um longo gole de seu café.

Meus olhos marejam.

– Ah... — Ele parece entender meu apelo silencioso — Eu... Entendi agora. — Ele entra em seu dormitório, que era praticamente igual ao meu, e pousa a xícara de café sob uma mesinha antes de puxar uma cadeira de um canto, posicionando-a no centro do quarto e dizer — Sente-se, bela donzela. Hoje eu serei seu servo estilista/maquiador/secador de lágrimas.

~

Fred Welsome toma a livre decisão de mexer e remexer em minha mala. Ele não me deixa ter outro foco de visão se não o reto, para a parede, enquanto ele passa tudo o que é tipo de maquiagem eu meu rosto juvenil.

Por alguns segundos tenho medo dele estar me transformando em um palhaço, porém ele murmura "Divino" com tanto esplendor que eu acabo acreditando que ele não está deixando meu rosto pior do que realmente estava.

Ele escolhe minhas roupas — Um vestido vermelho até os joelhos que supostamente minha mãe havia comprado, pois nunca o tinha visto antes, e um par de sapatilhas pretas — e sai do quarto, pedindo para eu me trocar. Não há espelho no quarto de Fred, então não há possibilidade de eu me ver.

Eu grito informando que já estava vestida, e ele entra novamente, pedindo para eu fechar meus olhos.

– Não. — respondo, birrenta.

– Vamos garota, estou te transformando em uma miss, deixe de ser teimosa.

Quando eu os fecho, sinto algo em minha cabeça.

É apertado e pinica um pouco, surge uma dúvida se é um lenço.

– Pronto. — Ele diz, com satisfação. — Não abra os olhos, apenas siga o doce som da minha voz.

– Está zoando com a minha cara?

– SIGA O DOCE SOM DA MINHA VOZ. — Ele diz, então eu o sigo.

Saímos do quarto, eu temerosa de cair devido a minha falta de visão, até que Fred diz:

– Isso. Parada bem ai. Abra os olhos.

E abro.

Dou alguns passos para trás, alarmada.

O reflexo no espelho me acompanha.

Aquela não sou eu. Não pode ser.

Ela é bonita demais, perfeita demais, assimétrica demais.

Seu rosto é pequeno e delicado, porém firme e maduro. O batom vermelho dá um destaque em sua pele branca.

Cachos loiros caem por seus ombros, o vestido vermelho parece feito para aquele corpo, preenchendo o de menos e escondendo o de mais.

Aquela ali sou eu.

– Fred... O que você fez? — Balbucio.

– O milagre da maquiagem, querida. — Ele diz, com visível orgulho de si.

– É... Inacreditável... — Digo, me movimentando para ver se o reflexo faria o mesmo, se era eu de verdade.

Agora eu sabia o porquê de pinicar. Era uma peruca. Uma peruca linda e elegante, com cachos perfeitos e loiros que caiam por minhas costas.

– Foi você? Você comprou ela? — Pergunto, ele entende o que quero dizer.

– Não. Estava dentro de sua mala quando eu a encontrei. Pensei que já soubesse. — Ele murmura.

Mamãe, penso. Mamãe.

Aposto que se eu andasse daquele jeito sempre, ninguém jamais me ofereceria cardápios infantis ou balões.

– Agora vamos logo. O motivo disso tudo já deve estar chegando.

~

Almoçamos — uma massa com cogumelos estranhamente saborosa — e depois sou liberada para conhecer a casa.

Eu sento no sofá. Eu abraço as almofadas. Sinto o cheiro de baunilha, cravo e canela.

Eu subo as escadas novamente, e vou abrindo porta por porta.

A primeira é um tipo de estúdio. Todos os instrumentos musicais que você pode imaginar existem naquele lugar, violão, piano, guitarra, bateria. No fundo do cômodo uma vitrola está desligada, discos de vinil empilhados em prateleiras aos montes.

Coloco o disco que estava parado para tocar, Bob Dylan doma o lugar.

Eu sabia que Doug amava Bob Dylan.

Ai, meu Deus.

Douglas tinha tocado ali, tinha estado ali, ai, meu, deus.

A ficha demorava para cair.

Imagina quando eu visse ele?

~

A terceira porta.

O quarto dele.

Eu me jogo na cama dele, o cheiro é diferente. É algo... Inexplicável.

Cheiro de Douglas.

Eu abro seu roupeiro, toco suas roupas.

Aqueles coturnos!

Eu já tinha visto ele em fotos com aqueles coturnos.

Será que ele tinha chulé?

Aproximo o coturno do meu rosto, na intenção de cheirar, quando algo de três metros de altura, magrelo de cabelo lambido tropeça para dentro do quarto, bufando.

– Ele chegou!