Let the Snow

31 Hipótese


Não precisei abrir os olhos para saber que havia algo de errado.

Sentando-me na, cama, respirei fundo, tentando me recuperar da sonolencia e certificar-me de que aquele não era um efeito do sono pesado.

Não era.

Desesperada, me estico até alcançar o botão de emergência, que acionaria um alarme na sala das enfermeiras. Eu aperto duas, quatro, seis vezes, mas está demorando demais, demais. Meu coração dói no peito, literalmente, apertado, começo a sentir falta de ar.

– FRED! — Grito, sem saber se ele ouviria. — FRED! FRED!

Em poucos minutos ele está ali, na porta do quarto, esbaforido e com o rosto retorcido em preocupação.

– O que aconteceu? Alexandra, o que houve?! — Ele diz, vindo em minha direção.

Eu não consigo responder, os soluços ficam presos em minha garganta e tudo o que eu consigo fazer é emitir gemidos de pavor.

– Alexandra, o que...? — Fred parece a ponto de ter um infarto.

– EU NÃO SINTO MINHAS PERNAS! — Berro, segundos antes de enfermeiras invadirem meu quarto, inclusive minha mãe.

~

– Ainda é um mistério para nós. — O médico admite — Estamos examinando os mínimos detalhes dos resultados da sua ressonância magnética, e já temos uma hipótese. Porém, essa hipótese seria ruim a ponto de... Nos deixar bastante preocupados. — O doutor baixa a cabeça, visivelmente cansado.

– Tudo bem, doutor, qual é a hipótese? — Minha mãe pergunta, passando a mão no rosto.

O médico me lança um olhar furtivo.

– Não, tudo bem, mais cedo ou mais tarde ela ficaria sabendo de nós. — Fred responde antes que eu pudesse dizer algo.

O médico parece buscar as palavras certas.

– A hipótese seria de que o câncer tenha se espalhado pelo seu sistema nervoso, atingindo primeiramente a parte dos movimentos em contato com sua medula espinhal, congelando suas pernas e consequentemente deixando Alexandra paraplégica.

– M-m-mas o porquê disso? Se ela estava se recuperando tão bem, como ela pode, de uma hora para a outra...? — Minha mãe parece renegar as informações do médico.

– Esse é o motivo pela nossa preocupação. Se isso realmente aconteceu, uma grande possibilidade pode vir acompanhada. É rara, cerca de apenas dois de vinte paciêntes com câncer podem adquirir isso. Pode ser que... — O médico pigarreia — O remédio tenha tido um efeito reverso, como uma grande montanha russa. Alexandra pode ter dado aparências de uma boa recuperação enquanto o tulmor diminuía significativamente, porém, o remédio não fazia efeito, pelo contrário, ele estava se alimentando desse remédio. Então... Isso significaria que o câncer diminuiu apenas para aumentar três vezes mais rapidamente e cinco vezes maior.

Não consigo demonstrar reação. Cada músculo do meu corpo parece ser feito de pedra, sinto um peso invisível em minhas costas prensar-me contra a cama que eu estava deitada. Fred olha para baixo, e eu não acredito; Ele está chorando. Lágrimas silênciosas rolam por seu rosto, a pessoa mais alegre que eu já tinha encontrado na vida, estava chorando.

Isso significaria que eu também deveria chorar, não é?

~

Antes de dormir, eu penso em quem eu sou.

Tendo como trilha sonora os roncos de Fred Welsome — que dormia no sofá ao lado da minha cama — eu encaro o teto de gesso acima de mim, e penso nos meus defeitos e em minhas qualidades.

Eu sempre fui uma garota muito teimosa. Um pouco egoísta, admito, possessiva e ter aquela mania de sempre achar que eu posso conseguir concertar tudo.
Minhas qualidades?
É estranho pensar nas qualidades que temos. Normalmente, conseguimos apontar mais facilmente nossos defeitos, até porque, citar nossas qualidades pode parecer arrogância.
Eu me considerava uma garota prestativa. Eu me virava do avesso para fazer algo que algum amigo meu me pedia. Confiável, minha boca para segredos era um túmulo.

Imagino minha vida perfeita.

Dougas e eu, uma casa em terreno rural. Duas crianças correndo descalças pela casa, uma pitangueira e um balanço de pneu.

Adormeço aconchegada com aquela lembrança, que nunca aconteceu.