Let the Snow
37 Epílogo: Partir
Lembro de pensar que jamais esqueceria.
Lembro de ouvir meu mundo desabar, em uma sinfonia baseada de gritos e aquele som agudo do monitor cardíaco ligado a Alexandra, informando-me do que eu não queria saber.
Lembro de ver seus olhos castanhos perderem a cor, e escutar seu último arfar de vida.
Morta.
Enquanto os médicos tapavam seus olhos e guardavam os aparelhos desfibriladores que foram a última esperança, eu sai do quarto. Eu vi Mariane, minha talvez sogra, ajoelhada no chão, enquanto Fred permanecia ao seu lado, como uma estátua de expressão em choque.
Eu corri pelos corredores daquele hospital, subindo escadas e dobrando direções, até encontrar a janela. Aquela janela.
A janela onde ela observou o mundo com tanto silêncio, porém, onde seus olhos conseguiam expressar o quanto ela queria estar em algum lugar lá fora.
Eu desabo ali. Sinto um vácuo aberto em meu peito, uma sensação semelhante a uma dor física. Eu chorei e gritei por seu nome, para que, onde quer que ela estivesse, ela ouvisse como eu estava sofrendo. Eu sinto ódio; Ódio do mundo, ódio da vida, do universo e qualquer um que estivesse em um lugar maior, me observando naquele momento.
~
Me pegara várias vezes pensando nela. Mais de uma vez, eu havia chamado seu nome despreocupadamente, como se ela estivesse escondida em algum lugar esperando que eu a encontrasse. E quando eu percebia, eu precisava me sentar, porque o vácuo em meu peito se expandia alguns centímetros. E aquele processo era muito doloroso. Muito.
Eu via coisas nas quais queria compartilhar. Queria contar para alguém, queria passar adiante. Porém, eu apenas me mantinha calado. Palavras não contam quando ninguém está ali para ouvi-las. Quando a pessoa para qual você quer contar não está ali para escutar.
~
O enterro fora em um cemitério da região.
Percebi como Alexandra era parecida com a mãe, tanto em questões físicas quanto psicológicas. Usando Fred como tradutor humano, eu me comprometi a pagar a reunião de enterro, porém, a negativa foi imediata. Depois de um bom tempo de discussão, eu fiquei com, talvez, a parte mais importante; As letras douradas que seriam gravadas na sepultura. Eu fiquei receoso pelo papel com que teria que ser responsável, porém, aceitei; Não conseguia mais olhar para o rosto de Mariane sem lembrar-me dela.
~
Fiquei dias pensando no que escolher.
Era muito pouco espaço para resumir Alexandra.
Concluí comigo mesmo que teria de ser algo original, algo que a diferenciasse Alexandra das outras pessoas. Algo pessoal, algo coerente, com significados ocultos.
Então eu encontrei.
~
Foram sete pessoas. Sete pessoas que perceberam que ela se foi.
Além de mim, Fred, Emily e Mariane, estava seu marido, seu meio-irmão menor e uma garota que dizia-se sua amiga. O caixão permaneceu aberto, e Alexandra estava simplesmente linda. Me perguntava como Fred tivera coragem para se voluntariar para prepará-la para aquele momento. Se ele havia chorado.
De preto, Alexandra parecia viva. A palidez de sua pele poderia ter sido causado apenas pelo contraste da cor escura com sua pele clara, e não necessariamente gerada pela morte. Achei desnecessário o batom vermelho, ou melhor, eu gostaria que ela não tivesse usado; A lembrança da primeira vez que nos vimos, de seus cachos loiros e seu batom vermelho vibrante acompanhando seus lábios a medida de suas falas, ainda era muito viva dentro de minha mente.
Ninguém diz nada. Não existem discursos, e fico internamente feliz por isso; Eu sabia que Alexandra odiaria. E também, que ela queria que nossa história permanecesse apenas entre nós dois, que nossa história de amor morresse conosco. Que os conceitos que eu tinha sobre ela permanecessem comigo.
As palavras em dourado são escritas na língua norte americana. Fred havia me recomendado escrever em português brasileiro, porém, eu neguei, de fato. Queria poder entender, queria poder sentir as palavras quando as lesse.
Era uma frase incompleta, semelhante a sua vida. Ou seja, perfeita; Uma vida interrompida; Uma frase vaga, porém, cheia de significado.
Escrito a letras douradas, estava a frase "Let the Snow".
Deixe a neve.
Deixe a neve o quê?
Deixe a neve ir. Deixe a neve sentir. Deixe a neve sonhar, deixe a neve partir.
Deixe a Neves se libertar.
~
Me lembro de me agarrar a uma falsa verdade. De tentar amenizar a dor com uma outra.
De imaginar que ela não havia deixado de existir; Que ela estava em algum lugar no mundo, com outra pessoa, porém, talvez, feliz. A dor de um coração partido era mínima comparada a dor de um coração interrompido. Quase que indolor.
Ou talvez de que ela na verdade estaria viva. Que ela apenas estaria em uma hibernação. Que ela poderia acordar a qualquer momento.
Mais de uma vez acordei na esperança de que ela tivesse acordado. De que ela estaria ao meu lado, me abraçando e com o cenho franzido, como ela sempre fazia ao acordar.
Quando acordava.
~
Ela poderia ter sido uma bailarina. Não era por seus talentos de dança ou de coordenação motora, de fato; O convívio com ela me deu noção de que a garota era mais atrapalhada do que qualquer coisa no mundo. Porém... Ela possuía um talento, que mesmo não sabendo, compartilhava.
Ela dançava para conseguir as coisas. Com um andar ritmado e expressão confiante, ela conseguia contornar os pares pés que lhes eram dispostos a derrubar, com uma graciosidade e inteligência que poucos tinham.
Até ela não enxergar o próximo par que a aguardava com intenções literalmente mortais.
~
Eu ia embora. Não havia mais nada que me desse motivos para permanecer onde eu estava.
Pagando a última diária do hotel, encontraria Fred Welsome na sala de recepção, e ambos iríamos ao aeroporto, onde partiríamos no mesmo avião, porém, para rumos completamente diferentes.
E de fato, ele estava ali, parecendo mais cansado do que eu jamais pensei que o veria. Ele não sorri, apenas me dá um abraço breve e apertado, e eu entendo o que ele quer dizer; Que também sofre tanto quanto eu.
Porém, no táxi, ele recebe uma ligação.
Sua voz parece urgente, mas eu não entendo o que ele diz; Sua expressão é tensa, mas eu não sei o que ele sente. Quando desliga o telefone, sua voz falha ao pronunciar as palavras.
– Era Mariane. Ela encontrou algo. Algo que é seu, Douglas.
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