Let the Snow
35 Corpo frio
Notas iniciais
2 dias
...
Eu não estava com fome. Não queria comer. Não queria nada do que me ofereciam.
Eu queria apenas voltar para a janela. Queria poder observar a vida em seu estado mais agitado, de cima, daquela janela do oitavo andar.
Queria Doug no meu lado, beijando meu rosto e dizendo que me amava. Era aquilo que eu queria.
A comida tinha um gosto amargo em minha boca, eu cuspia. Seria mais fácil avisar a Fred que eu não queria comer, seria mais fácil não ter minha mente vazia. Eu queria sair daquela posição, queria parar de encarar o nada, mas eu não conseguia; Era como se eu estivesse em modo offline em meu próprio corpo.
Só conseguia ver Douglas quando ele entrava em meu foco de visão. Não conseguia encontrar a opção de "mover" dentro do meu cérebro, eu estava congelada no tempo. Eu só queria que ele estivesse ali na minha frente, para eu poder observar aqueles olhos azuis e me acalmar. Para eu afundar em suas feições familiares e dormir.
Era aquilo que eu queria.
~
Emily me contava o que estava acontecendo na escola. Sobre como aquele garoto novo, Felipe, tinha-se revelado um tremendo idiota, e como as matérias estavam terríveis. Ela disse que eu tinha sorte por não precisar estudar, mas logo depois se calou, e, percebendo o que disse, começou a chorar e me pedir desculpas.
Porém, eu continuei em silêncio.
~
Douglas estava em meu foco de visão.
Seu rosto era tão sereno, tão angelical. Eu queria me aproximar e tocá-lo, porém, minha mente permanecia vazia. Seus cabelos balançavam quase que nada com a brisa morna que entrava pela janela. Ele acariciava meu rosto. Aquilo era tão bom. Me fazia querer sorrir, porém, eu não conseguia sentir se eu de fato estava fazendo-o. Não trocávamos palavras, apenas olhares; Eu me esforçava para que as palavras que eu não dizia fossem ditas por meus olhos.
~
Mamãe estava cansada. Pior; Estava esgotada.
Seus cabelos estavam espigados para todas as direções, seus olhos verdes com pesadas bolsas roxas penduradas, e seus ombros curvados.
As pessoas costumavam dizer que éramos parecidas, e de fato, éramos. Idênticas, na verdade, porém, eu não possuia seus olhos verdes que eu tanto gostava. Ela me encarava com uma seriedade tensa, porém, logo desaba; Ajoelhando-se ao meu lado na cama, ela chora e agarra minha mão fria. O calor de seu corpo trás uma corrente elétrica para minhas veias, eu solto um suspiro de satisfação. Eu entendi o que ela quis dizer. Compreendi, senti sua dor e o seu amor por mim. Aquele gesto foi o suficiente.
~
Ah, Fred. Doce Fred.
O que teriam sido os últimos dias da minha vida sem aquela pessoa? O quão perdida eu estaria? O quão abandonada me sentiria?
Fred, que transpassou seu carisma desde a primeira troca de olhares. A pessoa que me levantou quando eu tropecei, que jamais me deixou cair no poço, pelo menos não sem lutar. Meu guia, meu enfermeiro, meu estilista, meu maquiador, meu secador de lágrimas. Eu o amava de uma maneira que nem sabia que era possível; Sem romance e sem parentesco. Meu amor por ele era o mais puro imaginável.
Como um amor de pai e filha.
~
Com os olhos vidrados no teto branco, eu desconfio do meu dia. Poder observar cada pessoa que eu amava com exclusividade, ter tempo para pensar nas relações que estabelecemos. Poder ter o foco de seus rostos. O rosto de pele morena e lisa de Emily; Os olhos claros de mamãe e Doug; A expressão preocupada de Fred. Todos eles me aconchegando às suas maneiras; Com olhares, toques e palavras, enviando uma sensação quente por meu corpo frio e me tranquilizando de que estava tudo bem.
Quase que como uma despedida.
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