Let the Snow
36 Astro ardente
1 dia
– UM MÉDICO! POR FAVOR, ALGUÉM CHAME UM MÉDICO, AGORA! ELA NÃO ESTÁ RESPIRANDO! — A voz de Douglas é estridente.
E de fato, eu não respirava.
Ouvia os soluços de Fred, ouvi a porta se bater com um estrondo quando ele correu para chamar algum médico, enfermeiro, enfim, alguém que pudesse fazer alguma coisa.
Douglas tremia. Segurando minha mão com uma força surpreendente, como se quisesse me passar suas energias, ele soluçava e implorava, implorava para eu ficar.
"Está tudo bem, Doug", eu pensava. Afinal, eu não sentia mais dor, e minha mente estava mais lúcida do que nunca. Eu conseguia enxergar tudo, os mínimos detalhes daquela beleza escondida, aquela beleza que ninguém tinha tempo para sequer captar.
O quarto não era tão triste. Era pequeno, porém, aconchegante. Um bom lugar para descançar. Os flocos minúsculos de pó dançando no ar.
O pôr do Sol.
Ele entra pela janela com um brilho avassalador. Seus raios iluminam o quarto, e deixam dourados os cachos de Douglas. Ele parecia tão quente, tão aconchegante. Por que eu não sentia calor nenhum? Como era possível um astro tão ardente não ser suficiente para deixar meu corpo um pouco menos gélido?
Minha mãe. Ela estava ali, eu reconheceria aquele grito em qualquer lugar. O clamar desesperado por meu nome, o mesmo que ouvi no dia em que escalei uma goiabeira na praça em que costumava brincar, e depois não conseguia descer, ficando pendurada por apenas uma mão de uma altura questionável. O grito que até pouco atrás me era tão desagradável, agora era bom. Ela estava ali comigo, isso que importava.
Sinto uma onda de eletricidade atravessar meu corpo, de repente eu já não sentia mais tanto sono. Outra. E outra. Cada vez mais urgentes, cada vez mais duradouras, eu sentia as pontas dos meus dedos pinicarem.
Talvez não fosse. Talvez não fosse minha hora. Não poderia ser.
Eu ainda tinha tanto para fazer, tanta coisa para realizar. Palavras a serem ditas, decisões a serem tomadas. Muita coisa ainda me esperava. Não poderia ter chegado ao fim; As parcas deveriam ter cortado o fio errado.
Douglas estava do meu lado, me observando em choque. Seu rosto tão perto do meu, seus olhos azuis me envolvendo em uma onda de falso calor, um calor psicológico.
Minha promessa. Eu havia prometido, eu havia feito um juramento.
Eu não poderia ir. Ainda não. Aquela promessa me mantinha ligada a vida, e até que eu fosse liberada de tal tarefa, jamais conseguiria descansar. Eu junto as forças que me restam e tento sentir, tento sair debaixo d'água, submergir daquele pesadelo.
Talvez se eu me concentrasse bem e pensasse nos momentos bons que a vida me concedeu, eu poderia voltar. Talvez, Deus ou qualquer divindade responsável por nós, percebesse que estava comentendo um erro. Talvez ele pudesse me fazer um milagre. Era tudo o que eu precisava, de um milagre, ou por favor, apenas mais um pouco de tempo. Tempo para amar, tempo para sorrir, tempo para
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