Let the Snow
12 Boa Noite
Naquele mesmo dia, Douglas e eu nos sentamos no sofá.
A lareira crepitava ao som das nossas palavras.
Douglas quis que eu contasse tudo. Desde o dia do meu aniversário até como eu o conheci.
Felizmente ele não perguntou sobre minha família ou nada do tipo. Talvez soubesse que seria deveras invasivo.
Aquilo era demais. Demais para a minha cabeça.
Estávamos eu e ele, sentados no sofá, sozinhos.
Apenas alguns centímetros e camadas de roupas nos separando.
Douglas não perguntou sobre minha família, mas perguntou sobre minha vida.
Se eu trabalhava, onde eu estudava, qual carreira eu gostaria de seguir. Como eu sabia inglês tão fluentemente, há quanto tempo eu era amiga de Emily.
E eu respondia com empolgação, mais feliz do que eu jamais fiquem em toda a minha vida.
Até que...
Douglas estava praticamente deitado no sofá.
Eu estava no extremo direito do móvel, sentada ereta, quase sem respirar. Já ele estava bem a vontade, estirado pelos outros dois lugares. Era praticamente um convite para eu deitar em seu peito.
Mas é claro que eu não fiz aquilo.
– E... O que você viu em mim? — Ele pergunta, de repente interessado em seus próprios dedos.
– O-o que? Como a-assim? — Pergunto, nervosa.
– Sei lá, você provavelmente viu... Alguma coisa em mim, para ser gostar tanto assim de mim. Só não entendo o quê.
Aquilo que eu estava ouvindo era... Insegurança? Douglas Smith, o MEU Douglas Smith, inseguro de si mesmo?
– Não sou só eu que sou sua fã. — Digo, mesmo contra a minha vontade — Afinal, existem muitas outras fãs suas espalhadas pelo mundo. Fã clubes, sites e...
– Eu sei mas... Por exemplo, quando eu vou para a rua, poucas pessoas notam quem eu sou. E as que notam tiram uma foto e colocam na internet e era isso. Eu nunca imaginei que alguém pudesse fazer o que... Você fez ao me ver, sabe? É um pouco desesperador, sabe? Mas também é bom. — Ele me lança um meio sorriso — Faz você se sentir amado.
Sinto minhas bases derreterem.
~
Estávamos tomando café. O relógio na parede marcava 14h00min.
Eu sabia que Douglas Smith era viciado em café. Havia lido isso em algum lugar.
Eu queria conversar com ele, porém, não sabia se ele queria conversar, então apenas o observo.
O cheiro de café.
Seus olhos azuis me encarando.
– Você é linda, sabia? — Ele fala, e logo depois vejo seu rosto ficar vermelho.
– Eu sou o quê? — A xícara em minha mão treme, e sinto que aquilo não foi um movimento involuntário.
Café escaldante cai em meu vestido e minhas pernas, me queimando. Eu mordo os lábios para não gritar.
– Ai, meu Deus! — Douglas exclama, e se vira para procurar algo.
Já era impossível aguentar a sensação de ser queimada viva, então eu grito.
Douglas surge com um pano molhado, e se ajoelha a minha frente, começando a passar o pano em minhas pernas.
Eu congelo.
Eu ruborizo.
Eu tenho vontade de me jogar de um precipício de tanta vergonha.
Fred aparece junto com Julia nas portas duplas da cozinha.
– O que está acontec... — Ele nos encara.
Fred e Julia começam a dar as costas silenciosamente.
Tapo meu rosto com as mãos.
Douglas parece não notar.
~
– Vem. — Douglas diz.
Eu havia parado no corredor para me olhar no espelho e conferir se estava tudo bem. Cabelos, ok. Maquiagem? Um pouco borrada pelas lágrimas, mas aceitável.
Eu o sigo quando ele me chama. Entramos no quarto onde estavam os instrumentos musicais.
Douglas segura o violão, com um sorriso dengoso que quase me faz desmaiar.
– Algum pedido especial, senhorita? — Ele pergunta, se preparando para tocar.
Uma luz se acende em minha cabeça.
Ele ia cantar para mim.
Então ele deveria cantar a minha música favorita.
– Fire Escape. — Eu falo, decidida.
Douglas vacila.
– Q-que música é essa? — Ele pergunta, um pouco incerto.
– Ué, da sua banda, daquela apresentação. His Orchestra.
Douglas me encara com o rosto surpreso.
– V-você conhece?
Permito-me revirar os olhos.
– Claro que eu conheço.
~
Eu estava observando o teclado. Ele ficava logo ao lado do piano. Me perguntei se, já que o teclado poderia fazer o mesmo som que o piano, Douglas não teria gastado dinheiro em vão por aquele lindo piado de calda negro.
– Você sabe tocar algo? — Douglas me pergunta, me observando observar os dois instrumentos.
– Só caixa de fósforos. — Brinco.
Douglas ri. Eu fiz Douglas Smith rir.
– Vamos, venha cá. Conhece a Attached? — Ele pergunta, esperançoso.
– Conheço! — Digo.
– Sabe o início? As notas no teclado?
– Sei sim. O que tem?
– É muito simples. São só duas notas, venha cá.
Douglas se posiciona atrás de mim, e pousa sua mão sobre a minha. Sinceramente, não sei como eu não havia tido um AVC.
Ele começa a manipular meus dedos, de forma que o som resultante é o início daquela música que eu já havia ouvido tantas vezes.
Acabou.
Nós rimos e saímos do quarto.
O resto da tarde é tranquila.
Nós jogamos jogos de tabuleiro, Douglas tenta me ensinar a jogar xadrez.
Vemos alguns programas de televisão.
Como bons amigos.
Como conhecidos há anos.
~
Douglas tinha ido para o banho.
Entro no quarto e me jogo na cama, rindo, pulando.
– E AI GAROTA? — Fred surge do nada, me assustando.
– Está querendo me matar? — Berro, minhas mãos voam para o pescoço.
– Não, ainda não. Anda, me diz, eu passei praticamente o dia inteiro fora, quero detalhes, detalhes!
Eu lhe conto algumas coisas, como o café, o teclado e as nossas brincadeiras.
– Julia disse que vai fazer um jantar especial. Douglas está no banho agora. Quando eu revirei sua mala, não achei pijamas. Pijamas! Qual é a pessoa que trás uma peruca na mala, mas não trás pijamas?!
– Eu costumo dormir com roupas velhas. Moletons, calças...
– Ridícula. Pijama é pijama. Vamos, eu trouxe isso para você. — Fred enfia uma sacola em minha cara.
Eu a abro, e de lá tiro um conjunto de pijamas. São de manga curta e calça comprida, bom tanto para o frio quanto para o calor. São de um tom degradê, que desse do rosa para o roxo em milhares de cores diferentes.
– Nossa, Fred... É lindo, obrigada. — Falo, sincera.
– Eu sei disso garota. — Fred faz pouco caso — Anda, tome um banho e se vista.
– Fred, eu queria te dizer... Depois você pode fazer aquilo comigo de novo? A maquiagem e...
– Alexandra... Você não acha que...
– Por favor, não diga que eu "Sou bonita como sou" ou algo parecido. Você pode fazer ou não?
Fred suspira.
– Posso, Alexandra. Tudo por seu bem estar. — Ele murmura, revirando os olhos.
~
Eu me senti completamente envergonhada e ansiosa enquanto tomava banho.
Douglas Smith ia me ver de pijama. Eu ia ver Douglas Smith de pijamas.
Muito íntimo, íntimo demais!
Aquilo era tão bom!
Fred passa mais um batalhão de coisas na minha cara, dizendo que "Agora vou passar só mais um pouco disso", "Tenho que realçar mais isso", "Tirar um pouco daquilo".
Me olho no espelho.
Eu pareço uma garota sem maquiagem.
Uma linda garota apenas de gloss labial.
A maquiagem está tão natural que até me assusto.
Olho para Fred, impressionada. Ele dá de ombros.
– Eu fiz umas aulas.
~
Douglas usa pijamas.
Calças moletom e uma camiseta velha.
Lanço um olhar sanguinário para Fred. Ele dá de ombros.
Entro na cozinha, um pouco tensa demais, remexendo em meus cachos falsos. Douglas sorri em minha direção e rapidamente se levanta de onde estava, puxando a cadeira para eu me sentar.
– E o que temos hoje para o jantar? — Pergunto, tentando abafar a tensão.
– Uma incrível e indescritível macarronada! — Douglas diz, com exagerada alegria.
Quando dou por mim o prato está sendo servido por ele em minha frente. Olho-o, ruborizando. Ele me lança uma piscadela.
O cheiro maravilhoso doma todo o meu ser, me seguro para não avançar no prato de comida antes de Douglas sequer se sentar a mesa.
Ele me encara.
Eu encaro ele.
Comemos em silêncio, de vez em quando nos olhando. Se bem que eu não conseguia ficar mais de trinta segundos sem olhar para o seu rosto perfeito.
Em algum momento em que o olho, sua boca está suja.
Toda suja de molho de macarronada.
Eu rio, tossindo um pouco ao me engasgar com a comida.
– Alexandra? Está tudo bem? — Ele pula do banco até mim, se ajoelhando para podermos ficarmos cara a cara — Está respirando?
Reviro os olhos.
Pego o guardanapo de pano que está posicionado ao lado do meu prato e devagar, com cautela, começo a limpar o rosto de Douglas Alexander Smith.
Sinto-o petrificar, mas não cedo a vergonha alheia; Continuo a fazer o que comecei.
– Você estava sujo. — Digo, logo após terminar o trabalho.
Douglas sorri de canto.
– Eu sei.
~
Douglas insistiu em levar-me até a porta do meu dormitório, que ficava apenas à algumas portas da do próprio.
Nos encaramos, apenas a luz da lua iluminando o corredor escuro em que estávamos.
– Esse é o melhor dia da minha vida. — Admito.
– Não. Esse não foi nada comparado ao de amanhã. — Ele diz, colocando um dos meus cachos falsos para trás de minha orelha.
Meu coração vacila. Tum dum.
– O que vai acontecer amanhã? — Pergunto, nervosa.
– Apenas... Me espere. — Ele diz, antes de sorrir em minha direção, seus olhos azuis faiscando para mim — Boa noite.
O garoto me dá as costas, e me lança uma última olhadela antes de entrar em seu próprio dormitório.
Fico ali por alguns instantes, tentando me recompor.
– Boa... Noite.
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