Let Me Be With You
1 Capítulo 1
Ruki\'s POV
Olhei para os lados. Tudo era impecavelmente branco. Tão branco que chegava a arder os olhos. Céus, eu precisava sair de lá. Nem me lembro mais quando foi a última vez que olhei para o céu, que senti a brisa fresca bater em meu rosto. Sentia falta do canto dos pássaros, das flores que nasciam nos cantos mais escondidos das ruas.
Afinal, quanto tempo fazia que eu estava preso naquele quarto?
Batidas na porta chamaram a minha atenção, e logo uma mulher entrou, com uma bandeja prateada nas mãos, trazendo um copo cheio d\'água e um comprimido.
- Matsumoto-san, está na hora de tomar o seu remédio.
Me limitei a assentir, não tendo mais forças para recusar. Peguei o comprimido que me foi dado e o copo, levando-os para a boca, sorvendo todo o líquido.
- Muito bem. Agora descanse, hun?
Exibiu um sorriso gentil, retirando-se do quarto. Me vi novamente só, imerso em meus próprios pensamentos. Vaguei os olhos pela janela. O tempo estava nublado, com o céu acinzentado, dando uma sensação de solidão, bem como eu me sentia naquele momento.
Cerrei os olhos, não contendo a lágrima solitária que escorreu por meu rosto até alcançar meu queixo. A dor e a tristeza que assolavam meu ser estava se tornando cada vez mais insuportável.
Entrelacei meus dedos, apertando-os suavemente, como se isso fosse reprimir um pouco a dor.
Fazia tanto tempo que eu estava lá. No começo, alguns amigos vinham me visitar, contar o que acontecia no mundo afora. E isso me animava um pouco, apesar da minha condição instável. Mas, então, as crises de tosse começaram a se tornar cada vez mais freqüentes, e isso os assustou um pouco.
Os amigos, que antes vinham todos os dias, passaram a vir somente uma vez por semana. Depois, uma vez por mês. E agora, ninguém mais se atreve a se aproximar de mim, com medo de se contagiar com a doença. Mas, eu posso entendê-los. Talvez, eu agisse da mesma forma.
Pais? É, eu tinha. Mas, eles nem se importava comigo, na verdade. Então, era melhor que eu continuasse preso nessa cama de hospital do que ficar dando-lhes problemas diários. Ainda mais depois que descobriram que eu era homossexual, ao me pegarem aos beijos com um garoto do prédio em que morávamos.
Meu pai, que prezava pela imagem da família, me surrou até não poder mais. Fui deserdado, meu namorado me abandonou, pelo fato de \'não conseguir suportar tanta pressão\', e agora pagam para me manter aqui. E a doença que tive só os ajudou em seus planos de me afastar da família.
Não que eu ligasse muito para isso. Afinal, nunca tive tanta intimidade com meus primos e tios. Mas, doía. Doía saber que eu estava completamente sozinho no mundo, sem ninguém para me socorrer, sem ninguém para ao menos sorrir verdadeiramente.
Um suspiro exasperado abandonou meus lábios. Sei que não tinha muito tempo de vida. E eu realmente precisava fazer alguma coisa. Precisava ao menos ver o céu azul novamente, ver as crianças brincarem no parque, aos gritos.
Precisava voltar a viver, ao menos um dia.
E, com esse pensamento em mente, adormeci, por causa do efeito do remédio.
×××××
Vesti as roupas às pressas, enquanto o tempo corria. Abri a porta do quarto, olhando para os lados, buscando algum médico ou enfermeira que pudesse me reconhecer. E um pequeno sorriso tomou conta dos meus lábios ao ver que a sorte estava ao meu lado.
Sai, fechando a porta calmamente e comecei a caminhar em direção à saída do hospital, com a cabeça abaixada, rezando para não encontrar nenhuma pessoa \'conhecida\'. Mas, assim que meus olhos avistaram a saída, não contive o impulso de sair correndo.
Sei que devo ter deixado muitos confusos ou que talvez os recepcionistas devem ter percebido que eu estava fugindo, mas não importa. Continuei a correr, por qualquer direção, entrando em ruas desconhecidas.
Parei em um parque, cheio de crianças brincando e correndo, as mães sentadas nos bancos e conversando. Sorri abertamente com aquela visão, a alegria de poder estar livre se fazendo presente por todo meu corpo até que... Novamente a crise de tosses.
Minha visão escureceu, levei as mãos à barriga, os dedos agarrando o tecido fino da blusa com força. Me permiti cair de joelhos no chão, a tosse cada vez mais forte. E parecia que não iria mais parar. Os olhares se voltaram para mim, curiosos e temerosos, ninguém ousando se aproximar de mim.
Após alguns minutos de tosse, o ar se fazia escasso em meus pulmões. Permaneci imóvel, tentando acalmar meu coração, que estava disparado. Meus ombros tremiam, uma onda de choro fazendo soluços estrangulados arranharem a garganta.
Então, para minha surpresa, uma mão quente pousou em meu ombro. Levantei o rosto, em busca de seu dono.
- Hey, você está bem?
Praticamente me joguei em seus braços, afundando o rosto em seu peito acolhedor, molhando sua roupa com as minhas lágrimas. Meus braços envolveram sua cintura com força, em total desespero. E, as mãos que acariciaram minhas costas e meu cabelo foram o suficiente para me acalmar.
- Acalme-se, hun? Não chore...
Sua grave voz penetrou meus sentidos, tão gentil que parecia ser irreal. Mesmo que o homem a quem eu estava firmemente abraçado fosse um desconhecido, eu me sentia protegido, pela primeira vez.
Alguns minutos depois, estávamos sentados no banco do parque. Seu braço circulava meu ombro, a mão pousada em meu cabelo, os dedos entrelaçados aos fios, enquanto minha cabeça estava em seu peito, minhas mãos agarrando a barra da sua blusa. E era surreal em como eu podia me sentir tão à vontade, mesmo que o silêncio se fizesse presente.
Vi seus lábios se partirem em um breve suspiro, e logo pude ouvir sua voz novamente.
- Está mais calmo agora?
- S-Sim...
Então, tão gentil como fora até agora, sua mão ergueu meu rosto, os olhos buscando os meus. E senti minhas bochechas queimarem quando nossos olhares se encontraram. Um leve sorriso adornou seus lábios.
- Está tudo bem com você, chibi?
Quis brigar pelo apelido, mas pareceu ser tão carinhoso, que me senti derreter. E, céus, eu nem o conhecia!
- Sim...
- Então, qual o seu nome?
- Ruki...
- Prazer, me chamo Reita.
Estendeu a mão para mim, exibindo um sorriso mais largo. Trêmulo, aceitei o cumprimento, segurando sua mão. Eu precisava parar de agir daquela forma, como se estivesse com medo dele. Não quero que ele pense que causa algum tipo de sentimento negativo em mim e... Mas, por que eu tenho que me importar tanto?
- Então... Está perdido, chibi?
Apenas assenti, vendo sua expressão se transformar em preocupada.
- E onde estão seus pais?
- Eu... Não tenho pais.
Reita arregalou os olhos, enquanto os dentes mordiam o lábio inferior. E, foi tão adorável o modo como ele pareceu estar perdido, que não contive a vontade de sorrir abertamente, pela primeira vez em anos.
- Eu fugi do hospital.
- O que?...
Ele piscou os olhos várias vezes, a mente processando a informação que havia abandonado meus lábios. De repente, suas mãos seguraram-me pelo ombro, os olhos fixos nos meus.
- Você tem que voltar, Ruki!
- Não, por favor não... Não faça isso...
Senti meus olhos encherem-se de lágrimas, abaixando o rosto, não tendo forças para manter o contato visual. Encolhi o ombro sob seu toque, e logo o aperto diminuiu. O longo suspiro que deixou escapar chamou a minha atenção, mas não me atrevi a levantar o rosto.
O medo de voltar para aquele lugar se fazendo presente na minha mente, assim como a frustração. E eu soube que não deveria confiar em pessoas tão rápido assim. Mas, eu não poderia condená-lo. Eu sei que faria a mesma coisa se encontrasse um fugitivo do hospital.
Não gostaria de me arriscar por alguém que nunca vi antes.
- Por que tem tanto medo, pequeno?
Novamente senti o afago que havia me acalmado minutos antes, e isso me surpreendeu. As lágrimas escorreram livremente pelo meu rosto, enquanto meus lábios se moviam, contando toda a história, desde o momento que fui pego no flagra até a minha fuga do hospital. Seus olhos mantinham-se atentos, às vezes me fitando, às vezes fixos no chão, como se estivesse absorvendo cada palavra, cada sentimento, cada sofrimento... Mas, em nenhum momento seu olhar deixou de ser carinhoso, o que me encorajou a continuar falando.
Algumas vezes, senti sua mão se fechar em meu cabelo, mas sei que ele tomou cuidado para não puxar os fios. Outras vezes, seus lábios depositavam um beijo na minha testa. E mesmo que eu me sentisse uma criança ao seu lado, nada poderia ser melhor do que aquela sensação de segurança.
Finalizei a história com um suspiro dolorido, o silêncio voltando a pairar sobre nós. Os olhares perdidos, cada um imerso em seu próprio pensamento.
- Para onde pretende ir agora?
- Eu... não sei. Queria apenas ver o céu de novo, sabe? As crianças brincando, as flores, os pássaros... Agora não importa mais nada. Sei que não tenho muito tempo de vida...
Reita levantou-se do banco, me assustando. E o seu gesto me deixou sem reação, não sabendo se deveria aceitar ou não o convite que me era oferecido, tão gentilmente. A mão estendida na minha direção, o sorriso estampado no rosto. Não era possível que existisse alguém como ele, com um coração tão... bom.
Timidamente me levantei também, pousando a mão sobre a sua. Pelo minutos seguintes, permiti que ele me guiasse até sua casa. Conversávamos sobre coisas aleatórias, banais, mas que me deixaram mais animado. Realmente, fazia tanto tempo que eu nem lembrava mais como era rir por qualquer coisa sem motivo aparente.
Achei graça em como ele conseguiu despertar o sentimento de continuar querendo viver em mim. E agradeci mentalmente por tê-lo encontrado.
Um anjo na minha vida.
Sempre precisei de um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto
[...]
Quando me vi tendo de viver
Comigo apenas e com o mundo
Você me veio como um sonho bom
E me assustei... Não sou perfeito
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