Let Her Go, a Swan Queen fanfic
16 Life
Notas iniciais
'Cause all of me
Loves all of you
Love your curves and all your edges
All your perfect imperfections
Give your all to me
I'll give my all to you
You're my end and my beginning
Even when I lose I'm winning
'Cause I give you all of me
And you give me all of you oh
Emma apoiou-se no vidro da cabine hospitalar, tentando vislumbrar o rosto de Regina através de suas lágrimas. Ela estava lá, deitada na cama, cercada pelo Dr. Whale e outros dois médicos, que distribuíam uma infinidade de fios por seu corpo.
Diante das súplicas desesperadas de Emma, o médico chamara uma ambulância para levar Regina ao hospital e ver se algo ainda podia ser feito para salvá-la — mesmo que a resposta fosse dolorosamente óbvia. Emma foi junto, deixando Henry com os avós e ignorando seus pedidos insistentes para acompanhá-la — não queria que o garoto continuasse vendo a mãe... morta. A palavra doía como uma queimadura em sua pele, e mais lágrimas escorreram por seus olhos.
O pior de tudo não era a dor que a afligia — o pior era não ter a presença de Regina para consolá-la. Ela sabia que precisava ser forte por Henry — e para honrar Regina — mas a força parecia um tesouro inalcançável naquele momento. Sem Regina, ela nunca mais se sentiria como se pudesse ser uma heroína ou uma salvadora novamente. Mesmo ciente de que logo ela teria que sair de sua redoma fechada de sofrimento para encarar a dor nos olhos de Henry.
Emma enxugou suas lágrimas e continuou olhando pelo vidro, levemente ciente de seu reflexo na superfície, de olhos inchados e semblante arrasado. Continuou encarando sua amada. Mesmo que sua esperança já tivesse morrido.
E então ela abriu os olhos.
O choque foi tão grande que Emma caiu no chão, de joelhos, e a angústia perdurou por um momento antes de dar lugar à felicidade.
– Oh, meu Deus.
Emma levantou-se, abriu a cabine e entrou correndo, perguntando-se se aquilo seria um sonho ou uma alucinação. Os médicos comemoravam com vivas, e a máquina ao lado voltava a emitir pequenos bipes irregulares.
– Ela... Oh, céus — gaguejou Emma, em choque.
Regina abria a boca e tentava balbuciar palavras.
– V- você está chorando, o que aconteceu? — questionou ela, visivelmente preocupada.
Emma encarou-a, sentindo que o mundo fazia sentido novamente, e jogou-se contra Regina, que sorriu, passando os braços com força ao seu redor. Fechou os olhos enquanto sentia as costelas dela se movimentando conforme respirava, seu coração se regozijando de alegria.
– Você está viva! — exclamou, chorando incessantemente.
– Parece que sim... — sussurrou Regina, surpresa.
– Eu te amo tanto... Não acredito que você voltou...
– Eu também te amo. — respondeu Regina, também chorando. — Eu também te amo.
– Nunca mais faça isso comigo, ok? Nunca mais – suplicou Emma, pensando seriamente em nunca soltá-la para deixar que se arriscasse novamente.
Não parou para se questionar como aquilo era possível, como eles tinham trazido-a de volta. Tudo o que importava era que os braços de Regina estavam ao seu redor e sua respiração quente soprava em seus ombros. Todo o resto podia esperar.
Ela afastou-se de Regina e encarou-a por um momento. Em seguida, beijou-a, sentindo o sabor daqueles lábios que, durante os piores minutos de sua vida, pensara que nunca mais iria sentir. Os médicos ainda estavam ali, mas não as interromperam com explicações.
Separando-se dos lábios de Regina e olhando para o lado, Emma viu uma figura adiante que andava em passos rápidos até elas. Henry adentrou a cabine e encarou Regina, estupefato.
– Mãe?
– Henry!
O garoto envolveu os braços ao redor da mãe, que mostrou um largo sorriso ao abraçá-lo. Aproximando-se, Emma abraçou os dois, apertando as duas coisas mais valiosas do mundo. Ela não sabia se existia alguma divindade que interferia em suas vidas ou algo do tipo, mas se existisse, ela definitivamente tinha algo pelo qual agradecer.
– Okay, vocês vão quebrar minhas costelas — disse Regina, e os dois se afastaram, sorrindo.
– Não acredito que você está realmente viva — falou Henry, com os olhos marejando. — Temos tanta sorte! Como isso é possível?
– Por causa da magia nas veias dela — interveio Whale, com um sorriso de satisfação estampado no rosto. — Quando o raio atingiu Regina, ele fez com que ela estivesse "morta" por alguns minutos, mas também depositou poderosos resquícios de magia no corpo dela, que se espalharam por suas veias — isso acontece muitas vezes quando alguém é morto diretamente por magia. Com um pouco de esforço, só tivemos que bombear essa magia até o coração de Regina.
Emma ouvia com atenção, sentindo-se mais sortuda a cada segundo.
– Por ser algo muito sutil e delicado – continuou Whale -, se houvéssemos trazido-a um minuto depois, talvez fosse tarde demais. A magia ficaria no corpo dela por pouco tempo. Desapareceria em, no máximo, cinco minutos. Temos sorte de você ser insistente, Emma.
Emma sorriu, e Regina também.
– Ela é mesmo uma cabeça-dura, não é? – disse Regina, olhando-a com afeto. – Mas... Então quer dizer que o raio criado para me matar fez com que eu fosse capaz de voltar à vida? Obviamente, não estou reclamando, mas isto é meio confuso...
– Bem, o raio arrancou a essência da sua vida, mas também depositou em você um pouco de magia que, se usada rapidamente, poderia trazê-la de volta. – esclareceu Whale.
Eles assentiram, enquanto os outros dois médicos pediam licença e se retiravam.
Em seguida, Emma levantou-se e se aproximou de Whale, levemente desconcertada. Pensou em abraçá-lo, mas sua dificuldade em lidar com pessoas só permitiu um singelo, mas caloroso, aperto de mão. Talvez ela nunca pudesse retribuir o que o médico tinha feito, mas ele definitivamente teria sua admiração eterna. Afinal, ele a salvara de perder a mulher mais preciosa do mundo.
– Obrigada – disse-lhe, com a voz embargada. – Obrigada por trazê-la de volta.
– Não agradeçam a mim – disse ele, enquanto Emma se sentava na cama novamente. – Agradeça a sua irmã, Regina.
– Desculpe? Minha irmã? – indagou ela, semicerrando os olhos. Emma também não entendeu o que ele queria dizer; como poderiam agradecer àquela mulher por algo?
– Sim, por incrível que pareça – ele respondeu. – Wilma poderia ter optado por te matar imediatamente, mas ao invés disso, criou um raio que lhe proporcionaria uma chance de reviver. Talvez ela apenas não tenha sido esperta o suficiente para saber disso, mas... Acho que sua irmã não queria realmente te matar.
Regina franziu a testa, parecendo duvidosa quanto àquilo, mas pensativa.
– Wilma definitivamente queria fazer mal a Regina — discordou Emma. O que Whale dizia não fazia sentido, mas ela não pensou muito naquilo. Regina estava viva, e ela nunca mais a perderia – enfrentaria qualquer coisa antes de permitir isso.
– Não importa se ela queria ou não. Ela não conseguiu. Estou tão feliz! – exclamou Henry, sorrindo enquanto afagava a mão direita de Regina. Emma sorriu diante da alegria dele.
– Eu também – concordou.
– Regina vai precisar ficar aqui por alguns dias antes de receber alta – informou Whale. – Precisamos ter certeza de que tudo nela está funcionando normalmente.
– O que você quer dizer? – perguntou Emma, preocupada. – Há algo errado com ela?
– Não se precisa se preocupar, Srta. Swan. Ela está bem, serão apenas alguns exames para que vocês possam ficar tranquilos.
Emma ficou um pouco desapontada, pois ansiava por voltar a viver com Regina, mas assentiu. Qualquer coisa que fosse necessária para o bem dela.
– Tudo bem. Henry vai voltar para a escola e eu fico aqui fazendo companhia a Regina. Eu posso, certo? – perguntou ao médico, que inclinou a cabeça, ponderando a situação.
– Eu não deveria deixar, mas... Sim, você pode. Apenas tente não atrapalhar os médicos que cuidarão dela, ok?
– É claro que não. – e ele foi embora.
– Emma... Eu não quero que você ou Henry durmam em um hospital por mim – protestou Regina.
– Então eu não dormirei aqui. Eu fico com você enquanto o Henry estiver na escola e nós podemos dormir na casa dos meus pais.
Regina suspirou.
– Vocês podem voltar para casa, se quiserem. Nossa casa. Há uma chave embaixo do vaso de plantas n a varanda.
– Tem certeza? Não sei se me sinto muito confortável ficando naquela mansão sem você...
– Eu gostaria muito de voltar para casa, mãe. – interveio Henry, ao que Regina lançou-lhe um olhar de “o que eu disse?”.
– Ok, se vocês insistem... – cedeu Emma.
– Não precisa se sentir desconfortável, Emma. É a sua casa agora.
Emma sorriu. Aquilo a deixou um pouco mais tranquila com relação a algo que vinha martelando em sua cabeça desde que Regina recuperara suas memórias; elas estavam claramente apaixonadas e queriam ficar juntas, mas Emma temia que Regina não visse o relacionamento delas de forma tão séria quanto ela via. E se, para Regina, aquilo fosse apenas mais um namoro sem grandes compromissos? E se um dia ela se cansasse de Emma e resolvesse terminar tudo? Ela já tivera experiências em que tudo parecia verdadeiro e eterno, e não dera exatamente certo... Saber que Regina considerava sua casa como sendo de ambas agora era um alívio. Além do mais, pensou, Regina acabara de morrer por ela, e, bem, as duas dividiam um filho. Aquilo tinha que significar alguma coisa.
Beijou Regina novamente, sentindo-se estúpida por ser capaz de preocupar-se com outras coisas quando o amor de sua vida tinha acabado de voltar da morte.
– Mas de qualquer forma, eu tenho que levar Henry para ficar com a Mary Margaret agora. A não ser que ele queira ficar sozinho naquela mansão até o fim do dia – falou, ao que Henry negou com um aceno de cabeça.
– Não posso ficar aqui com vocês? – pediu Henry. O garoto odiava não participar do que quer que fosse.
– Desculpe, Henry, mas não acho que o Dr. Whale permitirá que mais de uma pessoa fique aqui com Regina. E, além disso, nós precisamos de alguém para contar a David e Mary Margaret toda a emoção que acabamos de viver; tenho certeza que eles ficarão bastante felizes por Regina ter voltado.
– Ela está certa, Henry – concordou Regina. – E eu não acho que um hospital seja um bom lugar para você passar o seu dia.
– Eu sei que é algo maravilhoso e que você quer passar muito tempo com Regina agora – disse Emma-, mas espere ela sair daqui, está bem? Então nós três poderemos dar um passeio pela cidade, ou fazer uma maratona de filmes na televisão, ou o que você quiser ok?
Henry assentiu relutantemente. Depois, aproximando-se de Regina, abraçou-a mais uma vez. Regina retribuiu o abraço com satisfação.
– Sinto muito – disse ele, para a surpresa de ambas – pelo que você teve que fazer por nós.
As duas reagiram àquilo com uma expressão dolorosa.
– Henry, não é culpa sua – respondeu Regina. – E nem da Emma. Eu fiz isso porque foi necessário. E eu faria tudo de novo, se fosse preciso. Eu sempre sacrificarei qualquer coisa pela sua felicidade.
– Se há algum culpado, este alguém é Wilma – concordou Emma, embora ainda não houvesse se livrado totalmente de seu próprio sentimento de culpa. – Foi ela quem armou isso tudo.
– É só que... Eu não quero perder você de novo. – disse ele à Regina. – Você é muita preciosa.
Os olhos de Regina brilharam e ela limpou algumas lágrimas do rosto do garoto.
– Você não vai. Agora vai lá tranquilizar os seus avós.
Os dois se levantaram da cama, e Emma perguntou:
– Você vai ficar bem?
– Sim, não se preocupe – respondeu Reina, embora ainda parecesse atordoada, olhando ao seu redor e piscando freneticamente. — Só é meio... Estranho acordar da morte.
Emma acariciou sua bochecha.
– Imagino que sim. Volto daqui a pouco. Não sinta muito a minha falta.
Regina riu, enviando uma corrente elétrica pelo corpo de Emma, que se sentiu flutuando por não ter perdido aquela risada.
– Vamos, Henry.
Emma e Henry saíram do hospital e andaram até o poço dos desejos, onde David, Mary Margaret e algumas outras pessoas – um número surpreendentemente pequeno se fosse levado em conta o ato grandioso que ela realizara — ainda esperavam para saber se Whale tinha conseguido algo. Eles comemoraram ao saber que Regina estava viva – especialmente Mary Margaret. Outros apenas reagiram com indiferença, mas Emma estava aprendendo a ignorar aquilo.
Em seguida, os quatro entraram no fusca, e depois de deixá-los em casa com Henry, Emma passou no Granny’s e comprou um pouco de comida chinesa para viagem – ela e Regina precisavam almoçar – e voltou para o hospital. Sua mente estava um turbilhão de euforia, pensamentos incessantes de felicidade inundando seu cérebro, e seus dedos suavam, de modo que ela surpreendeu-se com o fato de ter conseguido dirigir normalmente – ou quase. Era quase como se seu corpo não pudesse suportar tamanha satisfação. Ela com certeza seria uma esposa grudenta dali para frente. Esposa. Pegou-se questionando se aquela palavra não era séria demais, e se Regina também a usava para pensar em Emma às vezes. Droga de insegurança. “Não a deixe transparecer”, pensou, respirando fundo.
Chegando ao hospital novamente, subiu as escadas apressadamente até chegar à cabine de Regina, que brincava com um pedaço de papel, fazendo-o flutuar magicamente sobre a palma da mão e dobrar-se nas mais diversas formas. Emma sorriu e fez o papel levitar da mão de Regina até a sua, surpresa com a própria capacidade.
– Você andou treinando? – questionou Regina, erguendo as sobrancelhas.
– Não. Acho que está apenas fluindo naturalmente.
– Que sacolas são essas?
– Oh, eu resolvi comprar um pouco de comida chinesa para nós. Espero que você goste de Yakissoba.
– Obrigada, mas não precisava. Eu acredito que eles servem comida para os pacientes no refeitório daqui.
– E eu acredito que não seja muito boa. – respondeu Emma, sentando-se na cama e começando a abrir as sacolas. Notou uma poltrona de couro que estava ao lado da cama, e que não se lembrava de ter visto ali antes.
– Whale colocou isso aqui – explicou Regina. — Ele disse que era para você se sentar nela enquanto estiver aqui.
Emma colocou as sacolas na cadeira e deitou-se na cama, ao lado de Regina, sem nem ao menos se preocupar em tirar os sapatos.
– Bem, eu acho que assim é bem melhor. – disse, passando os braços ao redor dela. Regina sorriu, mas disse:
– Não acho que você possa se deitar aqui.
– Provavelmente não – concordou Emma – Mas dane-se. Você é a prefeita.
Beijou Regina, satisfeita com a risada que arrancou dela. Em seguida deitaram-se sobre o travesseiro, face a face. Regina passou os dedos por seu rosto, e Emma notou que ainda havia algumas lágrimas secas nele.
– Você não imagina como eu me senti quando o raio te atingiu. – falou, de repente. – Foi como se... Meu mundo estivesse destruído.
Ela arrependeu-se de dizer aquilo quando viu a expressão dolorosa que Regina assumiu. Ela acariciou os cabelos de Emma.
– Eu sei... Deve ter sido horrível. Não sei se suportaria estar no seu lugar naquele momento. Sinto muito, mas foi necessário... – ela disse.
– Não precisa se desculpar. Isso já passou – rebateu Emma, tentando mudar de assunto. – Acho que devíamos apenas pensar em como estamos felizes agora.
Regina assentiu.
– Posso perguntar algo? – indagou Emma.
– Claro.
– Se estiver tudo bem para você pensar nisso... Como era? Quando você estava... Você sabe... ?
Regina abriu a boca para falar algo, mas pareceu hesitar um pouco.
– Não precisa me falar se não se sentir bem.
– Não, está tudo bem – ela garantiu. – Veja, Emma... Eu preciso te contar algo. Algo que aconteceu comigo depois que eu morri. Eu não sei se você vai acreditar em mim, porque pode soar muito insano, mas...
Regina respirou fundo antes de continuar, deixando Emma assustada. Em seguida, contou a história de como, depois de ser atingida pelo raio, ela despertara no outro mundo, na antiga casa onde vivia, pois recebera da Fada Azul uma chance de reverter o passado. Contou-lhe sobre Daniel, o garoto dos estábulos a cujos encantos ela se rendera novamente, e perguntou se Emma sabia sobre ele. Emma respondeu que sim – algum tempo antes, quando ela nem sonhava em conhecer o coração de Regina, sua mãe lhe contara o motivo pelo qual era tão odiada pela antiga madrasta. Quando ambas eram jovens, Regina salvou-a de um cavalo desgovernado e o Rei pediu a mão dela em casamento. O que se seguia a isto, se Emma bem se lembrava, era uma história confusa envolvendo um segredo revelado e uma mãe manipuladora e que culminava na morte do noivo de Regina.
Ouvir aquela história doía, por pensar em Regina sofrendo o mesmo que ela sofrera minutos antes, mas Emma ouviu atentamente enquanto Regina contava sobre como revivera todos aqueles momentos e conseguira mudá-los sozinha.
– Mas no último dia – concluiu Regina. – Eu escolhi abrir mão de tudo. Porque aquele mundo... Não teria você e Henry.
Emma sabia que Regina não estava mentindo – ela sempre sabia – mas não estava totalmente segura de que seu relato era real e não um sonho ou coisa do tipo.
– E você tem certeza de que isso aconteceu? – questionou. – Não foi um sonho ou... ?
– Não, foi bem real. – insistiu Regina. – E se tiver sido um sonho... Bem, então foi um sonho bastante longo, considerando que eu fiquei menos de cinco minutos inconsciente.
Emma olhou nos olhos de Regina, e acreditou nela. No louco universo mágico em que viviam nada parecia impossível – e, além do mais, não era possível sonhar depois da morte, certo?
Ao dar-se conta de que Regina dizia a verdade, ela se deu conta de algo ainda mais sublime; Regina desistira de transformar seu passado doloroso em um final feliz, e o fizera por ela. Por ela e Henry.
– Então, deixe-me ver se entendi – disse Emma -, você teve seu antigo namorado de volta, seus pais, uma vida tranquila e feliz ao lado deles, e você escolheu voltar? Arriscando-se a continuar morta? Por quê?
– Porque... Porque eu preferia morrer a viver em um mundo no qual vocês nunca existiriam.
Emma não conteve as lágrimas, e puxando Regina para ainda mais perto, abraçou-a.
– Você nunca se cansa de ser tão maravilhosa? – perguntou.
Regina riu.
– Eu aprendi com a melhor. – ela respondeu.
– Céus, o que eu fiz para merecer alguém tão especial?
Quando seus lábios se encontraram, elas ouviram passos se aproximando, e se afastaram. Emma saiu da cama, apressadamente, tirando as sacolas de comida da poltrona e sentando-se nela, com um ar inocente.
A Madre Superiora, com seu casaco engomado de gola alta, adentrou a cabine com um buquê nas mãos.
– Olá. – cumprimentou Regina. Aquilo ilustrava bem o ditado “falando no diabo...”, pensou Emma.
– Eu só vim aqui para lhe cumprimentar e te desejar uma total recuperação, Regina. Depois de tudo o que você sacrificou por sua família, você merece – e nós duas sabemos que não falo apenas de ter se entregado ao raio. – ao dizer aquilo, dirigiu à outra mulher uma piscadela, que Regina respondeu com um sorriso desconcertado.
A Madre Superiora colocou as flores em um vaso que havia em cima de uma mesa ao lado, e antes de sair, disse a Emma:
– Cuide bem do que você tem, Srta. Swan. Essa daí faria qualquer coisa por você.
– Eu sei. – respondeu Emma com um sorriso, e ela foi embora.
– Ela se referia àquilo que você disse, certo? – perguntou, enquanto se levantava para se deitar ao lado dela novamente.
Regina assentiu. Sentada na beirada da cama, Emma aproximou-se dela, encarando seu rosto.
– Você é a melhor, sabia?
– É, já ouvi isso antes. – retrucou Regina, ao que as duas riram antes de Emma beijar seu pescoço. Ela começou com beijos suaves e depois começou a soprar no pescoço dela propositalmente, proporcionando-lhe cócegas.
– Pare, Emma! – pediu Regina, entre risadas. – Está fazendo cócegas!
Emma deitou-se, seus corpos se aproximando, seus braços ao redor uma da outra como as duas metades que elas eram.
Emma beijou-a suavemente, mas apaixonadamente, acariciando os lábios de Regina com leveza enquanto sua língua roçava em seus lábios.
– Você está melhor? – perguntou quando interrompeu o beijo.
– Não realmente. – admitiu Regina. – Mas eu posso ficar melhor bem rápido se você continuar me beijando assim.
Emma riu.
– Você é muito estúpida.
– Eu também te amo.
***
Emma e Regina comeram e ficaram conversando o resto do dia. Mesmo com as inúmeras possibilidades, ela não conseguiu reunir coragem o suficiente para tocar no assunto que a atormentava – o quão sério era o relacionamento delas. Ela queria perguntar, mas temia soar como uma namorada paranoica.
Quando o sol estava se pondo, ela despediu-se de Regina com um aperto no coração e foi buscar Henry. Depois de passar na escola para matriculá-lo no 7º ano, eles foram para casa. Era terrível dormir na espaçosa cama de Regina sem ela ao seu lado – Emma queria desesperadamente que ela estivesse ali, mas precisava ser paciente. Logo tudo voltaria ao normal.
Ela e Henry acabaram dormindo juntos, porque Emma despertou no meio da noite ao som de choros assustados que vinham do quarto do garoto. Aparentemente, ele estava tendo uma série de pesadelos que envolviam Regina. Emma passou a noite abraçada ao garoto em sua pequena e apertada cama para que ele se sentisse seguro – ignorou o fato de que seus próprios pesadelos a impediam de pregar os olhos novamente. Henry era mais importante. E, de certa forma, passar a noite em claro ao lado dele era melhor do que tentar dormir com a perturbadora ausência de Regina em sua cama.
Na manhã seguinte, Emma levou Henry à escola e voltou para o hospital, onde Regina esperava por ela. Deitou-se com ela novamente e passaram a manhã toda conversando sobre coisas tolas e sobre a nova vida que levariam quando ela saísse dali – Regina voltaria à prefeitura e Emma trabalharia na delegacia novamente (ela nunca pensou que uma rotina pudesse parecer tão sedutora). Às vezes, elas ficavam em silêncio por vários minutos, lendo uma revista velha, cochilando ou apenas olhando uma para a outra. Ao contrário do que costumava acontecer em seus relacionamentos anteriores, Emma não se sentia como se precisasse conversar o tempo todo – a presença de Regina falava no silêncio. Eventualmente, Whale aparecia para fazer alguns exames, e Emma sentava-se na poltrona de couro ao lado da cama. O médico fez um check-up em Regina e alguns exames de sangue, e ao que parecia, ela estava bem – mas não o suficiente para receber alta, aparentemente,
Ao meio-dia, ela buscou Henry na escola para o almoço. Eles comeram um sanduíche com gosto de isopor na pequena lanchonete do hospital com Regina, e Henry ficou com elas até ter que voltar para a escola novamente.
Quando os três estavam conversando na cabine, Regina em sua cama novamente e Emma sentada ao lado dela, Henry abriu sua mochila, e, vasculhando entre os livros e cadernos, pegou uma folha de papel levemente amarelada. Emma ergueu uma sobrancelha.
– O que é isso? – perguntou.
– É apenas algo que eu achei ontem quando vasculhava meu armário, e resolvi mostrar para vocês. – ele respondeu, desdobrando o papel e se aproximando delas para mostrar o que havia nele: Um desenho simples e claramente infantil feito com giz de cera, retratando duas mulheres (cujos corpos eram riscos) com um pequeno garoto no meio delas – uma delas, de cabelos escuros, era claramente Regina, mas Emma não conseguiu reconhecer a outra. No canto inferior direito, o nome de Henry estava escrito com uma caligrafia caprichosa.
– Isso... Foi você quem fez, Henry? – perguntou Emma.
– Sim. Anos atrás. Quando eu tinha uns cinco anos, eu costumava sonhar com o dia em que minha mãe biológica se arrependeria de ter me deixado e viria atrás de mim. Mas eu não queria que ela me levasse embora. Eu costumava pensar que, quando isso acontece, eu teria duas mães e nós três seríamos uma família. Mas isso foi até eu ganhar aquele livro, e perceber que Regina era a Rainha Má, e começar a detestá-la... E, bem, a partir de então eu só queria que minha outra mãe me levasse embora daqui.
Houve um minuto de silêncio, e Emma notou que os olhos de Regina umedeceram.
– É ótimo que as coisas tenham acontecido do jeito que eu queria, no fim das contas.
Emma sorriu e pegou o desenho. Sim, era ótimo. Aquilo era algo que ela nunca pensara que teria, e não se lembrava de algum dia ter se sentido tão completa. Depois de anos sentindo-se engolida por uma solidão infinita, ela finalmente sentia que pertencia a algum lugar. Finalmente encontrara algo no qual se encaixava perfeitamente. Ela beijou a testa de Henry enquanto afagava seu cabelo.
– Posso ficar com ele? – indagou Regina. – Posso ficar com esse desenho?
Henry assentiu.
– É claro.
Um sorriso transpassou os lábios de Regina quando ela pegou o desenho. Se ela estava sorrindo, Emma finalmente poderia respirar aliviada. Pelo menos por enquanto.
Quando Henry voltou para a escola, Emma resolveu que era hora de finalmente conversar com Regina sobre o que vinha tentando evitar.
– Sabe... É realmente maravilhoso ter uma família com você e Henry – Regina ergueu os olhos do papel para ela quando começou a falar. – Eu nunca me senti tão feliz. Realmente espero que isso dure.
Suspirou antes de perguntar:
– Vai durar, certo?
– É claro que sim – respondeu Regina, segurando sua mão. – Não vou deixar que nada mais nos separe. Nenhuma briga, nenhum vilão, nenhuma ameaça... Nada.
Emma sorriu.
– É só que... Isso... O que nós temos... É perfeito. É incrivelmente maravilhoso, e eu tenho medo de que acabe. De que não seja algo tão concreto quanto eu penso. Tenho medo de que, um dia, eu possa acordar e ver que você não está mais lá.
Regina riu, incrédula, e segurou sua outra mão, olhando fundo em seus olhos.
– Emma. Olhe para mim. – disse, com firmeza. – Não há razão para se preocupar. O que nós temos nunca vai acabar. Eu tive minhas dúvidas por muito tempo, mas agora tenho total certeza. Eu amo você. E, provavelmente, sempre amarei. Não consigo mais imaginar minha vida sem você comigo e com Henry, porque eu também nunca me senti tão completa. Houve uma época em que eu pensei ser capaz de te esquecer, mas agora isso me parece tão... Tolo. É simplesmente impossível me esquecer de você. E é exatamente por isso que eu escolhi voltar, mesmo pensando que estaria morta. Então, não importa o quão obstinada e insuportável você possa ser às vezes – e, acredite, você pode... Seria terrível ter que encarar minha vida sem você.
Emma apertou sua mão com igual força enquanto lágrimas escorriam por seus olhos. Ela realmente podia ser obstinada, teve que admitir, e podia enfurecer Regina tanto quanto Regina podia enfurecê-la. Mas momentos como aquele, nos quais os olhos de Regina brilhavam com sentimentos que Emma esperava ver nela há tanto tempo, e seu coração se aquecia com seu sorriso, podiam apagar qualquer mágoa.
– Não importa o que aconteça, ou o quão feio nós possamos brigar... Eu nunca vou te deixar. Isto é uma promessa. – concluiu Regina.
Emma respirou, sentindo-se aliviada e ao mesmo tempo tola por não ter percebido a intensidade dos sentimentos de Regina.
– Eu prometo nunca te deixar, também – disse, e deitou-se ao lado dela, passando os braços ao redor de sua cintura. — Mas eu ainda tenho medo de que algo possa nos separar. Algo que fuja da nossa vontade.
– Como Wilma?
– Ela também – respondeu, lembrando-se de Maleficent e sua ameaça, mas ainda não se sentindo pronta para revelar aquilo a Regina. – E se outra pessoa quiser fazer mal a você? Ou a mim? E se eu morrer ou... Perder você de novo? Ou Henry? Lembra-se do que Pan fez? Nós quase perdemos nosso filho para sempre.
– Aquilo não vai acontecer novamente. – garantiu Regina. – Quando estávamos saindo de Neverland, eu fiz um feitiço para que ninguém possa arrancar seu coração novamente. Nem ele mesmo.
– Mas isso garante que ela não vai morrer de outra forma?
– Não, mas é o melhor que eu posso fazer. Emma, pare de falar como se algum de vocês estivesse prestes a morrer, eu estou começando a me preocupar. E eu não gosto de pensar nisso.
– Não precisa se preocupar. Só estou meio atordoada depois de toda essa loucura que aconteceu. E eu ainda tenho pesadelos com o seu coração sendo arrancado.
Regina suspirou.
– Você quer a garantia de que isso nunca vai acontecer? Posso dar um jeito nisso.
– Como?
Regina pegou a mão direita de Emma e colocou-a sobre o peito esquerdo da loira. Entre suas mãos, uma forte luz amarelada surgiu.
– O que é isso?
– É o mesmo feitiço que eu lancei em Henry. Agora, ninguém pode arrancar o seu coração.
Emma sentiu os batimentos de seu coração, que de repente parecia mais seguro.
– Agora faça em você. – pediu.
Regina levou a mão até o peito e a mesma luz surgiu sobre ele, desaparecendo em poucos segundos.
– Pronto. Agora ninguém terá os corações da nossa família.
Emma sorriu, respirando aliviada, sentindo um peso enorme sair de seus ombros. Beijou Regina com paixão, decidindo não permitir que nenhuma outra preocupação deixasse-a tensa daquela forma.
Dois dias depois, Regina recebeu alta e saiu do hospital. Emma e Henry foram buscá-la no fim da tarde e levaram-na de volta para casa, onde ela foi recebida com balões de gás hélio em formato de coração amarrados pela casa.
– Espero que isso não seja exagerado – falou Emma. – Foi tudo ideia do Henry. Em minha opinião, o garoto tem um talento natural para a decoração.
Os três riram.
– É uma ótima recepção. E é ainda melhor finalmente estar em casa. – disse Regina, sorrindo. – Agora, eu realmente preciso de um banho e uma mudança de roupas. Estou exausta de usar uniformes.
Ela subiu para tomar um banho e lançou um olhar travesso para Emma das escadas quando Henry foi para o seu quarto. Emma seguiu-a, incrivelmente feliz por tudo estar como devia ser novamente.
No dia seguinte, Regina voltou ao seu trabalho na prefeitura e David devolveu a Emma o distintivo de Xerife, do qual ela sentira mais falta do que imaginara que sentiria. Passava horas atendendo ligações e resolvendo problemas nada extraordinários – música alta demais, brigas entre vizinhos, barulhos suspeitos que acabavam por ser alarmes falsos, esse tipo de coisa. Mesmo que Wilma ainda estivesse à solta, sabe-se lá onde, Storybrooke tinha se tornado uma cidade relativamente tranquila nos últimos dias, o que era mais do que um alívio. Regina revelara que tinha uma ideia diferente para derrotar a irmã de uma vez por todas, o que preocupou Emma, mas não tanto quanto a preocuparia antes. Afinal, o coração de Regina estava mais do que protegido, e quando ela prometeu que não machucaria mais a irmã, Emma resolveu confinar nela. Se Regina quebrasse a promessa, bem, ela ainda estaria ao lado dela para ajudá-la a superar qualquer coisa. Não cometeria mais o erro de abandoná-la.
Em um desses dias, durante uma manhã fria e nublada, quando elas estavam caminhando juntas pela praia, avistaram algo que se debatia no mar a alguns quilômetros. Algo verde... Uma cauda?
– O que é isso? – perguntou Emma, abraçada a Regina.
– Não sei. Mas se parece com uma... Sereia.
Elas ficaram observando enquanto a figura misteriosa se aproximava cada vez mais, nadando em direção à praia, até ficar claro que, de fato, se tratava de uma sereia.
Uma figura feminina de cabelos vermelhos irrompeu da água frente a elas. Era Ariel, a sereia que Emma vira algumas vezes em Storybrooke há mais de um ano, quando eles voltaram de Neverland.
– Ariel. – cumprimentou Regina, erguendo uma sobrancelha. – O que te traz aqui? E, pensando bem... Por que você não estava aqui antes?
Ariel tirou um bracelete de sua bolsa roxa de contas e encaixou-o no pulso antes de responder. Assim que o fez, suas caudas desapareceram em uma nuvem, dando lugar a duas pernas humanas e uma longa saia verde. A sereia – ou humana — levantou-se e disse:
– Olá, Regina. Eu queria mesmo falar com você. Você está certa, eu deveria ter vindo antes. Mas, por sorte, consegui fugir da Floresta Encantada antes daquela bruxa verde lançar sua maldição.
Os olhos verdes da moça pousaram em Emma.
– Vocês duas estão juntas agora? Essa cidade é realmente muito imprevisível. Mas, enfim, eu vim até aqui por dois motivos. Primeiro, porque preciso encontrar Eric, que não pôde fugir comigo do outro Reino antes da Maldição porque, vocês sabem... Ao contrário das sereias, humanos não podem viajar entre reinos por conta própria. E segundo, porque eu tenho um recado para dar, que acredito ser do seu extremo interesse.
– E o que seria?
– Quando eu saí da Floresta Encantada, eu nadei por horas até encontrar um reino muito estranho chamado Oz.
Emma começou subitamente a prestar atenção no que ela dizia quando ouviu aquele nome.
– Aquele lugar era uma loucura... Bruxas em vassouras voadoras, castelos verdes, estradas infinitas, macacos alados... Mas então eu encontrei alguém que despertou meu interesse, porque, vejam bem... Ele não deveria estar vivo.
Emma franziu a testa.
– De quem você está falando? – perguntou.
– Do Senhor das Trevas, é claro.
Regina olhou para ela, incrédula, e em seguida, seu rosto foi invadido por um enorme sorriso travesso.
– Rumplestiltskin está vivo? – perguntou, com a alegria de uma criança que reencontra o parceiro de travessuras.
– Eu sei, certo? Inacreditável. Mas ele está, e eu o vi. Pelo que entendi, o Senhor das Trevas não pode se matar – mesmo que haja uma profecia decretando que ele morrerá se derrotar o pai. Como Rumplestiltskin escolheu morrer por conta própria, e não foi morto por alguém, ele não morreu de verdade. Ele foi enviado para o lugar místico para onde vão os Senhores das Trevas que tentam se matar.
– Oz? – indagou Emma, achando tudo muito confuso. – Se o Senhor das Trevas tentar se matar, ele vai para Oz? Sério? É como um limbo para criaturas imortais?
– Mais ou menos. Enfim, ele não pode sair de lá a não ser que alguém o tire.
– E por que você não o trouxe com você? – perguntou Regina, soando levemente irritada.
– Porque ele pediu que eu não o fizesse – e, dizendo aquilo, tirou algo de sua bolsa: um pequeno feijão mágico. – Rumplestiltskin plantou alguns feijões mágicos nos últimos meses, em tentativas nulas de voltar para casa. Então, quando eu apareci e lhe contei sobre a bruxa de Oz que iria lançar uma nova maldição sobre o nosso reino, ele teve uma ideia. Ele pediu que, após a maldição ser lançada, eu viesse até a praia de Storybrooke todas as noites, para ver como as coisas andavam. Foi cansativo, mas eu obedeci. Ele esperou que a Maldição fosse quebrada para pedir que entregasse isso a você. – e entregou o feijão a Regina.
– Então ele quer que eu vá até lá para trazê-lo de volta? – deduziu Regina, o que deixou Emma assustada. Não queria Regina em reino nenhum que não fosse o reino de sua cama por um bom tempo.
– Não. – respondeu Ariel, para seu grande alívio. – Veja, não sei se vocês descobriram, mas essa tal bruxa é filha dele. E, por causa disso, ele se sente na obrigação de derrotá-la para vocês. O que Rumplestiltskin quer é que você, Regina, arranje uma forma de usar esse feijão para enviar Wilma até Oz. Então ele poderá derrotá-la.
Regina arqueou as sobrancelhas, confusa. Para Emma, aquela era a chance perfeita. Estava cansada de lidar com Wilma, e Rumple com certeza poderia derrotá-la com facilidade – se não pudesse, qual era o sentido de ser chamado o Senhor das Trevas?
– Não tenho certeza...
– Ela vai – interrompeu Emma, firmemente. – Regina, esta é a chance perfeita. Rumplestiltskin não teria que levantar um dedo para derrotá-la. E nós finalmente estaríamos livres dela.
– Eu sei, mas... Eu também queria que Rumple voltasse. E se eu usar o feijão para isso, como ele vai voltar?
– Ele disse que pode se preocupar com isso mais tarde. – interveio Ariel. – Vocês sabem, eu ainda posso trazê-lo comigo.
– Como? De carona na sua cauda? – rebateu Regina.
– Talvez eu possa trazer outro feijão algum dia desses para que algum de vocês vá até lá buscá-lo. Eu não sei, e sinceramente, não cabe a mim te aconselhar sobre o que deve fazer. Se me dão licença... Preciso encontrar Eric.
E, dizendo isto, começou a caminhar para longe.
– Regina, por favor. Não desperdice esta chance de se livrar daquela... Praga verde.
– Mas é que eu não a vejo mais como uma praga, Emma. Quando eu olhei nos olhos dela pela última vez antes de ser atingida pelo raio, eu vi algo que eu não havia percebido antes; eu vi desespero. O desespero de alguém que nunca teve uma família para cuidar dela. Eu não quero mais derrotar minha irmã. Depois de conhecer a verdadeira felicidade com você e Henry... Eu quero que ela experimente o mesmo.
Emma surpreendeu-se com aquilo.
– Eu também cresci sem uma família, e não me tornei uma bruxa má por causa disso.
– Mas você sabe o quão doloroso é — insistiu Regina. — Eu sei que foi difícil para você, Emma, e isso me mata todos os dias. O que eu quero dizer é que Wilma pode mudar assim como eu mudei, se ela tiver alguém para apoiá-la. Como o pai.
– E é exatamente por isso que o certo a fazer é enviá-la de volta para Oz – tentou convencê-la Emma. – Não acho que Rumplestiltskin faria mal à própria filha tão facilmente. Talvez ele possa dar uma nova chance a ela, e ela a ele.
– Você acha?
– É uma possibilidade.
Regina suspirou.
– O que eu realmente queria era ir a Oz para trazer Rumple de volta. Eu senti falta dele, apesar de tudo.
– Você enlouqueceu? Ir para outro mundo novamente, depois de tudo? Você não pode me deixar aqui, Regina. Não posso te deixar ir embora mais uma vez. Poderia haver perigos em Oz, e eu já te perdi vezes demais. – disse, segurando seus ombros e encarando-a com firmeza. – Olha... Eu sei que você quer trazê-lo de volta, mas nós encontraremos uma forma de fazer isso depois. Só acho que não podemos manter Wilma nesta cidade por muito tempo. Precisamos tirar esse peso de nossas costas.
Regina olhou para o chão e fechou os olhos, parecendo finalmente ceder.
– Está bem. Acho que você está certa.
Emma sorriu. Aproximou-se de Regina para um beijo de língua suave e intenso.
– Agora, vamos encontrar um jeito de atrair Wilma para a nossa armadilha.
***
Não era para ter tantas pessoas no cais de Storybrooke naquela tarde, mas de alguma forma, o plano se espalhara. Regina telefonara para Wilma, que, completamente destruída depois de seu plano final ter dado errado, concordara em encontrá-la ali, para um último confronto. Emma comentara aquilo com David, que comentara com Mary Margaret, que provavelmente contara ao maior número de pessoas possível, de modo que aproximadamente vinte pessoas, ou talvez mais, estavam reunidas no porto após o almoço.
Tudo o que eles precisavam fazer era abrir um portal na água e convencer Wilma a pular nele. Certo. Não podia ser tão difícil.
Regina ainda não parecia completamente conformada com o fato de que não iria até Oz para ajudar Rumple, mas Emma confiava que ela faria o certo.
Quando todos estavam aglomerados sob o vento frio e salgado daquela tarde, próximos a alguns barcos amarrados no cais, Wilma chegou, andando lentamente em seus saltos altos com uma expressão de impaciência e cansaço. Regina afundou os braços em seu casaco quando ela se aproximou, e andou até ela, mesmo que Emma tenha segurado seu braço em uma tentativa de mantê-la perto de si.
– O que você quer? – perguntou a bruxa, com uma voz áspera. – Me humilhar por minha última derrota? Ou acabar comigo de uma vez por todas? Vá em frente.
Regina negou com um aceno da cabeça.
– Não é nada disso. Eu te chamei aqui porque eu encontrei algo que pode ser do seu interesse. E porque quero uma trégua.
Wilma arqueou as sobrancelhas.
– Uma trégua?
– Sim. Esta manhã, Ariel surgiu e me deu isso – e, tirando o feijão mágico do bolso interno do casaco, mostrou-o à irmã. – Algo que pode te levar para o seu lugar. Ela esteve em Oz nos últimos meses e descobriu algo um tanto inesperado... Ela descobriu que Rumplestiltskin, o seu pai e meu mestre... Está vivo.
Emma olhou para Neal, que a encarou confuso, como se dissesse “Isso é verdade?”. Ela assentiu.
– O quê? – interveio Belle, do meio da multidão, sorrindo atônita. – Rumple está vivo?
– Mas como isso é possível? – perguntou Neal. – Nós o vimos morrer na frente de todo mundo.
– O Senhor das Trevas não pode se matar – explicou Regina. – De forma alguma. Ele foi enviado para Oz, que aparentemente, é o local para onde vão as criaturas imortais que tentam morrer.
Wilma assumiu um olhar repentinamente interessado ao saber daquilo – mas não era apenas interesse; havia também uma alegria sádica em seu olhar.
– Meu pai está vivo? – ela perguntou, sorrindo.
– Eu sei no que você está pensando – afirmou Regina. – Você quer se vingar dele por ter te rejeitado. Mas, acredite em mim... Rumple mudou. Tenho certeza de que, no fundo, ele se arrepende de ter abandonado sua filha. Assim como se arrependeu de ter abandonado Baelfire.
– É mesmo? Então por que ele nunca procurou por mim? Ele atravessou reinos para recuperá-lo – disse, olhando para Neal com desprezo. – Mas nunca, por um momento sequer, pensou em mim, sua filha mais nova.
– Eu também costumava pensar que meu pai não ligava para mim – disse Neal. – Mas, depois de anos, eu percebi que ele nunca havia se esquecido. Ele se preocupou comigo por dezenas de anos, mesmo que tenha feito coisas erradas por conta disso. Talvez ele se lembre de você, também. Talvez ele a queira de volta. E se meu pai está realmente vivo, eu quero ir atrás dele. Você pode vir comigo. Eu posso perdoar o que você fez com Henry, e nós podemos ser uma família.
Emma sentiu-se surpreendentemente mal por, aparentemente, ser a única ali que ainda não era capaz de perdoar Wilma pelo que ela tinha feito.
– Isso é exatamente o que eu quero – concordou Regina. – Ouça o seu irmão, Wilma. Reencontre o seu pai e o perdoe. Sabe... Mesmo depois de todo o sofrimento que você me causou, eu fui capaz de encontrar a felicidade. Porque eu encontrei uma família. E vendo o quanto você foi rejeitada e abandonada, eu percebi o quanto tenho sorte por ter Emma e Henry. Você me ajudou a perceber isso, por incrível que pareça. E, apesar de tudo o que você fez... Eu quero que você tenha o mesmo. Todos merecem experimentar a alegria que eu estou experimentando. E, além do mais... Se eu não for capaz de te perdoar, como eu posso esperar ser perdoada por todos?
– Eu não quero o seu perdão! – rebateu ela, com fúria. – E eu não quero ouvir meu... Irmãozinho. Ele não pode me entender, e nem você. Vocês sofreram, mas sempre tiveram alguém que se importasse com vocês. Sempre. Ainda que não soubessem. Eu nunca tive. Eu cresci sozinha.
– Bem, talvez nunca tenha tido – discordou Regina. – Mas você tem alguém que se importa com você agora. Você tem a mim. Afinal, nós somos irmãs, apesar de tudo.
Emma sorriu para Regina, orgulhosa. Naquele momento, ouvindo o que Wilma dizia sobre ter crescido sem família, Emma, de alguma forma, entendeu-a. Houve uma época, não muito tempo antes, em que ela sentia exatamente aquela mesma raiva por ter sido abandonada e não ter tido ninguém a vida inteira. E a raiva de Emma sumiu. Por algum motivo, ela perdoou Wilma.
– Eu entendo você – disse. – Eu cresci da mesma forma. Mas eu percebi que é melhor dar uma chance ao amor do que alimentar as mágoas. A raiva sempre estará lá, mas você pode escolher ignorá-la.
– Por favor – insistiu Regina, e jogou o feijão na água. Um portal verde se abriu, como um redemoinho vazio girando no mar. – Volte para Oz. Seja parte de uma família com seu pai e seu irmão. Dê uma chance a ele. Por você mesma.
Wilma encarou-os por alguns segundos, como se estivesse pensando no que dizer, mas não disse mais nada. Apenas virou-se para o oceano e pulou para baixo. Não houve barulho de queda na água; o portal a engolira. Se ela estava indo para perdoar o pai ou para se vingar dele, no entanto, eles não chegaram a saber.
Emma assustou-se quando Regina andou em passos rápidos em direção à beira do cais. Emma foi atrás dela, enquanto via Regina encarando o portal com um interesse assustador.
Oh, não.
– Regina, não pule! – gritou, enquanto corria desesperadamente para impedir que Regina caísse naquela droga de portal e fosse embora.
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