Let Her Go, a Swan Queen fanfic
10 Fight
Notas iniciais
Wake me up inside
Wake me up inside
Call my name and save me from the dark
Emma's PoV
Emma não sabia que dragões podiam falar, mas afinal, o que ela sabia? Aquele nome, "Maleficent", lhe era familiar, mas ela não conseguia se lembrar onde o tinha escutado. A princípio, assustou-se um pouco com a frase "A Senhora de todo o Mal", mas ela tinha se apaixonado pela Rainha Má, então esses nomes não eram exatamente ameaçadores para ela.
Emma sacou seu revólver quando o dragão — ou dragoa — começou a se aproximar dela em passos lentos. Mas então ela percebeu que não podia matá-lo — não sem antes saber se ele guardava algo importante.
– Hã... Você, por acaso... Tem algo mágico ou coisa do tipo? Algo que eu possa usar para quebrar a Maldição?
Deus, como aquilo era estranho. O dragão soltou um grunhido que soou como "Sim". Bom, pelo menos ele estava disposto a ajudar.
Ele começou a se aproximar ainda mais, e Emma não sabia o que devia fazer. Provavelmente ela devia matá-lo, mas então como saberia onde estava o objeto que ela precisava encontrar? Quando ele chegou a três metros de distância, Emma apontou a arma para ele novamente, mas para sua surpresa, o animal virou-se e derrubou a arma de sua mão com a cauda. Aquilo doeu como uma chicoteada.
Em seguida, começou a virar-se de frente novamente, e Emma se desesperou. Olhou para a sua esquerda; a arma tinha sido jogada a alguns metros de distância, e ela não conseguiria pegá-la a tempo. Tinha que fazer outra coisa, e rápido.
Fechou os olhos e começou a pensar em Regina, em seu amor por ela, e em como estava desesperada para salvá-la. Pensou em Henry, e em como queria que ele e Regina fossem uma família novamente. E quando o dragão avançou contra ela, Emma ergueu as mãos na altura da cabeça, em um movimento impulsivo, e os ruídos cessaram.
Emma abriu os olhos, confusa. O dragão estava envolto em uma espécie de redoma semitransparente — magia. Mas de onde aquela magia teria surgido? Então ela se deu conta: Tinha surgido dela. Emma fizera magia. Quando fechou os olhos e pensou em Regina e Henry, ela, de alguma forma, conseguiu prender o dragão magicamente.
Recuperando-se da surpresa, ela sorriu, estupefata. Mas voltou a se assustar quando percebeu que o dragão não estava preso- ele foi envolto em uma nuvem de fumaça rosa e começou a girar, tornando-se um borrão escuro. Sua figura desapareceu e foi substituída pela figura de uma mulher alta, com cabelos loiros e cacheados, usando um longo vestido rosa e uma capa roxa espalhafatosa. Em sua mão direita, segurava um cajado de madeira, e em sua cabeça havia dois chifres de metal.
– Quem é você? — perguntou Emma.
– Você não sabe? — questionou ela, em uma voz fina e teatral, como se fosse um absurdo que Emma não a conhecesse — Eu já disse. Sou Maleficent, a senhora de todo o mal. E a maior metamorfa de todos os tempos.
– Meta o quê?
Maleficent suspirou, impaciente.
– De qualquer forma, eu tenho que lhe agradecer por ter me trazido de volta para minha forma original. Ah, como eu senti falta do meu corpo humano... — disse, mexendo os braços e olhando para si mesma.
– Hã... De nada. — respondeu Emma, confusa.
– Mas não pense que eu serei sua aliada, Srta. Swan — disse ela — Eu simplesmente preciso de você para algumas coisas. A primeira delas já se realizou. Agora vamos à segunda parte, que é o motivo de você ter descido até aqui, suponho.
– Sim. Eu vim porque me lembrei que, da última vez, a poção de amor verdadeiro estava aqui... Aliás, eu não entendo... Eu pensei que tivesse te matado.
Maleficent deu um sorriso irônico e forçado, como se aquela lembrança lhe deixasse furiosa.
– Sim, você... "matou" — disse, falando aquela última palavra com um tom de caçoo — Mas temporariamente. É preciso muito mais do que uma espada para me matar, Emma.
“Eu estava presa aqui porque Regina tinha me aprisionado antes de lançar a Maldição, e decidiu que queria me manter aqui nesse buraco, aprisionada em minha forma bestial” — continuou ela – “É claro, afinal ela sabia o quanto eu era perigosa. Depois que você me destruiu, por assim dizer... Eu fui reduzida a cinzas, sem conseguir assumir uma forma concreta por muito tempo. Se antes eu não conseguia assumir a forma humana, depois de você... Atravessar meu estômago com sua espada, eu não conseguia sequer me transformar em um mero unicórnio. Fui reduzida a um simples espírito, como um pobre fantasma andando por esta maldita caverna, de vez em quando conseguindo reunir minhas cinzas em uma espécie de zumbi monstruoso. Nada muito digno, mas eu ainda era útil para espantar alguns visitantes indesejados e guardar o gatilho de Regina. Ah, Regina...”
Emma ouvia tudo atentamente, esperando que algo de útil para ela surgisse daquele relato. Os olhos azuis da feiticeira possuíam uma amargura expressiva.
– Mas isso foi até o dia em que Storybrooke deixou de existir. Quando todos voltaram para o outro mundo, eu finalmente estava livre. Livre de qualquer caverna ou prisão. Assim que entrei em contato com a magia da Floresta Encantada, retornei à minha forma humana, da qual Regina havia me privado por tantos anos. Mas decidi ser discreta. Mantive-me escondida em meu castelo, longe de todos... E ninguém notou a minha ausência. Nem mesmo a pessoa que se referia a mim como sua única amiga. Estavam preocupados demais com essa nova bruxa verde do outro Reino. Eu devia ter sido mais rápida em meus planos, pois a tal Wilma lançou uma nova Maldição. E fomos todos trazidos de volta para a Terra sem Magia. É claro que até mesmo ela tinha ouvido falar de minha grandeza e poder, por isso fez o mesmo que Regina — optou por me manter aqui, nesta droga de caverna. E, mais uma vez, eu fui aprisionada na minha forma de dragão. Até agora."
Sorriu para Emma ao dizer aquilo.
– Só havia uma coisa capaz de me retirar da minha "prisão corporal". A magia da Salvadora.
Emma respirou aliviada. Então ela era mesmo a Salvadora. Mais uma vez.
– Mas... Eu pensei que não houvesse magia aqui. — observou, confusa.
– E não há. Esta caverna é uma exceção — respondeu Maleficent. Em seguida, continuou:
– Um dia antes de lançar a Maldição, Wilma descobriu sobre a poção que Regina tinha feito e colocado no pergaminho. — Neste ponto, Emma sorriu, orgulhosa da esperteza de Regina — Mas não havia mais como retirá-la. Apenas como escondê-la. Então, sem que Regina soubesse, Wilma roubou o resto da poção de amor verdadeiro que sua irmã tinha fabricado, e deu-a a mim. Ela disse que nessa nova terra eu seria a responsável por guardá-la, e impedir que você pudesse usá-la para quebrar a Maldição. Eu escondi a poção no topo de meu cajado — disse, indicando a pequena bola de cristal que havia no topo do seu cetro de madeira – Cajado este que, por acaso, só aparece quando estou em minha forma humana. Mas veja bem, Srta. Swan... Eu não quero impedi-la de quebrar a Maldição. Primeiro porque eu não recebo ordens de ninguém, e segundo porque eu preciso que você a quebre. Porque, enquanto esta maldição não acabar, eu não posso sair daqui. Sob nenhuma forma.
Maleficent tirou a órbita de seu cajado, que se desencaixou facilmente, e entregou-a a Emma. Era um pouco pesado, então ela tomou cuidado para que não caísse. Observando a esfera, notou que havia uma espécie de líquido rosa dentro dela.
– É claro que o beijo de amor verdadeiro é sempre o jeito mais poético de se quebrar uma maldição – disse Maleficent – Mas o que você está segurando é a forma mais prática. Dentro deste globo, está todo o resto da poção de amor verdadeiro dos seus pais que Regina fabricou. Não há mais nenhuma gota além do que está aí dentro, então seja cuidadosa.
– E como eu uso isso? – indagou Emma, perguntando-se se poderia confiar naquela vilã, mas notando que não tinha muita escolha.
– Isso é com você. – respondeu ela – Provavelmente basta despejar toda a poção em alguma fonte de magia da cidade... Quero dizer, deve haver uma. Algum... Lugar onde as coisas perdidas retornam.
Emma já tinha ouvido aquelas palavras antes. Claro, de August. O lugar do qual Maleficent falava era provavelmente o poço dos desejos de Storybrooke, o qual eles tinham visitado algumas vezes.
– E lembre-se, Emma: Você é a única pessoa que pode fazer isso, pois você é a Salvadora.
– Obrigada – ela disse, ainda um pouco desconfortável.
– Mas eu tenho que lhe avisar, Senhorita Swan... Quando a Maldição for quebrada, você e Regina estarão em perigo.
Claro. Estava bom demais pra ser verdade. Emma suspirou, e perguntou:
– Que tipo de perigo?
– Eu. – ela respondeu, com um sorriso maníaco — Veja bem... No instante em que eu estiver livre deste lugar, vou correr atrás da minha vingança. Contra você, Regina... E especialmente contra uma velha inimiga, Aurora.
Ótimo, Emma pensou. Isso era exatamente o que aquela cidade mais precisava: Outra bruxa em busca de vingança. Será que eles nunca teriam descanso? E será que os velhos inimigos de Regina nunca deixariam de aparecer?
– Mas... Por que você quer vingança contra nós? – questionou ela.
Maleficent riu.
– Você ainda pergunta? Você tentou me matar, Emma. Graças a você, eu passei da minha forma de dragão, que já não era tão agradável, para um monte de cinzas amontoadas. Para um espírito moribundo, um morto-vivo ridículo.
– Eu fiz isso porque eu não tinha outra escolha! – defendeu-se Emma – Meu filho estava morrendo, e eu precisava da poção.
– É mesmo? – disse ela, num tom de voz irônico de falsa preocupação – Eu não poderia me importar menos.
Emma fechou os olhos, perguntando-se porque as coisas pareciam nunca acabar.
– E Regina?
– Regina é uma traidora. Na verdade, nós costumávamos ser amigas por muitos anos... Até que ela roubou a Maldição das Trevas de mim. Maldição esta que ela tinha me dado por livre e espontânea vontade. Mesmo após eu tê-la aconselhado a não fazer aquilo, dizer que seria perigoso, que haveria um preço... Ela foi burra o suficiente para lançá-la. E aprisionou sua única amiga sob a forma de dragão por vinte e oito anos! Você tem ideia do quanto é ruim viver em uma constante transfiguração? Regina tem que pagar pelo que ela fez. Ela não se importou nem teve a menor consideração por mim.
Ela parecia realmente magoada enquanto falava tudo aquilo. Emma lhe disse:
– Eu sei. Eu sei que Regina foi... Realmente má um dia, mas ela mudou. É sério, ela mudou. Ela não é mais aquela Rainha Má. Regina agora é uma mãe. Ela se tornou uma pessoa boa. Você disse que a Maldição teria um preço, e você estava certa, ela teve. Regina sofreu muito pelo que fez. Ela... Perdeu muitas coisas, e passou por inúmeros momentos dolorosos nos últimos anos. Ela colheu tudo de ruim que plantou. Mas ela também se redimiu. Ela não é mais essa pessoa. Você tem que acreditar – suplicou Emma – Regina merece uma chance. Talvez vocês possam ser amigas como eram antes, eu não sei, mas se você vê-la novamente, vai entender o que eu estou falando.
Maleficent não pareceu acreditar.
– Ela não poderia mudar – disse – Pessoas como nós nunca mudam. É tão tarde para ela quanto é para mim.
– Não, não é. – insistiu – Você pode ser uma pessoa melhor, como a pessoa que Regina se tornou.
Maleficent não respondeu; apenas olhou para ela com amargura, como se considerasse a si mesma uma pessoa boa até aquele momento.
– E Aurora? O que ela te fez? – perguntou Emma
– Digamos apenas que... Eu tive uma história complicada com a família dela. Passei anos perseguindo sua mãe, e depois ela. O máximo que consegui fazer foi colocá-la sob uma maldição do sono, que foi quebrada por seu Príncipe Phillip. – falou aquele nome com nojo estampado no rosto e na voz – Aliás, eu ouvi dizer que eles tiveram um filho... Agora eu tenho uma terceira geração para machucar.
Emma ficou completamente horrorizada, mas disse, suplicante:
– Por favor, não faça isso. Não fira ninguém. Tente superar o passado.
– Eu não sabia que você estava aqui para me dar lição de moral – retrucou ela, com fúria – Agora, é melhor você ir logo quebrar esta maldição. Seu tempo está correndo.
Emma virou-se para ir embora, mas Maleficent disse algo mais:
– Ah, e por favor, derrote Wilma, ok? Eu não gostei daquela vadia.
Emma virou-se, e respondeu:
– OK. Mas eu acabei de perceber algo.
– O quê?
– Por que diabos eu estou conversando com Maleficent? – dizendo isto, correu até onde a arma estava e apanhou-a. Apontou para a bruxa e apertou o gatilho. Maleficent fez uma cara de espanto quando recebeu o tiro, e por um momento, Emma pensou que tinha conseguido. A feiticeira foi envolta por uma névoa e começou a girar. Em seguida, ela desapareceu.
Mas logo Emma notou que não seria assim tão fácil. Maleficent reapareceu, mas não como estava antes – ela estava gigante, em um tamanho descomunal.
– Você vai precisar de muito mais do que isso para me derrotar, Emma – disse ela, com uma voz sobrenaturalmente alta, e desapareceu em mais uma nuvem de fumaça rosa, sua última risada maléfica ecoando por todo o lugar.
Emma esperou alguns segundos, mas ela não apareceu novamente. Lembrando-se de que ela não podia sair dali, decidiu ir embora logo.
Seguiu pela pequena caverna por onde entrara, até avistar o elevador novamente. Entrou nele e as portas se fecharam.
Enquanto subia, Emma pensava, cheia de frustração, na conversa que acabara de ter. Droga. Por que sempre que algo se resolvia, algum outro vilão tinha que aparecer? Ás vezes, ser quem ela era, a filha da Branca de Neve e do Príncipe Encantado, era quase uma maldição.
Aparentemente, Regina colecionava inimigos no outro Reino, pensou. Mas Emma não se importava, e nem se convencia de que ela merecesse aquilo. Regina podia ter feito coisas monstruosas, mas ela já sofrera as consequências de seus atos – afinal, ela tivera que ver o próprio filho ficando contra ela várias vezes, perdera a mãe, ficara sozinha, e tivera que abrir mão da coisa que mais amava, vivendo um ano inteiro sem ele. Se isso não era pagar por seus erros, então Emma não sabia o que era. Mas agora, depois de tanto sofrimento, estava na hora de ela receber seu final feliz. Afinal, ela se arrependera – ou pelo menos era o que parecia, mesmo que Regina não gostasse de admitir. Porém, parecia que, infelizmente, os fantasmas do passado de Regina não iam parar de atormentá-la tão cedo, concluiu com amargura.
Quando o elevador parou e se abriu, Emma respirou fundo e saiu dele. Tentou tranquilizar-se. “OK Emma, pense em uma coisa de cada vez”. Primeiro, era melhor ela se preocupar apenas com a quebra da Maldição – depois que aquilo fosse resolvido, ela teria tempo para se preocupar com Maleficent. Era melhor dar um passo de cada vez, ou seu cérebro não aguentaria tantas preocupações e temores.
Com a bola de cristal ainda em mãos, ela foi até o Granny’s para pegar seu carro e ir até o poço dos desejos de Storybrooke. Tinha que quebrar aquela maldição logo.
***
Emma estava frente ao pequeno poço de Storybrooke, em meio às árvores altas da floresta. Olhou para o próprio reflexo na água, lembrando-se de quando atravessara um portal ali e voltara para casa com sua mãe. Lembrou-se do abraço reconfortante de Henry, e da alegria que sentiu ao saber que Regina tinha sido a responsável por abrir o portal para elas. O momento em que ela se deu conta de que Regina podia ser uma pessoa boa. O momento em que seus sentimentos começaram a crescer.
Sorriu, e tirou a esfera de cristal do bolso. Quando ela caísse na água do poço e a Maldição se quebrasse, tudo estaria resolvido. Todos se lembrariam de que Wilma era uma vilã, a Bruxa Má do Oeste, e libertariam Regina, que poderia assumir a prefeitura novamente e salvar os órfãos. Ela se reuniria com sua família, e... Uma pequena faísca de esperança dentro dela ainda insistia em sonhar com a mínima chance de que Regina sentisse o mesmo por ela e as duas pudessem ficar juntas. Bem mínima, é claro.
Emma abriu as mãos, e sentiu seu mundo cair quando a bola escorregou e chocou-se contra o chão. Ouviu-a se estilhaçando, sendo reduzida a cacos, e viu a poção rosa se espalhando pela cerâmica cheia de terra que havia ao redor do poço.
Não. Não. Não, não, não. Aquilo não podia ser verdade. Não podia estar acontecendo.
Socou a mão contra a borda do poço, dando um grito de dor e de raiva. Raiva de si mesma. Uma forma tão fácil e prática de quebrar a maldição e ela a destruíra da forma mais banal possível. Colocou as mãos na cabeça, completamente desesperada. Tentou recolher com as mãos o líquido que tinha se espalhado no chão, de forma desesperada, mas ele desapareceu com uma rapidez impressionante.
Droga, por que ela tinha que ter a delicadeza de uma criança? O que ela faria agora? Tudo estava perdido. Não havia como dar um beijo de amor verdadeiro em Regina, nem em ninguém... Ou havia?
Aquele questionamento acendeu uma luz em sua cabeça. Uma luz insana, mas ainda assim era uma ideia. Uma ideia louca, arriscada e desesperada, mas era praticamente o único plano que tinha sobrado.
Emma entrou em seu fusca. Apertou o cinto de segurança e discou o número de Henry em seu celular. Enquanto esperava ele atender, dirigia em direção ao hospital, um plano fervendo em sua mente.
***
Emma sentou-se na cadeira ao lado do homem desconhecido que estava deitado na cama. Ele era careca e parecia ter uma idade avançada. Olhava para aquela porta tentadora, ansiando pelo momento em que poderia executar seu plano.
Olhou para o relógio na parede. Já eram 4 horas. Estava envolvida por seus pensamentos pulsantes quando foi interrompida por um pigarro alto. Olhou para o lado e viu o Dr. Whale encarando-a.
– Posso saber o que está fazendo aqui, Srta. Swan? – perguntou Whale, com uma cara desconfiada.
– Eu vim visitar este... Velho amigo meu – mentiu Emma – Nós nos conhecemos há alguns anos, e eu fiquei sabendo que ele estava em coma, então... Decidi vir vê-lo.
– Ah, é mesmo? – perguntou Whale, não parecendo muito convencido – E você conhece a Senhorita Collins, o contato de emergência dele?
– É claro – respondeu Emma, esperando que ele não perguntasse muitas coisas – Ela era minha amiga também. É por isso que eu vim para a cidade, em primeiro lugar.
Whale assentiu, com a testa franzida.
– Tudo bem. Como você sabe, todos tem permissão para visitar os pacientes de Storybrooke. Só não mexa em nenhum aparelho, ok?
– Ok. E, ah... Doutor... Você poderia me dizer a que horas o expediente da Madre Superiora termina? Eu preciso falar com ela. É algo importante.
– O turno dela termina às 18 horas – respondeu ele – Você provavelmente vai vê-la saindo, já que está em frente à porta que leva à área onde ela trabalha.
Emma assentiu, olhando para a direita, para aquele corredor largo com aquela porta e seu painel eletrônico cheio de dígitos.
– Obrigada – ela disse, sorrindo. Whale virou-se e foi embora.
Não havia muitas pessoas naquela área do hospital – a área para os pacientes nos estágios mais graves, que ficavam apenas repousando na maior parte do tempo – o que a tranquilizou. Olhou mais uma vez para o relógio. Seriam as duas horas mais longas de sua vida.
Antes de ir ao hospital, Emma havia subido até seu quarto para dizer a Henry que tinha um novo plano – sem dar detalhes para que ele não soubesse o quanto o plano era insano – e para pegar um objeto que lhe seria útil: Um binóculo, que ela guardava consigo desde seus tempos de orfanato. Não era muito moderno, mas era realmente eficiente.
Enquanto ansiava pelo fim da interminável espera, ela olhou para o senhor deitado na cama a sua frente. Começou a imaginar porque ele estaria ali, se teria uma família, e várias outras coisas, a fim de fazer com que o tempo passasse mais rápido.
Depois de certo tempo, resolveu sair para comprar um café no Granny’s. Voltou e ficou sentada, esperando.
Quando o relógio finalmente marcava 6 horas da tarde, já não havia mais quase nenhum médico naquele local, e ela começou a ficar nervosa. Olhava fixamente para a porta, desejando que a Madre Superiora saísse de lá logo. No enorme silêncio, não foi muito difícil escutar seus passos subindo a escada ao longe.
Emma agachou-se, ficando atrás da parte de metal da cabine, para não ser vista. Levantou-se alguns centímetros, olhando disfarçadamente pelo vidro, com os binóculos nos olhos. Depois de alguns segundos, conseguiu posicioná-lo de modo a enxergar claramente a porta e a mão da Madre Superiora no painel eletrônico. Ela tinha saído e estava prestes a digitar a senha para trancar a porta, exatamente como Emma esperava. Antes de digitá-la, a mulher olhou para trás, pare ter certeza de que ninguém estava vendo, e Emma abaixou-se bem a tempo. Em seguida, levantou-se novamente, e pôde ver, com o auxílio do binóculo, a senha numérica que ela digitava.
2- 4 – 8 – 6 -7.
Emma repetiu aqueles números mentalmente, com medo de se esquecer, e abaixou-se para não correr o risco de ser vista em uma posição tão suspeita. Assim que viu a mulher atravessando a porta e saindo daquela ala, levantou-se, seu coração pulsando forte.
Saiu da cabine e olhou ao seu redor – não havia ninguém. Andou em passos largos até a porta, e digitou os números no painel, suando pelo medo de ser pega. Entrou e fechou a porta atrás de si. Começou a descer as escadas, andando dois degraus a cada passo, até que chegou ao balcão, onde não havia ninguém.
Por um momento, teve medo de que o que ela procurava não estivesse ali, mas estava – o molho de chaves estava bem ali, sobre alguns papéis. Emma apanhou-o, perguntando-se se a Madre Superiora queria que ela executasse seu plano.
Andou pelo corredor cinzento até chegar à cela de Regina, que olhou para ela, assustada.
– Emma, o que você está fazendo aqui de novo? E que chaves são essas na sua mão?
Emma não respondeu. Apenas enfiou uma chave na fechadura da cela, e conseguiu abri-la.
– Emma – espantou-se Regina – Como você fez isso?
– Não importa. – Emma respondeu – Eu vim te tirar daqui.
Regina balançou a cabeça, num gesto de repreensão.
– Eu te disse para não fazer nada disso, Emma. Desculpe, mas eu não posso sair daqui.
– O quê?
– É muito arriscado, Emma! Se nós formos pegas, eu vou estar ainda mais encrencada! Talvez minha pena até aumente! Emma, você tem que aceitar. Não há mais nada a fazer.
– Não, Regina, eu não vou aceitar. Eu vim até aqui para te tirar desta droga de cela, e eu não vou sair daqui sem você.
Regina suspirou.
– E eu posso saber como nós vamos atravessar o hospital inteiro sem sermos vistas? – perguntou.
Emma começou a pensar. Ela tinha razão. Mas então olhou para a esquerda, e enxergou, no fim do extenso corredor, que havia uma pequena porta ali com os dizeres “Saída de emergência”.
– Há uma saída pelos fundos – disse ela a Regina – Bem ali. Vamos.
***
Talvez por falta de paciência para discutir, ou talvez por confiança nela, Regina aceitou o aperto de mão de Emma e deixou que ela a guiasse até fora do hospital. Saíram pelos fundos e chegaram à calçada. Emma começou a correr, ainda segurando firmemente a mão de Regina, em direção à beira do lago, onde elas não seriam vistas.
Andaram apressadamente por cerca de dois minutos, em silêncio, tendo a sorte de passar por lugares em que não havia ninguém, até que Regina parou de andar e disse:
– Emma, pare. Vamos voltar. Isto é loucura.
– Não, Regina! – exclamou Emma, desesperada – Você não pode ficar lá! Você é inocente! Você tem que voltar para a prefeitura, tem que ajudar os órfãos, tem que... Tem que ficar comigo – permitiu-se dizer.
Regina balançou a cabeça, suspirando.
– Eu sei que é difícil entender, Emma... – disse ela – Eu entendo que você se importa comigo, mas você precisa aceitar. Nós nunca poderemos ficar juntas, e eu nunca terei uma vida feliz aqui. Wilma estará sempre me assombrando, armando contra mim e me pressionando. É triste, mas é a vida. Não podemos fazer nada para mudar isso. Eu já aceitei, e está na hora de você aceitar também.
Emma começou a chorar com a dor daquelas palavras. Regina não podia aceitar aquilo; ela tinha que ser feliz, não podia simplesmente se sentar e aceitar toda a sua desgraça. Naquele momento, Emma percebeu que se importava muito mais com a felicidade de Regina do que a sua própria; mesmo porque se Regina não fosse feliz, ela também nunca poderia ser.
– Como você pode dizer isso, Regina? Nós não podemos aceitar. Não podemos.
– E você acha que me arrastar às escondidas para fora da prisão vai adiantar alguma coisa? Já imaginou o que pode acontecer se alguém, qualquer pessoa, passar por aqui neste exato momento? Eu estaria muito mais ferrada do que já estou. É difícil aceitar a derrota, Emma, mas essa não é a resposta. O que estamos fazendo só vai atrapalhar ainda mais as coisas.
Emma olhou para cima, irrompendo em lágrimas, sem qualquer ideia do que deveria fazer. Por que aquele amor tinha que ser tão difícil? – perguntou a si mesma e aos céus. Por que sempre tinha que haver algo para separá-las? Para separar sua família? Será que elas realmente nunca poderiam ficar juntas, como Regina acabara de dizer? Talvez ela sofresse a terrível sina do amor impossível, pensou.
Tudo o que Emma mais queria era que ela, Regina e Henry pudessem ficar juntos para sempre, como uma família normal, sem que nenhum perigo os ameaçasse ou os separasse. Ela só queria arrastar Regina até a prefeitura, tirar Wilma de lá e ficar com ela para sempre. Mas aquilo não seria possível, concluiu. Regina começou a chorar também, e Emma tocou seu rosto. Era como se a dor das duas estivesse conectada, percebeu.
– Por que tudo tinha que ser tão difícil? Por quê? – questionou. Regina não respondeu. Apenas continuou chorando, e se aproximou ainda mais de Emma, tocando sua face com uma mão e acariciando seu cabelo com a outra. Aquele momento prazeroso era quase como uma tortura, pois Emma tinha plena consciência de sua finitude.
Quando seus rostos estavam a míseros milímetros de distância, Emma deixou-se intoxicar pela respiração quente de Regina, desejando que nunca tivesse que se despedir dela. Quando suas bocas se encontraram, Emma despejou naquele beijo toda a dor, toda a saudade, todo o amor, desejo e tristeza que sentia ao mesmo tempo. Os lábios de Regina estavam quentes e molhados pelas lágrimas; seu sabor adocicado era, de longe, o melhor sabor que já passara pela boca de Emma.
Emma sentiu faíscas quando suas línguas se tocaram, mas não foi só isso; ao seu redor, um vento forte surgiu, como uma brisa que surgira no meio delas e se espalhara por todo o local; um vento forte e repentino que fez seus cabelos esvoaçarem, junto com um estranho ruído.
Emma e Regina interromperam o beijo ao mesmo tempo, ambas com a mesma expressão de confusão.
– O que foi isso? – perguntou Emma, olhando ao seu redor e se assustando ao ver que algumas pessoas começavam a aparecer ali.
Olhou para Regina. Ela encarava o chão, respirando pesadamente, com uma expressão atônita, como se estivesse em choque.
– Emma – ela disse, com certa urgência na voz.
– O quê?
– Emma! – exclamou ela mais uma vez, começando a sorrir – Emma, eu me lembro!
A princípio, Emma não entendeu, mas logo uma luz surgiu em sua mente e um largo sorriso invadiu seu rosto.
– Você se lembra? – exclamou, algo começando a se espalhar por seu interior.
– Sim! Eu me lembro de você, Henry e de tudo! Nós estávamos dizendo adeus, e... Oh Deus, eu pensei que nunca mais nos veríamos! Emma, eu me lembro! – repetiu, dando ênfase à enorme felicidade contida naquela sentença.
Em lágrimas – agora de alegria – as duas se aproximaram mais uma vez, mas não para outro beijo; ao invés disso, elas se abraçaram. Um abraço forte, apertado, quente e reconfortante, um dos melhores abraços que Emma já dera em alguém. Naquele gesto, demonstravam toda a falta que sentiram uma da outra, toda a dor que tinha ido embora, todo o amor e toda a felicidade descomunal que de repente as invadira.
Envolvendo seus braços ao redor de Regina com força e desejando nunca ter que interromper aquele toque, as lágrimas de alegria aumentavam cada vez mais. Ela se lembrava. Emma mal pôde acreditar. Depois de tanto tempo, depois de tanta dor, tanta aflição e sofrimento, a mulher que ela amava finalmente se lembrava dela. E do seu filho. Eles poderiam ser uma família novamente.
– Você me salvou – disse Regina, a voz repleta de alegria.
– Sim. Eu te salvei – respondeu, duvidando que algum dia estivera tão contente e orgulhosa de si mesma.
Quando elas se separaram, ainda sorrindo de orelha a orelha, Emma percebeu outra coisa.
– Então, isso quer dizer que... Isso foi um beijo de amor verdadeiro. O que significa que veio de ambas as partes – observou.
Regina observou-a, sem responder, apenas sorrindo.
– Então você... Você sente o mesmo, Regina? Você sente o mesmo que eu?
Regina riu, como se aquela pergunta fosse ridícula, e a chama dentro de Emma se extinguiu um pouco.
– Você está me perguntando se eu sinto o mesmo? – riu ela.
Mas para a surpresa de Emma, logo após dizer isso, Regina avançou para outro beijo, muito mais intenso. Seus línguas se envolveram uma na outra, seus lábios grudados.
Quando as duas se separaram para respirar, Regina disse, com a voz embargada:
– Todos esses meses, eu estive chorando e sofrendo, desejando que você e Henry estivessem comigo. Desejando que minha família estivesse ali. Eu fiz uma poção com o cabelo dos seus pais para que você fosse a Salvadora, e quando a Maldição se abateu sobre o Reino, a última coisa na qual eu pensei foi que você viria me salvar, e tudo isso porque eu amo você, Emma.
Emma respirou aliviada ao ouvir aquelas palavras que apagaram todos os seus temores. Tivera tanto medo de que nunca fosse ouvir Regina falando aquilo, e agora ela sabia que Regina também a amava. Emma puxou-a para mais um beijo, ignorando o mundo ao seu redor, enquanto as pessoas na rua começavam a se reunir e abraçar umas às outras, todos contentes por terem suas memórias de volta. Emma deixou-se envolver pelos lábios macios de Regina, desejando que Henry aparecesse ali, mas lembrando-se que eles teriam todo o tempo do mundo para ser uma família. Afinal, Regina se lembrava dela, e sentia o mesmo. Não permitira que nada mais os separasse.
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