Notas iniciais
Fiquei até de madrugada escrevendo esse capítulo, então espero umas reviews bem legais #run

You can't trust a cold blooded woman

She'll love you and leave you for dead

It's one thing you must understand

You can't trust a cold blooded woman


Sentada no sofá, Regina bebeu todo o uísque do copo de uma só vez, tentando relaxar antes da luta. Junto com o gosto do álcool, cada mínimo resquício de apreensão e culpa foi embora. Emma já estava no fim da rua com David, escondida, aguardando sua ligação, que não chegaria. Henry estava na casa de Mary Margaret, provavelmente preocupado.

Olhou para as chamas que dançavam na lareira. Para se livrar de vez do sentimento de culpa pelo que estava prestes a fazer, ela decidiu pensar em tudo de desprezível que sua irmã tinha feito — Fazê-la trabalhar como uma escrava, agredi-la, incriminá-la por algo que ela não fizera, ter roubado os créditos por seu trabalho no orfanato e, posteriormente, obrigado-a a fechá-lo. Minutos após receber a notícia de que estava oficialmente livre e poderia voltar à prefeitura, Regina sentara-se em seu gabinete, em sua cadeira de couro, e consertara tudo o que estava errado — ou quase tudo. Com apenas alguns telefonemas e assinaturas, ela reabrira o orfanato da cidade, cancelara a viagem dos órfãos para Boston, e consertara toda a fiação e luz elétrica de Storybrooke.

Além da satisfação em saber que estava fazendo algo certo, Regina sentia também um prazer que provavelmente não deveria alimentar, mas não conseguia resistir — o prazer de estragar tudo o que Wilma planejara, de reverter tudo o que ela causara, de ver que, no final, todos os planos da irmã tinham desmoronado como um castelo de areia. Agora, depois de subir ao poder novamente, só lhe restava destruí-la de vez. Dentro de sua mente, ela ouvia a voz de Emma e Henry, como acusações de sua própria consciência; heróis não se vingam, heróis não destroem... Heróis não matam. Começou a perguntar-se se valeria a pena colocar em risco a confiança de Henry e Emma que conquistara tão arduamente, mas em outro canto de sua mente, a raiva falava mais alto.

Regina, de certa forma, gostava da sensação de torturar pessoas que lhe causavam raiva, de punir aqueles que, de alguma forma, prejudicavam seus objetivos e iam contra suas vontades. Fora uma forma que ela encontrara de extravasar toda a raiva que ela tinha de seu próprio passado, de sua mãe, de Rumplestiltskin, e de todas as outras pessoas que ela jamais poderia prejudicar. Ela conseguira resistir àquele impulso doentio por muito tempo, mas isso, concluiu, fora porque ela se mantivera afastada de Henry e Emma. Porque ver alguém que ela amava sofrendo, sendo prejudicado, despertava nela um ódio ainda maior.

Não era apenas ela que Wilma havia prejudicado — com seus planos, ela fizera Emma sofrer bastante, e Henry também. Só de pensar em Henry chorando, na dor inundando os olhos verdes de Emma, crescia dentro dela um enorme desejo de justiça — mais do que isso, de vingança. De fazer a pessoa responsável por aquilo sofrer uma dor ainda mais terrível. Ela tinha esperanças de que, depois de matar Wilma, ou torturá-la, ou o quer que decidisse fazer com ela, os dois a compreenderiam — afinal, eles também sofreram por culpa dela. Ou talvez não — talvez eles jamais a perdoassem, mas Regina preferiu ignorar aquela possibilidade. Não sabia o que faria, como se explicaria ou como seria sua relação com Emma e Henry depois do que ela fizesse — naquele momento, só se importava em transformar o sorriso escarnecedor de Wilma em uma expressão de absoluto sofrimento.

Causar dor era o que ela fazia de melhor. Não sabia se valia a pena, ou se aquilo realmente a fazia feliz — depois de conhecer a sensação de ter uma família, ela achava que provavelmente não — mas flagelar seus inimigos era definitivamente satisfatório. E, ainda que fosse uma satisfação momentânea, era uma satisfação fácil.

No momento em que os ponteiros do relógio na parede marcaram meio dia, Regina ouviu a porta sendo destrancada. Levantou-se, assustada, e andou até a porta, seus saltos batendo contra o chão de forma quase intimidante. Quando ela foi aberta, os olhos azuis e frios da irmã a encararam entre as colunas de pedra.

– É engraçado entrar pela porta da frente de novo — ela disse.

O coração de Regina gelou. Como ela poderia não ter se lembrado de que Wilma tinha uma cópia da chave? Durante a última noite, a qualquer momento, ela poderia ter entrado e ferido um deles. Poderia ter machucado Henry quando ele estivera em casa sozinho mais cedo, percebeu com calafrios. No entanto, ela não fizera nada.

Regina tomou a chave das mãos de Wilma bruscamente. Em seguida, conjurou uma bola de fogo na mão direita e a queimou, até que ela derretesse completamente.

– Assustada, Regina? – indagou ela – Se esqueceu de que, há algumas semanas, eu tinha livre e total acesso a esta casa?

– Mas você não tem mais — rebateu Regina, firmemente — E nem vai ter. Nunca.

Wilma sorriu, em deleite, e entrou, examinando cada detalhe da sala de estar com um olhar minucioso.

– Quanto a isso, veremos.

Regina fechou a porta, e a trancou com um movimento das mãos. Se Emma tivesse visto-a entrar, provavelmente já estava esperando pela ligação. E se Regina não lhe telefonasse, ela iria até lá para saber o que estava acontecendo. Não poderia deixar que Emma entrasse.

– Você não foi tola o suficiente para descumprir o combinado, foi, Regina? – questionou Wilma.

– Não. Como prometido, não há ninguém aqui. Somos só você e eu.

– Não se importa se eu verificar, certo?

Dizendo isto, Wilma conjurou uma densa fumaça verde que percorreu toda a casa. Regina conhecia aquela magia; se houvesse mais alguém ali, a fumaça voltaria até ela em uma coloração vermelha. Porém, como esperado, ela voltou para Wilma no mesmo tom verde-escuro.

– Interessante – observou Wilma – Vejo que, apesar da sua longa lista de defeitos, você é uma mulher de palavra, Regina.

Regina riu. Ouvir aquilo de sua irmã era, no mínimo, muito irônico.

– Você não deveria estar verde? – indagou Regina, querendo provocar, embora realmente estivesse em dúvida.

– Perdão?

– Há magia aqui novamente. Você não deveria ter voltado à sua... Cor original?

– Ah, Regina... Eu sei que você está decepcionada em ver que eu ainda sou mais bonita do que você. – disse ela enquanto caminhava pela sala, ao que Regina respondeu levantando a sobrancelha esquerda — Minha “cor original” é esta, irmã. Eu não nasci verde. E a Maldição das Trevas anula todas as outras maldições, se lembra?

Regina assentiu, lembrando-se de ouvir aquelas mesmas palavras de Rumplestiltskin, 30 anos atrás. Olhando para o rosto de Wilma, ela não via nenhum traço de si mesma estampado na irmã. Talvez os traços de Rumple fossem mais marcantes, deduziu, enquanto a observava andando por sua sala, analisando seus quadros, decorações e retratos de forma curiosa. Aquilo irritou Regina um pouco; por que elas estavam agindo tão cordialmente? Não estavam ali para tentar derrotar uma a outra? A fim de “esquentar” um pouco as coisas, Regina rebateu a provocação:

– Acho que é você quem deve estar decepcionada – disse – Afinal, sua Maldição não durou nem dois meses, e apesar de todos os seus esforços, eu não fiquei nem um dia inteiro na cadeia. Já reabri o orfanato e, em breve, vou recontratar Tinker... Ainda não percebeu, Wilma? A Rainha nunca perde.

– E ainda assim, fui capaz de fazer coisas que você nunca imaginou, como usar magia em um lugar onde ela não existe – retrucou Wilma.

Ao lembrar-se daquilo, Regina perguntou:

– Como você fez isso? Como conseguiu usar magia fora da cripta que, por sinal, você roubou de mim?

Wilma parecia satisfeita por deixá-la confusa.

– Como você deve saber – explicou – Objetos mágicos possuem magia independente, que não se afeta pelo ambiente ao seu redor. E eu tinha um objeto mágico. Quando eu era pequena... Bem pequena... Cora me deu um colar com uma esmeralda de presente. Mas não era uma simples esmeralda. Se você olhasse bem de perto, era possível ver a imagem de Cora refletida na joia, sorrindo e acenando para mim. Sempre os mesmos movimentos. – enquanto dizia isto, Wilma pareceu abandonar um pouco a sua raiva, pois seu olhar demonstrava fragilidade, como se as lembranças fossem dolorosas.

Regina lembrou-se de que Wilma realmente usava um colar com uma esmeralda; estivera usando-o na maior parte das vezes em que Regina a vira, até pouco tempo atrás. Em sua mente, surgiu uma imagem de Cora segurando uma pequena garota de cabelos castanhos e olhos azuis. Ainda não se acostumara à ideia de que tinha uma irmã, e era mais estranho ainda pensar em Cora cuidando de outra criança. Regina balançou a cabeça, tentando desviar-se de qualquer pensamento que pudesse despertar nela compaixão pela irmã.

– Cora me dizia que eu deveria sempre usá-lo, para que nós duas estivéssemos sempre juntas, não importava aonde ela fosse. – Wilma deu um riso amargo, misturado a uma voz embargada de choro – Bastante irônico da parte dela, visto que foi ela própria a responsável por nossa separação definitiva.

Regina lembrou-se do anel de noivado de Daniel que guardara durante tantos anos. Ele era um objeto mágico; tanto que ela conseguira usá-lo para abrir um portal com o chapéu de Jefferson, alguns anos antes. E ele, de fato, possuía uma magia independente; estava sempre mostrando o rosto de Daniel, em qualquer lugar.

– Enfim – continuou ela, enxugando os olhos, mesmo que ainda não tivesse derramado nenhuma lágrima – Tudo o que tive que fazer foi queimar a esmeralda, com o tipo certo de fogo, é claro. Em seguida, eu só precisei pegar suas cinzas e jogá-las no livro de feitiços. Assim que o abri, meu corpo absorveu uma enorme quantidade de magia... Autônoma, por assim dizer.

Regina sentiu-se um pouco tola e ingênua com aquela informação; durante todos aqueles anos de Maldição, nunca passara por sua cabeça que havia uma maneira tão fácil de conseguir usar magia em Storybrooke – isso certamente teria facilitado muitas coisas. Mas provavelmente, concluiu, ela nunca seria capaz de queimar o anel de Daniel.

– Por falar em magia, Regina... Eu fiquei sabendo que você e Emma tiveram algumas... Aulas de magia na cripta da nossa família.

Regina se incomodou com o “da nossa família” que ela usou na frase; não achava que Wilma fosse digna de dizer aquilo, mas perguntou:

– Você esteve nos observando?

– Não importa. Você tem certeza de que é uma boa ideia ensinar magia para a Emma, Regina?

Regina ficou confusa.

– O que você quer dizer?

– Você, mais do que ninguém, sabe o quanto esse tipo de poder é sedutor e perigoso. E se Emma se encantar pelas inúmeras possibilidades da Magia das Trevas? Convenhamos, a vida dela não é tão fácil...

Regina descartou totalmente a possibilidade.

– Eu não estou ensinando magia das trevas! E, além disso... Emma é uma pessoa boa. Muito boa. Ela nunca entraria pelo caminho no qual eu entrei. Nunca.

Wilma sorriu, não muito convencida.

– Todos nós fomos pessoas boas um dia – insistiu ela – Mas Emma tem seus fantasmas e mágoas do passado, e um pouco de ódio em seu coraçãozinho apenas esperando para ser alimentado... Eu vi a raiva nos olhos dela. Ela inclusive ameaçou me matar várias vezes. E, não se iluda, Regina... Ela vai se deixar seduzir pela magia. Agora que ela provou o gosto do sangue, não há mais volta.

Regina assustou-se bastante com aquilo. Ela não sabia, nem imaginava que Emma havia ameaçado matar Wilma. Assassinatos ainda pareciam algo natural quando vindos dela, mas ela não esperava aquilo de Emma. Ela sempre lhe parecera uma pessoa tão incrivelmente boa e virtuosa... E o que a irmã estava falando, mesmo que ela não gostasse de admitir, era verdade. “Pessoas machucadas + magia” era uma combinação perigosa. E o poder de Emma era grande – bastava aprender a usá-lo, e ela poderia fazer quase qualquer coisa. Perguntou-se se deveria continuar ensinando-lhe magia. Não queria corromper Emma como ela fora corrompida. Pensar naquilo fez com que a culpa dentro dela despertasse, lembrando-se de que ela estava traindo a confiança de Emma, então decidiu fugir do assunto.

– Você tem alguma outra pergunta antes de começarmos? – indagou Wilma, analisando as garrafas de bebida no armário de vidro de Regina.

Regina pensou, e respondeu:

– Sim, eu tenho. Como foi que você lançou a Maldição? Rumplestiltskin colocou-a em um único pergaminho, o qual eu destruí há um ano. No entanto, você conseguiu achar outro. Como isso é possível?

Wilma sentou-se no sofá para responder. Mesmo irritada, Regina permitiu.

– Você sabe muito menos do que pensa, Regina. Veja bem... Rumplestiltskin não criou um único pergaminho. Ele criou dois.

– Dois?

– Sim. Ele temia que, talvez, você não fosse capaz de lançar sua maldição, ou que se livrasse dela por falta de interesse... Aliás, você confirmou as suspeitas dele quando a deu à sua amiga Maleficent. Então ele criou um... Pergaminho reserva, caso, algum dia, outra aluna se mostrasse capaz de cumprir seus objetivos.

– E como você descobriu isso?

– Bem, digamos que eu fiz uma pequena e boa pesquisa na Floresta Encantada no último ano. Assim que descobri isso, tudo o que tive que fazer foi descobrir onde o pergaminho reserva se encontrava, o que não foi tão difícil. Estava escondido em seu castelo abandonado, dentro de seu cofre. O cofre só poderia ser aberto com magia de sangue, mas visto que eu sou a filha dele, isto não foi exatamente um problema.

Wilma levantou-se, parecendo pronta para começar o duelo. Mas em vez disso, ela andou até a mesa de vidro sobra a qual estavam distribuídas inúmeras garrafas de uísque e porta-retratos; a maioria com fotos de Henry. Wilma pegou um deles, que mostrava Regina e Henry abraçados no cais de Storybrooke. Embaixo, o nome do garoto estava gravado em letras cursivas.

– É um bonito nome – observou ela – Henry.

Ouvir Wilma pronunciando o nome dele fez seu sangue começar a ferver.

– É por causa do seu pai, não é? Henry... Sabe, ele era uma boa pessoa.

– Não fale sobre ele – advertiu Regina — Não pronuncie o nome dele!

– Por quê? Você vai agir com ciúmes e proteção sobre o pai que você matou por vingança? Você não o merecia, Regina. Não possuo lembranças muito claras dos três breves anos que eu vivi com Cora, mas eu me lembro de que Henry era um pai doce e amável. – Wilma sorriu ao falar sobre ele — Em meio a todos os castigos de Cora, sua voz reconfortante era meu único refúgio. Ele não merecia estar casado com aquela mulher, e não merecia ter sido morto pela própria filha. E por uma maldição que nem sequer durou.

Regina estava cada vez mais irritada ao ver sua irmã julgando-a por seus erros do passado. Porém, ao ouvir a última frase, ela lembrou-se de uma última dúvida sobre Wilma:

– Falando sobre maldições – disse ela – Eu tenho uma última pergunta.

– Sou toda ouvidos.

– Para lançar a maldição, é necessário um sacrifício. O coração da pessoa que você mais ama. Não há como lançar a Maldição das Trevas sem fazer este sacrifício.

– Então você quer saber que coração eu usei?

– Exatamente.

– Eu posso te responder, Regina, mas devo lhe avisar que você provavelmente não vai gostar da resposta.

– Experimente.

Wilma suspirou, enquanto andava até a parede oposta.

– Sabe, Regina... O amor é algo confuso e complicado. Você não escolhe amar alguém; Não é um sentimento que se possa controlar. Ele simplesmente... Acontece.

Regina sabia muito bem do que ela estava falando. Jamais escolhera amar Emma, e por muito tempo, tentara se livrar daquele sentimento, mas era simplesmente impossível.

– Por isso – continuou ela – Muitas vezes, nós amamos pessoas que não são merecedoras de nossos sentimentos. Pessoas que só nos causam sofrimento, e que não se importam conosco. É triste, mas como eu disse, não se pode controlar o coração humano. A não ser, é claro, que você o tenha em suas mãos. E a coisa que eu mais amava... Bem, acho que você já entendeu.

Regina começou a ofegar, entrando em choque ao perceber o que aquilo significava.

A coisa que Wilma mais amava era Cora. Sua mãe. Cujo túmulo, muito convenientemente, estava dentro de seu castelo antes da maldição. O castelo no qual Wilma passara um longo tempo.

Regina não pôde acreditar, e lágrimas queriam escapar-lhe aos olhos. No entanto, ela as segurou, e permitiu-se ser tomada pela raiva.

Mesmo que ela soubesse que Cora estava morta e que não havia como trazer os mortos de volta à vida, manter o coração da mãe no peito era como uma forma de preservá-la. Uma forma de manter vivo o seu último momento, no qual seu olhar demonstrara amor verdadeiro por Regina. No qual ela dissera que Regina seria o suficiente. Wilma não tinha o direto de violar aquilo; não tinha o direito de destruir o coração de sua mãe, fazendo-a voltar a ser apenas um corpo vazio.

Regina sentiu um impulso incontrolável de enforcar Wilma, torcer seu pescoço até que sua vida fosse completamente arrancada. Deixou-se ser tomada pelo ódio, e percebeu que sua magia estava fluindo.

Olhou para o sorriso sádico da irmã, que deu uma longa risada, deliciada com a frustração de Regina. Regina olhou para a mesa de vidro ao lado. Levantou a mesa com sua magia e atirou-a contra Wilma, mas ela foi mais rápida; desapareceu em uma nuvem de fumaça, e a mesa chocou-se contra a parede, quebrando-se em um estalo alto. Garrafas quebradas, porta-retratos rachados e poças de uísque se espalharam pelo chão.

– Vejo que você já quer começar – observou Wilma, reaparecendo ao lado dela.

– Agora – respondeu Regina

– Mas antes de começarmos este duelo, irmãzinha, devemos esclarecer algumas regras... Ou melhor, uma única regra. Somente uma de nós sairá viva desta casa hoje.

– Eu concordo. — apoiou Regina.

– E não vai ser você – disse Wilma, com desprezo. Em seguida, com um rápido movimento das mãos que Regina não pôde prever, ela criou uma espécie de redemoinho poderoso, que tirou Regina do chão e lançou-a em direção ao outro lado da sala. O armário e a cômoda voaram, espatifando-se, mas antes que Regina se chocasse contra o chão, ela conseguiu controlar a ventania; manteve-se parada no ar por alguns segundos e, em seguida, voltou-se para o outro lado. Voou com tudo em direção à irmã. Quando chocou-se contra ela, as duas caíram no chão, Regina em cima de Wilma, suas mãos em seu pescoço.

Regina deu um forte empurrão na irmã e jogou-a contra a parede. Olhou para cima. Usando sua magia, retirou o lustre do teto e usou a corrente que o mantinha pendurado para amarrá-la.

Encostada na parede com as correntes ao redor da cintura e dos braços, Wilma tentou se desvencilhar com magia, mas Regina continuava pressionando as correntes contra o seu corpo, insistente. Por fim, Wilma desistiu. Ofegou e disse:

– Você é mais forte do que eu pensei. Droga.

Regina continuava encarando-a, repleta de fúria, pensando no que deveria fazer para puni-la.

– O que você vai fazer? – questionou Wilma.

Uma ideia passou pela mente de Regina.

– Você tirou o coração da minha mãe – disse ela – E agora eu vou tirar o seu.

Andou até Wilma e, segurando-a contra a parede, introduziu a mão direita em seu peito esquerdo. Aprofundou-a, enquanto Wilma gemia de dor, até sentir a pulsação em suas mãos. Tirou a mão de dentro dela bruscamente, olhando para o coração da irmã. Manchas negras se espalhavam por toda a sua extensão.

– Tão negro... – disse ela, enquanto Wilma ofegava.

– Tão negro quanto o seu – rebateu ela.

– Meu coração não está mais negro! – protestou Regina, mesmo sem muita certeza – Eu acho...

– É mesmo? Se você tivesse um coração puro, não estaria prestes a matar a própria irmã.

Regina olhou para o órgão pulsando em suas mãos. Matá-la seria tão fácil, tão sem graça.

– Quem disse que estou prestes a te matar? Primeiro você precisa sofrer bastante.

Dizendo isto, apertou os dedos firmemente ao redor do coração. Soltou Wilma das correntes apenas para que ela pudesse se debater em agonia. A bruxa caiu no chão, gemendo e se contorcendo de dor, os olhos escancarados enquanto Regina apertava seu coração cada vez mais.

– Não vai pedir por misericórdia? – provocou.

– Nunca! – exclamou Wilma, a voz sufocada pela dor.

De repente, a campainha soou. O coração de Regina deu um salto.

– Regina? – disse a voz de Emma do outro lado – Você está aí? O que está acontecendo?

Regina parou de apertar o coração da irmã um pouco e resolveu ficar em silêncio, mas Wilma deu um longo riso de satisfação.

– O que você vai fazer agora, hã? O que vai dizer para a sua namoradinha?

– Regina, abra a porta! – exclamou a voz grave de David. Ela continuou em silêncio.

Cinco segundos depois, a porta caiu ao chão com um chute de David. Com uma arma em mãos, ele foi até as duas e disse:

– Vocês duas estão presas em nome da lei! – mas Regina levantou-o do chão com a mão esquerda, e começou a sufocá-lo. Não sabia bem o porquê, mas estava dominada por muita raiva e precisava descontar em alguém. Irritou-se um pouco com a forma que David falou em prendê-la, sem se importar que ela estivesse com Emma, e lembrando-se de como ele fora inicialmente contra o relacionamento das duas, sobre como ele julgara Regina como indigna do amor de Emma, um ódio por ele começou a crescer dentro dela.

Porém, sua tortura foi rapidamente interrompida quando Emma entrou.

– O que diabos está acontecendo aqui? – exclamou ela, com a expressão atônita, olhando para os móveis e objetos quebrados pela sala e para Wilma contorcendo-se no chão.

A voz de Emma foi o suficiente para que Regina soltasse David, e ele caiu ao chão. Emma correu até ele, ajudando-o a se levantar.

– Pai! Você se machucou?

– Estou bem. – ele respondeu, passando a mão no pescoço.

Emma andou até Regina, e ela percebeu, com remorso, que havia lágrimas em seus olhos.

– Por que você tinha que fazer isso, Regina? – questionou, com a voz trêmula – Por quê?

Regina olhou para baixo, começando a perguntar-se se ela realmente estava preparada para pagar um preço tão alto por rápidos momentos de vingança.

– Coloque o coração dela de volta – ordenou Emma.

– Mas, Emma... Ela precisa pagar...

– Coloque o coração dela de volta.

Regina andou até Wilma, incrédula. Abaixou-se, e com o coração em mãos, aprofundou sua mão no peito de Wilma novamente. Soltou o órgão em seu devido lugar, enquanto ela respirava aliviada, e dizia:

– Então Cora estava certa. O amor é uma fraqueza.

Regina ignorou-a, e olhou para Emma, seus olhos suplicando perdão. Mas os olhos verdes da loira responderam-na com uma frieza dolorosa.

David levantou-se e apontou a arma para Wilma, mas ela desapareceu.

– Droga! – exclamou ele – Nós a perdemos novamente! E por sua culpa – disse, virando-se para Regina.

– Vire-se de costas, Regina – ele disse, pegando um par de algemas do bolso. Regina olhou para ele, e dele para Emma.

– Não vai rolar – disse, e em seguida, conjurou um forte vento que empurrou ambos porta afora. Assim que eles foram jogados para fora da casa, Regina reergueu a porta com um movimento das mãos, encaixou-a nas dobradiças e trancou-a novamente.

– Regina, abra essa porta! – exclamava a voz trêmula de Emma do outro lado, aumentando sua dor.

Regina apoiou as costas na porta, fechou os olhos e começou a chorar, tentando ignorar a voz de Emma.

– Ok pai, precisamos levá-lo a um médico. Você não está bem – ouviu-a dizendo, e notou, com uma culpa crescente, que David respirava pesadamente.

– Mas nós temos que prendê-la, Emma!

– Não se preocupe. Eu te levo até o hospital e volto aqui para prendê-la – prometeu, ao que David se calou.

Regina ouviu os passos dos dois se distanciando, e sentou-se no chão, chorando desesperadamente. Não tinha mais raiva de Wilma, nem de David, nem de ninguém – a raiva que ela sentia agora era totalmente direcionada a uma única pessoa: ela mesma.

***


Regina continuou chorando por cerca de dez minutos, quando escutou a voz de Emma do lado de fora mais uma vez.

– Regina, por favor, abra a porta. Eu prometo que não vou te prender. Eu posso simplesmente dizer ao meu pai que você fugiu e ir embora, mas Henry está aqui. Ele quer conversar com você.

Henry. À menção de seu nome, Regina levantou-se e destrancou a porta, abrindo-a por completo. Emma encarava-a com olhos inchados, e Henry parecia prestes a chorar também.

– Henry! – ela exclamou, tocando o rosto do garoto, mas ele afastou sua mão.

– Eu vim ver se você estava bem – disse ele, com frieza. – Mas vejo que você está mais do que bem. Afinal, você estava fazendo mal a outra pessoa.

Aquilo pegou Regina desprevenida.

– Eu fiz mal a alguém que também me prejudicou muito, Henry! – protestou ela.

– Não importa. Eu achei que você estava disposta a mudar por nós, mãe, mas vejo que me enganei. E se você não quer mudar por nós... Significa que você não nos ama de verdade.

Regina se sentiu a pior pessoa do mundo, mas o que Henry estava falando era absurdo. É claro que ela os amava, e mais do que tudo. Mas naquele momento, notou, a imagem de heroína que Henry costumava ter dela estava completamente arruinada.

– Henry está certo, Regina – interveio Emma – Você prometeu a ele que seria uma pessoa melhor. E você me prometeu que não lutaria com Wilma. Mas você está sempre quebrando suas promessas, sempre caindo nos velhos erros de novo. Por que, Regina? Por que você não poderia ter simplesmente prendido-a como eu falei? Por que você tem sempre que querer vingança?

– Me desculpe, Emma, mas essa mulher me fez muito mal! Emocionalmente e fisicamente! Ou você se esqueceu das feridas que ela me causou? Aliás, ela fez todos nós sofrermos! Ela esteve jogando conosco e nos torturando de diferentes formas nas últimas semanas, então sim, eu queria que ela pagasse!

– Ela iria pagar, Regina. Ela iria pagar pelo que fez se você tivesse ajudado, mas da forma certa; na cadeia, não sendo torturada ou tendo o seu coração arrancado. Isso é desumano.

Henry tinha se calado; apenas observava a discussão, assustado. Regina tentava, a todo custo, encontrar algum argumento que pudesse convencê-la, que pudesse fazer Emma compreender seus motivos e perdoá-la.

– A justiça convencional não seria o suficiente para ela – insistiu – Eu preciso fazê-la pagar com minhas próprias mãos. Só assim ficarei satisfeita. Sinceramente, Emma, você me perdoou depois de eu ter tentado te matar, tentado matar seus pais, ter matado Graham, e agora não vai me perdoar por ter desejado me vingar de alguém que só me fez mal?

Emma assumiu uma expressão de choque, e Henry também. Só então Regina percebeu que falara demais; nenhum deles sabia que ela fora a responsável pela morte de Graham. Ela nunca tinha revelado isso a ninguém.

– Você o quê? – exclamou Emma, completamente pasma – Você... Você matou Graham?

– Me desculpe – disse ela, tentando se explicar – Você sabe que eu estava com inveja da relação de vocês, e eu... Eu... Sinto muito.

– Você tem ideia – bradou Emma, com o rosto assumindo uma coloração vermelha – de por quanto tempo eu achei que a morte dele tivesse sido causada por um enfarto? E agora, depois de tanto tempo, você vem me contar uma coisa dessas? Você o matou?

Regina não esperava que ela fosse ficar tão chocada; afinal, já fazia bastante tempo.

– Isso foi há dois anos! – protestou – Eu nunca faria isso de novo, se pudesse voltar atrás.

– É mesmo? E quem garante que você não vai ficar com ciúmes e me matar se me vir conversando com algum homem? Se você fez isso com o Graham, o que a impede de fazer comigo?

– Como você pode pensar que eu, algum dia, seria capaz de te machucar? – falou Regina.

– Talvez não a mim, mas você acabou de mostrar que é capaz de machucar as pessoas que eu amo. Afinal, você acaba de tentar matar meu pai enforcado!

– Ele não chegou nem perto de morrer! E eu estava com raiva porque ele tentou intervir na nossa relação, me desculpe.

– Isso não te dá o direito de tentar enforcá-lo! – gritou Emma.

Henry observava a tudo em silêncio, recostado em uma das colunas de pedra, chorando. Regina queria consolá-lo, mas sabia que ele reprimiria o gesto.

Suspirou. A cada segundo sua vontade de chorar aumentava, principalmente porque sabia que Emma estava certa, mas não conseguia abandonar o instinto de defender suas ideias a qualquer custo.

– Regina, se você quiser ter uma família – continuou ela – Você não pode continuar saindo por aí e matando todos que te fazem mal. Não podemos continuar fingindo que isso é normal e aceitável, porque não é. Como você quer que o Henry tenha um crescimento saudável com uma mãe assassina?

– Eu pensei que você me amava – rebateu Regina – Mas você não é capaz de aceitar quem eu sou.

– Você acha que é uma assassina, Regina? – retrucou Emma, irritada — Realmente acha que esse monstro é a Regina verdadeira? Eu sei que não é. Minha mãe me contou histórias sobre quando você era uma jovem que a salvou de morrer num cavalo desgovernado. Ela me disse que, um dia, você foi uma pessoa gentil, bondosa... E feliz. Você pode achar que ser uma vilã faz parte de você, Regina, mas não faz. Eu vi a verdadeira Regina. Poucas vezes, mas vi. A verdadeira Regina é uma pessoa maravilhosa, divertida, altruísta, bondosa. Não alguém que mataria a própria irmã. Eu só... Eu só queria que você percebesse isso também. Que você tentasse despertar esta Regina verdadeira que ainda vive aí dentro, para que nós pudéssemos ser uma família feliz.

Regina começou a chorar. Ela odiava admitir, mas era verdade. Matar pessoas, torturar, se vingar – nada daquilo fazia parte do seu verdadeiro eu, da Regina com a qual ela nascera e fora realmente feliz. Tudo aquilo era somente uma maneira que ela arranjara de escapar da verdadeira Regina, porque seu passado era doloroso demais para encarar.

– Eu só quero que você se liberte de todo este ódio, Regina – continuou Emma – Porque você nunca vai ser realmente feliz enquanto não deixá-lo de lado.

Regina percebeu que era verdade; ela estivera tão concentrada em abandonar seu ódio por Snow que nem se dera conta de que ela odiava muitas outras coisas. Seu ódio se manifestava por toda parte, e havia ainda várias coisas que ela precisava corrigir – não apenas sua relação com Snow, mas sua relação com o mundo e consigo mesma.

– Então, Regina, eu vou te fazer uma pergunta – anunciou Emma, fechando os olhos e tentando se acalmar – Você está disposta a desistir completamente de sua vingança contra Wilma? Você está disposta a esquecer o passado, e nunca mais ferir nem a sua irmã e nem ninguém? Por mim e por Henry?

Regina respirou fundo. Tudo o que ela mais queria era dizer “sim”, mas havia uma parte dela que simplesmente não conseguia esquecer tudo o que Wilma fizera. Ela não achava que seria capaz de conviver com aquelas lembranças sem fazer nada a respeito – sua raiva, seu desejo de vingança, eram fortes demais para ignorar. A vontade de feri-la estaria com ela todos os dias, e prometer a Emma que iria superá-la só traria mais decepções.

– Sinto muito, Emma, mas não. –forçou-se a dizer, cada palavra doendo como uma facada – Ela me causou sofrimento demais, e eu preciso fazer com que ela sofra também. É mais forte do que eu.

Emma deixou as lágrimas escaparem, e assentiu. Tocou o ombro de Henry, chamando-o para ir embora.

– Então adeus, Regina. – disse ela – Eu passarei aqui mais tarde para pegar as minhas coisas e as do Henry.

Dizendo isto, Emma virou-se e os dois foram embora, o último olhar amargo do garoto marcado em seu pensamento.

Regina entrou, fechou a porta, e mais uma vez, chorou como uma criança.

Fora fraca demais para resistir à vingança, e agora estava perdendo tudo de bom que conquistara em troca de breves momentos de revanche. Ela só queria que Emma pudesse entender seu impulso incontrolável de punir Wilma, ou que ela não sentisse aquele impulso. E mesmo que a vingança só estivesse deixando-a cada vez mais infeliz, ela decidiu ser honesta consigo mesma e admitir que jamais conseguiria evitá-la. Simplesmente não suportava a ideia de deixar Wilma nas mãos da justiça, sem fazê-la provar do próprio veneno.

No entanto, a convicção de sua fraqueza não anulava a culpa e o remorso que sentia; ela tivera uma família perfeita por breves horas, e arruinara tudo por causa de um defeito do qual não conseguia fugir. As lágrimas saíam cada vez mais, borrando sua maquiagem, enquanto, entre soluços, ela se lembrava da decepção estampada no rosto de Henry, e do sofrimento nos olhos de Emma.

Em um ato impulsivo, Regina afundou a mão no peito e retirou o próprio coração. Decidiu que merecia sofrer pelo que fizera aos dois, e olhou para o coração em sua mão. Metade dele estava limpa, em um vermelho puro, e a outra metade ainda estava repleta de pontos negros. Será que algum dia ela conseguiria se livrar daquela metade escura?

Regina envolveu os dedos ao redor de seu coração, e começou a apertar lentamente, gemendo de dor. Talvez ela perdesse o controle e acabasse esmagando-o até virar pó, mas não se importava muito – provavelmente merecia, e naquele momento onde a dor era sua única companhia, a morte seria bem-vinda.

Lembrou-se de algo que Emma lhe dissera mais cedo; “Ele provavelmente está orgulhoso de você, seu pai”. Pareciam memórias de outra vida distante. Agora, se seu pai pudesse vê-la, orgulho seria a última coisa que ele sentiria. Pensando naquilo, sua amargura aumentou ainda mais, e ela apertou seu coração ainda mais forte. Mas depois de um tempo, a dor se tornou tão excruciante que ela não conseguiu evitar abrir a mão e libertá-lo de suas unhas. Ainda era apegada demais à sua vida para fazer aquilo.

Continuou sentada ali por um bom tempo, chorando em meio aos destroços e estilhaços, esperando que algum milagre levasse seu sofrimento embora.

***


Era o pôr do sol, e Regina estava em seu quarto, sentada em sua cama e observando o céu pela janela, tentando se distrair para não pensar na dor. Já tinha organizado a sala com magia, mas sua vida e seus sentimentos estavam uma bagunça.

Mais cedo, Emma fora até lá para pegar suas coisas, mas ignorara Regina completamente. Na verdade, a prefeita ficara trancada no quarto enquanto ela pegava suas coisas e as de Henry, incapaz de encarar seu olhar novamente. David ainda estava procurando por ela e por Wilma – aparentemente, ele não sofrera nenhum dano grave com o quase sufocamento e estava em casa, passando bem – mas Emma fingira que Regina havia fugido, para não ter que entregá-la. Mesmo após tudo o que ela fizera, Emma não se cansava de ser gentil e maravilhosa.

Olhando para o céu do crepúsculo, pensando no que seria de sua vida sem os dois, ela viu uma figura negra voando em alta velocidade. Inicialmente, era apenas um pequeno ponto negro ao longe, mas logo ela percebeu que estava vindo em sua direção, e conforme a figura foi se aproximando, ela percebeu do que se tratava: Um macaco voador.

Mas tão logo ela chegou a esta conclusão, o animal irrompeu pelo quarto, quebrando a janela e avançando contra ela entre altos guinchos. O animal era negro, peludo, e possuía largas asas da mesma cor de seu pelo. Ele pulou contra Regina antes que ela pudesse se defender, fazendo um rasgo na manga de seu vestido com as garras, e abrindo um pequeno corte em seu ombro, que sangrava.

Porém, logo depois de machucá-la, o macaco bateu asas e foi embora, saindo pela mesma janela quebrada por onde entrara. Aquilo era muito estranho, pensou Regina. Ela sabia que os macacos voadores eram capangas da Bruxa Má do Oeste – Wilma – então aquela invasão misteriosa não poderia ser algo bom.

Por via das dúvidas, resolveu colocar uma proteção mágica ao redor da casa, enquanto ia tratar do ferimento.

***


Já fazia um dia que ela e Regina tinham terminado tudo, e Emma estava sentada em uma mesa no Granny’s, que naquele momento estava lotado, tomando um chocolate quente, que, por algum motivo, a fazia lembrar-se de Regina. Tudo ultimamente a fazia lembrar-se de Regina.

Sem ela, as horas se arrastavam como dias nublados, recheadas de tristeza. Na última noite, dormir na casa de seus pais longe de Regina, longe de seu toque e de seu afeto, fora extremamente doloroso, e ela não sabia se algum dia seria capaz de se acostumar a sua ausência. Ela queria tanto que Regina pudesse superar o ódio e a negatividade que tinha dentro de si, queria tanto vê-la feliz... Mas não havia o que fazer. Regina escolhera a própria infelicidade.

Ver o sofrimento de Henry era terrível também; o garoto tinha esperanças de que a mãe pudesse ser uma heroína, e agora ela tinha escolhido continuar sendo uma vilã. Ver a felicidade sendo arrancada da face do garoto era como perder tudo que fazia a vida valer a pena. Mas ela tinha esperanças de que ele ia superar aquilo. Tinha que superar.

Enquanto pensava em tudo aquilo, Henry adentrou o restaurante, e Emma notou que o garoto tinha um pequeno corte no ombro e uma expressão atônita.

– O que aconteceu? – perguntou ela, preocupada, quando ele se aproximou, tocando o ombro dele – Você está bem?

– Eu... Eu acho – disse ele, ofegante e assustado – Eu acabei de ser atacado por um... Um macaco voador.

– O quê?

– Foi o que você ouviu. Eu já li sobre essas criaturas no meu livro, eles são servos da Bruxa Má do Oeste.

– Wilma?

–Exatamente. E quando eu estava vindo da Mary Margaret para cá, eu me deparei com um deles voando na minha direção. Ele passou suas garras pelo meu ombro e foi embora. Isso é estranho.

– Muito estranho! – respondeu Emma – Esta cidade está mais perigosa do que eu pensava. Isso significa, mocinho, que você não vai mais andar sozinha na rua enquanto nós não capturarmos Wilma. Já imaginou o que poderia ter acontecido? Temos muita sorte de você estar bem – disse, e abraçou-o, preocupada. Ela talvez pudesse pensar em superar a perda de Regina, mas perder Henry seria simplesmente insuportável. Levantou-se e disse:

– Vamos para casa cuidar deste corte.

Mas quando os dois se levantaram, a porta da cafeteria se abriu, e Wilma entrou. Usando um terno preto sobre uma saia, ela disse:

– Estão todos aqui? Eu tenho um anúncio importante a fazer.

David levantou-se do banco onde estava sentado e avançou em direção à bruxa, mas ela conjurou uma barreira semitransparente que a separava das outras pessoas.

– Vejo que vocês estão bem irritados comigo, por isso vou ser clara e objetiva. Digamos que eu tenho um... Anúncio, que envolve diretamente todos os habitantes de Storybrooke. A vida de vocês está em jogo, então apareçam amanhã, às onze horas, em frente ao poço dos desejos. Eu estarei lá e explicarei, com detalhes, os meus planos.

– E se nós não aparecermos? – questionou Granny, do balcão.

– Então, digamos que vocês se darão mal. Muito mal. E nem mesmo saberão disso. Agora, se me dão licença... Preciso ir.

Antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa ou tentar entender o que ela acabara de dizer, Wilma desapareceu, junto com a camada de proteção.

– Bom, não sei quanto a vocês – disse Emma — Mas eu acho que esta é uma ótima chance de colocarmos as mãos nela.

– E se isso for uma armadilha para todos nós? – indagou Mary Margaret, ao que vários concordaram.

– É por isso que somente eu, Emma e a Madre Superiora vamos até lá – interveio David – A não ser, é claro, que vocês queiram se arriscar. Isto pode ser uma armadilha, então se vocês quiserem ir, estejam avisados. Mas é melhor somente nós três irmos. Chegamos lá, capturamos Wilma e a prendemos de uma vez por todas. – disse ele, olhando para Emma, que assentiu, concordando com o plano, e perguntando-se o que aquela bruxa estaria planejando. Aquele questionamento também deu origem a outro, inevitável: Será que Regina aproveitaria esta oportunidade para tentar algo contra a irmã?



No dia seguinte, no horário marcado, Emma percebeu que os habitantes de Storybrooke não são os melhores em cumprir com combinados. Quando chegaram ao poço dos desejos da cidade, dezenas de pessoas estavam reunidas ao redor – Emma reconheceu Belle, Granny, Ruby e alguns dos anões, entre vários outros rostos conhecidos. Ao descer do carro, pôde avistar Henry ao lado de Mary Margaret.

– Eu pensei que tinha mandado você ficar em casa! – advertiu ela.

– Me desculpe, Emma – disse Mary Margaret – Mas eu estava muito preocupada, e resolvi que precisava vir aqui para ver que aviso é esse. E, como seria perigoso deixar o Henry sozinho, eu o trouxe comigo. Espero que não se importe.

Emma arqueou as sobrancelhas.

– Tudo bem, mãe. – disse.

Emma procurou David em meio à multidão, e logo o encontrou. Os dois ficaram lado a lado, armados e preparados para quando ela aparecesse. No entanto, quando Wilma chegou, materializando-se em sua fumaça verde, havia a mesma camada de proteção mágica que ela usara no dia anterior ao redor de seu corpo, movimentando-se junto com ela; uma proteção que eles não poderiam quebrar. Sendo assim, resolveram esperar que ela desse o tal aviso.

– Vejo que vieram todos – disse ela, em uma voz anormalmente alta para que todos escutassem – Pois muito bem. O que eu tenho para lhes contar aqui hoje... É que eu preparei um novo feitiço. Um feitiço muito poderoso que, dependendo de suas escolhas, decidirá para sempre o desfecho desta história.

Emma perguntou-se do que ela estaria falando, cada vez mais preocupada, e desejou que Wilma pudesse ser um pouco mais clara. A bruxa pareceu ler seus pensamentos, pois disse:

– No dia de hoje, vocês terão que tomar uma importante decisão. Uma decisão que, de qualquer forma, acarretará em sangue derramado. Hoje, vocês terão que escolher entre a total destruição de Storybrooke... E a morte de Regina Mills.

Notas finais
Comentemmm se quiserem que eu continue