Notas iniciais
perdão pelo hiatus, mas eu tive um bloqueio de criatividade seríssimo nessas últimas semanas D: depois de muito tempo, finalmente consegui organizar minhas ideias em um capítulo, espero que tenha ficado legal.

Losing her was blue like I'd never known

Missing her was dark gray all along

Forgetting her was like trying to know somebody you never met

But loving her was red


Regina despertou de sua inconsciência subitamente, abrindo os olhos para encarar um teto empoeirado de pedra. Piscou pesadamente e virou-se para o lado, com naturalidade. Mas logo, olhando ao seu redor, para as cortinas brancas que cercavam a cama macia onde estava deitada, ela deu-se conta de que não sabia que lugar era aquele.

– Emma? – murmurou, chamando pelo primeiro nome que viera a sua mente. Sentou-se na cama, olhando para os cobertores de veludo que a envolviam, e notou surpresa que aquela cama se parecia exatamente com sua cama antiga – não a de Storybrooke ou do palácio, mas a de quando ela era jovem e vivia com os pais. Piscou confusa, tentando entender que lugar era aquele.

Descobriu-se dos lençóis, abriu a cortina ao seu lado e sentou-se na beirada da cama, olhando para o ambiente ao seu redor. E concluiu que aquela cama não era parecida com a sua; era, de fato, sua antiga cama. O lugar onde ela se encontrava era o espaçoso quarto que Regina tinha na casa de seus pais – era impossível não reconhecer aquelas paredes brancas de pedra, aquelas estantes repletas de livros grossos sobre cavalaria e aquelas poltronas altas. Tão logo reconheceu o lugar no qual se encontrava, ela deu-se conta de que não deveria estar ali – lembrou-se de Henry e Emma, e do que havia acontecido minutos antes. Como era possível? O raio a atingira e ela morrera – fora exatamente o que escolhera, para que todos os outros pudessem viver. O que ela estava fazendo ali, naquele local que não via há décadas, se estava morta?

Regina olhou para as próprias mãos, como que para averiguar se elas ainda eram de carne e osso. Suas costelas se moviam conforme ela respirava, seu coração pulsava no peito – ela estava, aparentemente, viva. Mas aquilo não fazia sentido. Andou até a larga janela tampada por finas cortinas adiante. Abriu as cortinas, e olhando pelo vidro da janela, ela pôde ver, sob um céu claro como ela não via há muito tempo, a paisagem ampla da fazenda de Cora e Henry – As árvores, a grama verde nos pastos onde cavalos e bois andavam, os rios caudalosos ao longe, o moinho de vento. Aquela era, definitivamente, a Floresta Encantada, não havia dúvidas.

Por um momento, Regina teve certeza de que aquela devia ser a tal vida após a morte, da qual todos falavam. Seria aquele o paraíso? Ou o purgatório? Ou talvez, pensou, seus atos cruéis do passado não fossem dignos do paraíso... Mas aquilo não parecia um inferno. Era sua casa, ora.

Regina afastou aqueles pensamentos. Seu lado cético ofereceu-lhe a possibilidade de que estava sonhando, mesmo que, tecnicamente, fosse impossível sonhar após a morte. Talvez aquilo fosse uma projeção pós-morte das memórias de toda a sua vida, embora parecesse real demais. Ao pensar em sonhos, uma hipótese assustadora passou por sua mente – e se Emma, Henry, Strorybrooke e a maldição nunca tivessem realmente existido? E se tudo o que ela acabara de viver fosse apenas um sonho?

Regina foi até o grande espelho colocado no canto do quarto. Olhou para si mesma e tocou seus cabelos. Eles estavam longos, atingindo a altura de seus ombros, como costumavam ser em sua juventude. Ela usava um longo e simples vestido branco de tecidos leves. Seu rosto parecia ter rejuvenescido muitos anos – sua pele estava mais macia, suas feições livres de qualquer ruga, e exprimindo uma pureza que não combinava mais com ela. De fato, ela parecia quase uma adolescente novamente.

– Onde eu estou? – perguntou-se em voz alta, enquanto olhava ao redor do quarto, cujo conforto agora parecia algo distante.

Seu coração acelerou e ela quase exprimiu um grito de pavor quando viu uma figura parada atrás dela pelo espelho. Virou-se para trás, ofegante, e viu que era a Fada Azul quem a encarava. Ela usava seus trajes espalhafatosos de fada, mas estava assumindo um tamanho humano.

– Está em sua casa, é claro. – respondeu a fada.

– Você me assustou! – exclamou Regina. Em seguida, perguntou: — Eu percebi isso. Mas como é possível? Eu não deveria estar... Morta?

– Bem... Deveria. – explicou ela. — Mas eu resolvi te dar uma segunda chance, visto que você morreu de forma altruísta, corajosa e verdadeira.

Regina franziu as sobrancelhas. Uma segunda chance? Para ela? Era inacreditável.

– Você acha que eu mereço uma segunda chance? – ela indagou.

– É claro que merece, Regina! Você abriu mão da própria vida quando poderia ter continuado viva com Henry. Você é uma heroína agora, e heróis merecem segundas chances.

Regina sorriu. Jamais pensou que ouviria aquilo de uma fada. Mas ainda assim, perguntou:

– Eu não entendo... Como posso estar viva de novo? Eu pensei que “não se pode trazer os mortos de volta à vida” fosse uma das regras fundamentais da magia.

– E é. – respondeu a fada. – Mas quando alguém morre de forma altruísta, sacrificando-se por uma causa justa ou para salvar alguém, nos é permitido quebrar algumas regras para dar a esta pessoa uma nova chance. É como o que eu fiz com Pinóquio, trazendo-o de volta à vida como uma criança.

– Então, se alguém morrer de forma altruísta várias vezes... Voltaria em todas elas? – questionou Regina, tentando soar despretensiosa.

– É claro que não. Só podemos fazer isso uma única vez para cada pessoa. Então, da próxima vez que você morrer... Será definitivo.

Regina assentiu.

– Mas eu ainda não entendo porque estou aqui. Por que me trazer de volta ao meu passado? – perguntou, lembrando-se de todas as coisas dolorosas que vivera naquela época. Não que as outras épocas de sua vida houvessem sido melhores.

– Porque segundas chances não podem ser perfeitas. – ela explicou. – Eu tinha que mudar algum aspecto significativo de sua vida para que pudesse ser feito.

– E você escolheu retroceder décadas? Não poderia ter simplesmente me deixado continuar lá, com Henry e Emma? Não poderia ter ao menos apagado minhas memórias? – rebateu ela, impaciente. Não sabia se conseguiria viver com aquelas lembranças dos dois sem poder vivenciá-las.

– Eu quis te dar uma segunda chance literal, Regina. – explicou a Fada Azul, parecendo esforçar-se para soar condescendente. – Eu pensei que seria interessante trazer você de volta a esta época porque... Bem, foi aqui que tudo começou. Se você agir sabiamente, com as memórias das coisas ruins que causou, poderá evitar todas elas. Estou te dando uma oportunidade de fazer tudo diferente. De ter a vida que sempre sonhou ao lado do homem que amava.

Daniel. Regina sorriu ao lembrar-se dele. Em outro tempo, ela daria qualquer coisa por uma nova chance com ele. Mas aquela possibilidade já não lhe encantava tanto; Emma era seu verdadeiro amor agora.

– Você não me ajudou quando eu precisava – despejou ela, rancorosa. – Não me procurou quando eu fui obrigada a me casar com um homem que não amava. Ou quando eu estava sendo torturada pela minha própria mãe, ou quando meu verdadeiro amor morreu. Jamais se lembrou da garota que, sofrendo sem ajuda, procurava por Rumplestiltskin para encontrar a felicidade nas trevas. Fadas ajudam pessoas que precisam, é esse o trabalho de vocês. E, no entanto, você preferiu deixar que eu me tornasse um monstro do que se arriscar a mexer com o Senhor das Trevas e a mulher que arrancava corações. E agora, depois da minha morte, você quer me trazer de volta à época em que tudo deu errado? Para que eu mude meu destino sozinha, depois de tudo o que vivi? – ao terminar de falar, sua voz estava trêmula e seus olhos lacrimejantes.

– Eu sinto muito, Regina. – sussurrou ela. – Eu sei que fui covarde e, devo confessar, eu tinha certo interesse no que o seu sofrimento causaria futuramente. Isso foi errado, mas lembre-se de que Tinkerbell tentou te ajudar e você recusou para continuar alimentando seu ódio.

– Isso foi porque ela chegou tarde demais. – expressou Regina, com um olhar distante. – Eu já estava destruída por dentro. E, além disso, talvez ela pudesse ter me oferecido uma ajuda melhor se você a desse uma chance de mostrar seu potencial.

– Nunca é tarde demais, Regina. – disse Blue Fairy, ignorando o último comentário. – E é isso o que estou tentando te mostrar. Estou te dando o primeiro passo, mas o resto é com você. Assuma o controle de sua vida. Seja forte. E evite todas as consequências terríveis que os seus erros trouxeram.

– Você está me pedindo para entrar em um casamento indesejado e ficar feliz com isso?

– Não! Talvez você não tenha que se casar com o Rei. Este dia... O dia de hoje, para o qual eu te trouxe... É o dia em que você salvou Snow White do cavalo desgovernado. Amanhã, o Rei Leopold deverá pedir sua mão em casamento, mas você não precisa aceitar. Sua mãe só te obrigou a fazer isso porque ela não tinha o coração no peito. Talvez, se você encontrá-lo e devolvê-lo ao lugar que ele pertence... Ela enxergue o que realmente é melhor para você. E permita que você seja feliz com Daniel.

Regina refletiu sobre aquilo por um momento. Sua mãe sempre lhe parecera tão naturalmente ambiciosa que era difícil para ela imaginá-la permitindo que a filha se casasse com um limpador de estábulos. Mas ainda assim, a lembrança de seu último olhar, quando sua vida se esvaía nos braços de Regina, fez com que ela acreditasse que o que a fada dizia não era totalmente sem sentido. “Você seria o suficiente” fora a última frase dita por ela, e Regina tentou se concentrar naquilo.

– Você acha? – perguntou.

– Acho. – respondeu a fada. – Acredite, a ausência de um coração torna uma pessoa capaz de coisas inimagináveis.

– E como eu encontrarei o coração dela? Minha mãe o esconde muito bem. Ela nunca me contou onde o guardava.

– Está na câmara de corações dela. – disparou ela, como se fosse a coisa mais simples e óbvia do mundo.

Regina ergueu uma sobrancelha. Lembrava-se de onde o cofre de sua mãe ficava: escondido sob a lareira da sala de estar, que, se afastada através de magia, era engolida pela parede e se tornava uma larga passagem secreta para o local. Mas ela duvidava que o coração da mãe estivesse ali.

– Como você pode saber disso? – questionou.

– Eu sei mais do que você imagina. – disse ela apenas, sem mais explicações.

– Mas... Só isso? A única coisa que poderia derrotá-la, e ela o guarda no lugar mais óbvio de todos?

– Não é tão óbvio assim. O coração está escondido dentro de uma estátua na câmara, não nas caixas comuns com todos os outros. E, uma vez que você descer até lá e encontrá-lo, só precisará encontrar uma maneira de colocá-lo de volta no corpo de Cora sem que ela saiba. E todos os seus problemas estarão resolvidos.

– Você fala como se fosse fácil. Cora acabaria descobrindo. E se descobrir, eu tenho certeza que me castigará. Não quero passar por tudo aquilo de novo.

– Se arrisque, Regina. – insistiu. – Você não é mais aquela garota ingênua de antes. Seu corpo pode ter rejuvenescido, mas dentro de você, há a mesma inteligência e experiência de cinco minutos atrás. Use-a ao seu favor, e mude o rumo da sua vida.

– OK, suponhamos que eu consiga convencer minha mãe a aceitar meu romance com Daniel. – cedeu ela. — E quanto a todas as coisas que precisavam da Maldição para acontecer? Como Rumple reencontrando o filho? E há também a minha irmã. Mesmo que eu não me tornasse Rainha e nunca fosse para o outro mundo, Wilma ainda estaria por aí, em Oz ou qualquer outro reino, esperando para aparecer e acabar com a minha vida.

– Bem... A Maldição não era o único jeito de Rumplestiltskin encontrar o filho.

– O quê? – exclamou Regina. Droga, ela tinha uma resposta para tudo.

– As únicas coisas capazes de transportar alguém para um reino sem magia são a Maldição das Trevas, um guarda-roupa mágico... E os feijões mágicos.

Aquilo era verdade, pensou Regina. Mas os feijões mágicos eram raros e difíceis de conseguir fora da terra dos gigantes.

– E sua mãe possui dois feijões mágicos. – explicou a Fada. – Na época em que você se casou com o Rei, ela escondia dois deles para o caso de... Futuras negociações. Isso significa que há uma forma de Rumplestiltskin chegar até Baelfire sem precisar da maldição das trevas. E quanto à sua irmã... Bem, com o poder de Cora para protegê-la, tenho certeza de que ela não será uma ameaça.

– Como você sabe disso tudo?

– Bem... Eu sou uma fada. Eu sei de tudo o que acontece entre os humanos.

Regina suspirou, dando-se por vencida e concluindo que, de fato, ela podia mudar seu destino. Uma imagem surgiu em sua mente – ela em um vestido branco segurando as mãos de Daniel, sob um arco de flores, em um campo cheio de pessoas. Depois, Daniel e ela correndo pela fazenda e rindo com um pequeno garoto. Então a figura do garoto transformou-se em Henry. E logo Daniel transformou-se em Emma. Regina balançou a cabeça.

– E se eu não quiser? – perguntou ela. – E se eu não quiser viver aqui?

– Você tem três dias para se decidir – nem um dia a mais. Dentro destes três dias, se você resolver que não quer a chance que eu estou te dando... Só precisa me chamar, e eu desfarei tudo. E qualquer mudança que você tiver feito será apagada. Mas decida-se logo, porque ao fim deste prazo, será impossível te levar de volta, e tudo o que você tiver feito será permanente.

Regina assentiu, e perguntou, esperançosa:

– Então, se eu decidir voltar... Estarei viva de novo? E tudo voltará ao normal?

– Não. – respondeu a fada, secamente. – Esteja ciente de que, se voltarmos para o futuro, para Storybrooke... Tudo acontecerá exatamente da mesma forma que aconteceu antes. Incluindo a sua morte. E desta vez, eu não poderei revertê-la.

– Então... É isso ou a morte? – indagou Regina.

– Infelizmente, sim.

Regina inspirou profundamente. Aquilo significava que ela nunca mais veria Emma ou Henry. Tentou não pensar naquilo, e disse:

– OK. Só tenho uma última pergunta... Outra regra da magia é que não se pode mudar o passado. Então por que nós estamos aqui?

Blue Fairy olhou-a como se pensasse no que responder.

– Bem... Digamos apenas que eu sou mais poderosa do que vocês pensam.

***


Regina descia as escadas de seu quarto, que terminavam em uma cozinha ampla de onde ela ouvia vozes extremamente familiares.

Assim que pisou no último degrau, avistou seus pais sentados à enorme mesa de madeira, comendo alguns pães. Seu coração acelerou e seus olhos começaram a marejar, pois pensou que nunca mais os veria.

– Bom dia, querida. – disse seu pai, levantando-se e andando até ela. – Fico feliz que tenha acordado mais cedo, pois temos muito a fazer...

Regina interrompeu-o com um forte abraço, que nunca imaginou que sentiria novamente, e lágrimas lhe escaparam aos olhos. Henry parecia assustado.

– O que aconteceu? – ele perguntou, confuso.

Regina se afastou dele e disse:

– Eu... Eu tive um sonho horrível. Eu sonhei que vocês dois estavam mortos, e... Céus, estou tão aliviada.

Cora se levantou da mesa e andou até ela, segurando suas mãos.

– Não precisa chorar, Regina. – ela disse. – Foi apenas um sonho. Nós dois estamos bem. Agora, você deveria se vestir. Vou deixar você ter algumas aulas de cavalaria com Daniel hoje.

Regina sorriu, de início surpresa por sua mãe permitir que ela cavalgasse – Cora nunca gostara que Regina gastasse seu tempo com aquilo. Mas logo se lembrou do que Blue Fairy dissera — aquele era o dia em que ela salvaria Snow do cavalo propositalmente desgovernado por Cora; Logo, ela precisava que Regina estivesse no lugar certo quando isto acontecesse.

Tentando não pensar naquilo, Regina foi até seu quarto novamente e vestiu seus trajes azuis de cavalaria. Calçou um par de botas e amarrou seus cabelos em uma trança, decidindo aproveitar a chance que recebera.

Logo, ela e seu pai saíram da casa e atravessaram as cercas da propriedade, chegando ao largo espaço coberto por grama onde havia uma pista de obstáculos. Mais adiante, Daniel esperava por eles com o corcel Rocinante ao seu lado.

Regina correu até Daniel, sentindo algo crescer dentro dela. Seu coração acelerou e ela sentiu arrepios quando jogou as mãos ao redor de seu pescoço, tocando seus cabelos claros e macios, e aproximou-se para um beijo quente e suave. Daniel passou os braços ao seu redor. Mesmo depois de tanto tempo, ela ainda reconhecia cada detalhe de seu toque e de seus lábios, como se nunca houvesse ficado longe dele. Após vê-lo morrer em seus braços, ela passara anos sendo torturada pela certeza de que nunca mais o veria, e agora era envolvida por ele novamente – sentiu-se tão sortuda que quase não acreditou que tudo aquilo estava realmente acontecendo.

Mas havia algo de diferente em seu beijo, ela notou, como se já não fosse tão satisfatório quanto costumava ser. Regina supôs que isso se devia ao fato de ter passado tanto tempo sem beijá-lo. Seus lábios eram suaves, tinham um sabor adocicado e seu beijo era delicado, diferente da intensidade e ardor dos beijos de Emma. Ao lembrar-se de Emma, perguntou-se, culpada, se aquilo não seria traição. Mas lembrou-se de que elas não estavam tecnicamente juntas quando ela morrera, e, além disso, Emma não existia naquela nova realidade.

Sentiu-se injusta por pensar em outra pessoa enquanto beijava Daniel, e tentou ignorar aqueles pensamentos. “Esqueça Emma, Regina”, pensou. “Você nunca mais a verá. Aproveite o que tem agora”.

Foram interrompidos por seu pai, que pigarreou alto próximo a eles. Regina afastou-se de Daniel e olhou para ele.

– Vocês dois precisam tomar mais cuidado – disse Henry. – Sua mãe não pode, sob hipótese alguma, descobrir que estão juntos.

– Sinto muito, senhor. Não tinha a intenção de passar dos limites. – disse Daniel, e sua voz acalorou um pouco o coração de Regina.

Logo, Regina montou Rocinante e começou a cavalgar, sentindo o vento em seu rosto e uma sensação de liberdade que não experimentava há muito tempo. Pegou-se pensando que Henry provavelmente gostaria muito de cavalgar, e em seguida puniu-se mentalmente por pensar nele.

Mais tarde, após o almoço, ela e Daniel cavalgaram juntos até uma região afastada da fazenda, onde não corriam o risco de serem vistos por Cora. Sob a sombra fresca de uma árvore alta e um céu levemente nublado, os dois conversavam e se beijavam. E Regina percebia, com uma ansiedade crescente, que o momento em que tudo tivera início se aproximava.

– O sol está abrindo. O que acha de fazermos um piquenique? – sugeriu Daniel. Exatamente como ela se lembrava.

– Eu não posso. – respondeu Regina, calculando bem as palavras. – Eu tenho que voltar em uma hora para tomar chá com a minha mãe.

Daniel assumiu uma expressão desapontada, e se afastou dela.

– Isso é tudo o que teremos? Beijos rápidos entre o almoço e o chá? Quando você vai contar a ela sobre nós?

Ele suspirou profundamente, fazendo Regina se sentir culpada.

– Eu não entendo. – continuou. – Eu trabalho nos estábulos e ela começou como a filha de um moleiro, ela deveria entender.

– Ela entende! – defendeu Regina. – Mas ela acha que a trajetória de uma pessoa deve ser subir, e...

– Eu estou abaixo. – concluiu ele.

– Ela acredita que sim, Daniel, mas eu sei que não.

– Conte a ela, Regina. – insistiu ele. – Ela vai superar. O que ela pode fazer?

– Eu contarei, Daniel. – garantiu Regina, assumindo aquilo como uma promessa. – Mas no momento certo. Ela tem uma magia muito poderosa, e eu venho pensando em uma forma de, você sabe... Amansá-la.

– Eu não ligo para a magia dela. O amor verdadeiro é a magia mais poderosa de todas. Ele pode superar qualquer coisa.

Regina sentiu-se hipnotizada pela forma como ele disse aquilo, sua voz confortante e seu jeito otimista de encarar as coisas. Mas quando ele disse aquilo sobre o poder do amor, surgiram em sua mente imagens de Emma nas diversas vezes em que elas fizeram magia juntas. Sorriu ao lembrar-se daquilo, mas ao se dar conta de que eram memórias inalcançáveis, voltou a se concentrar em Daniel.

Enquanto estava distraída em seus pensamentos, ouviu uma voz familiar pedindo por socorro, e seu coração deu um salto. Era Snow.

Respirou fundo e olhou para o lado. Aquela era a atitude decisiva, que mudaria tudo. Avistou a garota passar voando sobre um cavalo que corria descontroladamente. Olhou para Daniel, que estava assustado, e montou Rocinante.

Selou o cavalo e fez sinal para que ele corresse. Cavalgou em alta velocidade até se aproximar dela, com medo de que pudesse fazer algo errado. No entanto, ao aproximar-se de Snow, pediu a mão da garota e tirou-a do cavalo desgovernado com sucesso. Segurou-a em seus braços, e quando Rocinante parou, Snow caiu no chão.

Regina aproximou-se dela e levantou-a com cuidado.

– Está tudo bem, querida, você está a salvo. – disse.

– Você salvou a minha vida! – exclamou a garota, seu olhar inocente e assustado que não fazia ideia dos anos de dor, ódio e inimizade que aquele encontro poderia gerar. Sua pele clara suava, e olhando em seus olhos cinzentos, parecia quase inacreditável para Regina pensar que ela havia encarado aquela garotinha como sua pior inimiga por anos. Mais engraçado ainda era pensar que aquela garota cresceria para dar à luz ao amor de sua vida. Droga, pensou. Tudo o que acontecia parecia levá-la a pensar em Emma.

– Você está bem? – perguntou-lhe.

– Sim. – ela respondeu, ainda atônita e ofegante, alisando seu grosso casaco cor de rosa. Segurou as mãos de Regina e completou: — Mas eu nunca vou cavalgar novamente.

Regina sorriu.

– O único jeito de superar o seu medo é encarando-o. Voltando a montar naquele cavalo o mais rápido possível.

Regina deu-se conta de que era fácil aconselhar, mas muito difícil seguir o que ela acabara de dizer. Encarar seus medos ainda era algo que ela tinha muita dificuldade em fazer.

– Obrigada. – sussurrou Snow.

As duas se apresentaram e se abraçaram, enquanto Regina se lembrava, nervosa, de que no dia seguinte o pai dela pediria sua mão em casamento. Ela precisava começar a agir logo.

***


No silêncio da noite, ouvindo o estridular dos grilos no pasto, Regina saiu de seu quarto e, cuidadosamente, desceu as escadas, encaminhando-se para a sala de estar.

Entre as colunas de pedra e candelabros apagados, olhou para a lareira que crepitava ao fundo. Concentrando-se bem, pôde ouvir o pulsar dos corações abaixo dela.

Fez um movimento com o braço esquerdo, e as lenhas cobertas de chamas se afastaram para trás, como se afundassem na parede. O chão onde ela estava ergueu-se como um alçapão, revelando uma escada larga que descia. Regina olhou ao seu redor, apreensiva, e desceu as escadas.

Logo chegou ao espaço fracamente iluminado por candelabros altos, onde, em buracos nas paredes de pedra, pontos vermelhos piscavam dentro de caixas – os corações que sua mãe arrancara.

Havia algumas colunas brancas de mármore distribuídas pelo local, e ela avistou uma estátua ao fundo, de uma figura feminina – talvez uma santa, ou uma deusa – e lembrou-se do que Blue Fairy dissera. Era ali que o coração da mãe se escondia. Por algum motivo, aquela escultura sempre havia chamado sua atenção, mas ela nunca soubera o motivo. Agora ela sabia.

Mas como ela poderia tirar algo de dentro da estátua? Começou a pensar, encarando o rosto da figura retratada.

Fechou os olhos e concentrou-se. Em seguida, esticou o braço direito, apontando-o para a escultura. Quando abriu os olhos, a figura havia se desgrudado de seu pedestal e flutuava a alguns centímetros do chão. Olhando para baixo, Regina notou que o suporte de madeira era na verdade uma caixa. Abaixou-se para abri-la, mas não conseguiu.

Perguntou-se o que Cora usaria para selar a caixa onde guardava seu coração. Provavelmente magia de sangue, concluiu. Regina mordeu a ponta do dedo indicador com força, até sentir pequenas gotas de sangue saindo. Depois, passou o dedo por toda a extensão da caixa. Se aquilo não funcionasse, ela não saberia mais o que fazer.

Mas logo a caixa se iluminou como um raio de sol, e se abriu. Quando sua tampa foi erguida magicamente, Regina pôde ver o coração vermelho-cereja da mãe, levemente escuro, sua luz piscando conforme ele pulsava.

Respirando pesadamente, apanhou o coração com as duas mãos, sentindo-o bater entre seus dedos. Levantou-se e subiu vagarosamente as escadas, seu manto arrastando-se pelo chão. Ao chegar à sala novamente, fez outro gesto suave para fechar a passagem. A lareira surgiu novamente e a passagem se fechou. Regina girou nos calcanhares, dirigindo-se ao quarto dos pais.

Nervosa com o peso simbólico do que carregava, ela andou por alguns corredores até chegar frente à porta estreita de madeira, ciente de que aquela seria a parte mais difícil.

Abriu a porta lentamente, agoniada com o leve rangido que as dobradiças produziram.

Seus pais dormiam pesadamente na espaçosa cama, sob cobertores de cetim, e, felizmente, Cora estava virada para cima. Aproximou-se da cama em passos lentos e leves, tentando fazer o mínimo de barulho possível com seus pés descalços.

Encarou Cora, cujos cabelos castanhos acobreados estavam soltos sobre o travesseiro, suas mãos cruzadas sobre a barriga. Olhou para o coração, e decidiu agir rápido, antes que o som de seu latejar despertasse-os.

Abaixou a mão e, em um movimento rápido, afundou-a no peito esquerdo de Cora, soltando o coração. Assim que tirou sua mão do peito da mãe, ela despertou, abrindo os olhos e ofegando pesadamente.

– O que você está fazendo aqui? – exclamou ela, enquanto Henry ainda roncava, sem qualquer sinal de interrupção do sono.

– E-eu... Eu tive outro pesadelo. – gaguejou Regina, assustada. – E vim até aqui por que... Fiquei com medo.

– Não acha que é um pouco velha demais pra isso? – perguntou Cora. – Volte para o seu quarto. Minha época de ninar bebês chorões já passou.

Fria e dura como sempre, notou Regina. Sendo assim, será que ter seu coração de volta no lugar faria algum efeito? Ela própria fizera coisas terríveis por um bom tempo com o coração no lugar, pensou, embora sempre procurasse fazer o que era melhor para Henry...

Tentando não pensar em Henry, ela virou-se, pronunciou um pedido de desculpas e foi embora.

Contanto que Cora não percebesse que estava com seu coração de novo, ela pelo menos teria uma chance de mudar seu destino. Felizmente, mesmo quando uma pessoa estava sem seu coração, o peito esquerdo continuava pulsando magicamente, como uma forma de “disfarce”, então provavelmente Cora não notaria que o pulsar em seu peito vinha de um coração de verdade.

Quando Regina deitou-se na cama novamente, começou a rezar para que alguma força superior ou divina fizesse tudo dar certo, mesmo que não fosse muito de acreditar nessas coisas. E percebeu que seu primeiro dia tinha acabado. Só tinha mais 48 horas para consertar tudo e decidir se queria aquela nova vida.

Fechou os olhos, e teve uma noite repleta de sonhos sobre Emma e Henry.

***


Regina se olhava no espelho, ajustando seu uniforme de cavalaria, quando uma fumaça roxa girou ao seu redor e um vestido azul surgiu em seu corpo. Ela soube imediatamente o que estava acontecendo, mas esforçou-se para parecer confusa.

– Nós temos um convidado. – informou Cora, andando até ela em um de seus melhores vestidos. – Cancele sua aula de cavalaria. Sorria, pois você finalmente fez algo certo.

– O quê? – indagou Regina.

– O Rei vem nos visitar! – disse Cora, sorrindo de orelha a orelha.

Regina tentou soar surpresa ao exclamar:

– O Rei? Mas por quê?

– Aquela garotinha que você salvou – ela explicou, muito empolgada. – era a filha do rei.

Assim que Cora terminou de falar, quatro figuras entraram pela porta da frente, adentrando a sala: Seu pai, dois guardas de uniforme, e uma figura alta e magra em um manto alaranjado que ela conhecia muito bem: Leopold.

– É ela? – ele perguntou, enquanto Cora se curvava ao rei.

– Sim. – respondeu Henry, e Regina se curvou também, fazendo de tudo para manter o teatro, enquanto, nervosa, percebia que aquele momento mudaria tudo.

– Querida – apresentou seu pai. – Este é o pai de Snow White.

– Não se curve. – pediu o rei, enquanto se aproximava dela. – Eu é que deveria me curvar a você. Você salvou a vida da minha filha. Não há maneira de te agradecer por isso. É uma honra te conhecer.

E, dizendo isto, inclinou-se diante dela, em reverência.

– Regina, querida – murmurou Cora. – O Rei está honrado em te conhecer, diga alguma coisa.

Levantando-se, Regina forçou o seu melhor sorriso, e tentou ignorar as lembranças incômodas de anos em um casamento forçado que aquele encontro lhe causava.

– A honra é minha. – disse.

– Você tem sorte de ter uma mãe que cuida tão bem de você. – observou Leopold, sorrindo para Cora. – Snow tem muitas coisas, mas uma mãe não é uma delas. Nós a perdemos, anos atrás.

– Eu sinto muito. – falou Regina, lembrando-se de que sua mãe havia sido a responsável pela morte dela.

– Desde então eu tenho percorrido o reino, procurando por uma esposa. – continuou ele. – E nunca consegui encontrar nenhuma mulher que se interessasse por minha filha. Até agora.

Na primeira vez em que ouvira aquelas palavras, Regina assumira uma expressão de choque. Agora, no entanto, ela não estava assustada – estava nervosa, porque o momento decisivo estava chegando e ela precisaria persuadir a mãe.

O Rei pegou uma pequena caixa vermelha de uma almofada que um de seus guardas segurava. Tirou dela um pequeno anel, ajoelhou-se e disse:

– Você quer se casar comigo, Regina?

Encontrando o olhar pasmo do pai, ela disse, antes que Cora pudesse intervir:

– Não.

Cora olhou para a filha como se ela estivesse louca, e o Rei suspirou.

– Quero dizer... Eu sinto muito, mas não. Eu não posso aceitar.

– Perdoe Regina – interrompeu Cora, sorrindo. – Ela só está nervosa com tamanho lisonjeio. Mas sim, ela vai se casar com Vossa Majestade.

– Não, mãe, eu não vou! – rebateu ela, com uma audácia que jamais pensaria em demonstrar da primeira vez.

– Olhe, eu não forçarei ninguém a nada... – balbuciou o Rei.

– Pode nos dar licença por um segundo? – pediu Cora, cordialmente. – Preciso ter uma palavrinha com Regina, a sós. Meu marido lhe fará companhia enquanto isso.

Cora conduziu Regina por um corredor até um quarto de hóspedes, em passos firmes, e ela seguiu-a, apreensiva.

Quando fechou a porta, Cora exclamou:

– Você perdeu a cabeça? Como você pode recusar um pedido de casamento do Rei? Regina, você será uma rainha! Sabe o que isso significa?

– Mãe, eu não quero me casar! Muito menos com alguém que eu nem conheço!

– Você não precisa conhecê-lo. Só precisa conhecer o trono dele. Eu sei o que é melhor para você. Você vai se casar com o Rei. – afirmou, firmemente, e se encaminhou à porta do quarto. Regina impediu-a, segurando seu braço.

– Por favor, mãe. Não faça isso. Você quer o melhor para mim? Bem, o melhor para mim é ser feliz. E eu nunca serei feliz em um casamento sem amor.

Cora olhou para ela, afastando sua mão.

– Amor... Isso é por causa do garoto nos estábulos, não é?

Regina surpreendeu-se.

– Como você sabe? Papai te contou?

– Ele não precisa. Qualquer um pode perceber pelo jeito que vocês se olham.

Regina suspirou.

– Eu sei que agora isso parecer ser o melhor, Regina, mas um dia, você vai olhar para o seu passado e vai desejar ter feito tudo diferente.

“É o que eu estou fazendo agora”, pensou Regina.

– Mãe... Eu sei que você quer muito que eu suba na vida, mas... Isso não é o que eu quero. Eu amo Daniel. Eu não quero ser uma Rainha, eu só quero ser feliz.

Ela sentiu vontade de chorar, e decidiu permitir que as lágrimas saíssem, pois precisava convencer Cora.

– Por favor, mãe. Eu sei que, no fundo, você só me quer feliz. Tente pensar com o seu coração.

Ao dizer aquilo, percebeu que Cora olhou perturbada para o próprio peito. Em seguida, colocou a mão sobre ele, e assumiu uma expressão atônita.

– Meu coração... Não.

O medo se espalhou por Regina.

– Como você fez isso, sua... Peste? – exclamou ela, enfurecida. Em seguida, com um movimento das mãos, ergueu Regina no ar, e estava prestes a castigá-la de alguma forma quando Regina suplicou:

– Mãe, por favor, me coloque no chão!

Por algum motivo, Cora obedeceu, e Regina pousou lentamente no chão.

– Como você sabia onde ele estava? – exclamou ela, vermelha de cólera. — E por que você colocou essa... Fraqueza de volta em mim?

– Não foi tão difícil. – respondeu Regina, tentando ser cuidadosa. — Tudo o que eu tive que fazer foi olhar na sua câmara de corações. E eu fiz isso porque... Porque, ontem, Daniel e eu estávamos conversando, e ele me disse que queria que você soubesse. Que queria que eu te contasse sobre o nosso romance. E eu fiquei com medo, mas eu sabia que devia haver algum jeito de amansá-la...

– Bem, você desperdiçou o seu tempo. – informou Cora. — Não vou permitir que você escolha um pobretão em vez de um rei. Enxugue essas lágrimas e vá agora dizer “sim” a ele.

– Mãe, por favor! – implorou Regina, desesperada. – Eu não quero ser uma rainha, eu só quero ser feliz! Você não se importa com a minha felicidade?

Para sua surpresa, Cora encarou o chão e respirou fundo, parecendo pensar.

– Sabe... – disse Regina, tocando seu braço afetuosamente. – Às vezes, dar ouvidos ao coração não é algo ruim. Eu sei que você me ama, mãe, apesar de tudo. E se você me ama... Minha felicidade não deveria ser o suficiente?

O olhar de Cora parecia impetrante quando ela disse:

– Mas eu trabalhei tão duro nisso... Eu fiz coisas terríveis para que você se tornasse rainha, Regina.

Regina sabia que coisas horríveis eram aquelas, mas disse:

– Você pode apagar tudo isso, sendo uma pessoa melhor. Veja... Você é minha mãe e eu sempre farei tudo ao meu alcance para te agradar, mas... Eu não posso me esquecer de mim mesma. E eu nunca seria feliz em um casamento forçado. O poder, a nobreza... Isso não me seduz. – em outra época, quando ela estava sentada no trono, o poder sobre um reino lhe parecia algo divertido, mas naquele momento, assim como da primeira vez, ela não desejava nada daquilo.

– Por favor. – continuou. — Eu quero muito poder estar em paz com você. Sem ressentimentos, sem mágoas.

Cora suspirou.

– E aquele garoto dos estábulos... Daniel... Ele te faz feliz?

Regina sorriu, feliz por estar conseguindo derrubar as barreiras da mãe.

– Sim. – ela respondeu. — Com certeza.

Cora demorou alguns segundos para responder.

– Então... Acho que é isso é o suficiente.

Regina respirou aliviada ao ouvir aquelas palavras, que tiraram o peso do mundo de seus ombros. As lágrimas caindo de seus olhos transformaram-se em lágrimas de felicidade.

– Obrigada por entender. Estou tão aliviada.

– Só me prometa que não vai mudar ou se perder por causa de nenhum homem, ok? – pediu Cora.

– Ok. Eu prometo. – disse Regina, assentindo.

– Agora... Vamos falar àquele Rei que você não é a mulher certa para ele.

***


Regina surpreendeu-se com o fato de que tudo estava dando incrivelmente certo. Mesmo que Cora ainda parecesse inconformada, ela não refutou quando Regina disse a Leopold que estava lisonjeada pelo pedido, mas que não estava interessada em se casar, pois estava comprometida com outra pessoa. O Rei reagiu bem, e, tranquilamente, desejou a Regina sorte com seu amado. Regina afirmou que gostaria de manter contato com Snow, ao que ele concordou, e foi embora.

Durante o resto do dia, Cora não dirigiu uma palavra à filha, e nem ao marido. Não parecia ressentida, mas ainda lidando com a frustração de desistir de tudo o que tinha planejado para Regina. Regina decidiu que era melhor deixá-la em paz, digerindo sua frustração sozinha até que superasse.

Naquela noite, Regina agasalhou-se e foi até os estábulos para contar a Daniel que sua mãe sabia sobre eles, e que os apoiava. O jovem recebeu a notícia com um sorriso largo e um abraço prazeroso.

– Isto é incrível! – exclamou ele. – Não temos mais que ter medo. Não temos mais que esconder nosso amor.

– Sim. – concordou Regina, aproximando-se para beijá-lo. Aquele era o momento com o qual ela mais sonhara durante a sua juventude; o momento em que poderia ficar com Daniel em paz. No entanto, agora aquilo já não parecia tão atrativo. Ela ainda se sentia como se algo estivesse faltando.

Mais tarde, ela e Daniel deitaram-se no chão coberto de feno, e o jovem caiu no sono ali mesmo, sob a luz do luar. Regina permaneceu aconchegada em seus braços, sem se lembrar ou se importar com o fato de que os pais a esperavam dentro de casa.

Olhou para o rosto de Daniel, acariciando seus cabelos, e perguntou-se se sua mãe ainda seria capaz de estragar aquilo. Mesmo que ela parecesse ter aceitado as escolhas de Regina, ela achou que era melhor não arriscar.

Colocou a mão sobre o peito esquerdo de Daniel enquanto ele dormia, e o enfeitiçou com a mesma magia que usara em Henry quando eles estavam voltando de Neverland; o feitiço que impedia que seu coração fosse arrancado.

Quando a luz em sua mão se dissipou, ela olhou para a lua cheia, aliviada. Agora sua mãe não poderia matá-lo – pelo menos não usando seu coração.

Recostou-se no ombro dele e fechou os olhos. Por alguns segundos, imaginou que os braços ao seu redor eram os de Emma, antes de cair no sono.

E o segundo dia acabou.

***


No dia seguinte, após o almoço, Regina disse aos pais que iria dar uma volta de cavalo com Daniel, e cavalgou em Rocinante por quilômetros até estar em um ponto distante da fazenda, dentro de uma floresta.

Desceu do cavalo, sob a sombra de árvores altas, e olhou ao seu redor. Sua real intenção não era se encontrar com Daniel. Ela estava ali para consertar o que a ausência da maldição causaria.

– Rumplestiltskin! – chamou ela. – Rumplestiltskin, eu te invoco!

Esperou alguns segundos, e ouviu passos atrás de si.

– Olá, queridinha. – disse uma voz teatral seguida de uma risada excêntrica que era extremamente familiar.

Da primeira vez, a voz do Senhor das Trevas lhe causava arrepios e certo medo. Agora não. Sua voz lembrava família. Regina sorriu, secretamente feliz por ver seu “diabinho perverso” novamente, mas logo se lembrou de que deveria parecer amedrontada, então se virou para ele com uma voz assombrada.

– Você é Rumplestiltskin? – perguntou, olhando para o homem vestido em seus trajes de couro, com sua pele áspera levemente esverdeada e seus cabelos ondulados.

– Não, sou a Fada do Dente. – ele rebateu. – Por que você me chamou agora... Regina, certo? Não deveria passar por alguns acontecimentos... Trágicos antes de recorrer a mim?

Regina esforçou-se para soar confusa.

– Eu... Eu não sei do que está falando. Eu te chamei aqui porque eu tenho algo que lhe interessa.

– Mesmo? E o que seria?

– Bem... Eu ouvi histórias sobre você, sua crueldade e sobre como você aterroriza reinos lutando por um objetivo misterioso. Alguns dizem que você deseja ir a uma terra sem magia para encontrar alguém amado.

Rumplestiltskin se aproximou dela e encarou-a de forma agressiva.

– Como você pode saber disso? Eu nunca contei isso a ninguém.

Regina ficou impassível, pensando no que dizer.

– Cora te contou, não foi? – questionou ele, parecendo levemente nervoso.

– Como você sabe que Cora é minha mãe? – perguntou Regina, para manter as aparências.

– Ora, queridinha, eu sei de tudo.

– Você a conhece?

– Mais do que gostaria. Mas agora me diga... Como você descobriu isso e porque isso te interessa?

– Não importa como eu descobri. – esquivou-se Regina. – Eu te chamei porque... Minha mãe possui alguns feijões mágicos, que ela me disse serem capazes de criar portais para outras terras. Mágicas ou não. E, ao saber que o grande objetivo do Senhor das Trevas era se transportar para um reino sem magia, eu decidi dar um jeito nisso.

Pelo olhar em seu rosto, Rumple não parecia convencido.

– Cora tem feijões mágicos? Isso não é possível. Essas coisas são muito raras.

– Bem, ela certamente tem. Eu os vi. – mentiu Regina, esperando que as informações de Blue Fairy fossem confiáveis.

– E você simplesmente decidiu me ajudar? Por quê? – questionou ele, claramente desconfiado.

– Bem... Eu quero que todo esse terror acabe. Você prejudicou algumas pessoas que eu conheço, por todo esse reino, e eu acho que isso tem de acabar. Então, se você concordar, eu falarei com minha mãe e você poderá ir a qualquer lugar que quiser para encontrar seu fi... A pessoa que quer encontrar. – corrigiu-se.

– Parece muito suspeito para mim. Cora e eu não temos a melhor história. E ela é uma cobra ardilosa. O que a faz pensar que ela concordaria em me ajudar?

– Porque você nos dará algo em troca.

Rumplestiltskin riu.

– É claro. Sempre há um preço. O que vocês querem?

– Eu não sei. – confessou Regina. – Isso é com ela. Podemos negociar.

Ele encarou-a com os olhos semicerrados, aparentemente interessado na palavra “negociar”. Em seguida, aproximou-se dela e segurou-a pelos ombros, seus olhos afundando nos dela ameaçadoramente.

– Eu vou com você... Regina. Mas saiba que, se isso for uma armadilha, você e sua mãe terão que lidar com a fúria do Senhor das Trevas. Porque, querida... Ninguém quebra um acordo comigo. Você me entendeu?

Regina assentiu, e afastou-o, irritada.

– Isso não é uma armadilha. Eu quero um pouco de paz nesse reino.

– Veremos. – ele disse.

***


Não foi tão fácil convencer Cora a ajudar Rumplestiltskin. E, no fim das contas, aquele encontro tomou um rumo inesperado.

Os dois foram juntos até a casa de Regina, onde encontraram uma Cora assustada por ver seu velho amante e professor novamente. Regina explicou a Cora que o invocara porque sabia que a mãe tinha algo que poderia acabar com todo o terror que ele espalhava pelo reino. Após um sermão sobre como ela não devia mexer com forças que não conhecia ou se meter no que não dizia respeito a ela, Cora disse a Rumple, firmemente, que não o ajudaria.

Ela não queria abrir mão de um de seus feijões por causa dele, e parecia inflexível quanto àquela decisão. Até que Rumple decidiu desenterrar um pouco do passado para convencê-la; disse que, se Cora lhe desse um dos feijões, ele contaria a ela para onde tinha enviado a filha deles, Wilma.

Regina levou suas habilidades de atuação ao máximo quando fingiu entrar em choque por receber a notícia de que tinha uma irmã. Os outros dois, no entanto, não demonstraram muito interesse em explicar tudo para ela; estavam muito mais preocupados com a negociação.

E, mesmo que Cora se esforçasse para parecer inclemente, ela admitiu, para a surpresa de Regina, que reencontrar a filha que abandonara no passado era o que ela mais queria.

Sendo assim, depois de uma breve discussão, ela acabou cedendo ao pedido de Rumplestiltskin. Foi até seu quarto e voltou com uma caixa que guardava dois feijões incomuns, semitransparentes e brilhantes. Entregou um deles a Rumple, que revelou que havia enviado Wilma para uma terra chamada Oz.

Em seguida, Cora pegou um globo branco, semelhante ao globo terrestre – uma esfera de superfície vazia encaixada em uma estrutura giratória. Rumple fez um pequeno corte no dedo e despejou seu sangue no globo, que mostrou exatamente em que local da Terra sem Magia seu filho estava.

Agradecendo, surpreso, pela ajuda das duas, ele jogou o feijão no chão e abriu um enorme portal de uma luz ofuscante, e foi engolido pelas trevas assim que pulou nele.

Quando o portal desapareceu, Cora conversou com Regina sobre sua irmã perdida, contando-a, com uma voz carregada de culpa, toda a história que ela já conhecia, enquanto a jovem fingia se surpreender e eventualmente fazia algumas perguntas para reafirmar seu choque. Cora também fez Regina prometer que jamais se envolveria com nenhum feiticeiro das trevas novamente – além dela, é claro – e disse que iria a Oz procurar pela outra filha no dia seguinte, pois precisava se preparar – afinal, jovem e abandonada, Wilma teria muitas perguntas e muitas acusações quando reencontrasse a mãe.

A possibilidade de ver sua irmã novamente deixou Regina apreensiva, mas ela tentou pensar que, talvez, Wilma ainda não fosse aquela bruxa terrível que armara contra ela. Talvez Cora chegasse a tempo de impedi-la de se transformar na Bruxa Má do Oeste.

Naquela noite, Regina olhava pela janela de seu quarto, recapitulando mentalmente tudo de positivo que conquistara até ali. Não se casara com o Rei. Devolvera o coração à mãe. Estava em paz com ela. Não tinha que esconder seu relacionamento com Daniel. Ajudara Rumple a ir atrás do filho, de modo que uma maldição não seria mais necessária. Encontraria a irmã, e talvez elas pudessem ser uma família. Não seria inimiga de Snow. Não se tornaria a Rainha Má.

Não lançaria uma maldição. Emma não existiria, e se existisse, não seria uma salvadora. Não adotaria Henry. Nunca poderia ficar com Emma. Nunca.

Suspirou, olhando para o luar através de seus olhos lacrimejantes. Será que aquilo tudo valia a pena? Ela poderia estar com Daniel, mas os pensamentos e comparações com Emma poderiam impedir que ele a fizesse feliz. Poderia ter filhos com ele, mas nenhum deles seria Henry, e substituí-lo parecia tão injusto.

Olhou para o chão e enxugou suas lágrimas antes de dizer:

– Blue Fairy.

Esperou alguns segundos. Nada.

– Blue Fairy. – repetiu, desta vez olhando para a maior estrela que conseguiu encontrar no céu noturno.

A estrela desapareceu por alguns segundos, para, em seguida, aumentar até transformar-se em uma pequena figura alada que voava em sua direção.

Regina abriu a janela enquanto a fada se aproximava, e deixou-a entrar.

A fada aumentou de tamanho para falar com ela, pousando no chão de seu quarto levemente.

– Então? – perguntou. – Você tomou sua decisão?

Regina assentiu.

– Sim. Eu tomei.

Encarando a expressão abatida de Regina, ela pareceu entender.

– Você não vai ficar, não é?

Regina balançou a cabeça em negação, enquanto as lágrimas desciam por seus olhos novamente.

– Eu não posso. Tudo isso é maravilhoso, mas... Eu ainda tenho essas memórias dentro de mim. As memórias de tudo o que realmente vivi. Toda a dor, todas as trevas... E Henry. E Emma. E por causa destas memórias, receio que nada mais se encaixe em minha vida além deles.

Blue Fairy assentiu.

– Tem certeza, Regina? – perguntou. – Como eu disse, desfazer sua segunda chance refará tudo o que aconteceu antes dela. Todo o seu esforço nestes últimos dias será apagado como uma vela. E... Você estará morta de novo.

Regina tentou não pensar naquilo, e disse:

– Eu sei. Eu sei que esta era minha última chance de continuar viva. Mas eu já passei um ano longe deles, e quase não suportei. Não acho que conseguiria ficar o resto da minha vida sem eles. Mesmo que eu tenha tudo isso de volta. Daniel é maravilhoso, mas... Eu sinto falta da minha xerife. – sorriu ao lembrar-se dos cabelos loiros de Emma, do aroma familiar de sua jaqueta de couro, de seus braços fortes. – E do meu pequeno príncipe. E viver sabendo que eles nunca existiriam... É simplesmente inimaginável. Não posso mais ser feliz sem ver antes a felicidade deles. Eu poderia me casar com Daniel, ter outros filhos... Mas eu sempre estaria sentindo falta de Henry e Emma. Sempre.

– Eu admiro a sua decisão. – disse a fada. – Mas vou perguntar uma última vez...Você tem certeza?

– Total. – ela respondeu, firmemente, enxugando suas lágrimas. – Muito obrigada por essa chance, mas... Pode desfazer tudo.

A fada suspirou e sacou sua varinha mágica. Erguendo-a, começou a emanar uma forte luz dela, e disse:

– Quando essa luz se dissipar, tudo será desfeito. E nós estaremos em Storybrooke novamente, no exato local onde a deixamos.

Regina fechou os olhos, enquanto sentia tudo girar ao seu redor, ciente de que, quando o resquício de luz azulada da varinha não estivesse mais atingindo suas pálpebras, ela estaria morta. Aqueles eram seus últimos segundos de vida.

Ela começou a girar ainda mais rápido enquanto um zunido forte inundava seus ouvidos, despedindo-se da vida que deixava para trás. Tentou fingir que estava prestes a reencontrar Emma e Henry, que iria abraçá-los assim que abrisse os olhos novamente, para que pudesse ir embora feliz. Seus pensamentos pareciam cada vez menos concretos, como uma névoa se perdendo no ar, cada vez mais distantes, até que sumiram de vez.

No entanto, a consciência ainda não havia abandonado Regina alguns momentos depois, quando, não enxergando nada além de escuridão, ela começou a ouvir um bipe. Um bipe baixo e distante, como um ruído insignificante ao longe. Uma sequência de bipes insistente, como um gancho puxando-a ao longe.

Como os bipes de uma máquina de hospital.

Notas finais
senti muita falta do Rumple, e vocês? apesar de que traduzir "dearie" foi meio broxante, masok. o final ficou meio ????? mas no próximo capítulo vocês vão entender, prometo. Comentem suas opiniões :) P.S.: a fic já tá quase no fim galera :(