Les Cahiers
1 PRÓLOGO – Neige.
Notas iniciais
ESCUTO UMA BATIDA NA PORTA. Levanto-me rapidamente do sofá para atender a porta. Porém, quando abro, não vejo ninguém.
Franzo o cenho, deve ser as crianças da vizinhança brincando de bater na porta e sair correndo. Estou fechando a porta quando olho para baixo e vejo uma caixa de madeira escura em cima do tapete. Está endereçado a mim.
Pego a caixa, entrando e empurrando a porta com a bunda já que minhas mãos estão ocupadas. Leio o remetente, mas não diz quem é. Estranho.
Sento-me novamente no sofá com a caixa no colo. Procuro a tampa, girando a caixa e passando as mãos até sentir algo diferente, um relevo. Achei.
Quando retiro a tampa, sinto-me nostálgica ao ver meus caderninhos, meus diários. Há quanto tempo eu não escrevo neles? Seis anos, talvez...
Espere. O que meus cadernos estão fazendo aqui? Eu pensei tê-los deixado na Vieille Maison. E por que está sem a droga do remetente? Suspeito. Por que diabos me enviaram isso?
Peguei o mais velho dos 11 diários, um caderno pequeno, porém um pouco grosso com uma capa que eu desenhei á mão várias flores.
Meus desenhos de quando eu tinha dez anos eram em minha opinião de agora, eram horríveis. Mas antes eu achava que meus desenhos eram um máximo. Francamente...
Abro o diário e a primeira página é um desenho de uma grande árvore. Pelo menos nisso eu era boa, desenhar árvores. Depois de encarar a página por alguns segundos reconheço a árvore. Nenhuma outra ficava entre uma cerca com o George, que dividia dois quintais, o meu e o dele quando nós morávamos em Broullard, Virgínia.
Sorrio. Tive tantas lembranças de baixo desse carvalho... Boas e ruins, no caso.As melhores memórias sob o carvalho George eram as piadinhas. “Vou escalar George”, “George está de olho em você”, “George está ouvindo isso!”.
Viro a pagina e vejo uma página escrita. Céus, minha letra também era muito “linda”.
15/10
Minha nova mamãe comprou esse caderno para mim hoje. Ela disse que era para eu poder desenhar e escrever o que eu quisesse aqui então pulei uma página para fazer um desenho da maior árvore que conseguisse achar no quintal.
Perguntei para a nova mamãe o que eu poderia escrever e ela disse: “O que você pensar! Fale sobre o mundo a sua volta, descreva as pessoas que te cercam. Eu escrevia poemas, músicas e fazia muitos desenhos.”. Acho que vou fazer o que ela disse.
Também perguntei onde ficava a maior árvore e me disseram que era no fundo do quintal e que se chamava George. Uma ÁRVORE que se chama George! Por que raios colocaram nome na árvore? Detalhe, de tantos nomes tinha que ser George. Ah, deixe pra lá...
Pelo menos, o George é fácil de escalar e tem muitos galhos grossos. Porém, ela não é só do meu novo quintal. A cerca acabava no tronco e continuava por mais uns metros. Não quiseram derrubar George? Favoritismo...
Resolvo escalar George. Achei um galho grosso então me sentei nele.
Nem acredito que conheci papai hoje. Sempre fomos eu, Jona e mamãe numa casa pequena. O estranho é que fomos morar com papai e não foi escolha nossa. De acordo com ele, mamãe está doente e não pode cuidar da gente.
Mas, não moramos apenas com papai. Ele tem uma família também! Antes de mim e Jona chegarmos, era só ele, a nova mamãe e mais o meu novo irmão que ainda não conheci. Mas agora, a nova mamãe está grávida! Não vou ser a única menina na família! Ufa...
Estou curiosa sobre meu novo irmão! Papai disse que ele está no vizinho agora e mais tarde nós conheceremos ele.
Bom, já estou escutando gritarem meu nome. Vou indo, mais tarde vou desenhar o George.
Lista de coisas pra fazer:
–Procurar passagens secretas pela casa
–Procurar esconderijos
–Escalar George
–Xeretar o quintal dos vizinhos
Obrigada por me ouvir, Alice.
Solto uma pequena risadinha que se transforma em risos altos. Logo, começo a chorar. São tantas memórias passando pela minha cabeça que vários sentimentos enchem meu peito.
Quero jogar o diário no chão e destruir essa caixa, mas minha teimosia me impede. Ela sempre me impede, né? Suspiro. Tenho que me decidir. Ler ou não ler.
Às vezes é melhor você respirar fundo e discutir consigo mesmo. Isso ajuda, sabe?
Lembro-me das palavras dele. Ele está certo. Fecho meus olhos e respiro fundo, tento me decidir. Prometi a mim mesma não me arrepender da escolha que fizer, já me arrependi muitas vezes e não quero fazer isso mais uma vez. Abro os olhos. Já sei o que quero.
Eu quero ler. Quero ver o quanto eu mudei. Quero poder julgar as minhas ações passadas. Quero saber por que eu ainda só tenho olhos para ele.
Acho que ler esses diários pode esclarecer muitas dúvidas. Bem, por que não?
Fecho o diário em minhas mãos e guardo junto com os outros. Vou começar amanhã. Tudo que eu mais preciso é de uma boa noite de sono para poder ler. Mas, tenho certeza que essa noite eu não vou conseguir dormir muito bem.
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