Notas iniciais
*Título do capítulo: Minha dor. (Francês) *Aqui vai o primeiro capítulo o/ *Lembrando: Como a personagem mergulhou em memórias, vai ter uma ou duas páginas de diário e as lembranças. Não estranhem o modo "presente", já que isso é o que Alice pensou na hora. *Espero que gostem >

23/11

Desculpe por demorar a escrever. Aconteceu muita coisa comigo nessas duas semanas. Vou começar com o melhor: Eu conheci meu novo irmão. O nome dele é Henry e ele é só 5 meses mais novo que eu, mas ele é maior. Droga.

Descobri que ele gosta de abraços e fica o dia todo ouvindo música e praticando violão. Jona o adorou, assim como eu. Eles já estão passando algumas tardes juntos.

Outra coisa boa: Meu quarto é enorme! Ele tem seis paredes (por incrível que pareça) e um armário/guarda roupa gigante colado em uma delas. Um dia, quando eu estava arrumando minhas roupas, abri a última porta do armário e me deparei com um revelo no fundo. Uma portinha secreta!

Fiquei um tempo tateando aquela porta até descobrir que ela é de empurrar. Dei de cara com um corredor escuro e estreito, mas não era pequeno como a portinha, eu podia me esticar á vontade nele. Mamãe disse que aqui era uma casa muito antiga, a Vieille Maison, e que essa junto com a casa vizinha, Nouvelle Maison (á direita), foram construídas para ser uma só. Ela também disse que aqui é cheio de passagens secretas, mas que todas as que ligavam as duas casas encontradas foram fechadas. Acho que não olharam no meu quarto.

Vou andando, tateando as paredes para me orientar. Tropeço e quase caio no degrau. Uma escada logo agora? Suspiro. Vou descendo com cuidado até dar de cara com a parede. Parede não, uma porta. É de madeira.

Empurro e encaro o escuro. Reviro os olhos. Sigo com o tato pelo lado direito. Não demoro muito para achar o interruptor e acendo as luzes.

Encanto-me com o que vejo. O que é um paraíso para alguém que ama artes e música? Um lugar que tenha um som, CDs, telas, tintas, papéis, lápis e materiais de desenho. Adivinha o que tinha nessa sala enorme? Tudo isso e muito mais.

A sala era enorme e as paredes eram pintadas de azul. Tinha muitas prateleiras com livros de diversos tamanhos e CDs. Um armário para guardas coisas, várias almofadas grandes espalhadas pelo chão e um colchão com forro e dois travesseiros. Logo do lado, um abajur de tamanho médio. Tinha uma porta do outro lado, mas eu resolvi olhar depois

Tinha dois suportes de telas um de costas para o outro. Apenas uma das telas estava em branco. A outra parecia ser pintada a dedo e estava incompleta. A pintura era de uma árvore.

Resolvo voltar mais tarde. Já estava quase na hora do jantar e iriam sentir minha falta. Apaguei as luzes, fechei a porta e fui para meu quarto. Foi meio difícil fechar a portinha do armário, mas eu consegui pelo menos encostar. Vou fazer um buraquinho na madeira e colocar uma corda, pra facilitar.

Ah, também teve uma noite em que eu fingi que fui dormir e passei pela passagem. Como eu tinha feito um buraquinho e coloquei uma corda, ficou fácil eu abrir e fechar. Estava levando uma lanterna também para evitar que eu caia da escada, mas quando eu abri a segunda porta, tinha alguém lá! Deve ter vindo daquela segunda porta.

Era um menino. Ele me olhou confuso e perguntou o que eu fazia ali. Eu disse que tinha achado isso tem uma semana, mas ele queria que eu fosse embora. Eu disse não, claro. Aquele lugar não podia ser só dele se é ligado com meu quarto!

Ele revirou os olhos e disse que se eu quisesse ficar, eu teria que ficar quieta. Sorte que eu estava com você, caderno. Eu poderia desenhar. Mas eu meio que estava sem ideia então eu acabei...Desenhando ele.

Ele até que é bonitinho. Ele é branquinho, como eu e tem cabelo preto, olhos verdes e puxadinhos. Ao contrário de mim, que tem cabelo castanho e olhos azuis ENORMES.

Eu fiquei muito curiosa para saber seu nome. Ele brigou comigo por ter tirado sua concentração no livro que ele estava lendo (Era grosso, credo! Lendo tudo isso nessa idade), mas ele acabou me dizendo que se chama Koul. Bem, acho que é assim que escreve.

Agora eu vou te contar uma coisa que só tive coragem de contar pra Jona. Eu implorei muito pra ele ficar calado, então ele disse que só não contaria pro papai se eu o deixasse cuidar do queimado. Isso mesmo, QUEIMADO.

Como começar... Antes eu morava em uma casa pequena e pobre com mamãe Elouise e Jona. Mamãe se mudou da França para tentar a vida nos Estados Unidos e não deu muito certo. Agora que ela está doente e fui morar com papai, eu entrei em uma vida diferente.

Papai é um professor de história e artista, ou seja, ele é rico. Mamãe Madeleine é atriz, ou seja, ela também é rica. E eu e Jona estamos na guarda deles agora, ou seja, também somos ricos agora.

Isso significa novas escolas. Digamos que a minha turma não me aceitou bem. Em apenas um mês já começaram a fazer bullying comigo e um grupo de meninos mais velhos fizeram coisas nada legais.

Eles me levaram para um lugar perto da escola e me tocaram aonde não deveriam. Eu acabei dando um tapa em um deles e ele ficou muito bravo. Acabou que ele me queimou com cinzas de cigarro perto do meu osso da bacia esquerda. Foi horrível.

Quer saber, diário? Não preciso de amigos! Já sou feliz com Jona e Henry ao meu lado! Sem falar da minha irmãzinha que vai nascer daqui a três messes. Pra quê amigos se eles só vão te machucar? Aqueles que falavam comigo na sala, aqueles que eu considerava amigos não fizeram nada. Sou alguém invisível nessas horas.

Obrigado por me ouvir, Alice.

Fecho o diário com força. Eu já estava chorado pela terceira vez hoje.

Mexer a perna esquerda dói um pouco, mas não me impede de andar até o guarda roupa e entrar na passagem.

Koul já estava na sala, deitado no colchão. Ele me encara franzindo o cenho. Olho para mim mesma. Estou vestindo uma blusa maior do que eu, mancando e com lágrimas escorrendo pelo rosto. É claro que estou estranha.

–Você está bem?

Ignoro e vou em direção aos papéis. Quero fazer alguma coisa que me faça esquecer o que fizeram. Sento-me no chão de mármore (péssima ideia, é muito gelado) e começo a fazer qualquer coisa que me vem à mente.

Por que isso aconteceu comigo? Qual é o problema eu estudar na mesma escola que eles? Por que eu não posso ser alguém normal perto deles? Eles acham que eu não sou humana por ter sido pobre?

–Não preciso deles, não preciso deles!

–Ei – Koul me chamou, mas eu não ouvi. Estava apenas pensando em rabiscar.

Rabiscar, rabiscar. Mostre sua raiva. Rabiscar, rabiscar. Mentirosos. Rabiscar, rabiscar. Que todos eles vão para o inferno. Rabiscar, rabiscar...

–EI! – Sinto uma mão me puxando para cima. Sito uma dor no quadril por ter movimentado a área do queimado. Agora estou de pé, frente a frente com Koul. ­– O que pensa que está fazendo?

–Eu não... – Olho para a folha de papel, totalmente rabiscada e com alguns rasgos causados pelo lápis –... sei.

Ele apertou um pouco a mão que ele tinha pegado e me levou para sentar em uma das almofadas grandes.

–Me conta.

–Não!

–Então eu posso tirar minhas próprias conclusões sobre esse machucado ai? – Disse ele apontando para a minha perna esquerda. Ele conseguiu ver a gaze cobrindo o queimado? Que. Vergonha.

–Não!

–Talvez você tenha caído. Ou também poderia estar fazendo coisas inapropriadas para uma menina de...

–Tá bom! Eu conto.

Acabei contando quase do mesmo jeito que eu tinha escrito no diário. Ele ficou calado até eu acabar de falar. Chorei mais uma vez, claro. Ainda dói, e muito.

–Posso... ver?

Eu já estava me preparando para dizer um belo não. Abro a boca, mas ele me interrompe.

–Ah, não pense que só por que sou um menino que vou ficar maliciando e essas coisas. Até por que você nem tem nada de interessante.

Aquilo doeu. Uma coisa é falar que não era daqueles garotos que tinham entrado na idade de pensar besteira em tudo. Outra era deixar claro que eu sou feia. Eu já sabia, não precisava jogar na cara.

–O-ok... – Levantei um pouco a camisa (depois eu tenho que devolver pro Jona) e tirei um pouco esparadrapo que prendia a gaze.

Era estranho ter um menino tão perto que não seja seus irmãos. Ele fez uma careta quando viu o queimado, que ainda nem tinha começado a cicatrizar.

–Nojento, não?

–Não acho – Disse ele – É a sua pele. Ela apenas está machucada, mas ainda continua sendo sua pele.

Fico surpresa. Ele costuma a ser meio frio, por que ele estava sendo gentil? Ah, quem sabe. Não conheço o Koul, mesmo. Só sei que ele gosta de ouvir música, desenhar e ler, coisas que temos em comum, apesar de eu não ler muito.

Eu quero conhecê-lo. Não, espera. Chacoalho a cabeça. Eu não quero ter amigos. Ele nem deve me suportar direito, isso é bom. Não quero amigos, eles só servem para você jogar sua confiança no lixo. Não quero conhecê-lo.

Espero que eu não mude de ideia.

Notas finais
*Imagem achada no Google, créditos aos seus devidos autores. *Espero que tenham gostado >< *Comentários?