Leo acordou com uma baita de uma dor de cabeça, parecia que estava sendo rachada no meio e um bichinho cutucando seu cérebro com alguma coisa pontiaguda. Abriu os olhos, mas não enxergava nada, só uma luz branca. Por um momento achou que estivesse morto, mas ouviu alguma coisa:

–Graças a Grayton.

Leo não reconheceu a voz e nem a ouviu direito, ao fundo escutou alguma coisa parecida com ”Você pode me escutar?”, tentou responder, mas só conseguiu emitir alguma coisa parecida com:

–Urgh.

–Parece que sim – respondeu a voz que agora Leo começava a entender melhor.

–Ele deve estar com dor de cabeça. Faça alguma coisa – respondeu uma voz que Leo reconheceu, era a voz de Emily.

Aliviou-se, pelo menos não tinha sido raptado ou abduzido por extraterrestres. Sentiu uma dor mais forte ainda bem no meio do cérebro. Parecia que o bichinho que estava lá dentro deu um tiro no cérebro de Leo.

–Urgh – esse foi o rugido de dor de Leo.

–Foi mau cara, só tentei ajudar – respondeu Mike.

–Você não consegue nem fazer um feitiço direito – disse Emily ao fundo – Ande, me ajude aqui, eu faço isso.

Leo sentiu Mike se afastando para ajudar Emily. E ela reclamando:

–AI, cuidado.

Sentiu uma movimentação ao seu lado e um alívio na cabeça, Emily deveria estar fazendo alguma coisa. Aos poucos sua visão voltava, o feixe de luz branca começava a tomar cores que a princípio não fazia sentido nenhum, tinha distinguido um bicho verde e feio na sua frente, mas as cores certas foram se encaixando e Leo percebeu que era Mike.

A dor de Leo diminuiu consideravelmente, parecia que o bichinho tinha morrido e agora só as suas cutucadas doíam.

–Está melhor? – perguntou Emily

–Sim. Posso te enxergar agora – disse Leo pausadamente, pois cada palavra que proferia fazia com que a dor retornasse.

–Ótimo — disse Emily – Se lembra de alguma coisa que aconteceu?

–Sim, me lembro de aranhas, um clarão e o segundo andar cedendo. Depois caí, bati a cabeça e não me lembro de mais nada.

–Certo – disse Emily – Isso é bom. Parece que você nos salvou das aranhas. Matou todas elas.

–Sim, agora me lembro. Você e Mike estavam caídos no chão e um monte de aranhas subindo por vocês. Lancei um feitiço e o segundo andar desabou. Encontrei vocês não muito longe, tentei ir até vocês, tropecei e bati a cabeça.

Os dois se olharam impressionados, foi até engraçado ver os dois olhando um para o outro com cara de bobos.

–O que foi? O que aconteceu?

–Leo, você nos salvou, teríamos morrido se não fosse você.

–E as aranhas? De onde saíram tantas?

–Não sabemos direito – disse Emily – Achamos que quem sequestrou Grayton fez essa armadilha pra gente, ele sabia que viríamos aqui.

–E onde estamos?

–Na mansão de Grayton ainda.

–Então vamos sair. Precisamos ir falar com o tal de Scott.

Leo tentou se levantar, mas não conseguiu mexer nem um dedinho. E soltou um grito de dor:

–OH, espera aí. Precisa melhorar, ou melhor, precisamos melhorar – disse Mike.

–Você tá de brincadeira né? Não existe nenhum feitiço que possa fazer isso pra gente, não podemos esperar.

–Já tentamos tudo o que sabemos. Agora temos que esperar fazer efeito.

Leo não acreditou nisso, com tanta magia eles não podiam fazer nada? Com muito sofrimento pegou sua varinha que estava ao seu lado e a mexeu na direção de Emily. Ela gritou, mas depois disse:

–UOU, como você fez isso? – ela se levantou sem problema nenhum – Estou ótima.

No mesmo instante Leo gritou. O feitiço fez ele se contorcer de dor no chão, era como se todos os seus ossos fossem esmagados de uma vez. A dor não cessava e ele gritava como um louco.

–O que foi? – perguntou Emily assustada.

Leo não conseguiu responder, apenas gritava. O feitiço teve algum tipo de efeito colateral, como se toda a dor que Emily sentiu quando caiu fosse transferida para ele. Os amigos ficaram acudindo Leo desesperados, não sabiam o que fazer, mas finalmente depois de uns 3 minutos de gritos incessantes a dor começou a desaparecer pelas pontas dos dedos. Leo continuava a gritar, mas seus gritos foram diminuindo à medida que a dor deixava seu corpo muito lentamente.

–Tá tudo bem agora? – perguntou Emily quando Leo parou de gritar.

–Acho que sim – respondeu Leo.

–O que aconteceu? Por que começou a gritar daquele jeito?

–Acho que a sua dor foi transferida pra mim através do feitiço. É como se ela saísse de você e viesse pra mim com muita intensidade e depois de um tempo ela desapareceu.

–Sinto muito Leo, não precisava fazer isso – disse Emily.

–Tudo bem, pelo menos você está bem agora e eu também, então... acho que seria melhor fazer o mesmo com Mike.

–Não! – disse Mike tão repentinamente que Leo e Emily levaram um susto – Não vou deixar que faça isso de novo!

–Não pedi sua permissão.

O coitado do Mike foi pego de surpresa, Leo lançou o feitiço em Mike e a mesma dor o atingiu com um baque. Voltou a gritar descontroladamente pelo chão assim como aconteceu com Emily. Mike parecia ter sofrido mais que Emily quando caiu, pois a dor em Leo foi ainda mais intensa. O que durou 3 minutos para Emily, com Mike durou pouco mais de 7 minutos até que a dor começasse a desaparecer do mesmo modo, pela ponta dos dedos.

–VOCÊ FICOU DOIDO? POR QUE FEZ ISSO DE NOVO? – perguntou Mike nervoso.

–Era o jeito mais rápido. Se não fizesse isso ficaríamos aqui por muito tempo – disse Leo.

–Nisso você tem razão, mas poderíamos achar outro jeito.

–Tá tudo bem Mike, é melhor assim – disse Leo carregando um olhar que fez Mike não querer discutir.

E sem pensar muito na dor que ia sentir apontou a varinha para si. Pensou que poderia se curar sozinho, sentiu uma dor leve e não chegou ao ponto de gritar, ele já estava bom, não precisava daquilo, talvez os amigos curaram ele também.

Levantou e agitou a varinha. Os escombros que estavam jogados pelo chão da sala subiram e se encaixaram formando novamente o segundo andar. Os objetos que foram quebrados estavam agora intactos, como se nada tivesse acontecido.

Leo não aguentou, começou a rir com a cara de espanto que os amigos fizeram. Agora entendia por que eles riam dele quando ele se espantava com alguma coisa. Eles pareciam idiotas vendo as peças se encaixar novamente do jeito que eram antes.

–Cara, você é demais. Achei que isso não tinha mais conserto – disse Mike estupefato.

–Realmente impressionante – disse Emily espantada.

Leo continuava a rir com seus amigos olhando pra eles como dois bobos. Pareciam que tinham visto alguma coisa sobrenatural, pois eles continuavam com a mesma expressão de quando Leo terminou seu feitiço, incrédulos.

–Vão ficar olhando assim pra mim ou vamos atrás de Scott?

–Você sabe que horas são? – perguntou Emily

Leo não tinha ideia, então olhou pra janela e se surpreendeu quando viu a lua brilhando no céu escuro e estrelado.

–JÁ É DE NOITE!

–Parece que ficamos inconscientes por muito tempo – disse Mike

–Isso significa que vamos ter que falar com Scott amanhã – disse Emily.

Leo assentiu desapontado com um leve movimento com a cabeça.

–Parece que finalmente vamos descansar em camas boas hoje – disse Mike tentando ver o lado bom de já ter escurecido.

–Você pode ficar no quarto de hóspedes – sugeriu Emily.

–Vocês recebem hóspedes aqui?

–Não é só um jeito de falar. Você vai adorar é muito confortável.

Lá se vão as esperanças de Leo de ter uma noite tranquila. O quarto de “hóspedes” era horrível, não tinha cama, só um colchonete fininho no chão todo sujo e um guarda-roupa todo quebrado, roído por cupins e nada além disso.

–Vocês estão me zuando né?

–Se não quiser ficar aqui, pode ficar no sofá, ele é bem macio – sugeriu Emily.

–Parece bem melhor.

E Leo desceu as escadas batendo os pés com força nos degraus. Se esqueceu que a escada era velha e acabou quebrando um degrau, quase caiu mas consertou o degrau sem problemas antes que alguém percebesse.

Deitou no sofá duro e empoeirado. Virava para um lado e para o outro, mas não encontrava uma posição confortável. Foi aí que Leo se lembrou que era feiticeiro e podia conjurar uma cama confortável e quentinha.

Mas não chegou nem perto de conjurar uma cama, só conseguiu um colchonete como aquele no “quarto de hóspedes” e acabou deitando no sofá mesmo. Emily disse que era macio, mas não era, tinha uma madeira que passava bem no meio do sofá e impedia que Leo se acomodasse confortavelmente.