Lendo Ulysses Moore
2 A porta arranhada
Notas iniciais
O resto da tarde foi passado em telefonemas.
Quando acabaram, Carol foi a primeira a pegar um táxi para casa. Tinha feito telefonemas para Cindy, os Minaxo, os Flint ( embora ninguém se mostrasse entusiasmado com isso ), os Moore, Peter Dedalus, Black Vulcano, Última e os pais de toda a cambada menos a mãe de Carol que vivia em Miami.
E, no dia seguinte, como não podia deixar de ser...
- BOLAS, ESTOU OUTRA VEZ ATRASADA!!! — Gritou Carol irrompendo no Clube dos Viajantes Imaginários.
- Tinha de ser. — Resmungou Nestor.
- Não é culpa minha. — Disse Carol. — Foi culpa... FOI CULPA DOS FLINT!!!
- Nós? — Perguntou Emmet. — Nós, os Flint? Puros e santos?
- Já vi assassino mais puro ou santo. — Sussurrou Jason.
- Bah... — Falou Carol. — Agora... LETS GO READING!!!
- CALA A BOCA, DESGRAÇA!!!
- DESGRAÇA É A SUA MÃE!!!
- Lembram que agora íamos ler? — Sugeriu Tommi. — Que tal fazermos isso agora?
- Quem vair ler? — Perguntou Carol.
- Eu. — Falou Jason.
Você sabe ler? Ironizou Carol em pensamente, mas passou A Porta do Tempo ao amigo.
- Disponha.
- Capítulo 1. A porta arranhada.
- Own! — Fez Cindy. — Vocês têm um gatinho? Daqueles que arranham as portas?
Todos olharam para ela, descrentes.
A casa dos recifes apareceu de repente por trás da curva. A torre de pedra recortava-se no azul do céu, rodeada de árvores.
- Que bonito! — exclamou a senhora Covenant mal viu a casa.
O marido, que ia a guiar, limitou-se a sorrir. Passou o portão de ferro e arrumou o carro no pátio.
A senhora Covenant saiu do carro. O cascalho rangia-lhe debaixo dos saltos.
— Nossa. — Espantou-se Carol. — Eu só uso saltos no Ano Novo e no Natal, mas mesmo assim parece que estou com o corpo na diagonal. Como você consegue?
Todos bateram com a mão na testa.
Abriu e fechou os olhos, indecisa entre acreditar ou não no que estava a ver.
Era uma casa sobranceira ao mar: ouviam-se as ondas a bater contra as rochas e o ar carregava um forte odor salgado. O edifício estava rodeado do azul do mar e do céu e, mais perto, pelas árvores do jardim. Ao longe, no sopé do recife, aparecia a baía de Kilmore Cove, com algumas casas espalhadas.
Enquanto a senhora Covenant permanecia imóvel no pátio, de boca aberta, um homem velho, com a cara marcada de rugas profundas e com uma barba muito bem tratada, foi ter com ela. Tinha os olhos vivos, irrequietos e profundos. Ao apresentar-se, até a assustou.
- Chamo-me Nestor. — disse ele. — Sou o jardineiro da Vivenda Argo.
- MINHA HORA DE BRILHAR!!! — Gritou Nestor.
Então era assim que se chamava a casa, pensou ela: Vivenda Argo.
Seguiu o marido e o jardineiro, que coxeava, até um portão virado para o mar.
- Não nos teríamos enganado? — perguntou a senhora Covenant, e tocava nas paredes da Vivenda Argo como se precisasse de ter a certeza de que existiam mesmo.
O marido pegou-lhe na mão e sussurrou-lhe:
- Agora é que vais ver...
- Ah... — Fez Carol. — Posso maliciar?
- NÃO!!! — Exclamaram os senhores Covenant.
O interior da Vivenda Argo era ainda mais espectacular do que o exterior: um labirinto de quartos pequenos, arranjados com móveis e objetos que pareciam vindos de cada canto do mundo. Era tudo perfeito, estava tudo no lugar certo.
- Eu devia ir para o « Querido, Mudei a Casa ». — Disse Penélope.
- OUTRA VEZ NÃO!!! — Lamentou-se Nestor. — Para a próxima me avisa, tá bom?
Pela primeira vez na sua vida, a senhora Covenant pensou que não era preciso mudar coisa alguma de lugar, nem um único móvel.
- Diz-me que é verdade... — murmurou ao marido.
Ele limitou-se a apertar-lhe a mão.
Então, era verdade: tinham mesmo comprado aquela casa!
A senhora Covenant deixou-se levar até uma saleta com o tecto e as paredes de pedra, antigos e elegantes. Entrava-se passando por um arco pequeno ou por outra porta, de madeira escura, situada na parede oeste.
- Esta é uma das divisões mais antigas... — comentou o jardineiro, satisfeito. — Já era assim há mais de mil anos, quando ainda havia aqui uma torre da Idade Média. O senhor Moore, o antigo proprietário, só tapou os buracos das janelas e, é claro, instalou os fios elétricos.
- Depois de noventa eletrochoques e de cair de um escadote...
Enquanto falava, apontava para o lustre suspenso do meio do tecto.
- O Jason vai ficar entusiasmado... — disse o senhor Covenant.
- Por causa do lustre? — Perguntou o Flint do meio. — Você quer imitar um macaco e se pendurar no lustre?
- Flint, me faz um favor. — Pediu Jason. — Se mata.
A mulher ficou calada.
- Têm dois filhos, não têm? — perguntou o jardineiro.
- Sim: um rapaz e uma rapariga de onze anos — respondeu ela automaticamente. — São gémeos.
- E imagino que sejam inteligentes, alegres, cheios de vida...
- Own. Obrigada, Nestor. — Disse Julia.
- Dá para parar com o mel? — Perguntou Carol. — Detesto mel... Figurativamente, claro. Literalmente é delicioso.
- e que vão ficar felizes por crescerem num sítio como este, longe do resto do mundo e da Internet ultra-rápida...
A senhora Covenant arregalou os olhos.
- Bem, acho que sim.... — respondeu, um pouco surpreendida. — Se calhar até nem parece bem ser eu a dizer isto, mas.... sim, são muito independentes... — Veio-lhe á ideia a imagem de Jason colado ao ecrã do computador e abanou a cabeça.
- Mãe! — Exclamou Jason.
- Acho que, mesmo sem a Internet ultra-rápida, eles vão ficar entusiasmados por viverem numa casa como esta.
- Óptimo, mesmo perfeito. — concluiu o jardineiro. — Então, se a casa agrada à senhora, acho que podemos considerar o nosso acordo concluído.
O senhor Covenant explicou à mulher que fazia parte das vontades do proprietário anterior, o senhor Ulysses Moore, que a casa fosse para uma família jovem com, pelo menos, dois filhos.
- De preferência, encrenqueiros e arrastando todos para encrencas. — Acrescentou Rick, que podia ter morrido nesse momento se Calypso não tivesse tomado precauções para nada conseguir cortar na sala. Mas isso não o impediu de levar dois tapas.
- Ele queria que a casa estivesse sempre cheia de vida.... — continuou o jardineiro, levando-os para fora da saleta de pedra. — Dizia que uma casa sem crianças era uma casa morta.
- E tinha razão — aprovou a senhora Covenant.
Antes de sair, voltou a olhar para a porta de madeira que estava na parede oriental. Reparou que, em alguns pontos, a madeira parecia queimada, e que noutros sítios estava estragada com golpes e arranhões profundos.
- Um gatinho fofo mas violento? — Tentou Cindy.
- O que é que aconteceu àquela porta? — perguntou ela.
Nestor parou, olhou para a porta e abanou a cabeça.
- Ah, desculpem — balbuciou ele. — Finka que nunca a viu. Já lhe aconteceu de tudo, desde que se perderam as chaves para a abrir. Está a ver aqueles quatro buracos. O senhor Moore pensava que eram fechaduras. Tentou abri-las de todas as maneiras e feitios mas... foi inútil.
- E para onde é que dá esta porta?
O jardineiro encolheu os ombros.
- Quem sabe? Se calhar em tempos dava para antigo reservatório de água, que hoje nem deve já existir...
A senhora Covenant tocou na madeira estragada e arranhada e sentiu uma onda de preocupação.
- Talvez fosse melhor pôr alguma coisa à frente dela, assim não passaria pela cabeça dos miúdos tentarem abri-la...
- E o que acontece? — Perguntou a senhora Covenant. — ELES ABREM A PORTA!!!
- Podia fazer um post no Tumbrl. — Sugeriu Carol. — Aquele momento... em que seus filhos abrem uma porta queimada e arranhada...
Sim, era realmente difícil ter uma conversa normal com um unicórnio...
comentou ela, virada para o marido.
- Sim, boa ideia... — murmurou o jardineiro, coxeando para fora da sala. — É a melhor coisa a fazer: nunca deve passar pela cabeça dos vossos filhos tentar abri-la.
- Novo post! — Exclamou Carol. — Aquele momento.... em que as pestinhas duplicadas decidem, com um babaca ruivo, abrir a porta que você disse para não abrir.
- Quem vai ler? — Perguntou Anita, tentando ignorar a conversa de unicórnio de Carol.
- Eu. — Disse Julia.
Nossa. Pensou Carol. Hoje descobri que os dois gémeos Covenant sabem ler. Estou espantada.
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