- Capítulo 2. — Leu Julia. — A Corrente.

Jason, sem se mexer, estava ao fundo das escadas e escutava tudo.

Uma corrente de ar estranha trazia barulhos longínquos.

- Foi mal. — Desculpou-se o Flint do meio. — Sabe, feijoada...

- Nojento... — Sussurrou Anita. — Simplesmente nojento.

Ranger de móveis, rajadas de vento, passos de animais. Não era a primeira vez naquela semana que Jason imaginava que os móveis da Vivenda Argo tinham uma vida própria: bsatava o quarto ficar vazio e eles mexiam-se um milímetro.

- Móveis andantes. — Disse Carol. — Quem nunca teve? Meu sofá vai fazer uma maratona e tudo!

- Onde você vai sentar enquanto ele estiver correndo? — Perguntou Rick.

Todos bateram com a mão na testa.

Um milímetro, não mais, para não serem apanhados.

Mas daquela vez era diferente. Não podia ser um móvel a mexer-se. Nem podiam ser as gaivotas no telhado, ou os lagartos na hera, ou os ratos no sótão.

Imediatamente, ouve uma hiperventilação em todas as mulheres presentes.

- OMG!!! RATOS!!!

- QUEIMA!!!

- SAÍ DESSE CORPO QUE NÃO É TEU!!!

- MATA!!!

Os homens bateram com a mão na testa.

Nem pensar.

Daquela vez ele tinha ouvido um barulho mais forte: passos apressados no andar de cima. Tinha parado para ouvir e os passos tinham-se repetido.

Jason mordeu os lábios, preocupado.

- Com que então, estás lá em cima... — murmurou ele para o sue inimigo misterioso, como se, entre eles os dois, existisse um desafio.

- Boa! — Disse Anita. — Tenho um namorado que fala sozinho! Agora sei o que isso é!

Seria possível que ninguém da família tivesse reparado na existência dele? Seria possível que nem o pai, nem a mãe, nem a irmã tivessem percebido que havia outra pessoa a viver naquela casa enorme?

- Nós sabemos que você existe. — Disse Julia. — Você é demasiado barulhento para ignorar.

- Eu estava a falar do fantasma. — Resmungou Jason.

- Sim, o Gasparzinho também é demasiado barulhento para se ignorar.

Jason tinha percebido logo: sim, no preciso instante em que tinham descarregado as malas no pátio da Vivenda Argo, Jason tinha percebido.

A Vivenda Argo era uma casa grande demais para se poder conhecê-la toda. Uma casa com muitas divisões e cheia de segredos, de objectos fascinantes e misteriosos.

Quando a viu pela primeira vez, foi como se a Vivenda Argo lhe tivesse murmurado: « Nada é o que parece: descobre o meu segredo, Jason. »

E ele tinha aceitado o desafio.

Parado na corrente de ar, Jason olhou para os retratos pendurados na parede das escadas que levavam ao primeiro andar e, depois, à divisão da torre. As escadas acabavam com uma porta em espelho. O pai tinha-lhe explicado que aquelas caras velhas emolduradas eram as dos anteriores proprietários da casa e que, dali a pouco tempo, também eles iriam ter o retrato ali pendurado.

- Ai, não: eu não quero posar — tinha dito logo a sua irmã Julia que, só de pensar que tinha de ficar parada mais de quinze minutos, se angustiava.

- Hiperativa. — Disse Carol.

- Nerd. — Disse Julia.

- Cabeça oxigenada.

- Cabeça de fogo.

- Stressadinha.

- Geek.

- Já trocámos 3 insultos?

- Sim.

- Boa, já chegámos à cota diária.

- Vou continuar a ler.

Todas as outras pessoas limitaram-se a olhar, perguntando-se porque é que ninguém naquela sala era normal.

Mas Jason gostava da ideia. Parecia uma coisa... de pessoa importante. De explorador. Ou de caçador de fantasmas.

- OK... quem quer que sejas... — murmurou.

Era possível que os passos que ele tinha ouvido fossem de um fantasma?

Tirou do bolso o Manual das Criaturas Pavorosas, escrito pelo fantasmagórico Doutor Mesmero, herói de banda desenhada.

Encontrou a página de que estava à procura e leu: « Não pensem que os fantasmas são mudos.

- E se for o fantasma de um mimo? — Perguntou Emmet. — Não deveria ser mudo?

Podem fazer barulhos de vários tipos ( passos, correntes arrastadas, campainhas ) e, muitas vezes, sabem falar.

- Até você e o Rick sabem falar. — Disse Black. — E vocês são burros igual ao Tommi.

- Uau! — Exclamou Carol. — Você insultou três pessoas num só insulto! Muito bom!

- Obrigado, ando a treinar.

Além disso, podem ter corpo, nem sempre são incorpóreos. »

Jason aprovou, mas contra vontade. Aquelas linhas não só confirmavam as suspeitas dele sobre a identidade do inimigo, como lhe resolviam uma grande dúvida. Ele sempre tinha querido saber por que era que, nos filmes, os fantasmas atravessavam sempre as portas mas nunca atravessavam, por exemplo, o chão.

Continuou a ler: « Normalmente, os fantasmas vivem em casas onde ainda há alguma coisa para acabar de fazer. »

Alguma coisa por acabar, pois é claro.

Então podia ser um fantasma que andava lá pelo andar de cima para acabar... alguma coisa.

Jason reviu rapidamente os conselhos do Doutor Mesmero para capturar um fantasma, e voltou a pôr o livro no bolso.

- Agora vou-te apanhar... — murmurou ele.

Mas bastou-lhe pousar o pé no primeiro degrau para que uma mão o agarrasse por trás.

- RESTART!!! — Gritou Penelope. — CORRA, JASON!!! CORRA!!!

- Jason! — exclamou a irmã, puxando-o para o jardim. — Temos de ir!

- Ufa... — Suspiraram todos, temendo que o Restart se tivesse apoderado de Kilmore Cove.

Jason ainda estava mergulhado no jogo da caça aos fantasmas, mas tentou lembrar-se do que ia acontecer no mundo real.

« Temos de ir? Para onde? »

- Para o Reino Doce! — Ironizou Julia. — Temos de receber uma missão para derrotar o Rei Gelado!

- Leva lançador de chamas que ele derrete.

Nada lhe veio à memória, mas Jason sabia que ia ser impossível convencer Julia de que havia um fantasma a viver no primeiro andar. Ia Jason atrás da irmã quando, de repente, se lembrou do programa da tarde. Os pais iam a Londres tratar dos últimos pormenores da mudança: móveis delicados que estavam por embalar, o escritório do pai por arrumar, quadros da mãe que tinham de acondicionar e trazer... e lá iam eles.

Voltariam no domingo de manhã, com o camião atrás. Entretanto, Julia e Jason

- PORQUE O NOME DELA VEM PRIMEIRO?!!! — Ofendeu-se Jason. — PODE ISSO, PRODUÇÃO!!!

- SIM!!! — Gritou uma voz da rua.

- Quem era? — Perguntou Peter.

- Era a autora. — Disse Carol. — Não liguem para ela, ela não tomou o remedinho hoje.

ficavam sozinhos na Vivenda Argo, com a condição de obedecerem cegamente ao senhor Nestor, o jardineiro.

Para passarem o tempo, tinham convidado Rick Banner, um rapaz da aldeia que tinham conhecido na escola.

- Ta dã! — Exclamou o ruivo.

- Ta dã, a coisa mais cor-de-laranja do mundo. — Ironizou Carol. — Da Bum Tass...

Os gémeos saíram de casa.

O sol brilhava no jardim, atravessando um céu carregado de nuvens. Ao longe, no gorizonte do mar, via-se uma linha branca delicada.

- Já alguma vez pensaste por que é que o céu fica branco antes de tocar no mar?

- Não — respondeu Julia.

- Filosofia é comigo mesmo.

Saltou os quatro degraus da entrada e aterrou na relva; Jason seguiu-a e, de repente, virou-se para olhar para as janelas do primeiro andar.

Pensava que podia surpreender o fantasma. Mas não viu ninguém.

O senhor Nestor ouviu as recomendações da senhora Covenant com paciência, mas quando ela chegou ao «oitavo» dos pontos que ia contando pelos dedos da mão, decidiu interrompê-la. — Minha senhora, ouça: eu não sou uma governanta. E também não acho que os seus filhos tenham tempo para aprontar tudo o que está a imaginar: os senhores só vão estar fora uma tarde!

- E uma noite — precisou ela., — Como estava a dizer, senhor Nestor...

O senhor Covenant tnetou acelerar a coisa com um ligeiro toque de buzina, mas ainda enervou mais a mulher.

- Espera! — gritou ela, irritada.

O senhor Nestor aproveitou a segunda interrupção e disse:

- Vá tranquila. — Os seus filhos hoje estafam-se a explorara a casa e logo à noite estão tão cansados que dormem doze horas seguidas.

- Sim, mas ouça...

- Não, desculpe. Ouça agora a senhora. Está a chegar o Verão e o parque precisa de uma grande limpeza. Eu digo aos meninos o que podem e o que não podem fazer e se calhar até me ajudam com as plantinhas da estufa. Não posso fazer mais nada: eles já são grandes. E aqui não há nada de perigoso.

A senhora Covenant gesticulou, tentando reatar o diálogo, mas o senhor Nestor não lhedeu essa possibilidade:

- Nem sequer o recife é perigoso. Não passa pela cabeça de nenhum miúdo atirar-se em voo dali abaixo para cima das rochas. Podem ser inconscientes, mas não tanto.

- EI!!!- exclamaram os gémeos.

- Não conhece o Jason... — murmurou a senhora Covenant.

- EI!!!... — Exclamou Jason. — Outra vez...

Pararam de falar porque as crianças estavam a chegar para se despedirem.

Jason, naturalmente, andava às arrecuas, como se fosse mais interessante olhar para a casa do que para os pais que estavam de partida.

A andar assim, tropeçou na mangueira do jardim e teve de dar meia-volta rapidíssima no ar para não cair de costas no chão.

- Agora já está a perceber o que eu queria dizer? — suspirou a mãe-

O senhor Nestor coçou a barba branca e sugeriu:

- Atlético e com bons reflexos?

- Não. — Disse a Srª Covenant. — Maior preguiça do mundo e só se mexe para não cair.

- Eu que tenho a maior preguiça do mundo. — Disse Carol. — Eu só não morro de preguiça porque tenho preguiça de morrer.

Julia pôs os braços em volta do pescoço da mãe e agarrou-se à porta do carro para dar um beijo ao pai. Jason, ainda embrenhado numa das suas fantasias, limitou-se a um adeus muito mais distraído.

- Então, cuidadinho, hã... — recomendou a senhora Covenant com a voz trinada, entrando para o carro. — Obedeçam ao senhor Nestor e não façam nada de perigoso!

Jason e Julia acenaram, sorridentes; o velho Nestor limitou-se a uma careta. O carro da família Covenant arrancou, envolto numa grande nuvem de poeira.

- Like a movie. — Sussurrou o Flint grande. — Legal...

- Quem vai ler? — Perguntou Julia.

- Eu. — Disse Rick.

Carol encostou-se na sua cadeira, pensando que o dia estava cheio de revelações: Afinal, ela não era a única pessoa na sala a saber ler.

O choque era imenso.

- Capítulo 3. — Leu Rick. — A Subida.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.