Lendas que o Povo Conta

8 Aquela que Realizou Sonhos


Notas iniciais
Hey, tudo bem? Desculpem a demora pra postar, tive uma semana daquelas! Uma prova, dois trabalhos e uma apresentação, e isso só num dia. Pra completar, uma gripe que me impediu de escrever qualquer coisa até hoje de manhã. Desculpem se o capítulo não está tão bom, aliais. Peço desculpas pela personagem, que é uma escrava. Não gosto de repetir temas (terceiro capítulo: O Senhor e O Servo), mas não são exatamente iguais, e eu gostei da ideia... Enfim, o próximo capítulo será mais original, já estou planejando-o. Enfim, boa leitura e espero que gostem!

Essa é uma lenda que ecoa pelos ouvidos do povo.

Numa cidade como qualquer outra, existiu uma escrava. Era algo relativamente comum, embora não fosse aceito por todos – especialmente os tais escravos, arrancados de sua terra natal, a milhares de quilômetros dali.

Mas as coisas eram assim: uns, nascidos com sorte, eram os patrões que viviam no dinheiro e no luxo. Outros, eram os escravos condenados a servir até o fim de suas tristes vidas.

Felizmente, isso não impedia os menos afortunados de sonharem. Sonhos tolos, ao ver de muitos, e até deles mesmos. Contudo, essas tolices, muitas vezes, eram as únicas coisas que motivavam-os a continuar vivendo. Na maioria das vezes, eram sonhos de serem libertos ou terem uma vida melhor. Claro, existiam exceções, e um perfeito exemplo é a protagonista da nossa história.

Não que ela não sonhasse, oh não. Mas era algo diferente do que era comum para os outros escravos, mais irreal, mais impossível. Ela almejava viajar pelo mundo inteiro, e em especial, visitar sua terra natal, da qual mal se lembrava. Mas, se sequer podia sair da propriedade de seus patrões, quem dirá viajar? Se nem sabia ler ou escrever?

Nossa pobre menina – sim, uma menina, ainda havia o detalhe de sequer ter atingido a maioridade – tinha perfeita noção disso, mas não conseguia deixar seu desejo de lado. Dia após dia, em sua desgastante rotina. Por mais que o trabalho na mansão fosse terrível, e os castigos físicos mais ainda, conseguia voltar a colocar um sorriso no rosto.

Todavia, apesar de seu otimismo, não havia como negar que era algo quase impossível. Se deu conta disso com o passar dos anos, e logo, seu sonho começara a ocupar um espaço cada vez menor em sua mente. Provavelmente teria desaparecido, como já ocorrera com muitos outros, se não fosse um incentivo muito peculiar. Bem, na verdade a situação que era peculiar, visto que veio da filha de seu patrão.

Fora num dia comum, quando estava arrumando um dos quartos de hóspedes, que a menina não muito mais velha que ela aproximou-se de soslaio, indagando-lhe:

“Por que não sorri mais?”

Era inegável a surpresa da pequena escrava diante da constatação. Não era permitido que escravos interagissem com seus patrões, por serem “inferiores”. Mesmo assim, pensou que, seria uma afronta maior ainda não responder uma pergunta deles.

“Não tenho um motivo para sorrir, sou uma escrava.” A frase saíra mais áspera do que era sua intenção, mas a outra não abalou-se.

“Então porque o fazia, até pouco tempo atrás?”

“Por que deseja saber, senhorita?”

“Curiosidade.” Respondeu simplesmente. Ficara em dúvida no início, mas logo contou-lhe sua história, já um tanto esquecida na mente.

“É tolice, eu sei, mas gostava de acreditar que poderia fazer isto.”

“Quem disse que não pode? Venha, ajudar-lhe-ei a realizar seu sonho.”

Mesmo com a descrença inicial, logo a fala confirmou-se verdade. A jovem senhorita tornou da menina sua serva pessoal, como fachada para seu plano. Ela ensinou-lhe a ler e a escrever, e sobre geografia e história dos países, além do básico de línguas.

Passada a parte teórica, o resto do plano fora mais difícil. Conseguira, com custo, furtar algum dinheiro de seu pai, e planejar a fuga de sua amiga. Finalmente, depois de dois longos anos, tudo estava pronto.

Felizmente, a fuga fora um sucesso. A vantagem dos escravos, conhecer cada parte da propriedade, ajudara muito. Na verdade, a parte mais complicada fora a despedida da filha de seu patrão, a quem se apegara mais do que gostaria. Porém, prometeram-se ver novamente dali a vários anos, quando a escrava tivesse viajado pelo mundo, e a senhorita tornado-se uma médica – seu sonho, que fora descoberto com algum tempo de convivência.

E assim, a não mais escrava começara sua viagem. Seus suprimentos e dinheiro eram limitados, mas durariam mais do que o esperado, por não estar acostumada a gastar – custara para sua amiga ensiná-la sobre o sistema monetário.

Claro, nem tudo foram só flores. Para alguém inexperiente como ela, era difícil adaptar-se às grandes cidades e seus perigos. Desde comerciantes fraldosos e charlatões até violadores. Encontrou-se com várias pessoas, nem todas boas. Mas sempre parecia haver alguém disposto a ajudá-la. Curiosamente, todos esses “alguéns” tinham algo em comum, ela só não havia percebido o que era.

Duas figuras em especial destacaram-se em sua memória: uma noiva e um comerciante falido. Ela conheceu-os em lugares e circunstâncias diferentes, e suas vidas também não eram nada parecidas. Depois de certa reflexão, percebeu que realmente havia uma semelhança. Os dois tinham sonhos aparentemente impossíveis, como ela.

A noiva sonhava em casar-se com alguém que realmente amasse, e ter uma vida simples e pacífica, ao invés de herdar a indústria de sua família. Infelizmente, já estava prometida a um homem rico e mesquinho.

O comerciante sonhava em ser um músico de sucesso, algo completamente desprezado pelo resto da sociedade, e com altos riscos de falha.

Apesar disso, ambos tinham um coração bom e determinação, só faltava-lhes um incentivo. Assim como sua velha amiga fizera consigo, mostrou-lhes uma luz. E então voltara a sua jornada, tendo a certeza de que os encontraria novamente, realizados.

Muitos anos passaram-se. Suas viagens foram difíceis, mas encantara-se com todos os lugares que visitou, inclusive sua terra natal. Passara mais tempo do que deveria lá, mas não podia evitar. Apesar disso, continuava em frente, pois tinha uma promessa e uma ambição a cumprir.

E então, finalmente, tudo terminara. Seu mapa tinha todos os lugares riscados, suas memórias estavam cheias de momentos, bons ou ruins, inesquecíveis. E apesar da felicidade que sentira, é claro que uma questão passaria por sua mente:

“O que faço agora?”

A resposta não demorou a chegar, era realmente óbvio. Encontrar outro sonho. Mas antes, teria de visitar novamente sua velha amiga.

E enquanto voltava até onde tudo começou, reencontrara muitas pessoas, com seus sonhos realizados, ou lutando para consegui-los. Inclusive a filha de seu ex-patrão. A agora não mais pequena garota descobrira que ela havia sido deserdada por seu pai, por ter tentado perseguir seus desejos. Para seu alívio, encontrara-a não muito longe dali, vivendo numa pequena cabana.

Contudo, seu espírito havia sido completamente esmagado, não parecia a mesma pessoa de anos atrás. Claro, ela não permaneceu assim por muito tempo, ah não.

Porque aquela ex-escrava devia tudo a aquela senhorita, e nunca permitiria que caísse daquele modo. Afinal, ela realizara seus sonhos, então nada mais justo do que realizar os dela.

“Era tolice, eu sei. Mas gostei de acreditar que poderia ser médica...”

“Quem disse que não pode? Venha, ajudar-lhe-ei a realizar seu sonho.”

A partir dali, definiu sua nova meta: realizar os desejos de outras pessoas. Poderia não ter tanto conhecimento ou dinheiro, mas tentaria. E tinha certeza de que, mais cedo ou mais tarde, conseguiria.

Se ela conseguiu? Bem, acho que o título pelo qual ficou conhecida já diz tudo: “Aquela que Realizou Sonhos.”

E seu sonho continuou vivo, bem como os das pessoas à sua volta, por muito tempo.

Notas finais
Então, gostaram? Comentem se puderem, incentiva bastante!