Notas iniciais
Boa leitura!

Ao último badalar do sino, Padre Agostini acompanhou o último penitente à porta da Catedral de São Pedro, demorando-se em admirar a vista de sua cidade contra a sombra de mais uma lua que os abençoava. O servo mais antigo de sua eminência acompanhara a passagem de Porto Venere por demasiados desastres, ao longo da vida, e dentre a fome e a moléstia, seria capaz de insistir na sua opinião de que os homens fardados em vermelho perambulando por suas ruas e torres foram o pior deles. Uma cidade não está acima do pecado ou de abrigar aqueles cujo nariz se ergue acima de sua verdadeira posição, e, no entanto, naquela cidadela das Cinco Terras, muito era abonado pela ciência de que num passado ainda não muito distante, além de Deus, não havia mais ninguém com quem contar a não ser a si mesmos.

Conquanto as suas ruas permanecessem coloridas por suas diferenças, o medo as empesteava, impedindo-os de dançar sobre o brilho de outrora. Desde a chegada da Companhia das Índias Orientais, as preces de Padre Agostini não foram outras senão para que os filhos de sua batina fossem capazes de viver sua liberdade sem comedimentos outra vez. O tempo de Deus, porém, ser-lhe-ia desconhecido, ainda que ungido como o próprio papa. Em todas as noites, entretanto, sentiria alguma esperança ao andar pela igreja vazia, acompanhando seus coroinhas a apagar as velas da última missa, preparado para se retirar. Com que surpresa, pois, um de seus assistentes anunciava que um último penitente o aguardava no confessionário.

Nem um pouco incomum, vez que tantas vezes testemunhou a necessidade de matronas virem se confessar sem serem vistas. Assim, agradeceu ao coroinha, tomando seu lugar dentro daquela, como afeiçoara-se a chamá-la, sua caixinha de segredos.

— Perdoe-me, padre, pois eu pequei. – aquela voz não poderia tê-lo pego mais de surpresa se houvesse gritado. Deus mais uma vez respondendo as suas preces de maneiras inesperadas, mas bem-vindas.

Signorina Barbieri. – murmurou, esticando a mão para a pequena fresta que os separava. Ele conseguiu discernir seus olhos através das frestas de ar, mas nada mais. – Como conseguiu chegar até aqui? – perguntou com a preocupação de um pai e Antonieta sentiu-se novamente em casa.

— Os velhos túneis sob a cidade. – explicou, fazendo menção às velhas catacumbas usadas como abrigo durante os cercos, no passado. – Imaginei que nem o mais assustado teria avisado a coroa sobre eles. Demos a volta pela Palmaria; meu navio aguarda um sinal; e, padre, nós vamos retomar nossa cidade esta noite. – alertou-o com energia. Agostini fez o sinal da cruz.

— São mil homens lá fora, minha criança. – advertiu ele.

— Já enfrentamos piores números, meu senhor. – Padre Agostini ouviu-a sorrir por entre as frestas. – Vamos precisar de sua ajuda. – apressou-se em acrescentar, sussurrando.

— Com o que, signorina? – ele prontificou-se.

— Os hábitos que o senhor e os outros diáconos usam em dias santos, — disse aproximando a boca de uma das frestas. – eu poderia encontrar boa utilidade a eles.

— São seus, criança. – assentiu, calmamente deixando o confessionário para buscá-los.

Ao retornar, encontrou-a já do lado de fora, acompanhada de uma criança conhecida. Trajava ela mesma uma capa de um tecido rico, apropriado para confundi-la com uma das matronas que o procuravam àquela hora. Seu rosto, no entanto, permanecia mais vivaz do que o de qualquer uma delas. Antonieta o reverenciou, reprimindo seu desejo de abraçá-lo; haveria tempo, ainda.

— Deus o abençoe, meu senhor. – agradeceu com os hábitos em mãos, voltando-se, então para Federica. – Há algo mais que preciso que faça por mim, Padre Agostini. – e ele entendeu, embora ela tenha continuado em lhe explicar. – Mantenha-a aqui com o senhor e a salvo, por favor.

— A guardarei com a minha vida, signorina Barbieri. – respondeu tomando Federica pela mão. Antonieta sorriu, pondo-se de cócoras para falar com ela.

— Não importa o que ouvir, fique aqui com Padre Agostini, entendeu? – disse com uma mão em seu queixo. Federica assentiu, tristonha. – Logo, você irá ver seus pais. – despediu-se, verificando se ainda estavam sozinhos, antes de sumir por detrás do altar principal.

Voltou pelo mesmo caminho que viera, a passagem sob um dos falsos ladrilhos de mármore. Havia, segundo os ensinamentos de seus pais, cinco espalhadas pelo perímetro da cidade, construídas durante as primeiras invasões por mar que as Cinco Terras sofreram ao longo dos séculos; conectando o centro ao velho sistema de escoamento. Alberto as sugeriu, e a ideia de se infiltrarem silenciosamente fora de sua irmã. O plano era abater o maior número de soldados sem que o alarme soasse, no entanto, como Diana pontuara, eles só poderiam esconder até um certo número de corpos, antes que a tarefa se tornasse um empecilho ao objetivo principal. Após esse número, considerando que eles deveriam se dividir entre o forte e a fortaleza do quartel, ainda que contassem com a adição dos números de Villanueva e Chevalle, estariam forçados a se preparar para o pior e vencê-lo.

— Como estava Padre Agostini? – inquiriu Diana, vestindo seu hábito.

— Ainda um santo. – respondeu com um sorriso carinhoso. O furacão Murphy retribuiu-o. – Muito bem, todos se lembram do plano? – questionou-os quando terminaram de camuflar as armas sob o grosso tecido.

O Stella De La Sera aguardava junto ao Thémis e o Infanta Maria Teresa. A bordo, dez homens de cada um aguardavam por suas ordens para que se aproximassem com os canhões, enquanto isso, em terra, quinze deles deveriam subir até o Castelo de Doria, ao passo que Antonieta permaneceria com vinte homens dentro do forte, nas proximidades da catedral. Alberto levaria três pessoas para o Cane di Bronzo, a fim de espalhar a notícia de seu retorno e se reencontrar com seus tripulantes. O Sogno D’ Oro não deveria estar longe. Dividir e conquistar. Eles contavam com o elemento surpresa e a graça divina, dois dos alicerces mais volúveis.

— Vejo vocês do outro lado. – a Capitã Barbieri prometeu, olhando para cada um de seus familiares, tentando não ignorar os franceses e espanhóis sob seus cuidados. Ela sabia que no interesse de continuarem vivos, detinha suas lealdades; e, no fundo, era grata por sua ajuda. No entanto, indubitável que aquela batalha pertencia à Itália. Conseguiram chegar até ali e seus ânimos encontravam-se elevados, embora em seus olhos, ela lesse o medo. – Se o pior acontecer, aqueles que conseguirem sobreviver devem manter as famílias de todos à salvo. Se o pior acontecer... morreremos como uma família. – apontou, séria.

— Lado a lado na forca, até a próxima jornada. – respondeu Giulia, em meio a um sorriso sardônico. Antonieta assentiu. Mas não iria acontecer.

Fratello, você e Sofia vão com o primeiro grupo. – orientou a capitã. – Sigam o túnel até a bifurcação com o esgoto central. – e sairiam à entrada do bar. Berto assentiu, com a esposa ao seu lado. – Não façam alarde; ainda não. Tristan, você e eu sairemos pela igreja. Você e Alessandra dividirão seu pessoal ao longo das ruas; o máximo de soldados em ronda que conseguirem abater. Nenhum deles deve chegar a tocar algum apito. – Mia retomou, veemente.

— É claro, capitã. – anuiu seu navegador. Diana pigarreou.

— Sofia e eu trouxemos isto. – disse, puxando o chapéu com o qual a presentara antes. – Achamos que é hora.

Mia as observou, taciturna, e seus dedos alcançaram o tafetá, resolutos. Ela era sua capitã; aquela era a sua batalha; e a desbravaria de armadura completa. Com um último adeus, acenando para seus homens com um toque na aba do chapéu, eles se separaram. Antonieta tornou a subir primeiro, ansiosa para se livrar do peso de sua capa – que agora escondia sua coroa – e do anonimato. Ela queria que eles soubessem que retornara; que nada a amedrontaria. A cautela, no entanto, deveria ser maior do que sua vaidade, ao menos uma vez. À entrada, ela chamou-os um a um, verificando sempre se algum civil ou soldado adentrava a catedral. Uma vez instalados, moveram-se para fora, mantendo a calma como era costumeiro aos diáconos. Os soldados faziam fila pela muralha, caminhando, conversando entre si; um não poderia ser atingido sem o outro saber.

Mia acenou para que Tristan descesse primeiro. O navegador levou seu grupo com Alessandra, passando pelos vigias com naturalidade, respondendo com um aceno solene de mão quando abordados. Antonieta esperou até que estivessem fora de vista, o objetivo deles os aguardaria no velho Castelo de Doria, onde ela imaginava que estivessem mantendo a maior força militar. Apenas alguns homens eram necessários para proteger um forte como o seu, mesmo que suas muralhas o interligassem a Doria. Diana insistira para que saísse primeiro, quando discutiram no caminho até Tortuga e Mia cedeu, à contragosto; entendendo, porém. Precisavam agir silenciosamente e com a ambidestria de Diana, ela seria um alvo mais difícil de prever.

Os soldados acompanharam a figura da víbora Murphy, enquanto realizava seu trajeto. Ela se aproximou da muralha, admirando a vista de sua terra.

— Uma bela noite, não é, senhores? – inquiriu, engrossando a voz. Alguns homens grunhiram em acordo e desacordo. Sob seu capuz, a irlandesa sorriu de lado. – A última neste mundo. – acrescentou, soltando as mãos de dentro das mangas, alcançando as espadas, perfurando dois dos homens que discordaram.

Ao som dos membros atravessados, Antonieta iniciou sua descida, atenta aos homens que observavam Diana se desfazer dos restos de seu hábito, preparados com as mãos sobre seus coldres. Hesitantes, no entanto, ao ver a estranha em uma capa fina e ela, diante da feliz surpresa, deu a volta por um deles como um gato encurralando um rato e cortou sua garganta.

— Pelos Vitale. – murmurou, com sangue nas mãos.

Os sons se misturaram depois disso. O restante de seu grupo correu muralha adentro, mirando nas baionetas antes que tivessem chance de acioná-las; empurrando aqueles fracos demais para revidar, a fim de perfurá-los com as pontas de suas lâminas. Com a ajuda de Cínzia, Antonieta se desfez da capa, atacando com velocidade redobrada, agora sem empecilho aos seus movimentos. Diana imobilizava aqueles que não conseguia matar de pronto, olhos vivos aos que tentavam correr ou pareciam buscar algo dentro de suas roupas; esses perdiam as mãos, além da vida.

— Lá! – ela e Angello correram à vista de um dos homens que se afastava, acobertando a fuga de outro, sem que alguém reparasse em meio ao caos que, aos poucos, se instaurava.

Mais homens saíram de dentro do forte, mas precisavam chegar ao sino da catedral para avisar ao resto da ilha. E para isso, deveriam passar pela Lady da Ligúria.

†††

Alberto pediu silêncio. Acima deles, o som da marcha de um grupo de cadetes se fazia ouvir. Quando passou, o Capitão Barbieri fez sinal para que Marco tomasse à frente e removesse a boca de lobo. Rápidos, eles subiram, poucos metros os separando do Cane di Bronzo e, com sorte, sem nenhum sinal de outra ronda. O bar estava mais vazio do que o costume de suas várias noites batendo canecos ali. Culpa de alguma espécie de toque de recolher, supôs; ou eles perderam mais do que gostaria de saber no presente. Atrás do balcão, Sandro fazia sua limpeza, arqueando as sobrancelhas para um grupo tão grande de homens de hábito em dia não santo.

— Um gole da sua melhor cerveja, amico. – pediu, revelando sua identidade. Próxima à porta que levá-los-ia aos alojamentos, ouviu-se o baque de uma bandeja caindo pelo chão. Rita de Cássia mirou Alberto Barbieri como se trouxesse consigo um baú de inestimáveis diamantes.

Signorino Alberto! – exclamou, correndo para abraçá-lo; contendo-se ao perceber que um de seus braços se fora. – Signorino...

— Está tudo bem, Rita. – respondeu Sofia, retirando seu hábito por completo.

Signorina Sofia! – bradou a estalajadeira em resposta, correndo para abraçá-la. – Onde estão os outros? – perguntou sorrindo para os outros rostos conhecidos.

— Pela cidade. – foi a resposta de Alberto. – Viemos tomá-la de volta, Rita, Sandro. – disse.

— Graças a Deus! Sandro e eu rezamos tanto... e o pobre Padre Agostini... todos nós, na verdade. – lamentou-se, gesticulando por todos que ali se sentavam. – Não permitimos os soldados em nossa casa. Isso nos criou problemas no início...

— Tudo vai ficar bem agora, Rita. – Sofia consolou-a, afagando seus braços. Mirando Sandro atrás do balcão com o mesmo carinho.

— Capitão! – Giovanni Alonzo se prontificou, aproximando-se de Alberto, que lhe ofereceu tapinhas nos ombros. – Eles o encontraram. O Sogno. – revelou, lançando olhares consternados através dos outros homens da tripulação de Barbieri.

— Onde ele está agora, Gio? – inquiriu ele de pronto.

— Eles o estavam usando como navio da companhia, senhor. – respondeu Horácio. – Retornaram há poucos dias.

A mão de Alberto se fechou grosseiramente sobre o ombro de Giovanni, e Sofia correu para acalmá-lo. O Barbieri se desvencilhou, bebendo do caneco que Sandro acabara de lhe servir, limpando a boca com violência. O navio de seu pai. O seu navio. Nas mãos dos homens que o feriram e a sua família.

— Onde ele está agora? – repetiu, soturno.

— No cais, junto aos outros dois navios da companhia que mantiveram aqui desde aquela noite, capitão. – Horácio respondeu. Alberto lançou um olhar penetrante na direção da porta e Sofia se apressou.

— Não podemos perder tempo. – disse. – Antonieta e Tristan não vão aguentar por muito tempo liderando seus grupos sozinhos; precisamos de todo homem e mulher que puder pegar em armas... e precisamos de munição. – lembrou-os, chamando atenção de Alberto para o plano.

Rita voltara dos fundos do bar com uma malha recheada de armas.

— Nós pensávamos em cuidar dessa parte silenciosamente, Rita. – a senhora Barbieri falou, sorrindo. – Por enquanto.

— Não há mais lugar para o silêncio, querida. – retrucou ela. – Chegaram até aqui; agora é nossa hora de ajudá-los. – disse passando as armas pelas mesas.

— Onde está Federica? – Giuliano alcançou-a para perguntar. Não havia sinal de Amália, porém.

— Na catedral, com Padre Agostini. – respondeu Sofia, parecendo tranquilizá-lo.

— Vamos atrás do Sogno. – Alberto interpôs, abrindo um pouco a porta para checar a rua, alojando o presente de Rita à sua pistola e a espada. Seus olhos recaíram sobre Sofia, Horário, Giovanni e Túlio; todos assentiram.

— E nós vamos acordar a Itália. – Sandro sorriu para a esposa.

— Não se exponham além do necessário. – Berto advertiu-os. – Antonieta não quer mais sangue italiano em suas mãos; nós também não. – Sandro e Rita não fizeram indagações sobre o assunto, apenas concordando com a lembrança do rosto da signorina.

— Toda guerra tem seus mortos, no entanto, signor Alberto. – murmurou Sandro, antes que o Barbieri e seu novo grupo os deixasse.

Do lado de fora, conforme se aproximavam do cais, a movimentação dos guardas crescia; o que para o capitão significou que eles não mais contavam com o elemento surpresa. Nenhum som dos canhões, ao menos, embora escutassem tiros. Sofia atirou primeiro, protegendo Túlio que vinha correndo, sem olhar para trás. O tiro chamou a atenção de um corpo de soldados que passava rumo ao forte – o que significava que o castelo ainda não corria chances de cair, e isso preocupou a inquestionável graça, pensando no grupo de Tristan. Sofia continuou a atirar, acompanhada por Túlio desta vez, ambos acenando para que os outros três continuassem. Alberto, por sua vez, parou-os atrás de uma das casas, se recusando a seguir sem eles.

— Vão! – um morador ordenou, saindo da casa com um mosquete, começando a atirar contra os soldados. Eles correram, se recusando a olhar para trás e encontrar o pior. Contudo, à medida que corriam, vozes conhecidas os arrebataram. Marco, mais dois outros homens do Stella e Rita gritavam pelas ruas avisando os moradores que o cerco começara. Algumas janelas se abriram; outras permaneceram fechadas. Não obstante, logo as ruas contavam com bem mais do que apenas os Barbieri.

No cais, Alberto avistou o Sogno D’Oro. Eles o haviam pintado com as suas cores, mas o seu nome permaneceu o mesmo. O mesmo veneno de Antonieta tomou conta de seus olhos e ele atirou em cada rosto que entrou na sua frente, esquivando-se das retaliações, perfurando seus peitos quando as balas acabaram. A primeira ordem quando embarcaram foi para que abaixassem a bandeira do inimigo e liberassem as velas. Sofia e Horácio se apressaram para os canhões, preparando a munição. Alberto encontrou suas armas reserva no chão falso de sua cabine, liberando Giovanni da função de atirar em quem ainda viesse a se aproximar. Finalmente, com as velas arriadas a sota-vento, o Capitão Barbieri os tirou dali com um único movimento do timão; se dando conta de uma parte de si da qual sentira falta.

†††

Três baladas intermitentes. Antonieta as ouviu, redobrando a força ao empurrar a espada cruzada na sua para trás, cortando a perna de seu oponente. Eles haviam perdido Pietro, mas Cínzia o vingou pouco depois. O rosto da cirurgiã do Stella, bem como o de sua capitã, estava manchado de sangue; mais inglês do que seu. Eles se mantiveram firmes, ajuda a caminho. Mia detinha a vida de todos em seus ombros, se esforçando para não pensar no pior. Ela ouvia os gritos na cidade, ciente de que um grupo havia obtido sucesso em uma de suas missões. De repente, contudo, ouviu canhões, e seu sangue gelou à medida que finalizava o último homem em seu alcance, antes de virar na direção do castelo.

O som, por sua vez, não se iniciara lá. Na costa, mirando na altura de Doria, ela avistou um navio. Alberto, pensou imediatamente; ainda que as cores não fossem as do navio de seu irmão. Reconheceu, porém, o desenho da proa. Era o Sogno D’Oro. Sorrindo, correu até o parapeito, tentando enxergar o Stella De La Sera e os outros dois navios, sem resultado. Sentiu, então, uma sombra às suas costas, virando-se, rápida, para encontrar a baioneta de um soldado. Então ela atirou. Uma arma em cada mão, ela terminou o trabalho de seus amigos. Não havia mais razão para se esconderem nas sombras. Esta era a sua cidade. Canhões ribombavam através da costa, como em seus piores pesadelos.

— O forte é nosso! – Diana urrou, subindo a torre para retirar a bandeira da companhia.

— Carreguem as armas! – Antonieta bradou em seguida. – Para a cidade! – disse indicando-a com a lâmina de sua espada.

Enfileiraram quantos canhões conseguissem puxar, deixando Angello e Cínzia para trás, para atirarem daquela posição. Mais soldados começaram a cair e, ao alcançarem Doria pela viela de sua subida, uma explosão irrompeu por uma de suas paredes vinda do Sogno, ao passo que a gentileza lhe era retribuída. Olhando para trás, Antonieta viu-o ser atingido em parte do deque, apenas. Ele ainda aguentaria de pé; como seu irmão. Outro corpo de soldados escapou da fortaleza e ela se misturou, junto de Diana e seus homens, aos cidadãos que atacaram sem hesitar.

Mia golpeava cada um como se visse Cutler Beckett à sua frente. “Não é nada pessoal, madame; é apenas um bom negócio”, ele dissera. Subestimou, contudo, a capacidade dela de reconhecer tais situações quando apresentadas. Oferecer uma espada a uma mulher como Elizabeth Swann era um bom negócio. Confiar em Hector Barbossa novamente e levá-lo até Singapura, contra a vontade de sua tripulação, provou-se um bom negócio. Libertar Calipso acabou sendo um bom negócio. Esperar que Jack Sparrow soubesse o que estava fazendo, ainda que arriscado, foi um bom negócio. Vender a sua lealdade a um homem que sequer entendia o conceito da palavra, jamais renderia um bom negócio.

Quatro tiros varreram uma das torres. O quarto partindo de sua estrela. Ancorado próximo ao Sogno. Os legados de Cícero e Allegra, lado a lado protegendo a sua cidade. À sua direita e à esquerda, Thémis e a Infanta Maria Teresa cumpriam seu papel. Enfileirados, os navios disparavam em parca, porém funcional, sincronia. O número de homens que enfrentavam não lhe representava mais nada além disso, um número.

— Para dentro do Castelo! – a Lady da Ligúria bradou, subindo em um amontoado de caixotes, apontando a entrada criada pela explosão aos que a seguiam.

Seus olhos se mantiveram presos à imagem das pessoas que a conheceram enquanto infanta, civis e marinheiros, enquanto lutavam pela passagem de pedras. “Esta é a sua comuna, agora; sua e de Alberto. Proteja-os”. Foram, talvez, as últimas palavras de sua mãe a ela; e Antonieta viveu sob sua promessa. Cada plano e cada morte fora de seu navio; um meio de cumpri-la. E todos a observaram, ou não pegariam em armas em seu nome. E, portanto, ela pegava em armas por eles. Cortando o que estivesse em seu caminho, à medida que subia as escadarias.

Do alto da muralha que os ligava a Catedral de São Pedro, ela avistou a praça do castelo, onde mais camisas vermelhas encontravam seu destino, e os navios. Quatro badaladas do sino e estaria terminado. Eles teriam a cidade de volta. Esse fora o combinado para quando vissem que o destino estava ao seu favor. Antonieta pôs-se a correr, desviando-se das disputas particulares durante o trajeto. Dentro da igreja, nenhum sinal de Padre Agostini e Federica, mas ela sabia que, ao prometer protegê-la, ele usaria seus próprios esconderijos. Já sem fôlego, ela forçou seu caminho pelas escadas até a torre do sino.

Uma badalada.

Duas badaladas.

Súbito, então, sentiu uma presença às suas costas. Ao virar, a bala acertou; à altura de seu estômago.

Respirare profondo.

A mão indo instintivamente até sua pistola, ela encarou seu quase assassino, lutando para não ceder à pressão da gravidade. Não muito mais velho do que seu sobrinho, Téo, o desertor encoberto que se escondera na igreja. Apenas cumprindo seu dever para com a coroa, ainda que uma causa perdida. Antonieta sorriu, o rosto contraído pela dor e a pena. Ele, talvez, não conhecesse nada melhor do que aquilo. E não chegaria a conhecer. Seus olhos, porém, vasculharam os dele. Sem encontrar o mesmo ódio incendiado de seus outros companheiros que matara. O rapaz tinha a pistola ainda quente à mão, mas tremia como uma criança assustada. Nada além de uma criança assustada.

Ela atirou, mas o tiro pegou-o de raspão, parado pela parede. O menino a encarou entre o medo e a confusão; o sorriso de Antonieta se abriu mais. Ele não merecia uma bala sua sequer.

— Da próxima vez que puxar um gatilho, garoto, garanta para que seja o último a ficar de pé. – alertou-o, sem conseguir segurar mais, caindo de costas.

Outro tiro soou, e os últimos rostos vistos pela Lady da Ligúria foram os de Cínzia e Angello. E o último som, as badaladas dos sinos de São Pedro.

Ela os protegeu, afinal.

Notas finais
Essa autora já chorou muito na noite passada ao concluir estas últimas linhas e seu epílogo. Gostaria de agradecer a cada um dos meus leitores, em especial ao Ladies Club, um grupo que essa fanfic me deu a graça de conhecer e que me propiciou terminar esta década como a comecei; uma escritora! E um último agradecimento mais do que ímpar a pessoa que me acompanhou de perto nestes dois anos e meio: Diih!! A minha Diana. Obrigada por validar meus plots, melhorá-los com suas próximas ideias e rir e chorar comigo!! A todos, até logo; Ana