Lembranças de Porto Venere
41 Epílogo
Antonieta não se lembraria do que aconteceu após seu desmaio, mas apenas do que seus familiares lhe contaram. Fora Federica, que ao ouvir os gritos desesperados de Cínzia pela igreja, implorando por ajuda, convenceu Padre Agostini a sair de seu esconderijo, o que permitiu que ajudasse a carregar o corpo da capitã até um quarto onde os primeiros socorros seriam feitos. Os sinos comandaram o cessar fogo e o remanescente da marinha se rendeu, sendo executado na manhã seguinte; segundo Nicola, eles não teriam mantido prisioneiros, tampouco. Seus corpos foram colocados à algumas milhas da entrada de Porto Venere. Um aviso. Uma retribuição pelos corpos de piratas avistados durante tantos anos.
Descobrindo o que acontecera com sua irmã, Alberto teria corrido para a Catedral de São Pedro. Ele não deixou o corpo da Barbieri sozinho por um segundo sequer, permitindo visitas apenas de Padre Agostini e de suas irmãs; como ela gostaria. Ao acordar, um dia e meio depois, Berto contou a Antonieta que ela o chamara de pai, imaginando que ele fosse Cícero. A bala deixou uma cicatriz em sua barriga.
Haveria, no entanto, ocasiões das quais ela guardaria lembrança a partir dali. O início da reconstrução da cidade, com projetos dos irmãos Ferretti, entre outras mentes criativas. A repintura do Sogno D’Oro para suas cores de origem, da qual ela participaria. O memorial para Matteo e Ilaria Vitale na ilha de Tino, onde enterrou seus corações ao lado dos túmulos de seus pais. Notícias da captura do Pérola Negra por Edward Teach, o Barba Negra, e da fuga de Hector Barbossa que, conforme o relato de seu irmão, que o vira, perdera uma perna no trâmite. O retorno do Sogno D’Oro para a cidade, certa noite, trazendo de volta uma Sofia esquálida e o corpo inerte de Alberto Barbieri, carregado por Horácio e Armando. E o luto que não deixou de vestir.
Barbossa a encontrou dentro dele, finalmente se convidando para Porto Venere; e ali permaneceu. Consolando-a como ela se permitiu consolar apenas a Sofia. A Lady da Ligúria aposentara-se e sua estrela era mantida como um tesouro nas docas. Matteo Barbieri, por sua vez, parecia ter seguido os passos de seu pai; com o comedimento necessário para não preocupar sua mãe. Diana ainda vivia entre eles, ora em terra, ora no mar, a pedido de Sofia, para que ficasse de olho em seu filho. Chegou, por fim, o momento em que o ainda Lorde do Mar Cáspio ofereceria a Antonieta a antiga mencionada parceria. Ele, com o navio que um dia pertenceu a Edward Teach e com aqueles que o falecido capitão aprisionara em pequenas garrafas, lideraria uma nova frota. Mia seria seu porto e sócia.
Antonieta aceitou, desde que não precisasse voltar para o mar que lhe tomara tanto, assim afirmou a Hector, que assentiu. O retorno às velhas atividades, que fizeram dela a Lady da Ligúria, pareceram resgatar um pouco do brilho roubado pelo luto. E, pelos anos frutíferos que seguiram aquela parceria, as três graças conseguiram encontrar alento em outro projeto que assumiam juntas. Então, Jack Sparrow também retornou à sua vida, trazendo Murtogg e Mullroy, os únicos que Barbossa recuperara de sua antiga expedição falha a fonte; e com eles alguns dos pertences que Hector deixara para trás, antes de morrer.
Dentre eles, a peruca que ela tanto odiava, mas que por uma vaidade não muito diferente da dela, ele insistia em usar – se espelhando nos modos da corte. Murtogg expressou suas condolências a tratando por Madame Barbossa; ele era o único que ela permitia que a chamasse assim. Mullroy apenas beijou sua mão, expressando o desejo deles em continuar com o Capitão Sparrow, caso ela não pretendesse seguir com as operações ela mesma. Antonieta lhes deu carta branca, se despedindo de Jack sem muitas perguntas. O Vingança da Rainha Ana afundara nas mãos de um inimigo seu, levando parte do tesouro acumulado por eles dentro daqueles anos. Ela não pareceu se importar tanto.
Naquela noite, Mia adormeceu vestindo o casaco recuperado de Barbossa. Na manhã seguinte, vestiu o luto novamente e se recolheu na Catedral de São Pedro, honrando a promessa que fizera a Padre Agostini em seu leito de morte, de que tentaria com mais afinco encontrar alento em sua igreja. As lágrimas nunca caíram. Ela conseguia ouvir a voz do velho capitão pedindo para que não caíssem; e seu corpo rachava-se, ainda entorpecido pela notícia de sua partida. Diana e Sofia juntaram-se a ela, após realizarem o abatimento no tesouro que haviam guardado; deixando-a sozinha quando sua presença se mostrou indiferente.
Ao pôr do sol, um novo navio surgiu junto ao horizonte. A risada de Murphy ecoou ao avistar o Holandês Voador em direção à costa. A irmandade celebrou o nascimento do filho do Rei e, à época, a família Barbieri ainda se encontrava completa para prestar suas homenagens. Desde a morte de Alberto, contudo, não ouviam mais notícias de Elizabeth e Henry. Sua majestade permanecia jovem, contrastando com as rugas mais proeminentes no rosto da irlandesa que os recebeu. Will seguia o exemplo de sua esposa e, como era apenas um bebê quando o viram, somente Henry havia mudado. Com eles, uma terceira pessoa; uma jovem com os olhos muito azuis.
Sofia havia subido para avisar Antonieta da chegada do navio e retornou com a Lady da Ligúria em seus braços, sorrindo tristemente para o casal. Ela conhecia o jovem cigno o bastante para entender o motivo de sua visita, depois de tantos anos. No entanto, foi a nova integrante em seu grupo que se destacou aos olhos de Mia; devido àqueles que a menina ostentava. Familiares.
— Ela não se parece com nenhum de vocês, Elizabeth. – comentou Sofia, instigando as apresentações. O rei trocou levemente seus olhares com Will, que fez sinal para que ela seguisse em frente. O gesto foi suficiente para Antonieta.
— É você! – murmurou com um suspiro rouco. – Você é a filha dele...
Carina Smyth, agora Barbossa, encarou a mulher que a reconheceu com as sobrancelhas argutas arqueadas. A mãe de Henry a alertara sobre a Capitã Antonieta Barbieri, e embora sua aparência retirasse muito do que a sua imaginação criara ao longo do caminho, sua voz se encaixou perfeitamente dentro dela.
— Sim. – anuiu com um passo a frente. – Eu sou Carina Barbossa.
Antonieta se aproximou para analisá-la. Era como reencontrar a figura de Margaret Smyth ao longe no porto de Tortuga. Os cabelos pretos, o rosto fino e delicado, o porte esguio. As sardas, porém, eram de Hector. Assim como o ar de inteligência superior e impulsiva. E os olhos. Especialmente os olhos.
“Ao menos mantenho os olhos dele na minha vida”.
Ela sorriu. Tornara-se uma piada entre os dois. Ele sempre retornava à sua vida com uma história.
— Devem estar cansados pela viagem. – se referiu a todos, embora ainda mantivesse seu olhar dentro dos olhos azuis. – Vamos até o Cane di Bronzo. – disse abrindo o caminho para que eles passassem. – Diana o administra com a proprietária, agora. Não acho que a tenhamos mencionado a você antes, Rita de Cássia? – inquiriu, se forçando a deixar Carina de lado para dar atenção a Elizabeth.
— Sim, na primeira visita para o nascimento do Henry. – aquiesceu Elizabeth andando de braços dados a Will.
— É muita bondade sua, abrir mão do seu único dia em terra para nos visitar. – comentou Sofia ao Capitão Turner.
— Ah... a maldição foi quebrada. – respondeu ele, sorrindo na direção do filho.
— Nem todas as notícias são ruins, então. – retrucou Antonieta, lembrando Elizabeth de outra ocasião em que lhe dissera aquelas mesmas palavras.
— Tão bonito quanto o pai. – comentou Diana, ao lado de Henry. – Eu prevejo corações partidos em seu futuro. – brincou com uma risada alta. O rapaz corou, olhando Carina de soslaio, que sorria de lado em sua direção, divertindo-se. – E como a maldição foi quebrada, senhor Turner? – acrescentou na direção de Will que ia à frente com Elizabeth e Antonieta.
— É uma história para dividir entre um caneco e outro, Diana. – ele respondeu, virando-se para piscar em sua direção. A irlandesa sorriu, aquiescendo.
Já no bar, eles se sentaram. Após a primeira rodada de bebidas, Will começou a contar, dividindo a narrativa com Henry que participara mais ativamente, indo contra as recomendações de Elizabeth. Quando, finalmente, os relatos chegaram até Barbossa e a toca do tridente, onde se sacrificou para salvar a vida de Carina. Os olhares recaíram sobre as duas mulheres que o velho capitão deixara para trás. Antonieta sorriu de leve para a rebenta de seu amante, erguendo-se para averiguar o número de pessoas presentes no bar. Téo estava na cidade, com seus homens; e todos ali conheceram o homem que fazia negócios e passava as noites com a velha Barbieri. Logo, esta, pediu uma nota a um sanfonista que se sentava no canto.
Raise your glass in the air
(Erga sua taça para o céu)
With a tear in your eye
(Com uma lágrima em seu olhar)
Time has come now to bid him goodbye
(Chegou a hora do último adeus dar)
For at first light this morn The Old Captain has died
(Pois ao primeiro raio de sol, o velho capitão se foi)
Let him live on in legend tonight.
(Deixem que ele viva nas lendas, esta noite)
Os presentes seguiram com o coro, embora sem a profundidade da dor carregada em sua voz. Carina observou-a cantar, o caneco erguido para o céu como se saudasse o espírito de seu pai, sentindo algo em seu peito arranhar. Ciúmes, pensou. Afinal, ela poderia chorar por algo mais do que a ideia de ter tido o que sonhara a vida inteira, apenas para vê-lo sendo tomado de si mais uma vez.
— Carina! – Henry chamou quando a jovem se levantou para sair. Elizabeth, porém, o deteve. Simpática à sua dor. Antonieta seguiu-a até o lado de fora, encontrando-a com o rosto embargado.
— Venha comigo. – pediu, doce. – Há um lugar que quero te mostrar.
Mia a levou através da São Pedro, passando por uma porta em seu interior, inserida na reconstrução, que as levou até o que, para Carina, pareceu ser um jardim. Contudo, não havia flores, apenas grama; crescendo selvagem entre algumas ruínas com uma vista para o mar. As estrelas já brilhavam altas pelo céu, refletidas na calmaria. Em sua presença, como que por instinto, a jovem Barbossa puxou o velho diário de seu pai do bolso do vestido. Antonieta sorriu.
— Você ainda o tem? – inquiriu se aproximando dela. Carina olhou do diário e de volta para ela.
— Você o conhece? – rebateu, entregando-o a Barbieri ao perceber seus dedos desejarem por ele.
— Pertenceu a minha mãe. – murmurou, correndo a mão pela ilustração da capa. – Seu pai e eu, vínhamos aqui, quando nos conhecemos. Eu mostrei o diário a ele; mais tarde, ele o roubou de mim, com o rubi na capa e entregou os dois como um presente para a sua mãe. – explicou, olhando do pequeno livro pelos arredores, como se reconhecesse cada ponto da ruína onde eles haviam estado; e então para o céu. Carina a observou sem esconder seu espanto. Esperara muitas coisas da mulher com quem seu pai dividira seus últimos anos, de acordo com Elizabeth. Nenhum pedaço daquele tom quase terno, porém.
— Você não deveria ressentir-se de mim? – inquiriu num sussurro brando, cruzando os braços. Antonieta pareceu despertar de seu transe, e a jovem reconheceu em seus olhos parte do brilho que imaginara de acordo com as histórias do rei pirata.
— Por quê?
— Bem... minha mãe... – respondeu simplesmente, sem saber como prosseguir, sem envergonhar a si mesma. O sorriso de Mia se abriu mais; então, ela também tinha isso do pai.
— Ah, sim, sua mãe. – aquiesceu, devolvendo o diário a ela. – Eu disse a seu pai uma vez que gostaria de tê-la conhecido pessoalmente; e realmente gostaria. Hector notadamente detinha um tipo preferido de mulheres e isso me fez pensar que poderíamos ter sido amigas... com certeza eu seria de muito mais ajuda a você, agora. – acrescentou dando de ombros. O espanto não desapareceu do semblante da outra. Amigas; da mulher com quem seu amante tivera uma filha. Embora, ela agora refletisse que, talvez, a história não fosse tão simples.
— Não o quer de volta? – perguntou, então. – Afinal, ele era da sua mãe...
— Oh, não, criança; fique com ele. – Antonieta negou, gentilmente. Tantos anos se passaram. Ela ainda possuía o navio de sua mãe, o chapéu e a espada de seu pai, bem como seu navio. O alaúde de Alberto e a aliança que Sofia usava em seu dedo. – Eu sei como essas lembranças importam...
Carina sorriu; soluçando, então, cedendo mais uma vez às lágrimas. Antonieta se aproximou para envolvê-la em seus braços.
— Nós mencionamos você; muitas vezes. – disse com a voz embargada. – Sinto muito que não o conheceu como eu ou como outros naquele bar. – desculpou-se, correndo as mãos por suas costas. – Ele sempre tentou fazer parecer que não... mas era um homem bom. E eu sei, porque ele nunca conseguia mentir pra mim, que amava você e a sua mãe...
“Pela maior parte da vida dele, o seu pai tentou encontrar novas maneiras para enganar a morte; foi assim que eu e sua mãe o perdemos da primeira vez. Me parece justo, que a única forma de fazê-lo aceitá-la, sem trapaças, foi por você. Quase faz com que doa menos”.
Em seus braços, ela sentiu Carina parar de soluçar, convertendo-os em um choro baixo e digno. Uma maneira de garantir que fosse lembrado, através de uma mostra de honra em seu último sacrifício, Antonieta pensou consigo mesma. Isso também ressoava ao caráter do homem que conheceu.
— Ele me chamou de tesouro, antes de pular. – disse, respirando fundo, erguendo os olhos para encará-la. Antonieta riu, fechando os olhos para que algumas lágrimas caíssem, ainda que ele a reprovasse por isso. – Você o amou. – a menina comentou, quando Mia os reabriu, a água fazendo com que seus olhos brilhassem. Ela apenas assentiu em resposta, em paz por ter-lhe dito antes que o acompanhasse até o navio pela última vez.
Ela o amara e odiava sua peruca. As duas máximas contras as quais ele não refutaria. Ela o amara e sempre o teria. Nas lembranças de Porto Venere.
THE END
Fale com o autor