Lembranças de Porto Venere
39 Capítulo 39
Notas iniciais
Elizabeth sentia o calor do sol, parada junto ao tombadilho, sentindo-se em paz pela primeira vez desde que embarcou naquela jornada. Ao fundo, ouvia as comemorações de seus companheiros, chapéus ao vento, tiros de glória e urros de alegria. Sua vitória, por sua vez, havia vindo com amarras, pensava enquanto com seus olhos fixos na figura de William Turner – apoiado junto ao parapeito de seu próprio tombadilho – se arrependia do tempo perdido durante todos aqueles meses. Mia encontrou-a com a face taciturna, pedindo a seus irmãos que esperassem um momento antes de subirem com ela.
A Barbieri, embora àquela altura fosse um clichê, permanecia surpresa com o caminho escolhido pela filha do governador de Port Royal; e algo lhe convencia de que jamais deixaria de se surpreender com ela. Com cautela, aproximou-se de Elizabeth Swann, seu rei, e se apoiou à balaustrada ao seu lado, encontrando o jovem Turner do outro lado. No fim, sempre fora a respeito de seguir o conselho que lhe ofereceu ao que pareceu muito tempo. Uma chance. William havia comprado uma chance a si mesmo; para reaver seu pai e a mulher que amava. Era mais do que Antonieta supôs que conseguiria.
— Eu lhe devo parabéns, pelo seu casamento. – disse sussurrando, para não assustá-la. – Embora, lamente que não vá ser como qualquer outro. – acrescentou com sincero pesar.
— Jack salvou a vida dele. – o cigno respondeu baixinho. A Barbieri considerou tudo o que aprendera sobre Jack Sparrow até aquele momento e sorriu.
— Um amigo em necessidade; dois, eu diria. – comentou, arqueando as sobrancelhas. Sua companheira sorriu um pouco, concordando. – Dez anos no mar; um dia em terra. – lembrou-se das palavras, encarando Elizabeth, séria, mas logo abrindo seu velho sorriso. – Não vai se entediar?
— O rei pirata entediado? – devolveu a loira, abrindo-se mais.
— Sua carruagem a aguarda, alteza. – Gibbs anunciou, interrompendo-as. – Os remos estão dentro. – acrescentou, rápido, para que não houvesse mal entendidos.
Elizabeth assentiu, avistando o restante do clã Barbieri ainda parado à escadaria, sorrindo em sua direção. Voltou-se, então, para sua líder, pegando-a um pouco de surpresa ao abraçá-la com força. Não tivera muitas figuras femininas em seu caminho; não com quem pudesse realmente contar; e graças a ela, agora poderia reavaliar este número.
— Boa sorte ao recuperar sua cidade. – desejou ainda envolta por ela. Antonieta riu baixinho, desvencilhando-se o suficiente para ajeitar uma mecha atrás de sua orelha.
— Boa sorte na sua noite de núpcias. – brincou com uma piscadela amigável. Elizabeth assentiu, respirando fundo, se impedindo de chorar. – Vou sentir sua falta, vossa majestade.
— E eu a sua... Capitã. – murmurou com gentileza. Ao se virar, deparou-se com Sofia segurando uma de suas mãos, também puxando-a para um abraço morno.
— Devo dizer, muito mais divertido do que a nossa cerimônia. – comentou Alberto, tentando elevar os humores e as quatro riram.
— Nos vemos por aí, cigno. – concordou Diana, apertando o ombro da amiga com carinho. Elizabeth saiu à frente deles, em seguida. A tripulação principal do Pérola estava em fila para se despedir.
— Senhora Turner. – Barbossa a abordou primeiro, com um sorrisinho brincando no canto de seus lábios. Elizabeth devolveu-o ao homem que um dia tentara matá-la e hoje realizou seu casamento.
Um a um, ela ouviu suas despedidas; Pintel e Ragetti demasiado infelizes com sua partida. Jack veio por último. E ela sabia que devia mais a ele do que a qualquer outro.
— Sinto muito, Jack. – começou dando de ombros. – Não teria dado certo entre nós. – ao fundo, Diana riu baixinho.
— Repita isso até se convencer. – Sparrow lhe devolveu no mesmo tom. Elizabeth assentiu, fazendo menção para abraçá-lo, mas ele se afastou. – Uma vez já foi demais.
— Obrigada, Jack. – despediu-se uma última vez antes de tomar o bote.
Eles a observaram até se aproximar o suficiente da para não correr mais perigo. Antonieta bateu a mão levemente sobre a balaústra. Elas se veriam outra vez.
— Então... – começou a seguir, quando o navio começou a se afastar da costa. – A qual dos capitães eu devo pedir por um bote para mim e a minha tripulação? Ou ainda não chegaram num acordo? – disse se aproximando da andorinha. Barbossa fez sinal para que Gibbs aprontasse o bote.
— Não prefere uma carona, amor? – inquiriu Jack, sorrindo de lado. Antonieta riu pelo nariz.
— Não, Jack... Eu acho que quero voltar para o meu navio agora. – respondeu taciturna, virando-se para Barbossa. – Eu vejo vocês em Tortuga. – disse simplesmente e ele lhe ofereceu um aceno de cabeça.
Outro bote foi erguido e Alberto soltou um longo assovio.
— Alegro-me em dizer que não serei eu a cuidar dos remos. – comentou olhando para sua irmã, descendo pela lateral. Antonieta arqueou as sobrancelhas em descrédito.
— Piadas de aleijado, fratello? Já? – desdenhou, sorrindo.
— Se eles vão começar de qualquer jeito, é melhor que comecem por mim. – a voz de Berto foi ouvida de baixo, enquanto Mia se preparava para descer.
— Para sua sorte, eu sempre preferi confiar o trabalho sujo ao sexo feminino. – ponderou, enquanto também sumia de vista. Sofia e Diana desceriam em seguida.
— Por que quando ela diz “sexo feminino”, eu tenho a impressão de que quer dizer você e eu? – inquiriu para Diana, começando a descer, ouvindo risadas do lado de baixo.
— Porque você nunca está errada, Soff. – respondeu, parando enquanto descia para dar uma última olhada na tripulação que observava a pequena conversa familiar. – Ei, vocês dois ratos. – chamou Pintel e Ragetti que a olharam com sorrisos infelizes. – Nos vemos em Tortuga! – despediu-se, fazendo-os esboçar sorrisos verdadeiros, então.
Barbossa e Jack se aproximaram do parapeito para acompanhá-los. Antonieta aos remos, enquanto os outros três cantarolavam a música do marujo bêbado. O pequeno Jack acenou; e o curso até Tortuga foi traçado.
†††
Somente uma vela após o cair da noite. Após as horas em sua mesa, ouvindo o discurso de todos sobre como o cerco a Porto Venere deveria acontecer, Antonieta Barbieri finalmente encontrava o tempo para admirar as estrelas que a guiavam até Tortuga. Recebidos como reis, o clã de Allegra e Cícero viram-se rodeados pelos urros de alívio e esperança de seus companheiros, cientes de que a vitória naquela batalha significava o aumento de suas chances na próxima, pois aqueles que se intitulavam deuses demorariam a se esquecer da batalha da Baía Naufrágio. Contudo, os destroços não se reservavam a apenas um dos lados.
Ela ainda sentia a ausência de Matteo e Ilaria, e o braço de Alberto não se regeneraria como se num passe de mágica. Embora estivesse um pouco menos cética quanto a isso, depois de tudo. Sozinha ao timão, enquanto seus irmãos e irmãs aqueciam-se para as festividades na cozinha, apesar de ao descerem, eles ainda não houvessem definido quem cozinharia. O peso de ter que tomar uma decisão quando retornasse para casa deixou o sabor da vitória mais amargo do que doce. Planos à mesa, ânimos elevados, mas sua cabeça ainda sem um chapéu e sua cidade ainda à deriva. Naquela noite, porém, como prometeu a Diana, ela não pensaria no que viria a seguir, mas no que conquistaram até ali.
O céu então trouxe a luz mais brilhante do que aquela de sua vela. A cidade sem comedimentos resplandecendo ao longe. E a sua Stella retornaria ao porto sem qualquer arranhão desta vez. Essa era uma pequena vitória por si só. Mia soou o apito de Luigi em seu pescoço, avisando-os da chegada, ao passo que adentrava o porto; avistando o Pérola Negra, a embarcação mais rápida dentre os oceanos, a poucos metros. Os irmãos Ferretti subiram primeiro, a fim de descer a ponte. Diana veio em seguida acompanhada do restante do grupo, anunciando sua presença com um urro, como se a ilha inteira fosse capaz de ouvi-la.
— Não vai se juntar a nós? – inquiriu a Antonieta, quando esta fez o caminho inverso ao do Faithful Bride.
— Esta noite, não. – respondeu simplesmente. – Vou tirar proveito da hospitalidade da Ching! Como uma das responsáveis pela corda não estar ao redor do seu pescoço agora, talvez eu não precise nem pagar. – brincou piscando alegremente para a irmã, que jogou a cabeça para trás num riso estrondoso, abraçando-se a Beatrice conforme se dirigiam para o pub. – E peça a Alberto para refrescar a memória de Louis e Eduardo. – acrescentou, séria. Diana resumiu-se em uma piscadela.
— Gus, desça o resto do seu rum! – ordenou o furacão Murphy adentrando o velho pub. Seus olhos procuraram primeiro por Alberto, avistando-o junto ao bar com os ditos lordes piratas. Outra desavença já acontecia próxima ao balcão e alguns marinheiros perdiam moedas em disputas de força. Em uma das mesas, Sparrow flertava com Scarlett e Giselle; nenhum sinal de Gibbs. – Vocês dois! – ela chamou Pintel e Ragetti. – Venham pra cá! – disse acenando para que se sentassem com o resto da tripulação mais aos fundos.
— Onde está Mia? – Sofia perguntou, aceitando um caneco que lhe ofereciam; seus olhos encarando a negociação do marido.
— Casa da Ching! – Diana respondeu, erguendo a voz além do barulho, engolindo um grande gole de sua bebida. – Muito bem, quem está pronto para ter as calças arriadas?! – inquiriu puxando um deque de cartas. A mesa inteira bateu com seus canecos em acordo.
— Onde está o velho Gibbs, Capitão Sparrow? – Nicola indagou, passando já um pouco bêbado por Sparrow, que o considerou sem, contudo, reconhecê-lo; no entanto, ouvindo o riso de Diana, imaginou que a tripulação da italianinha já houvesse aportado.
— Eu o deixei no Pérola, para guardar o navio. – informou-o sem mais detalhes, voltando sua atenção para as moças. Nicola assentiu, repetindo a informação para a mesa de italianos que lamentou num coro infeliz.
— Luigi, vá arrastá-lo! – comandou Olívia. – Logo, Sparrow vai estar tão ocupado que nem vai perceber que o trouxemos! – o timoneiro retirou o chapéu, com uma reverência à mestra de armas, correndo porta afora.
Próximo à porta, Barbossa acompanhou o movimento da mesa do clã Barbieri, vendo-os se dividir em grupos de cartas e aqueles que gostariam apenas de uma singela conversa. Bebendo, assim, o último gole de rum, colocou-se de pé a caminho do que esperava encontrar. A Casa de Banhos de Madame Ching fora construída numa das ruelas mais altas de Tortuga e Hector a encontrou iluminada, com fregueses sendo acompanhados até a porta pelas donzelas da chinesa.
— Posso te ajudar, amor? – perguntou uma delas, insinuante. Hector sorriu.
— Talvez possa. – respondeu aproximando-se. – Uma mulher com o sobrenome Barbieri, se encontra aqui? – inquiriu olhando para as luzes nos quartos acima deles.
— A italiana? Sim, subiu há alguns minutos depois de barganhar com a madame. – disse apontando para as escadarias à mostra com a porta aberta. Barbossa passou pela jovem lhe jogando uma moeda, recebida com um sorriso grato. – Segundo andar, no terceiro quarto, amor!
Ele subiu, sem encontrar com a Lorde do Mar de Jade, embora não imaginasse que Madame Ching precisasse habitar seu negócio a fim de comandá-lo. O fantasma de um sorriso brincou em seus lábios, contudo, ao lembrar-se de que já cruzara aquele caminho por Antonieta antes; meses antes; e embora o tempo ainda fosse, em sua opinião, um contraditório e infiel bastardo, algumas graças concedidas o prepararam para o que encontraria ao abrir a porta.
— Imaginei que dessa vez você gostaria de juntar-se a mim. – ela murmurou de dentro da banheira, maior do que aquela na qual a encontrara pela primeira vez. Barbossa riu pelo nariz, fechando a porta atrás de si. Antonieta estava com os braços apoiados de cada lado da borda, cabeça para trás e um caneco de rum em uma das mãos.
— O que há com você e os banhos? – inquiriu ele, com graciosa zombaria, puxando a cadeira onde ela colocara seu casaco para se sentar. A Barbieri abriu os olhos, sorrindo de lado em meio a um suspiro relaxado.
— Estive encharcada pelo meu mal cheiro por tempo demais. – elucidou-o deixando o caneco de lado. – Senti falta do perfume de jasmim. Além disso, é bom poder relaxar. Antes de me jogar para os leões uma terceira vez, ainda este ano. – Acrescentou tornando a fechar os olhos, deitando a cabeça para trás. Barbossa aquiesceu, sem responder.
— Quando vai partir? – quis saber, se levantando para servir-se de um caneco de rum.
— Amanhã. – ela disse de pronto. – Assim que o navio estiver carregado. Discutimos os planos na maior parte do caminho até aqui. E quanto a você e o Jack? Quando vão partir? – perguntou de volta, retesando os ombros dentro da água morna.
— Também amanhã, mas Jack não virá comigo. – rebateu Barbossa, sentado mais uma vez. Antonieta abriu os olhos para encontrá-lo encarando-a significativamente. Ela revirou os olhos em descrédito.
— Por mil demônios, Hector! – ralhou esguichando um pouco de água. – Deve haver um número de vezes para se deixar um homem pra trás! E qual seu destino? – inquiriu a contragosto.
— A fonte da juventude. – revelou, após beber outro gole. Àquela altura, Antonieta não se chocava mais.
— Não aprendeu nada melhor do que essas apostas com o desconhecido?
— Minha vida inteira foi uma aposta com o desconhecido. – ele rebateu num falso brinde.
— Chamemos de sobrenatural, então. – desdenhou ela. – Eu não imagino que Calipso vá trazê-lo de volta uma segunda vez. Não quando não há nada mais a se ganhar. – ponderou com os olhos dançando pelo quarto e enfim repousando-os, frustrados, nele. Barbossa assentiu, sem, no entanto, ouvi-la. Com cuidado, o caneco foi deixado sobre a cadeira, afastada alguns centímetros da banheira, enquanto ele se desfazia de seu chapéu. Antonieta observou à medida que as peças de roupa caíam, sorrindo com os olhos baixos diante do próprio sorriso torto que ele oferecia a ela.
A água, então, o acolheu, convidativa, ao passo a Barbieri se limitou a aguardar até que ele chegasse a ela. Hector a puxou com calma, liberando a cascata amendoada com cuidado, obtendo os braços de Antonieta ao redor de seu pescoço, trazendo-o para mais perto, como resposta.
— Então, ainda temos tempo? – ele sussurrou com as mãos submersas, apertando sua cintura. Ela sorriu, encostando seus lábios contra os dele, levemente.
— Ainda temos tempo. – sussurrou a pirata em resposta, sentindo as mãos dele a apertarem mais ao se inclinar para tomar a graça que ela havia lhe prometido em noites anteriores. Conforme a beijava, era capaz de sentir o perfume do jasmim em sua pele, tão macia quanto se lembrava, aproveitando o toque a partir das suas costas até a curvatura de suas pernas, erguendo-a para que se encaixasse em seu colo.
Antonieta sabia o que enfrentaria, quando o último canhão soou à costa da Baía Naufrágio. Ele adentrava sua vida em momentos oportunos, revirando-a a seu bel-prazer; o prazer da Lady da Ligúria; para, então, deixá-la e escolher a próxima oportunidade. O jogo era, à jovem impetuosa e inquebrável, uma novidade. Batalha diversa daquela que travava diariamente consigo mesma e seus juízes, portanto, bem-vinda. Agora, podendo contar com a certeza de que conhecia os lados no tabuleiro; e de que passara mais tempo lutando batalhas cujas consequências saíam-lhe mais caras do que o orgulho e a vaidade feridas, a novidade converter-se-ia em ausência.
Hector, por sua vez, guardava consigo a ciência de que nenhuma jura ou promessa convencê-la-iam a escolhê-lo. Atraído pelo fogo em outra era, não muito diferente daquela, tendo aprendido a sua verdade apenas ao partir seu coração. Afinal, julgou, pelas palavras dela e também daqueles que a conheciam melhor, que, à época, ainda fora o coração; e não o que o outro maculara mais à frente; o orgulho. Com que, então, à altura daquela viagem, ela insistiu – sem qualquer refute final de sua parte – para que findassem o que em certo tempo se iniciara. E ele a reaprendera, para seu arrependimento quando chegassem aquele momento, em que deveria entregá-la aqueles que ela jamais deixaria por ele, outra vez.
Assim, enquanto ele a buscava como calmaria, ela o queria como a uma tormenta. Barbossa refreou-se, correndo os olhos pelas faces rosadas de sua amante, que sorria, respirando, sôfrega, ao acarinhar a cicatriz sob seu olho esquerdo.
— Héctor...— ela sussurrou, como se seu nome fosse uma prece e o pirata a atendeu, traçando uma linha de beijos do centro de seu pescoço ao vale entre seus seios, enquanto acariciava o interior de suas coxas. Antonieta já o sentia sob si, mas ele não demonstrava sinais de sua pressa. Então, ela o tocou ali, se desvencilhando de suas carícias para lhe oferecer as dela, fazendo-o gemer, conforme sua língua ia lenta pela pele úmida e a mão se mexia precisa entre eles.
— Monella. – ele sussurrou, rouco, ao senti-la parar, provocando-o com beijos mordicados, incompletos. Mia sorriu, empurrando-o até a borda.
— Me tome. – ela sussurrou, com a voz macia, assumindo seu lugar mais uma vez em seu colo, sentindo o peito arder. Ela se apaixonara pelo fogo, há muito tempo.
Barbossa os ergueu para fora da água, calmaria, ainda sem ceder a urgência que sentia nela; não totalmente; e deitou-a na cama. Antonieta estremeceu ao toque dos lençóis frios contra a pele morna, soltando um gritinho agudo ao sentir a língua de Barbossa cortando-a gentilmente em seu centro de prazer e, então, sugá-la, à medida que um de seus dedos a penetrava. Mia se abraçou aos lençóis, mordendo os lábios conforme sentia a pressão e o calor aumentarem, até a incapacidade em se conter por muito mais.
Lânguida, Antonieta o puxou por uma mecha de seu cabelo, liberto fora da trança que ela outrora descobrira, elevando um sorriso orgulhoso e nada além de cafajeste aos lábios do Lorde do Mar Cáspio. Ela arfou, em falso desdém, antes de tomar seus lábios com os dele novamente, correndo as unhas por suas costas com ânsia para que a preenchesse. Hector puxou-a, a seguir, abraçando-a a fim de obrigá-la a olhá-lo, à medida que escorregava por entre suas pernas. Antonieta suspirou, sentindo-o estocar a primeira vez, abraçando-o com suas pernas, ao passo que mexia os quadris em resposta.
Seguiram em uma dança lenta, sem desviarem os olhos um do outro, até que seus corpos imploraram por trégua. Ainda envolvendo-a, Hector a deitou novamente, diminuindo o espaço entre as estocadas, grunhindo, rouco, em seu ouvido, sentindo-a afundar as unhas em suas costas, trêmula sob sua pele. Mia o seguia como a boa parceira de jogo que era, soltando um último gritinho ao senti-lo estremecer dentro dela.
A Lady da Ligúria, então, os virou para que se deitasse sobre ele, beijando a curvatura de seu pescoço, cheirando a jasmim. Permaneceram assim, com Hector a acarinhar o baixo de suas costas; nenhum deles desejando falar sobre o que viria a seguir.
— Tem certeza de que quer seguir em frente com isso? – indagou Antonieta, quebrando o silêncio com a voz baixa. – Você disse que a morte era um dia que valia a pena viver... – observou, correndo a mão pela cicatriz do tiro de Jack Sparrow.
— Quando se tem algo pelo que valha a pena morrer. – retrucou Hector, sombriamente. Mia fechou os olhos, se retesando ao lado dele.
— Eu sei que jamais poderia ser sua esposa. Mas isso... – ponderou com um suspiro otimista. – Isso eu poderia ser. – disse, rindo, resoluta, fazendo-o rir também, beijando o topo de sua cabeça.
— Você já tem pessoas demais contando com você. – ele rebateu, com razão; e eles jamais o perdoariam por qualquer outra dor que viesse a causá-la, além da que sentia em sua voz naquele momento.
— Então? – protestou, Mia, sentando-se para encará-lo. – Uma a mais não faria a diferença. – tentou brincar e Hector não esboçou resposta. – Fidelidade não é uma palavra que nós conheçamos em demasia... – murmurou, afastando os olhos.
— Eu conheci, por um tempo. – ele a corrigiu, manso, puxando seu rosto de volta para que o olhasse. – E você também. – acrescentou, fazendo-a sorrir de lado.
— Sabe que não faço convites. – lembrou-o, reaproximando seus rostos.
— Eu nunca precisei de um, precisei? – lembrou a ela, beijando-a.
†††
Sofia os avistou primeiro quando se aproximaram do porto. O Pérola Negra e o Stella De La Sera terminavam de ser carregados com provisões e munição. No cais, para divertimento dos italianos que passavam, Gibbs jazia adormecido junto a alguns baús desocupados, tendo retornado ao seu posto logo cedo, para que Jack não descobrisse sua traição na noite anterior com a horda da família de Mia. Diana fitou-os com os olhos pesados, ansiando pelo momento em que poderia descansar mais em sua rede no alojamento.
— Tudo pronto, capitã. – anunciou Alessandra, do alto da gávea. A Barbieri assentiu, brincando com o cabelo de Federica ao vê-la passar por eles. Também à vista, os navios de Eduardo e Louis, com seus respectivos tripulantes. Um sorriso brincou em seus lábios, satisfeita com os orgulhos que impreterivelmente ferira.
— Estaremos prontos quando você estiver. – disse Alberto, com um aceno respeitoso para Barbossa, que o retribuiu.
— Mais alguma coisa que queiram dizer ou já conseguiram desabafar tudo ontem à noite? – provocou Diana, vítima de sua ressaca. Sofia a repreendeu, guiando-a para dentro do navio. Alberto as seguiu entre um risinho e outro.
Antonieta sorriu, encarando o corpo sonolento de Gibbs por um momento.
— Ainda não acredito que você vai jogar a mesma mão outra vez. – disse, rindo pelo nariz. – Pobre Gibbs... se Jack não o matar, outra coisa vai. Só fico feliz por não ser meu navio. – zombou, jocosa.
— O choque vai ser mais fácil de superar desta vez. – Hector deu de ombros, alcançando algo de dentro de seu casaco. – Com alguma sorte, consegui vasculhar minha cabine no Pérola, ontem à noite, e consegui encontrá-la. – falou entregando um pedaço de papel dobrado para Antonieta.
— Encontrar o que... – as palavras foram morrendo, conforme abria o papel e reconhecia a caligrafia em suas mãos.
— Eu a removi do diário antes de entregá-lo a Margaret. – continuou, em resposta a pergunta que ela se formularia depois.
Ao centro da página, as palavras bem desenhadas pela letra de sua mãe ecoaram mais uma vez em seus ouvidos, há muito esquecidas. “Chi si volta, e chi se gira, sempre a casa va finire”. Não importa aonde vá ou faça a volta, você sempre irá terminar em casa.
— Você não queria que ela soubesse que estava ganhando algo de segunda mão? – brincou, reprimindo um pequeno soluço, erguendo os olhos amendoados para encará-lo a fitá-la, taciturno. – Obrigada. Embora o rubi vale-se mais... – tornou a brincar, dobrando o papel e o guardando dentro do colete.
— Obrigado. – ele respondeu, significativamente e ela acenou, entendendo o motivo.
— Você ainda me deve um bote. – ela o lembrou, com as mãos na cintura.
— Esse débito já foi pago. – ele rebateu, com um meio sorriso. Antonieta assentiu. Pago tantas vezes desde que voltaram de Singapura.
Respirare profondo.
— Então, até o próximo favor que precisar de mim. – disse com um sorriso amarelo. – Capitão Barbossa.
Hector sorriu.
— Nos vemos. – disse tomando a mão dela para beijá-la com reverência. – Capitã Barbieri.
Eles se demoraram por mais algum tempo, sem mais nenhuma palavra. Independentemente do caminho, a jornada seria sempre de volta para casa; e Antonieta assistiu seus pais naquela mesma posição por demasiadas vezes, antes de suas mortes. Allegra tocaria o rosto de Cícero, memorizando-o e então o deixaria para que seguissem seus caminhos. Ela era tão forte quanto a mãe. Um último aceno de cabeça e ela lhe deu as costas; a segunda coisa mais difícil que já tivera de fazer. No meio da ponte, ele assoviou por sua atenção e ela se virou.
— Boa sorte. – acrescentou à sua despedida, e o que antes era um andar quase trêmulo, convergiu para que ela retornasse ao Stella De La Sera ciente do que realmente significara as diversas ocasiões em que seus pais se separaram.
Batalhas melhores em seu horizonte.
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