A tentativa era, de fato, algo louvável. Toda a infância de ambas as crias Barbieri fora recheada pelos relatos de seus pais acerca daquele grupo de pessoas; os mais velhos, ao menos. Afinal, muitas das posições ali foram conquistadas em tempo de mais recentes traições e, no entanto, aqueles a quem curvavam suas cabeças não conseguiram ser depostos pela nova geração. Eduardo Villanueva e Louis Chevalle não deixaram de observar a dupla italiana desde a sua chegada durante a fala inicial de Barbossa, mas chegariam a um acordo pouco depois, tendo iniciado a balborda que se desenrolava agora diante do trio pirata à cabeceira da mesa. Jack, Barbossa e Elizabeth; juntos, os cinco admiravam a cena, embora Berto e Mia o fizessem de maneira mais divertida.

A capitã não conseguia evitar que seus olhos corressem superiores até seu amante, tendo-o alertado para aquele acontecimento meses antes. O prezar pelo bem comum nunca foi objetivo suficiente a união da confraria. Esperá-la diante da hipótese que roubaria o poder sobre os oceanos de um grupo de homens autoproclamados reis de seus mares? Sorrir e esforçar-se para prender a língua até que sua hora chegasse era o único plano de ação possível. Não obstante, ouvira a conversa entre deusa e servo; conhecia Hector. Ele adentrara a cidade, embarcou naquela aventura sem sentido, ousou implorar por um favor seu, disposto a qualquer engodo que convencesse os outros lordes piratas a acatar sua decisão.

Com que então o lorde do Mar Cáspio pôs-se sobre a mesa com a arma apontada para o alto e atirou. Todas as cabeças voltaram-se para onde estavam, lembrando-se de que uma guerra batia à sua porta. Ânimos contidos, a reunião teve seguimento.

— Foi a primeira corte que emprisionou Calipso! Devemos ser nós a libertá-la. – recomeçou com seu argumento. – E, em gratidão, ela nos concederá favores. – completou sugestivamente aos outros capitães que, somente então, pareceram considerar a oferta.

— Que favores? – interpôs Jack, fitando o restante da mesa por entre as pernas do capitão. – Seus favores? Tremenda conversa fiada digo eu. – contestou, ao que os outros passaram a observar Barbossa com suspeita.

— Se tem uma alternativa melhor, por favor, diga. – desdenhou, acompanhado de um amplo gesto de mão para o restante da sala, descendo mais uma vez ao mesmo nível deles.

— As lulas. – Sparrow respondeu, para confusão de todos. Ele se dirigia ao salão agora, sinalizando para que os companheiros de Ammand lhe concedessem passagem. – Não devemos, caros amigos, esquecer nossas amigas as lulas; lépidas e soletes salsichinhas. Coloque-as juntas e elas se devoram sem nem pensar. Natureza humana ou... natureza de peixe. – sua fala seguia com certeza e, notadamente, à vista de um ponto; o grupo apenas ansiava para que este viesse logo. – Mas sim, nos escondemos aqui com provisões, bem armados e metade de nós estaria morta em um mês e a outra no próximo mês; o que me parece bem triste de qualquer ângulo. – algumas cabeças assentiram, ao que as sobrancelhas de Berto se ergueram para sua irmã. Antonieta começava a entendê-lo; e Hector não iria gostar.

“Ou como meu, astuto, colega ingenuamente sugere, podemos soltar Calipso e rezar para que seja misericordiosa. O que eu duvido muito. Podemos, de fato, pretender que ela não seja nada mais que uma mulher desprezada com uma fúria dos infernos? Não podemos. Res ipso loquitur tabula in naufragi[1]. Só nos resta uma opção; eu concordo com – não acredito que estas palavras irão sair da minha boca – a Capitã Swann. Devemos lutar”.

Elizabeth sorriu em grata surpresa, acompanhada pelos Barbieri.

— Você sempre fugiu de uma boa briga! – Hector protestou, previsível.

— Não fugi, não! – retrucou Sparrow.

— Fugiu. – Barbossa insistiu, ao que Mia revirou os olhos, ciente de onde aquilo iria parar.

— Não fugi, não!

— Fugiu e sabe disso!

— Não fugi, difamação e calúnia. – Sparrow bateu o pé, enquanto Barbossa ria com escárnio. – Eu sempre abracei a mais velha e nobre tradição pirata. Proponho neste caso, aqui e agora, que todos façam o seguinte: vamos lutar... para fugir. – concluiu veemente, sendo aclamado pelo prospecto demasiado sedutor aos demais. Antonieta, por si só, não duvidou de sua lógica, tendo feito o mesmo.

— E quem seria o alvo desta luta? – Dona Ching pronunciou-se. Os olhos de Elizabeth brincavam sobre ela; a pirata de maior renome do mundo.

— Lorde Cutler Beckett. – respondeu a senhorita Swann.

— Beckett não é mais nada senão um peão. – interveio Chevalle, com um aceno displicente de mão. – Mate-o e outro estará pronto para tomar seu lugar. Assim como Jones, a Companhia das Índias Orientais é imortal; sem corpo para chutar e nem alma para amaldiçoar. – sentenciou.

— Ah, mas Jones, tal como está, possui um corpo; ainda que de outra espécie. – rebateu a andorinha, astuto.

— Sim! – concordou Jocard, pondo-se de pé. – E se chutarmos com força suficiente e por tempo suficiente... – completou sugestivamente.

— Que valor tem o Holandês, sem um capitão? – concluiu Ammand. Os três trocaram olhares e uma espécie de acordo começou a se formar.

Barbossa, por sua vez, não se daria por vencido.

— De acordo com o código, um ato de guerra, que é exatamente isso, só pode ser declarado pelo Rei pirata. – lembrou-os, altivo. Algumas cabeças, então, aquiesceram.

— Isso é invenção! – Jack apontou, protestando.

— Será mesmo? – Barbossa sorriu satisfeito consigo mesmo. Sparrow o encarava como se o desafiando ao próximo passo; e seu velho nêmesis não hesitou. – Convoco o Capitão Teague. O guardião do código! – exclamou.

Elizabeth notou a imediata alteração em Jack. Seu maxilar se retesou, ao passo que seus olhos se mantiveram presos ao assoalho. O cigno, então, igualmente a par do sorriso vitorioso aos lábios de Barbossa – finalmente feliz pelo desconforto devolvido ao homem que em vida não lhe causara outra sensação além daquela – buscou por alguma resposta em Antonieta, ao seu lado. A Lady da Ligúria, no entanto, mantinha os olhos na figura que surgia aos fundos da sala, após abrir fogo contra um dos homens de outro capitão que contestara o valor do código, como que hipnotizada pela súbita alternação de poder naquela assembleia. A senhorita Swann permaneceria aquém da razão para o tremor de Jack, sua relação com o homem. Contudo, se os olhos de Antonieta brilhavam; ela saberia reconhecer alguém de repute.

— O código é a lei. – murmurou o recém chegado de voz pesada, assoprando a fumaça da ponta de sua pistola. Traçou seu caminho até a mesa com calma, parando a poucos passos de Jack. – Está no meu caminho. – advertiu. A andorinha moveu-se sem som de seu canto.

O tom tornou-se solene, conforme outros dois marujos carregavam um enorme livro em capa de couro envelhecido para dentro da sala. “Código Pirata” lia-se em letras cortadas com a ponta de uma faca sobre a pelica.

— O código. – murmurou Pintel, admirado.

— Copilado por Morgan e Bartolomeu. – Ragetti suspirou, dividindo da emoção de seu amigo.

Seguiu-se a ímpar chegada pelo assovio de Teague a chamar alguém do lado de fora. Um cachorro trazia um maço de chaves em sua boca.

— É-e-eu... não pode... – Ragetti e Pintel pareciam saber de quem se tratava, notaram Elizabeth e Alberto.

— Tartarugas, amigo. – disse Teague, dando de ombros. Conhecendo o conteúdo do compêndio às suas mãos, abriu-o em determinada página, correndo o dedo ornado pelo anel que simbolizava seu direito como capitão por ela; procurando. Ao encontrar a passagem, bateu levemente sobre as palavras. – Barbossa tem razão.

Antonieta viu-o conceder-lhe um profundo aceno de cabeça. Vitória?

— Só um instante. – Jack protestou, ousando se colocar ao lado do homem que o amedrontava. – É dever do rei declarar guerra, direcionar forças, organizar parola contra inimigos comuns... Que bonito! – exclamou, derrotado.

— Não há um rei desde a primeira corte. – interpôs Louis Chevalle, rapidamente, olhando ambos os lados. – E não é provável que mude. – acrescentou com descaso.

— Pouco provável. – concordou Teague, afastando-se para uma cadeira aos fundos.

— Por que não? – Elizabeth questionou.

— É que o Rei pirata é eleito por voto popular. – disse Gibbs.

— E cada pirata sempre vota em si mesmo. – completou Barbossa, mirando-a de soslaio.

— Sugiro uma votação. – chamou Jack. Ao fundo, Teague havia começado a tocar uma velha balada.

— Eu voto em Ammand, o corsário!

— Capitão Chevalle, o francês sem dinheiro!

— Sri Shumbhajee vota em Sri Shumbhajee!

Antonieta riu com escárnio, afastando-se da mesa com impaciência, seguida por Alberto. Os piratas continuaram a pronunciar seus nomes, enquanto eles assistiam, prontos para finalmente interromper o que se tornava uma confabulação infrutífera e externar seu propósito. Olhavam para cada um deles, questionando-se como algum dia seus pais haviam suportado aquela mesma posição. Teague, então, de repente, parou de tocar.

— Elizabeth Swann. – a voz de Jack ecoou e, como pretendera, todos os olhares recaíram sobre sua fronte agraciada pelo sorriso que dispunha a Elizabeth.

— O que? – esta respondeu, nada mais que choque em sua voz.

— Eu sei, curioso, não é? – assentiu, satisfeito com o novo clamor que provocara.

Mia o observava com recém-formado respeito, enquanto os outros capitães protestavam contra Sparrow, ameaçando-o para que votassem neles. A Barbieri compreendia-o, talvez, finalmente. Não era, ainda, tão grande quanto seu pai; o homem que retomara a música ao seu lado e os calara há poucos instantes, porém, vendo-o agir dentro de seu próprio esquema naquela reunião, seria capaz de reverenciá-lo como o valoroso oponente que era. À sua própria maneira. De fato, tanto ele quanto Barbossa vinham em busca de subjugar aquele encontro ao que beneficiaria mais seus planos individuais. Jack Sparrow obtinha vitória e em uma mesma cartada, ainda que para seu próprio ganho, tornou Elizabeth Swann – sua assassina – a mulher mais poderosa dentre eles.

— Eu devo compreender, então, que não vão respeitar o Código? – inquiriu, chamando a atenção de seu pai, ao fundo. O arrebentar de duas cordas de violão foi ouvido.

— Pois bem, – interpôs Dona Ching, erguendo-se solene de sua cadeira. – O que me diz, Capitã Swann, Rei da Corte da Irmandade?

O título lhe assentava bem, tal qual o orgulhoso sorriso que erguia; e a troca de olhares entre cigno e andorinha, não passou despercebida a Lady da Ligúria.

— Preparem todas as naus que flutuem. – ordenou a loira, por fim. – Amanhã, vamos a guerra. – anunciou solenemente.

— Então, a guerra nós iremos! – concordou Sri Shumbhajee, falando pela primeira vez sem o intermédio de seus guarda costas.

Houve comoção em meio aos mesmos homens que antes dispunham-se a apontar pistolas uns contra os outros, e agora abraçavam-se à iminência da batalha. Mia jamais imaginou que fosse possível convencê-los, afinal, Chevalle bem colocara antes: a companhia não possuía um corpo dispensável à moda. No entanto, ali estavam. Prestes a mandar o bom senso ao inferno; e garantir a chance de novos dias. Só o que precisariam fazer era entregar a meia liberdade antecipada por Sparrow em suas mãos, numa bandeja. Barbossa mais uma vez derrotado pela andorinha com metade de sua experiência; mas a Barbieri o conhecia. Atenta a mestres Pintel e Ragetti escondendo as peças de oito dos outros capitães – demasiado energizados pela promessa de glória para se lembrarem delas – sob seu imperioso olhar.

Elizabeth era Rei. Jack conseguiu sua chance para apunhalar o coração de Davy Jones. Barbossa cumpriria sua palavra para com Calipso. Restava apenas a sua reivindicação; e Alberto agiu primeiro antes que a multidão se dispersasse, atirando para o alto e batendo com as balas de canhão sobre a mesa. Em uníssono, ele e Antonieta apunhalaram o globo com suas espadas, ganhando a atenção de seus lordes e ladies.

— Peço o poder da palavra, majestade. – disse a Barbieri, sorrindo maliciosamente para Elizabeth.

O Rei ponderou por um momento de suspense, ciente de que detinha as ansiedades de todos os outros lordes em suas mãos. Ciente de que os rostos de Chevalle e Villanueva contorciam-se mais do que os dos outros.

— A palavra é sua, Capitã Barbieri. – disse, por fim.

[1] Ele fala a bordo do naufrágio.

Notas finais
Hoje vai ter atualização dupla? Vai sim senhor! E eu espero que vocês gostem destes dois capítulos, pois são cenas decisivas para os arcos de duas personagens muito amadas por mim! Vocês sabem quem são kkkk Pois bem, vamos ao próximo! Beijos, Ana