Há muito tempo, Antonieta Barbieri descobrira o quanto lhe era prazeroso causar dor. Não a física, porém; contra as muitas pessoas inocentes que cruzaram seu caminho em momentos inoportunos e mesmo que fosse dispensada àqueles que merecessem. Não; a violência mais prazerosa, a seu ver, provinha de uma fonte deliciosamente mais simples. Já incutida em cada um daqueles homens – especialmente os homens – e com a mesma facilidade com que manobrava seu navio, ela manipulava-a neles. Com que desembaraço conseguiu a atenção dos dois homens sobre os quais mais ansiava propagar aquela dor; isso apenas por adentrar uma sala, permanecer paciente em silêncio, para então sentar-se à ponta da mesa com graciosidade felina.

Sentar-se à ponta da mesa. Foi só o que precisou fazer para que eles sentissem a ponta de sua espada às suas costas. Ia contra a natureza mais sensata de Alberto Barbieri permitir a continuidade da pequena performance de sua irmã. Em um porto mais pacato, talvez, mas não diante da Corte da Irmandade; cujo um dos membros foi responsável pelo amputar de seu braço. A alfinetada em seu coração poderia ser menor do que a que Mia sentia, contudo ele não a censuraria por isso. Mais do que pronto a abrir caminho para que ela lutasse aquela batalha sozinha, como sua preferência ditava. Vinha, não obstante, à sua memória outra noite em que não pudera lhe ajudar; e ali, eles eram um só.

— Aqueles que decidirem se retirar a fim de se preparem para a batalha, não os impeço. – Antonieta começou com calma, um sorriso sutil brincando no canto de seus lábios. – Meus negócios envolvem apenas estes dois senhores. – disse apontando para os lordes dos mares adriático e mediterrâneo.

— Você requereu palavra perante toda a corte, madame. – interpôs Jocard ao seu lado, de forma solene. – Toda a corte será testemunha. – explicou. Antonieta assentiu lentamente.

— Pois bem. – murmurou, erguendo-se com energia de sua cadeira, arqueando-se sobre a mesa. – Eu quero dois navios para reaver minha cidade e meu porto. – falou sem rodeios.

O clima ameno atingido pela eleição de Elizabeth desfez-se por completo. Chevalle cruzou as pernas sob a mesa, levando a mão ao queixo, seus olhos implorando auxílio ao homem sentado à sua frente à outra ponta. Eduardo Villanueva apenas sustentou o olhar de sua interlocutora, que o estudava pacientemente.

— Você quer... – repetiu ele, por fim.

— Dois navios. – terminou, branda. – Acredito que ainda seja um valor muito baixo, quando reflito sobre o transtorno que me foi causado. Afinal, eu poderia ter feito esta proposta em outras circunstâncias, de fato, eu tentei; mas ao fazê-lo, apenas descobri que os dois já haviam deixado seus sócios à míngua há algum tempo. Engraçado não ter sido informada. – o tom era condescendente, frio e Eduardo mais ouvira o que não foi dito, do que realmente suas palavras. Ele lhe devia o navio, a ajuda, pois agira como um covarde.

— Por pouco não escapei da forca. – interveio Chevalle, com carregado sotaque. – Fui capturado pela marinha e levado a Port Royal...

— Sim, eu imaginei que o mau gerenciamento das suas cargas deveria atingir um resultado como este. – interveio Antonieta num gesto dispendioso de mãos, antes que ele prosseguisse em suas explicações. – Não guardo mágoas, cavalheiros; todos estivemos em situações inusitadas nestes últimos meses. Contudo, cá estamos fazendo planos para o futuro! Só o que meu irmão e eu queremos é garantir que Porto Venere continue a servir-nos neste futuro. – disse com alguma doçura na voz, então olhando Berto de soslaio.

— Antonieta e eu crescemos com as lendas de seus grandes feitos ecoando em nossos ouvidos. – Alberto tomou a palavra, arqueando-se sobre a mesa no lugar que antes estivera sua irmã, que agora mantinha-se parada atrás dele com os braços cruzados nas costas. – Eduardo, – chamou a atenção do homem que insistia em encarar Antonieta, – confiava em nossa mãe; ela sempre falou de você com o mais venerável respeito. E Louis, nós sempre honramos nosso voto de lealdade aos seus tributos. Quando sairmos vitoriosos desta batalha e os ingleses se recuperarem do golpe, vamos precisar de todos os portos livres à nossa disposição. Beckett foi o único que conseguiu passar por nossa costa, porque o subestimamos, todos nós! Sem ele e sem o Holandês... Porto Venere, assim como Tortuga, Nassau, Port-La-Nouvelle, e todos os outros que conquistamos, voltarão a trabalhar conforme decidirmos!

Mia sorriu de lado. Alberto falava como Allegra. Villanueva e Chevalle se entreolharam, assentindo levemente.

— Pedimos uma maneira de chegar pela ilha sul, num ataque surpresa e com maiores chances até o forte. – a italianinha continuou, dando um passo à frente. – Quaisquer danos que seus navios sofrerem, nós cobriremos! – lembrou-os. Villanueva, então, voltou-se completamente para ela e, por um momento, fê-la sentir-se deslocada.

— Engraçado você mencionar os últimos meses. – ele tomou a palavra, com um sorriso frio, estendendo o silêncio. – Notícias de Cádiz, chegaram nós últimos meses. – completou, cruzando as mãos sobre a mesa.

— Eu tinha negócios de em Cádiz. Agora não tenho mais. – respondeu dando de ombros.

— Sim, nós sabemos os tipos de negócios que você costuma deixar para trás. – Chevalle troçou desdenhoso, trocando uma piscadela com Eduardo.

— Não se sintam ameaçados, porque ninguém mais deseja fechar negócio com os senhores. – Mia desdenhou de volta, sorrindo significativamente.

Alberto fechou os olhos, ao passo que Elizabeth mordeu o lábio a fim de reprimir um sorriso. Os olhos de Chevalle se estreitaram minimamente, enquanto o aperto da mão de Villanueva sobre sua pistola fortificou-se, visível a toda a confraria. Barbossa ousou encarar Antonieta, ainda estática ao lado de seu irmão, recordado de quando traçou a mesma espécie de comentário a seu respeito. À época, ela reagiu como um gato a quem jogam contra a água fria. O gato se transformara em serpente; e ele sentiu pena de Eduardo armado com sua pistola.

— Eu confiava em sua mãe, — iniciou o Lorde do Mar Adriático, para Alberto – porque ela foi uma verdadeira dama. – e então voltou-se para a italiana. – Não uma puta qualquer.

O Capitão Barbieri alcançou a arma em seu coldre, com velocidade sobre-humana. Sua irmã impediu-o, tornando a sentar-se na cadeira que Elizabeth lhe cedera.

— Pedro. – chamou, indicando um dos rapazes junto ao assento de Villanueva. Alto e moreno, respondeu a ela de pronto. – Diga-me, você cuida dos livros de Eduardo já há algum tempo... tem conhecimento de todos os registros? – perguntou com inocência.

— A maioria, madame. – respondeu, solícito. Mia assentiu.

— Seria capaz de informar a mesa, quanto em comparação a Allegra Barbieri, eu acresci aos lucros do Capitão Villanueva? – inquiriu delicadamente. Os olhos muito verdes apertados na garganta do espanhol. Pedro pareceu considerar por um momento, recebendo, por fim, um aceno positivo de seu mestre para que a respondesse. Segundo o jovem tesoureiro, o número era deveras superior.

— Veja só o que essa puta fez por você. – desdenhou abrindo os braços, num gesto de falsa humildade. Os olhos de Villanueva estavam vermelhos. – Aqui estamos, em uma época na qual é preciso correr muito mais riscos do que mamãe jamais ousaria ir, por você; ou por qualquer outro aqui. – disse com os olhos ardendo de orgulho. – Já fui classificada como a sombra de minha mãe, — comentou olhando rapidamente para Jack Sparrow – mas, talvez eu apenas me sinta honrada demais em ser sua filha para me dar o crédito merecido. – ponderou dando de ombros.

— Você massacrou uma frota inteira de navios nas minhas águas, por despeito! – exclamou Eduardo, batendo na mesa com violência.

— E que lhe sirva de aviso! – Antonieta o seguiu, com o mesmo gesto. – Minha mãe me contou, sim, histórias sobre vocês e eu as ouvia fascinada; mas nem por um momento me esqueci das bandeiras que saquearam nossas costas por anos, antes que decidíssemos atacar de volta! E quando foi feita a trégua, ainda assim permiti que atravessassem a Spezia, longe das bandeiras britânicas, longe uns dos outros e suas traições!

Alberto fez menção de contê-la, mas deteve-se. À mesa, Dona Ching, ainda que cega, enxergá-la-ia melhor do que todos eles; e atentava-se a sua irmã com o ar respeitoso que dispensaria a outro, mas não de menor imponência. Não a única, os outros homens – mesmo Louis Chevalle – miravam-na com algo semelhante a fútil adoração, conforme sobrepunha a voz de Villanueva sem muito se esforçar para isso. Desenfreada pelo muito que guardava para si mesma, fervorosa por fúria, Antonieta falava como seu pai. Sem temer a ninguém.

— Cada um aqui possui um débito diferente com nossa família. – ele interveio, então, tocando o ombro trêmulo de sua irmã. – O Código, no entanto, é claro, e ao assinarmos o termo para com suas frotas, Eduardo e Louis, nossas reclamações são para os seus ouvidos somente. – acrescentou, então fixando-se no espanhol. – E mesmo assim, ainda que nos fosse permitido falar a qualquer outro nesta mesa, por rechaçar a minha irmã, eu não me contentaria senão com propriedade sua. – ponderou, num sibilo frio.

— Dois navios, e não me devem mais nada. – Antonieta repetiu, frisando cada palavra. Chevalle pareceu convencido e virou-se para Villanueva, que ainda travava seu próprio combate com a Lady da Ligúria. Logo, a mão de Dona Ching repousou sobre a mão do espanhol, na qual segurava a pistola, e fitou-o demoradamente.

— Terá meu navio. – concordou finalmente, seguido por um solene acenar positivo de cabeça de Chevalle.

— O Rei valida esta transação? – inquiriu a lady de todo o pacífico. Elizabeth voltou-se para Antonieta, sorrindo levemente.

— Valido. – anuiu. – Capitão Villanueva e Capitão Chevalle entregarão, cada um, aos Capitães Barbieri um navio de sua frota, quando a batalha acabar. – estabeleceu.

— E, caso eles descumpram o acordo após a batalha, longe dos olhos da corte, nos é concedido o direito de forçar o cumprimento da barganha matando-os e tomando suas peças de oito? – Alberto acrescentou, rápido. Ambos os capitães se ergueram em ultraje.

Elizabeth demorou-se por um momento, considerando as linhas que não poderia cruzar, mesmo em sua posição. Todavia, se dever do rei uma ordem de guerra; dever do rei a manobra que decidiria o destino de seus traidores. Com um olhar solene a ambos os lordes piratas, assentiu.

— Temos um acordo. – concluiu Alberto, tocando o braço de Mia para que o seguisse. Antonieta lançou um último olhar na direção de seus superiores e, então, parou diante de Elizabeth Swann; fazendo-lhe profunda reverência, antes de se retirar com a espada em punho.

Notas finais
Então, é isso! Antonieta conseguiu o que veio buscar, à um certo preço moral, mas discutiremos isso depois. Por ora, eu apenas me diverti muito escrevendo a minha capitã comendo o c*% de outros dois lordes piratas. Espero que tenha sido divertido para vocês também! Um beijo, Ana