Notas iniciais
Boa Leitura!

Estivera morto por tempo demais. Uma sobrevida por volta de dez anos e a escuridão pelo que pareciam ter sido três ou quatro meses. Os pagãos, bem como os excessivamente religiosos, surpreender-se-iam com a destruição de todos os sermões aos quais foram submetidos. Não existia outra vida, nem outro mundo, ou então lhe fora negada a passagem para ela. Fazia sentido que segundas chances não devessem ser concedidas a homens como o sanguinário capitão do Pérola Negra. De acordo com as lendas, um homem tão cruel que o próprio inferno não o quis... que surpresa eles teriam ao descobrirem que nem mesmo aquele fogo arderia, após o último sopro de vida.

Viveu o inferno, contudo. O que mais haveria de ser, senão, aqueles sôfregos desejos, os mais simplórios, conscientemente arrancados das mãos de um grupo de homens? Teria sido justa a sua punição? Embora avisado de todas aquelas consequências, foi decisão sua partir atrás do ouro amaldiçoado. Foi decisão sua ignorar uma voz de cuja inteligência jamais negaria e deixar-se emaranhar por sua ambição. Custara-lhe, afinal, muito mais do que sua própria vida. Em uma noite... esforçava-se para mantê-la longe de seus pensamentos... mas, em uma noite, pouco antes de finalmente não sentir mais nada, havia envelhecido e perdido todos aqueles dez anos. A passagem real do tempo pouco importava. Provavelmente só contribuíra para deixá-lo ainda menos humano.

Uma cena como aquela – um grupo reunido em luto – certamente não se revolveria em seu nome. De fato, a maioria das pessoas naquele bote cantaram vivas ao ver o sangue escorrer da bala em seu peito. Ainda era capaz de senti-la. Finalmente tornara a sentir e agora o fazia em excesso, lamentando-se inclusive por algo que sequer existia mais. Tia Dalma o limpou daquele ferimento, não obstante a presença da cicatriz. Era ela que ainda pesava e que ainda ardia. O tiro de Jack. Recebera a morte de um reles amotinado. Maldita barganha que o obrigava a buscar seu algoz. Maldita circunstância que insistia em entrelaçar seu caminho com o do insípido Sparrow. Mais de mil vezes maldita a linha que o ligava àquilo que teria de encontrar em Tortuga... mesmo que por sua culpa.

Se ao menos ainda estivesse apático. Se ao menos a bruxa não fosse uma cadela manipuladora. A sua certeza de seus próximos passos permaneceria inabalável. Contudo, estivera morto por tempo demais... e achava-se perto de relembrar parte de um passado onde, de fato, estivera vivo. Um passado intrépido.

Os botes desceram o rio tarde adentro, aportando na cidade aparentemente sem lei com o cair do sol. A desconfiança de seus marujos palpável, tendo nenhum deles se atrevido a falar desde que deixaram a cabana. Como atestado por Tia Dalma, aquele era um dos únicos portos seguros para os ladrões de convés do Caribe. Nassau e ele. Notoriamente, lembrava-se de que a família costumava realizar maior número de suas negociações naquela cidade das Bahamas, mais ordenada e menos repulsiva do que aquela ilha. Todavia, seguia os instintos passados pela bruxa. Dessa vez, estaria em Tortuga e não em Nassau. Considerável quantidade de embarcações mantinham-se ancoradas. Nunca fora difícil reconhecê-la dentre a multidão, vez que à serviço de coração igualmente pré-disposto ao drama.

A popa mostrava sinais de reparos em andamento, porém seu desenho permanecia o mesmo. Era grande, imperiosa e, por isso, muitas vezes lenta, ainda que contos narrando os milagres conseguidos por sua capitã tivessem chegado aos ouvidos de diversos marinheiros. Inquestionavelmente uma nau pertencente a uma mulher cujo maior objetivo, ao menos fora à época, consistia em provar o quanto não deveria ser subestimada. E a prova final de que guardaria eternas lembranças sobre ela: gravado em ouro na lateral direita, Stella De la Sera.

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Um ambiente que espelhasse o estado de suas emoções. Dentre tudo o que poderia compor sua lista imaginária de ideais, aquele era o ponto alto indispensável. Viagem segura, bolso cheio de ouro, garrafas inacabadas de rum – de uma saúde perfeita ela abrira mão há muitos anos – meras trivialidades. Fechar os olhos pelo ínterim da revolta interior, ao passo que batalha semelhante se desenvolvia em seu entorno, provia-lhe estranha completude. Abri-los novamente para saborear o ruir do mundo junto ao ruir de seus pensamentos ou, em outras ocasiões, fechá-los em paz para ouvir e despertar em paz. Nas Bahamas, ela sabia os lugares onde teria este ou aquele. Em Tortuga só se conseguia um tipo de ambiente. Um tipo de emoção e, com sorte, algumas das suas variáveis para apimentar um pouco a estadia.

O furacão Murphy. O demônio Murphy. A víbora Murphy. A bêbada Murphy. A risada de Murphy. Nomes comumente carregam responsabilidade sobre aquilo que uma pessoa faz de si mesma. Aqueles foram conseguidos em diferentes momentos de sua vida, aleatoriamente. Orgulhava-se de cada um; achava graça de cada história envolvendo-os. O próprio sobrenome em si também trazia fardo do qual não escapara: guerreiros do mar... quão pretenciosa era tal reivindicação? Longe de sê-lo, preferia o termo: sobreviventes ao mar. Rata do mar. Até uma víbora soava melhor. Enroscada em suas próprias voltas, em seu próprio tempo, agindo quando provocada. Sim, de fato, muito melhor. Diana, a incorrigível. Este era o título que mais lhe assentava e cuja memória esforçava-se ao máximo para honrar, vez que concedido pela única mulher que algum dia ousou chamar de mãe.

Atualmente, trabalhava com sua filha. Amiga e irmã por escolha de seu coração. De Le Tre Grazie, a inquebrável. A puta teimosa, como estavam chamando desde a catástrofe. Embora Diana apenas houvesse entrado na brincadeira porque nunca fora de seu feitio não fazê-lo. Outrossim, a cada vez que chamava Antonieta de puta com seu sorriso irreverente subindo no canto dos lábios, Sofia sabia que, no fundo, a amiga apenas troçava de sua raiva. Afinal, ninguém estava mais irritada do que a primeira imediata da Capitã Barbieri. O furacão Murphy, por outro lado, mantinha-se neutro frente às tribulações e argumentos de seu grupo; apoiavam seu julgamento o sobrinho de Antonieta, Téo, Olívia e Matteo, enquanto os remanescentes dividiam-se entre completamente a favor e completamente contra.

Lamentava não estar com os amigos de Nassau, tanto quanto aquela fatídica noite que custara demasiado aos miseráveis de várias partes do oceano. Sofia desperdiça seu asco em Mia, pensava Diana, mas em tempos já vinha notando certo ressentimento na senhora Barbieri. Apenas não se dava à pretensão de questioná-la. Não se pode colocar coleiras nos demônios, cria. Cedo ou tarde seriam liberados pela primeira imediata e a segunda descobriria tudo sem levantar a voz. Afinal, aprendera a virtude da paciência há tão pouco tempo que divertia-se em encontrar novas formas de testá-la; aquela acabaria se provando uma valiosa oportunidade. Mais nova entre ambas as Tre Grazie, costumava seguir impulsos na agilidade com que um raio é capaz de atear fogo a uma nau. Agora já se aproximando de suas irmãs em espiritualidade oriunda dos anos, via-se cada vez mais próxima também de uma calma que incomodava Sofia, já tão acostumada em repreendê-la.

De fato, execrava-a o fato de que estivesse tão aparentemente bem, de pés para o alto sobre a mesa do Faithful Bride, com os olhos atentos numa briga que acontecia do outro lado da sala. Se ao menos soubesse que aquele fascínio era decorrente do singular bater de seu coração; de como ansiava fazer o mesmo contra qualquer um que estivesse andando sobre seu cais com uniformes vermelhos naquele instante. Aliás, por que esperar? Nenhum daqueles homens significava qualquer coisa, logo poderia simplesmente puxar o mosquete debaixo da cadeira e abrir fogo. Adentrar o caos. Simples como era para qualquer um naquele bar. Contudo, nesse caso, não seria Sofia, mas Alberto Barbieri quem a pararia, arrancando a arma de suas mãos e, talvez, partindo-a... os dois frutos irascíveis do útero de Allegra. Irmão e irmã. Após a viagem desperdiçada até Eduardo Villanueva, aquela deveria ser uma existência incógnita – o quanto fosse possível a um fora da lei sê-lo.

Não seria, porém, por muito mais tempo, vez que uma sombra conhecida, usando uma pena de avestruz em seu chapéu, acabava de adentrar o caos. Seu sorriso subiu e ela abaixou as pernas de cima da mesa, ao passo que batia num dos ombros de Sofia, indicando-lhe com a cabeça o recém-chegado. A morena estancou-se sobre a cadeira, abaixando-se no mesmo segundo. Alberto, ao seu lado, estranhando tal comportamento, virou-se seguindo o olhar paralisado, confiante, de Diana. Barbossa e um pequeno grupo. Não reconhecia nenhum deles, à exceção do magrelo e do gordinho... uma das mulheres que o acompanhava de aparência tão sinistra que não pôde deixar de se perguntar qual teria sido o inferno de onde a buscou.

O capitão reconheceu o riso ruidoso, enérgico, indisciplinado e cheio de escárnio que garantira a Diana o título de “A risada de Murphy”, seguindo-a com os olhos. Apenas a ponta esquerda da mesa o encarava agora, os únicos com quem interagira no passado. O pequeno clã Barbieri. Com um sinal, mandou que seu grupo se acomodasse, tomando o rumo da tripulação do Stella De La Sera. Os pés da senhorita Murphy voltaram para a posição anterior e ela o engolia com os olhos, veloz em identificar seu propósito. Sofia se levantou, apoiando uma das mãos em Alberto. Barbossa entendeu. Não mais a senhorita Acidália, afinal. Capitães trocaram acenos de cabeça cerimoniosos.

— Finalmente ancorados sem saída, Capitão Barbossa? – indagou Barbieri, seco, porém, amistoso.

— Ou seria esse um delicioso jogo? – murmurou Diana, esperta, despreocupada se a ouviam ou não. Sofia a beliscou no braço, gesto de muitas eras. A outra sequer sentia-os mais, sua diversão aumentada pela censura maternal da morena.

— Vocês estão? Não lembro de alguma vez ter visto as velas daquele navio arreadas... – comentou Barbossa, igualmente amistoso. – Mas folgo em saber que aparenta estar tão firme quanto sempre.

— Tivemos sorte. – adiantou-se Sofia, com escárnio, erguendo um sorriso amarelo na direção do marido. Os olhos do capitão correram de um para o outro rapidamente, Diana observando-o; sabendo demais.

— Os ventos não mudam para a senhorita Murphy. – observou, zombando. Diana semicerrou os olhos, provocativa, em resposta, inabalada. – Tampouco parecem ter mudado para a senhorita Acidália. – acrescentou, então, erguendo os olhos para Sofia.

— Barbieri. – corrigiu, irritada.

— Capitão Barbossa, devo entender que ao contrário da nossa sorte, perdeu a sua embarcação? A que distância de Tortuga? – interpôs Alberto, preocupado. Se eles houvessem sido afundados pela Companhia das Índias nas proximidades do porto, significaria que a liberdade da ilha se comprometia.

— Que importa a distância, — zombou Diana, levantando-se, dando um passo à frente –, as notícias se espalham... ela está lá em cima. – aquele murmúrio carregado de seu sotaque irlandês era mais do que Sofia poderia suportar.

— Diana, cale-se ou...

— Ou o que? Ora vamos, Sofia. Nós conhecemos o Capitão Barbossa, não conhecemos? – perguntou de forma retórica, cruzando os braços. Olhando de uma para o outro. – Conversa fiada não é do seu feitio. A menos... que queira alguma coisa. Nesse caso, a matéria deveria ser discutida com a Capitã do Stella De La Sera, não concorda, Berto? – ela não se preocupava com qualquer grau de falsa inocência e visivelmente ansiava o momento em que estaria completamente a sós para rir-se da situação. Alberto pigarreou, irritado

— Antes de seguir com seus jogos, Di, eu gostaria da resposta. Barbossa? – ele tornou a inquirir. O outro, por sua vez, não se achava dentro do Pérola para saber a exata localização de seu naufrágio. Hesitar agora, contudo, colocaria tudo a perder.

— Alto mar. Obra do Holandês. Eles não ficaram para verificar se houve sobreviventes e subimos com os botes. – ainda assim poderia contar o que sabia da boca de sua tripulação. O suficiente para tentar convencer Alberto Barbieri. Este, então, assentiu para Diana, à contragosto. Ela observava a cena até então apática, abriu seu sorriso mais uma vez ao recuperar o controle.

— Muito bem. Sofia, querida, você recobrou seus direitos como primeira...

— Estou devolvendo-os a você. – retrucou, dura, tornando a se sentar ao lado do filho. Barbossa arqueou as sobrancelhas em sua direção.

— Certo. – assentiu Diana, pouco martirizada. – Siga-me.

O caminho se realizou em silêncio. Atravessaram os corredores dos primeiros quartos, em direção a acomodações mais privadas ao fundo, onde os tiros não se faziam mais ouvir, mas sim os gemidos dos homens que tomavam seu tempo com as moças pintadas do porto. A irlandesa passava por eles com naturalidade, notou Barbossa, ao mesmo tempo em que afastava de suas lembranças quando fora a última vez em que esteve atrás de uma daquelas portas... Estivera morto por tempo demais. Ela se esforçava para não rir, muito satisfeita consigo mesma.

— O que aconteceu? – perguntou o capitão, esperando que a outra entende-se sua referência ao comportamento da primeira imediata. Felizmente, Diana era rápida.

— Por que não inicia este caloroso reencontro com essa pergunta? Ela sempre soube como contar melhor as histórias. – não era verdade, contudo queria provocá-lo. Parou à curva de um corredor, indicando a última porta com um gesto displicente de mão. – Boa sorte. – desejou sem desejar, assoviando uma antiga canção irlandesa à sua saída.

Os sons que emanavam de todos os outros quartos arrastaram-no para lembranças de outra época. Um franzir de cenho característico, um diário, uma risada e um par de olhos tão límpidos quanto a água salgada sob o sol, verdes. Todavia, o que realmente lhe aguardava do outro lado daquela porta era, sem dúvida, incerto. O rubi que trazia no pingente em seu pescoço pesou, bem como a falta de outro souvenir roubado daquela mulher. Desacreditava na capacidade dela de esquecer faltas contra sua vaidade; o mesmo poderia ser dito a seu respeito. A verdade, de fato, bem simples. Suas personalidades um dia tão harmoniosas revelavam-lhe que atrás daquela porta, jazia o que poderia ter sido feito de si... se a tivesse escutado.

Uma batida.

— Chi è? Non voglio essere disturbata. – sua fala era mansa, com traços de um cochilo interrompido.

— Nem mesmo por um velho amigo? – ele ousava. Ah, como ousava. Quaisquer fossem as repercussões e os eventos passados; pois a primeira impressão que sempre guardaria de Antonieta Barbieri era de que havia gostado dela desde o princípio. Como o quê, não importava. E dentro do quarto, ela mesma não conseguiu evitar seu próprio sorriso ao ouvir tal voz. Dezesseis anos depois. Ansiara por aquele momento e pela oportunidade de revanche, tendo o odiado por muito tempo... mas, dezesseis anos depois... não esquecer-se-ia jamais do que ele lhe causara, contudo, independente disso, a primeira impressão que sempre guardaria de Hector Barbossa era de que havia gostado dele desde o princípio.

— Entre. – ela concedeu de bom grado, sendo prontamente obedecida. – Dio mio... acabou arranjando um chapéu maior! Tentando compensar alguma coisa ficando menor, mio caro amico?

E aí está ela, pensou Hector Barbossa, fechando a porta atrás de si calmamente. O cenho sem franzir, mas longe de poder ser considerado taciturno. Pelo contrário, ela lhe cedia um sorriso deveras semelhante ao de Diana Murphy, embora muito mais seguro de si. Realmente não antevira o que encontraria dentro daquele quarto. Naquele simples sorriso, nas palavras carregadas de seu sotaque italiano; a breve súmula de tudo o que admirava e odiava em Antonieta Barbieri. Lá estava ela. Nua dentro de uma banheira ao centro do quarto.

— Embora me esqueça de muitos aspectos a seu respeito, sua habilidade de fazer uma primeira impressão é, de fato, memorável. – comentou com os olhos fixos em seu rosto. Pequenas rugas rodeavam seus olhos, prova de que ainda sorria facilmente e longe de ser apenas por motivos alegres. A pele marcada pelo sol, mas ainda tão jovem quanto se não houvesse passado um dia desde o encontro na costa. Vaidosa até o fim.

— Diz se esquecer, mas ainda encontra várias formas de voltar pra mim. – rebateu com os olhos baixos, abrindo mais o sorriso malicioso enquanto passava uma mão molhada pelo pescoço. – Beijo? – acrescentou. O descaramento lembrava-o do tempo que se passara e de como ela sabia por onde começar com suas vendetas. Sua expressão endurecendo instantaneamente.

— Não. – respondeu, frio. Ela riu. Uma risada abafada, confortável; a risada de quem sabia estar no controle. A risada dele.

— Muito cedo para voltarmos aos velhos hábitos? Entendo. – ela falava pelo simples prazer de machucá-lo enquanto o provocava, uma arte que aperfeiçoara quando finalmente entendeu o que era preciso para permanecer dentro dos livros de dividendos dos contrabandistas. – A pena de avestruz é para dar sorte? Não era você que se dizia bom demais para acreditar em... histórias de fantasmas? Mas imagino que tudo bem crer numa e outra superstição...

— Antonieta. – advertiu ele.

— Hector, considerando nossa velha amizade, bem... você é um homem vaidoso. E eu estou nua dentro de uma banheira. As piadas vêm naturalmente. – retrucou ela dando de ombros. Barbossa bufou em zombaria.

— A menos que você haja sensatamente e, digamos, perceba que deveríamos continuar esta conversa em circunstâncias mais... decorosas? – ele falava manso, sempre zombando. Terrivelmente desesperado por ganhar o controle naquele quarto, Antonieta sabia.

— Ah, deveríamos? Por quê? – inquiriu manhosamente, se arrastando para o outro lado da banheira de onde ficaria a poucos metros de distância dele. – Acaso se esqueceu de para onde deve olhar? Ou deixei de ser uma visão depois de tanto tempo? – falava com a cabeça apoiada sobre os braços, cruzados à borda. Então, espirrou água na direção do rosto dele, irascível. – Para o inferno com o seu conforto, Hector Barbossa! Estou longe de ter algum há dias... Aliás, aproveitando que está aqui, seja o cavalheiro que clama ser há anos e me sirva uma taça de porto. – pediu apontando para uma garrafa disposta sobre a mesa. Ele se limitou a arquear as sobrancelhas contra ela. – Vamos, e se sirva também, se quiser. Eu mesma o faria, mas, suponho que levantar agora seria o mesmo que – seus olhos baixaram para sua calça – fazê-lo levantar.

Hector sorriu. Irritava-o e ao mesmo tempo sempre o fascinara a facilidade com a qual ela se expressava quanto a sua sexualidade. Um dos traços marcantes que faziam de Antonieta, Antonieta. Serviu-os, ao passo que ela retornava à sua posição anterior. Ele se ajoelhou para entregar-lhe a taça, ao que ela sutilmente virou o rosto para fitá-lo de soslaio...

— Continua uma visão. – sussurrou em seu ouvido, fazendo-a sorrir abertamente. – O que há entre você e a senhora Barbieri? – indagou subitamente, puxando um banco para sentar-se ao lado da banheira com ela. Mia virou os olhos para ele ainda sorvendo um gole da bebida. – Ora, considerando nossa velha amizade, bem... ela já foi mais calorosa com assuntos que lhe diziam respeito. – prontificou-se a explicar, remedando-a.

— Se for usar minhas palavras contra mim, seja direto.

— A boa e velha senhorita Acidália não pareceu se importar com a minha presença aqui. Se me lembro bem, ela sempre foi... resoluta nas opiniões contra suas amizades masculinas. – a escolha de palavras a fez revirar os olhos.

— Eu me afastaria de termos como velha para falar dela e, afinal, dezesseis anos depois, você esperaria que Sofia encontrasse algo melhor para fardar seus ombros do que os homens com quem me deito. – disse Antonieta, simplesmente.

— Cinquenta anos não mudariam o fato de que Sofia sempre se interporá entre mim e minhas péssimas escolhas. Suas palavras. – recitou Hector com um meio sorriso de esgar.

— Affascinante... – suspirou Mia, recostando a cabeça na borda. – Memória seletiva? – inquiriu mansamente fechando os olhos e sorrindo consigo mesma. Barbossa mal havia tocado no vinho, ainda que um de seus favoritos. Aguardando-a. – Não é uma história que eu queira ou deva dividir com você. – ela disse por fim, com os olhos cravados em seus próprios pés. Ele deu de ombros para o nada.

— Minha próxima pergunta seria o motivo para estar em Tortuga já há uma semana, quando eu sei que a famosa Lady da Ligúria jamais se mantém ancorada por tempo demais em locais que despreza, se poderia estar no mar. Se poderia estar em casa. Vamos, então, assunto de família ou o raio que o parta, cedo ou tarde, passar por esse caminho. – sentenciou Barbossa, solenemente, levando-a a olhar para ele com, finalmente, raiva. Ali estava o rosto que havia deixado para trás oito anos antes. O semblante que traíra.

— Eu costumava tê-lo na mais alta conta. – murmurou Mia, trêmula. – No fundo, ainda mantenho-o nesse espaço privilegiado pela minha paciência. – acrescentou, machucada. Ela praticamente implorava para que ele mudasse de assunto e, apesar de quase constrangê-lo ter de usá-la daquela maneira, ali jazia sua brecha para conseguir convencê-la a ajudá-lo. Vergonhoso, de fato. Contudo, naquele momento, Hector precisava de Antonieta machucada... graças a Deus, por algo muito maior do que ele. – A menos que tenha estado embaixo da terra durante estes últimos meses, pode imaginar o que estou fazendo aqui... – ela tornou a falar, dura. – Você não é estúpido, Hector, por favor, não me teste agora.

— Achei que não viveria para ver Antonieta Barbieri acuada. – não era simplesmente provocação. Existia um quê de carinho em sua voz, como se aquelas palavras já houvessem sido proferidas antes... pensadas antes. Ela se ergueu, languidamente, sem esperar por comentário ou troça, saindo da banheira para se vestir. Realmente ainda era uma visão e ele não conseguia, não após dez anos de privações, evitar olhar para ela. Antonieta sentia. Seu controle dentro daquele vestíbulo aumentando a cada peça de roupa que vestia. Ao terminar, tomou a taça de vinho das mãos dele e sorveu um grande gole.

— Nem eu. – concordou ela. – Por que viver, então?

Notas finais
As postagens realmente acontecerão aos sábados, apenas. Contudo, resolvi adiantar este capítulo em homenagem a uma amiga que até agora sempre esteve disposta a me ouvir divagar a respeito desta fic e que, justamente hoje, precisava de uma luzinha de alegria contra imprevistos irresistíveis que, por vezes, a vida oferece. Bea, eu te amo ♥ e espero do fundo do meu coração que você consiga visitar o haras semana que vem, minha linda filha de Poseidon! Bem, adiantando capítulo, vamos adiantar reflexões? Vamos. Meus caros, é isso. O reencontro de dois titãs kkkkkk separados por suas próprias escolhas... e que, impreterivelmente, por questões ainda a serem melhor exploradas/divulgadas, possuem trust issues. Embora possa parecer bem óbvio, existe mais a ser reconstruído do que o visível aos olhos. Mais uma vez, espero que meu Hector esteja in character, porque a Antonieta certamente está - afrontosa. Sua fala em italiano: Que é? Não quero ser perturbada. Nos próximos capítulos, não se preocupem, as traduções virão de forma mais elaborada. Agradeço mais uma vez os comentários da Cecília, da Amanda e da Bea, claro, ao último capítulo!! Vocês são maravilhosas! Beijinhos ♥, Ana.