Notas iniciais
Boa Leitura!

Muitos homens ainda pareciam surpresos ao constatar o giro do mundo e as mudanças que ele trazia. Observações feitas à mesa de um bar, ou que deveriam ser feitas, com uma análise perfunctória daquilo que os indivíduos possuíam de mais individual. Seus rostos, suas peles e as várias marcas que o destino decidia conceder a eles; corpos e olhos. Assim como seu navio, Antonieta mantinha-se de pé, ignorando as cicatrizes que marcavam o passar dos anos sobre suas costas. Ereta. Resoluta. Uma força a ser temida e respeitada, por vezes, até mesmo digna de admiração. Certamente conquistara a dele, no passado – a visão da menina gradamente sendo dissipada para dar lugar àquela mulher que, sabia, mal conhecia. O mundo havia dado as suas voltas e era deveras injusto que se reencontrassem como perfeitos estranhos, quando um dia tiveram tanto em comum.

Sua perda, ainda muito tenra, não conseguira abatê-la completamente, Barbossa percebeu. Em seus olhos, expressivos em demasiado, formas turvas de demônios que ele mesmo conheceu e enfrentara. Ela bebia buscando uma maneira confortável de começar, mas não encontrava. Dirigia-lhe os mesmos olhares de antes, implorando, sobrecarregada por tudo, mas ele aguardava por ela. Paciente. Antonieta riu. Hector Barbossa havia aprendido a ser paciente, ao passo que os anos, no mínimo, concederam-lhe disciplina.

— Uma pessoa só consegue ser empática até certo ponto. – comentou, já com álcool o suficiente para soltar sua língua, no sangue. – Achei que nunca seria capaz de entendê-los completamente... os milhares de órfãos que já chegaram às minhas praias... Alguns demônios de Diana finalmente parecem fazer sentido pra mim... – acrescentou afastando a taça de sua mão com violência.

— Tão ruim assim? – Barbossa questionou, servindo-se na taça rejeitada por ela. Ela bufou em zombaria, dando de ombros.

— Tão doente assim... sucumbindo em meu próprio vômito... uma visão que faria meu pior inimigo uivar de prazer. – disse simplesmente. – Há um mês, recebemos a visita ilustre de um sujeitinho chamado Cutler Beckett, concedendo indultos à minha família na expectativa de que Porto Venere agisse como um de seus portos na comuna; e gentilmente me deixando um considerável prazo para tomar a decisão. – havia desdém imbuído em cada palavra que saía de sua boca, o que tornou o arquear de sobrancelhas divertido de seu ouvinte totalmente inevitável.

— Claramente não conhecendo você. – ele resolveu comentar, em reverência.

— Claramente! – concordou Antonieta, com vigor. – Então, três semanas atrás, há algumas horas da alvorada, dois de seus navios atacaram Porto Venere. – parou subitamente, fechando uma das mãos em punho. Respirando fundo. Anormal, pensou Barbossa, uma vez que ela deveria ter discutido com sua tripulação aqueles mesmos fatos antes. Não. Ela lhe diria, se ousasse. Aquela era sua primeira vez admitindo sua derrota em voz alta; não existia necessidade de lamentar-se aos ouvidos que assistiram todo o transcorrer da balbúrdia. – Minha tripulação estava no porto. Eu fiquei para trás, no navio... com a melhor vista... Dio Mio, tenho certeza de que atirei... de que matei... – aquilo já era demais para admitir, ainda que fosse para seus irmãos. Desnecessário para ele, esperto o suficiente para absorver o teor de sua tragédia. Se ainda não estivesse tentando se reacostumar com sua humanidade, teria estendido uma mão em consolo. De qualquer forma, Antonieta não a teria apertado. – Não olhei para trás quando nos tirei dali. Mas sei que metade do porto explodiu. Com os dois navios e mais um dos nossos... nossos homens.

— Sinto muito. – e de fato sentia. Apunhalavam-se pelas costas a todo momento, porém, pirata ou não, nenhum homem achava-se acima de apiedar-se das perdas de seus companheiros. Ainda que piedade não fosse um sentimento ao qual estivesse familiarizado e um que nunca despenderia em alta voz para Antonieta Barbieri, sabendo de seu orgulho. A responsabilidade e a culpa que ela sentia pelo ocorrido era algo que qualquer capitão compartilhava com o outro.

— Foi isso o que aconteceu, — continuou após um minuto de silêncio, – e agora Sofia não está falando comigo e o resto da tripulação tem estado bastante silenciosa a respeito... – seu tom de repente se tornou sombrio. – E se aprendi qualquer coisa com a maternidade de minha irmã, foi que uma mãe deve temer mais ao silêncio do que os gritos de seu bebê. Meu bebê está calado... sinto um motim se aproximando a qualquer momento. Aliás, você poderia me preparar, sendo tão experiente no assunto. – à época em que se conheceram, Barbossa ainda largava murmúrios com a tripulação do Pérola a respeito do motim contra Sparrow. Havia se esquecido de que num desses momentos, Antonieta presenciara-o.

— Você não é a mesma capitã que Jack Sparrow foi. – ponderou com veemência, fazendo-a sorrir abertamente, com escárnio.

— Bem, isso é um alívio. – brincou revirando os olhos, que recaíram sobre o pescoço de seu companheiro. O rubi do medalhão a encarava, relembrando-a de algo que uma vez teve e perdeu. – Já está claro que esta não é uma visita social e que veio até mim para falar de negócios... O que o faz achar que eu o faria com um homem que me roubou duas vezes? – seu tom era frio, amargo pelo vinho e Hector reparou onde seus olhos cravavam-se, no entanto, ele não perderia a compostura, erguendo um sorriso malicioso para ela.

— Ainda há pouco estava se oferecendo a ele. – lembrou-a. Mia gargalhou.

— Com sexo eu sei o que está em jogo. O preço é muito menor. – rebateu com indiferença. – Negócios, por outro lado, envolvem meu navio, minha tripulação e meu dinheiro. Colocando estas três variáveis juntas contra você a conclusão lógica é: Hector Barbossa não é um risco que eu queira correr. – assinalou com veneno. Foi a vez dele de rir com escárnio.

— Faria diferença se eu tivesse te fudido antes de propor um acordo? – indagou também com veneno. Antonieta sorriu de lado, insolente.

— Colocando um preço no seu pau? Pela minha experiência, não vale sequer o preço de um níquel velho. – zombou dando de ombros, pondo-se a cruzar os braços. Ele, porém, permanecia taciturno, conhecendo-a o suficiente para não se deixar levar por suas provocações.

— Não é como eu me lembro. – retrucou simplesmente.

— Teve sua chance! – dispensou, afiada. – Quer falar de negócios, muito bem. O que você quer de mim, Capitão Barbossa? – qualquer outro teria achado que cruzara uma linha intransponível. Ele sabia mais para entender que, o repentino uso de seu título, ao invés do nome de batismo, apenas demarcava outra linha. Uma linha onde Antonieta dava as arcas conforme a situação lhe aprouver.

— Preciso fazer uma visita a um velho amigo nosso. Sao Feng. – respondeu omissivo.

— O que houve com seu navio? – indagou arqueando as sobrancelhas em descrédito.

— Afundado. Com Jack. – continuou de forma lacunosa. Antonieta assentiu, compreendendo um pouco e em seguida riu baixinho.

— Você deve achar que sou suicida ou muito stupida! – desdenhou, erguendo-se de sua cadeira. – Mal conseguimos escapar quando eram apenas dois navios de Beckett. Agora eles têm o Holandês e, a cada dia, mais navios aportam em Tortuga. Acha mesmo que vou voltar pra água? E arriscar perder mais homens? – bradava incrédula, apoiando as mãos em seu encosto.

— Pretende ficar acampada aqui para sempre? Eles realmente farão um motim contra você, se se acovardar! – rebateu Hector, erguendo-se também. Ela abriu a boca para rebater, mas fechou-a instantaneamente. – A canção foi cantada, Antonieta. – murmurou ele, por fim. A capitã, então, petrificou-se por um segundo, caminhando até a janela em frustração. – Você quer uma revanche e reaver Porto Venere? Eu posso...

— Se você acha que eles vão lutar, certamente estamos vivendo mundos extremamente diferentes. – murmurou com asco a capitã.

— Eles talvez nem precisem...

— Estaríamos finalmente vivendo em um mundo onde chás da tarde resolvem impasses políticos?! Dio Mio! Eu devo ter cochilado no ponto outra vez!

— Eu tenho um plano! – exclamou irritado pela interrupção infantil da outra.

— A última vez que você me disse isso, esse maldito medalhão saiu do meu pescoço e foi parar no seu! – em resumo, pensou Barbossa, ela não confiava nele. A voz dela havia atingido o limite antes que começasse a ser ouvida em outros quartos e seu corpo tremia. Sempre fora explosiva; e esta era uma lembrança que ele mantinha bem viva.

— Seu pescoço sempre ficou melhor sem nenhum adorno, de qualquer forma. – comentou ao aproximar-se dela, vendo-a erguê-lo em despeito, um traço que, sem saber, dividia com Sofia. O ritmo de sua respiração abrandou-se aos poucos novamente, mas Hector sabia que ela ainda era uma ameaça.

— De fato, fico lisonjeada que ainda o use... um souvenir por algumas lembranças felizes... – murmurou ela, levando uma mão despudorada até a pedra. – Também as possuo. Destas mãos, destes braços... Então, você precisa chegar a Singapura para pegar o que precisa – se não me falha a memória sobre as lendas – a fim de recuperar Jack e o Pérola. Daí, todos nós vamos arriscar os pescoços numa grande batalha e só aí eu terei uma chance de recuperar minha cidade. – ela falava sinuosa, com a mão se arrastando para dentro da camisa dele.

— Rápida, como sempre.

— Não faz ideia do quanto. – riu-se dando uma batidinha amistosa no centro do medalhão. – Diga-me, como conseguiu essa bala atravessada no coração e, ainda assim, cá estamos, conversando? – perguntou subitamente, num misto de inocência e irritação. Barbossa estancou sobre os próprios pés, afastando-se um passo dela sem perceber. – Incrível como cicatrizes contam histórias... e você sempre tem um conto novo pra mim quando nos vemos.

— Milagres podem acontecer quando um bom cirurgião resolve juntar-se a uma tripulação. – dispensou Barbossa tentando recobrar a compostura.

— Um bom cirurgião. – repetiu Antonieta com desdém. – Hector, se você quer a minha ajuda, vai ter que me contar a verdade; toda ela. E antes que pergunte porquê: porque nenhum outro navio vai zarpar de Tortuga. Porque ao menos que tenha algum ouro no bolso, o que duvido ou eu não seria a sua primeira opção, nenhum daqueles homens lá embaixo vai mexer a bunda por essa maluquice! E porque, se acha que vou me arriscar por sua causa sem ter qualquer motivo para voltar a confiar em você, Hector Barbossa, te recomendo nadar até Singapura.

Ninguém sabia de sua real barganha com a bruxa, nem mesmo a antiga tripulação do Pérola. Estavam todos convencidos de que o mar ia se fechando e uma batalha se aproximava, no entanto, os meios que detinham para ganhar aquela guerra – meios que só ele conhecia – permaneciam ocultos. Deveriam permanecer ocultos até o momento oportuno. Confiar não fazia parte do homem que se tornara, nem mesmo nela, independente do que a bruxa houvesse dito. Todavia, havia falado demais e a Capitã Barbieri – como se tornara – preferiria matá-lo a permitir que saísse sem respondê-la.

— Meus infortúnios não lhe dizem respeito, mas se faz tanta questão. – praguejou, sentando-se mais uma vez. Ela seguindo-o com os olhos. – O quanto se lembra daquela noite? – inquiriu com impaciência. No fundo, parecia justo. Ele a fizera enfrentar seus demônios e agora ela forçava-o ao mesmo. Quiçá, era isso o que realmente pretendia... provavelmente, ainda haveria muitas pequenas vendetas entre eles.

— Tudo. – ela respondeu brandamente, pegando-o de surpresa. – Minha memória não consegue ser tão seletiva quanto a sua. – aquilo de alguma forma o atingiu, mas não resolveriam tudo em uma única noite.

— Nesse caso, o plano funcionou. Nove anos depois estávamos a caminho da Isla de Muerta com todo o ouro recuperado, prontos para voltarmos às nossas vidas. – contou a partir do ponto onde haviam parado. – Sparrow reapareceu...

— Em resumo, você teve a morte que um amotinado merece. – interpôs ela, duramente. Hector assentiu, à contragosto, fazendo um sorriso inconsciente subir aos lábios dela. – Pobre Capitão Barbossa... e o milagre operado...?

— Há uma mulher lá embaixo que atende e deverá continuar atendendo, ouça bem, Antonieta, pelo nome de Tia Dalma. No entanto, ela é apenas o corpo onde a primeira corte aprisionou Calypso. – a capitã descruzou os braços, lívida. Quando Barbossa ergueu o olhar, ela já estava sentada diante dele, exasperada. – Sim. Ela me trouxe de volta, contanto que eu concordasse em liberá-la de sua prisão... obviamente, eu concordei...

— Talvez eles nem precisem lutar, você disse... – murmurou Antonieta, fitando-o significativamente. Aqueles olhos já haviam se demorado nela com a mesma convicção enquanto a boca proferia mentiras, antes. – Está omitindo a verdade de seus homens e espera que eu faça o mesmo com os meus. Contudo, nós dois sabemos que não posso me dar a esse luxo. Não agora. – ponderou ela, séria.

— Estou confiando em você. – e ele deixara de confiar há muitos anos, como ela bem se lembrava de descobrir através de seu próprio relato, uma vez. Barbieri fechou os olhos, indecisa... odiava bifurcações em suas escolhas. – Mia, um capitão...

— Nós exercemos capitania de formas diferentes. Isso eu realmente não vou discutir com você. – cortou rapidamente, abrindo-os com furor. – Nós vamos descer. Você vai dizer a eles o mesmo que disse aos seus homens, uma vez que está fora dos meus princípios me interpor entre os desejos de um homem para a sua tripulação. E eles vão votar. – Barbossa entrou em meios de protestar, mas deteve-se com o tom resoluto dela. – Pelas regras, minha palavra ainda vale mais, mas não vou retirar o direito deles. Correrei o seu risco, Hector, mas não vou me arriscar por ele.

Barbossa assentiu, derrotado. Já conseguia sentir o sopro da morte correndo por seus ombros até os ouvidos. A que outra conclusão poderia chegar, quando a mesa se invertia e, de repente, seu destino caía às mãos de pessoas que não o conheciam, mas conheciam alguém que o detestava? Como contar com a boa vontade de Sofia Barbieri?

Notas finais
Olá, meus amados! Estes últimos dois capítulos funcionam como complementos entre si ou teríamos apenas um capítulo 3 que se equipararia ao antigo testamento. Talvez, tenha sido um erro não postá-los juntos, por serem uma extensão um do outro e tudo o mais, mas não acredito que isso vá interferir na leitura ou na compreensão de todos. Aliás, na minha visão, não obstante estarem ocorrendo ao mesmo tempo, são momentos diferentes na conversa. Claro, Mia ainda troça e desdenha dele, contudo, isto é fruto dela se achar no direito de fazê-lo depois de tudo o que aconteceu e também parte de sua personalidade que não vai se perder ao longo da história, apenas passará a conter menos ácido à medida que toma conhecimento de alguns detalhes. E mesmo que a visão dela seja esta, ainda aqui, neste segundo momento já é possível notar relances do que uma amizade ou relação entre Antonieta e Barbossa tenha sido no passado... Então, sim, pode parecer uma extensão desnecessária - eu poderia ter cortado e feito tudo isso em um único capítulo - mas, não. Do fundo do meu coração cor de rosa com glitter, acredito que é o pacing certo. Digam-me nos comentários o que vocês acham. Acredito que, até agora, é o único capítulo que precisou ser desmembrado de algum anterior. Até agora. Espero que estejam gostando! Gostaria de mandar um agradecimento especial para a Harley Quinn Barnes que estava lendo minha fanfic às quatro da manhã e ainda encontrou discernimento para me mandar um review tão enérgico! Até a próxima semana, beijos. Ana.