Notas iniciais
Boa leitura!

“Contra o frio e a tristeza”.

A bruxa caminhava pela cabana repetindo aquelas palavras aos náufragos que haviam feito a subida de seu rio. Em busca de conforto ou alguma alternativa provinda de seus dotes? Não se sabia. Mais do que frio ou tristeza, o que realmente assombrava a tripulação do Pérola Negra era a realidade de sua condição. A palpável falta de esperança. O fim. Jack Sparrow de forma alguma fora o melhor pirata... exacerbava-se em astúcia, certamente, embora incapaz de superar a sua morte... mas diminuta sua capacidade de espadachim e, muitos afirmariam, sua honra. Era impossível saber quando um acordo se refletia proveitoso para ambas as partes ou apenas a ele mesmo. Isso lhe trouxera mais inimigos do que aliados; os únicos que poderiam realmente se angustiar por sua morte concentrados naquela pequena cabana.

Joshamee Gibbs tinha razão. O mundo parecia menos feliz, menos brilhante, com os mares irrecorrivelmente dominados pela coroa e por uma figura assassina mística, ambos incapazes de serem derrotados até mesmo por um homem como Jack Sparrow. Junto a ele, o lendário Pérola. A mais veloz das embarcações de velas negras. Sim. Frio e tristeza eram os sentimentos adequados àquele pequeno grupo. Contudo, também traição, ainda que só observada por aquele que se julgava ser sua única vítima. William Turner detinha mais de um motivo para o luto que sentia. Num único dia perdendo tanto a chance de salvar a vida de seu pai, quanto a lealdade de sua prometida. O que teria acontecido durante o ínterim em que Elizabeth estivera a bordo do navio de Jack a fim de justificar aquela maldita cena... o maldito beijo... Will não conseguia entender.

Especialmente quando se reencontraram na ilha das Cruzes e ela lhe parecera perfeitamente natural e verdadeira em suas afeições. Algo, no entanto, mudara. A senhorita Swann fora a única a não beber de sua caneca, seu corpo retraído como o de alguém que sofre a dor terrível da separação prematura. Se fosse verdade, o jovem Turner esperava que ela explicasse... por que havia escolhido Jack, afinal. Tais circunstâncias, contudo, não soavam as mais favoráveis para questioná-la acerca de seus sentimentos e, aliás, teria ele tal direito? Não era apenas amor, mas respeito o que sentia por ela? E apesar de terrivelmente machucado, ainda não era amor o que sentia por ela? Nesse caso, não deveria querê-la feliz?

— Se houvesse algum jeito de trazê-lo de volta... Elizabeth...

— Você faria? – a voz de Tia Dalma ressoou urgente aos ouvidos de todos, antes presos em seus próprios pensamentos, mas agora completamente alertas. Os olhos da bruxa brilhavam para Elizabeth, que os encarava num misto de medo e antecipação. – O que você faria? O que qualquer um de vocês estaria disposto a fazer? Viajariam até os confins da terra e mais... para resgatar o espirituoso Jack e seu precioso Pérola? – aquelas palavras soavam como uma provocação inocente, ao mesmo tempo em que nos olhos de Tia Dalma uma alma mais experiente poderia reconhecer um animal prestes a enrolar sua presa entre as patas...

Mas era por Jack.

O homem que os enganara tantas vezes e os manipulara com destreza para seus próprios fins, mas que também superou sua própria falta de escrúpulos para retornar ao navio e despender seus últimos esforços para ajudá-los na luta contra o monstro de Davy Jones. Irônico, diriam um dia. Irônico que, não obstante as reiteradas falhas de um homem, a mais vívida lembrança que detinham quando de sua morte, dizia respeito aos seus mais altruísticos feitos. Jack Sparrow poderia se orgulhar, pois por mais sordidamente que houvesse vivido sua vida, seus amigos ainda o guardariam em suas lembranças como um heroi. Pirata. Prova viva: a falta de hesitação no assentir de todos os seus comparsas, até que chegassem em Elizabeth. Não foi bem hesitação... o lacrimejar de olhos de uma mulher apaixonada que se vê incapaz de acreditar na chance de reaver seu amado. O lacrimejar, de fato, dos olhos da mulher que teria de enfrentar seu algoz e que se arrependia de seu feito... os olhos, na verdade, de uma mulher a quem é apresentada a chance de abonar seu fardo. Sua dívida.

— Sim. – disse com a voz em quebranto, elevando um pouco mais a traição de que se sentia vítima o mestre Turner.

— Sim. – respondeu ele, mais agressivo do que os outros. O sorriso abriu-se nos lábios da bruxa.

— Muito bem. Mas, se vão desbravar as amaldiçoadas costas do fim do mundo, então... vão precisar de um capitão que já navegou por essas águas.

Todo aquele suspense parecia demasiadamente ensaiado, sem, contudo, diminuir a curiosidade do grupo do Pérola Negra. Alguém fazia seu caminho pela escadaria, ao passo que eles se reagrupavam para averiguar sua identidade. Os olhos de Elizabeth Swann foram os mais abertos, incapazes de manterem-se taciturnos frente àquela figura assombrada de seu passado... que praticamente a trouxera para o meio daquele mundo... ela o viu morrer... ela o viu levar o tiro. Will confirmaria sua palavra e os outros remanescentes da tripulação souberam em seguida, ele estava morto. Pois então, o que fazia o Capitão Barbossa parado ali?

— Então digam-me, o que foi feito do meu navio? – em seu ombro esquerdo ele mantinha o pequeno Jack e na outra mão uma polpuda maçã verde, na qual cravou seus dentes numa ânsia entendida pela senhorita Swann, que ainda mantinha viva em sua memória os detalhes da maldição do ouro de Cortez. Ele ainda carregaria as marcas de sua primeira tentativa de machucá-lo? Ainda se lembraria dela? Pois Elizabeth recordava-se de cada palavra, incluindo o tapa que lhe fora desferido, quando ele descobriu sua mentira.

— Você está morto. – o murmúrio dela despertou a todos, que pareciam dividir de suas reflexões. Will prontamente colocou-se diante da jovem, sua memória também demasiado viva acerca da personalidade do finado capitão e suas ações passadas.

Barbossa os observou com escárnio. Não poderia ter passado mais do que alguns meses desde a pequena aventura que os trouxera a seu encontro. Nenhum tipo de opinião mantinha a respeito do senhor Turner. Ele apenas lhe servira uma vez. A senhorita Turner – mesmo sabendo que este jamais foi seu nome, não seria capaz de pensar nela de outra maneira – por outro lado... mantinha mais do que uma opinião a seu respeito.

— Nosso último encontro não te ensinou a acreditar em histórias de fantasmas, senhorita Turner? – sua voz mantinha o tom rouco de outrora, bem como a facilidade com que caçoava de sua inocência e ceticismo. Os olhos da senhorita Swann se estreitaram em desafio. Ele ainda sabia provocá-la, afinal; e ela mudara consideravelmente. Seus pés mais firmes sobre o chão do que na primeira noite em que aparecera em seu navio. – Embora eu seja menos um fantasma agora...

— O que você fez? – interpôs William, voltando-se para a bruxa. Independente de quantos homens e mulheres houvessem visitado sua cabana no passado, deixando-a carregados de histórias a respeito da mulher que habita o topo do rio, o fato de que nenhum deles realmente a desvendara era o que realmente a construía. Tia Dalma não concedia explicações sobre seus dons, tampouco oferecia-os sem um preço. À troco de que teria trazido Barbossa de volta? Ele e Jack se odiavam... ou talvez o jovem mestre Turner fizesse assunções errôneas com base nos poucos fatos que possuía sobre a história entre aqueles dois homens.

— O que precisava ser feito. – respondeu a bruxa solenemente, seus passos trazendo-a para mais perto do rapaz. – Um toque... do destino... – murmurou. As mesmas palavras que sussurrara a ele semanas antes, quando a tripulação estivera ali com Jack. O que diabos significavam? O destino de quem? O dele? No que estaria o seu destino entrelaçado ao de Barbossa?

— Besteira! – Gibbs assumiu controle da situação, saindo detrás de William e Elizabeth, suas mãos trêmulas, mas ainda encontrando alguma bravura para defender a memória de seu falecido capitão. – Barbossa sequer cuspiria na cova de Jack, se isso lhe trouxesse conforto, que dirá enfrentar águas amaldiçoadas por ele! – ouviram-se os murmúrios aquiescentes de Pintel, Ragetti e o próprio papagaio de Cotton, vez que seu dono não poderia proferir os seus sozinho.

— Ora, ora, Gibbs, é verdade o que dizem de homens pequenos capazes de guardar grandes cargas de rancor. – desdenhou o capitão, cruzando os braços.

— Ele não é o único! – Will tornou a concordar, aprumando-se ao lado do imediato de Sparrow; aliados contra o embuste que a bruxa despejava contra eles. – Espera que velejemos sob suas ordens? Por que qualquer um aqui deveria confiar em você? – a voz do rapaz se erguia ao proferir cada palavra, mas o egresso capitão mantinha-se indiferente ao desdém daqueles homens. Afinal, já o esperava. Uma mão, por fim, tocou o ombro de Will. Elizabeth.

— Se quisermos salvar Jack... não temos escolha. – seu tom não revelava se realmente entendia o significado de suas palavras ou se esperava que alguma alternativa viesse da bruxa. Contudo, o sorriso de Tia Dalma ampliou-se à medida que lhe assentia a cabeça. Deveras. Era isso ou desistir para sempre. Entregar a Beckett o controle dos mares sem uma luta própria antes.

— Os últimos meses lhe concederam sensatez, lassie. – observou Barbossa com um sorriso pretencioso.

Um brilho trêmulo passou pelos olhos da senhorita Swann, antes que saísse irrompida da pequena cabana. Houve menção de Turner em segui-la, mas aquietou-se. Qualquer que fosse o veneno nas palavras de Barbossa que a houvesse machucado, não era mais problema seu. A comoção sobre o inesperado retorno dos mortos de um antigo inimigo, afinal, apesar de tudo o que estivesse passando em sua vida amorosa, necessitava mais de sua atenção... Elizabeth deveria lidar com seus demônios sozinha.

— Qual seu plano, então? – indagou Gibbs, ainda inconformado. – Não temos navio e quase nenhuma tripulação. Nas circunstâncias atuais, não imagino que haja muitos homens, nem mesmo em Tortuga, que estejam dispostos a ir para a água.

— Tenha um pouco mais de fé, Gibbs. – bufou Barbossa. – Tudo isso é negociável. Nosso alvo principal, por outro lado... – ponderava analisando o semblante de Tia Dalma.

— Qual seria esse alvo, capitão? – inquiriu Ragetti, aproximando-se da pequena roda que se formara entre os quatro.

— Não se navega por águas amaldiçoadas sem os mapas certos, senhor Ragetti. Logo, estes mapas são o nosso alvo principal. – retrucou como uma questão de fato, ao mesmo tempo em que parecia desconversar outro assunto. O pirata com olho de vidro assentiu, um tanto atordoado.

— Você sabe quais mapas são. – Will disse, cruzando os braços. O pequeno Jack guinchou no ombro de Barbossa, sentindo a ameaça ao seu dono, que se resumiu a soltar uma de suas antigas risadas maliciosas.

— Aye, eu sei quais mapas são e onde encontrá-los. – assentiu ele com as mãos cruzadas na frente do corpo. – Vê, senhor Turner, não há mesmo muita escolha... Salvar o pescoço de Jack Sparrow não era exatamente como eu pretendia passar a minha segunda vida, mas dadas as circunstâncias...

Will assentiu, seus olhos voltando-se para Gibbs e em seguida para os outros homens. Todos assentiram.

†††

Os barcos que haviam se organizado para honrar a morte de Jack não estavam mais à porta da cabana de Tia Dalma. As velas que foram acesas por sua alma, contudo, permaneciam crepitando contra as margens do rio, refletidas na água, concedendo mais ao ar macabro daquele pântano. Elizabeth as observava hipnotizada, sentindo a culpa se revolver em seu estômago a cada vislumbre mental de sua escolha... do gosto de Jack Sparrow em sua boca... sua culpa ou a falta dela.

“Os últimos meses lhe concederam sensatez”

“Pirata...”

Jack parecia tão certo ao conceder-lhe o título. Há muitos anos, quando cruzara o mar com seu pai de Londres para Port Royal, teria dado qualquer coisa por isso. Por aquele título. Por aquela vida. Quanto mais se via levada por ela, mais daquela menina desaparecia de sua memória. Ela deixou um homem para trás, o manipulou em meios aos seus lábios até os da morte... e não sentia culpa, mas orgulho. Orgulho por ter sido mais esperta do que o tão famoso capitão do Pérola Negra. Era assim com todos eles, não era? Seria assim com ela se permanecesse muito tempo dentro daquele mundo, não era? Tornar-se-ia parte de uma raça inerentemente egoísta, cujo propósito único resumia-se a viver para levar a melhor sobre o outro.

Não se conseguirmos salvá-lo...” Porém, não estava disposta a buscar Jack simplesmente por ir... já não seria outra prova de sua natureza egoísta desejar trazê-lo de volta apenas para recuperar alguma parte que julgava ter perdido de si mesma? Os últimos meses realmente lhe concederam alguma coisa. Perguntas. Nenhuma resposta.

Os rapazes faziam seu caminho para o segundo andar da toca da bruxa quando Elizabeth retornou; apenas para ouvi-los mencionar sua partida ao amanhecer. Seria uma longa descida em seus botes. Provavelmente eles não teriam outra chance de uma noite de sono, uma vez que embarcassem em outra jornada. Engraçado, mesmo ausente, o espírito de Sparrow ainda permanecia forte o suficiente para engajá-los noutro plano imaturo. Deveriam dormir. Para a jovem, todavia, dever não seria o mesmo que conseguir. Os olhos se fechavam e sua cabeça pesava, mas sua mente não oferecia sinais de trégua. Consequentemente, acabou por ouvir vozes no andar debaixo.

Barbossa e Tia Dalma pareciam estar discutindo alguma coisa. Com cuidado, a Swann aproximou-se do umbral da porta, de onde poderia ouvir melhor sem que percebessem.

— O que precisa é de um amigo. – ouvia-se a voz da bruxa, murmurando. O outro emitiu um ruído de zombaria. – Sim... alguém em que já tenha confiado e em quem poderia confiar de novo... – continuou ela sem se abalar.

— Pouco provável. – desdenhou o capitão Barbossa. – Não existe homem em quem eu tenha confiado que me convenceria a ser burro o bastante para cometer o mesmo erro; isso é perda de tempo!

— Não falo de um homem. – rebateu a bruxa. Elizabeth conseguia ouvir o sorriso em sua voz, muito mais provocante agora. Não houve resposta do outro e a jovem Swann parou para refletir por um momento. Se não era um homem, então...? Improvável que após anos amaldiçoado, ele confiasse em qualquer coisa ou ser ligada ao macabro. Neste caso, a única opção lógica seria...

— Onde ela está? – Elizabeth jamais teria acreditado na possibilidade do tom taciturno e ao mesmo tempo quebrado e ansioso vindo da voz daquele pirata.

— Perto. – anunciou a bruxa após o ruído de pedras batendo contra a madeira. – Um toque do destino.

Notas finais
Olá de novo, meus amoores!! Gostaria de agradecer aos comentários lindoos da Ju e da Ceci, minhas princesas, AMO VOCÊS!! Comentar que estou de olho no contador de visualizações e que, leitores fantasmas: EU VEJO VOCÊS! Não sejam tímidos, venham me dar um olá, eu faço festinhas com biscoitos de chocolate e chá, sou um amor, convido todos. No episódio de hoje tenho que destacar a participação de dois personagens cujos pontos de vista eu tenho muito medo de escrever. Sim, inclusive Elizabeth, porque nunca sei quando vai ficar ooc (não deve ficar, se vocês acharem que ficou ME GRITA) ou quando vou acertar na mão e obter sucesso. Especialmente o Barbossa nessa fic... estou completamente aterrorizada de cometer qualquer erro e desmerecer o brilhante trabalho dos criadores e do ator (eu beijo o chão que o Geoffrey Rush pisa, AMÉM!), então, eu venho analisando muitos tumblrs conceituados de pessoas que escrevem com este personagem há anos e me inspirando em alguns detalhes para compor o Hector da minha cabeça em junção ao que me é oferecido no canon. Logo, eu IMPLORO a colaboração de vocês em me dizer: TÁ PÉSSIMO! Mas pode melhorar assim assim assim. Está legal, mas pode melhorar assim assim assim ou ESTÁ ÓTIMO! QUE TRABALHO INCRÍVEL! Porque vocês não fazem ideia na quantidade de ovos nos quais estou pisando, enfim! Espero que tenham gostado deste first POV, a caixinha de reviews não morde, me ajudem! Beijos ♥ e bom fim de semana!