Notas iniciais
Boa Leitura!

Seguros de que nenhum galeão viria em seu encalço, a tripulação do Stella De La Sera permitiu-se o desfrute do frescor da brisa enquanto refaziam os cálculos de seus mantimentos e analisavam a gravidade dos estragos consequentes daquela pequena desventura; dando-se conta do que mais uma vez afastava-se de seu alcance. Casa. Arrancados do torpor provocado pela adrenalina ante uma ameaça, homens e mulheres recobravam o ritmo regular de seus corações; o frescor da brisa passando a ser apenas frio. Duro e inabalável. Atacando seus espíritos. A capitã sentia a pungência às suas costas abrindo sua ferida em mais de uma maneira. Diana foi levada imediatamente aos cuidados dos irmãos Bianchi, bem como seus outros feridos. Antonieta, porém, permaneceu no deque; seus olhos presos na direção de onde antes estivera o porto de Cádiz em chamas.

As palavras que o silêncio de seus homens proferia, contudo, afetaram-na; e os mesmos olhos correram através dos rostos, das mãos trabalhando mecanicamente, atenta aos gemidos amaldiçoados que a alcançavam do andar de baixo. Sem nenhum incentivo certo, as portas de sua cabine se abriram a fim de revelar-lhe o velho instrumento que jamais pareceu tão convidativo. A velha melodia embalou o navio. Uma pequena ode ao retorno à sua terra. Surpresa verdadeira foi, contudo, a voz de Antonieta acompanhando o movimento de suas mãos, descendo pelas escadas até Elizabeth que, junto a Diana e Sofia, virara por milímetros seu rosto a fim de escutá-la melhor. A única palavra para descrevê-lo, o som, na opinião da senhorita Swann, seria humano... imbuído de toda lástima que dividiam os italianos.

— Ela raramente canta... – murmurou Sofia, exausta. Ao seu lado, Diana cuspiu o retalho que estivera mordendo contra a dor.

— Merda, Cínzia! Já terminou? – indagou à cirurgia que, em resposta, depositou a bala removida em um prato, alcançando a agulha para começar o processo de sutura. – Melodias infelizes, Soff. Geralmente ela as deixa pra mim. – acrescentou com pouco caso à Acidália. – E, ei, Carlo! Suba e vá dar uma olhada nas costas dela, sim? Mais uma pra coleção. – disse ao irmão de Cínzia, quem acabara de arrancar pequenos pedaços de estilhaço do rosto de um dos rapazes – fazendo menção a nova cicatriz de Mia.

— Não é necessário. – interpôs uma voz subindo até eles. Tia Dalma trazia uma pequena cuia em suas mãos, de conteúdo inidentificável, apanhando alguns dos retalhos de Cínzia, que não ousou lhe fazer objeção, antes de tomar a escada para o convés. – Eu assistirei a Capitã. – explicou-se no meio do caminho, sentindo as trocas de olhares atrás de si. Havia sido confinada, por desejo não declarado de Antonieta, aos seus porões – abaixo dos alojamentos principais – onde mantivera espaço e privacidade suficientes para suas práticas. Estivera entre eles pelos mesmos três meses que o remanescente da tripulação do Pérola Negra e, ainda assim, permaneceria a figura imponente e temida imisturável.

O som do piano findara ao momento em que alcançou as portas ainda abertas, adentrando os aposentos da Barbieri sem qualquer cerimônia, sentindo o choque de seu desconforto à sua presença. Inadvertida, Tia Dalma depositou seu unguento e os retalhos sobre a mesa, esperando que Antonieta viesse ter com ela.

— Cínzia ou Carlo deveriam fazer isso. – disse sem se levantar. Observava-a remexer em seus pertences a fim de abrir espaço aos objetos, rasgando os retalhos em tiras entre as mãos, com palpável desconfiança e certo fascínio. Tratava-se, afinal, de uma deusa.

— Eu quis fazer. – retrucou a outra. – Você tem me evitado, Antonieta Barbieri. – o modo como pronunciou seu nome pareceu manipular as ondas sob a nau, a fim de que se dobrassem no ritmo das sílabas e Mia foi capaz de ouvir um raio ao fundo de suas memórias, apesar de não haver qualquer sinal de chuva do lado de fora; então, seguiram-se o som de gritos e o grunhido inconfundível de seu pai quando alguma dor o acometia; o grunhido que proferiu no instante em que a espada perfurou-o durante a tempestade que custara sua vida.

— Sempre me mantive aparte do místico. – explicou com a voz trêmula, forçando-se a ficar de pé para fechar suas portas, se vendo sozinha com aquela mulher que sequer merecia o título. Madrugada adentro, apenas algumas velas iluminavam o ambiente requintado que construíra; todo o luxo e pompa a tornar a presença de sua visitante numa verdadeira aparição infernal, como um sonho ruim. Elas se encaravam com taciturna, aparente, indiferença. – De forma a oferecer nenhuma ofensa maior do que meu ceticismo. – prosseguiu gravemente, apenas a um passo de distância. A bruxa assentiu, ostentando sorriso que revelava a Mia o empretejar de seus dentes, acenando para que se sentasse.

— Mas ele lhe contou a verdade e, portanto, não resta ceticismo a você. – retorquiu ela, esperta, molhando os dedos em seu unguento antes de levá-los às costas da capitã. O aroma forte das ervas inundou o quarto, contorcendo as feições de Antonieta, que respirou ruidosamente com a ardência provocada pelo encontro da pele com o remédio nos dedos calejados da bruxa. Quanto mais ministrava a composição, mais a Barbieri sentia o odor das ervas passando a revirar seu estômago. – Não grita? – Tia inquiriu à vista dos nódulos excessivamente brancos dos dedos de sua paciente, forçados contra o espaldar da cadeira.

— Meus pais nunca gritaram. – pegou-se praguejando, ao passo que suas mãos afundavam-se mais e mais ao console, esticando e contraindo seu corpo. – Como prefere ser chamada? – indagou entre dentes; falar ajudava a distrair-se do desconforto.

— Não é importante agora. – respondeu Tia brandamente, pressionando um dos retalhos contra o ferimento umedecido. – Eles não devem saber ainda. Você não deveria saber, tampouco. – observou com um murmúrio grave.

— Gosto de ter todas as cartas na mesa quando negocio. Do contrário não teria ajudado. – ponderou, sentindo que o pior já passara.

— Sim, teria. – foi a constatação da bruxa.

Suas mãos não mais a ministrar o unguento contra o ferimento, Antonieta virou-se abruptamente para encarar seu rosto. Uma única vela alcançava-o, de forma a iluminar apenas um lado de suas feições, que tremeluzia junto ao ritmo da pequena chama. Tia Dalma sorria, fazendo uso deliberado do conhecimento que obtinha através de suas mandigas – ou das fofocas da cozinha – a fim de zombar dela.

— Pretende cumprir sua palavra com ele? – murmurou em resposta; o que se ouvia em sua voz quase poderia ser chamado de inocência. O sorriso de Calipso se alargou.

— O que importa a você? – rebateu com malícia. Antonieta sustentou seu olhar bravamente, embora não soubesse ao certo como responder àquela provocação em particular. – Troque as ataduras três vezes ao dia, por dois dias; não haverá cicatriz. – e com isso, saiu.

A Barbieri se limitou a carregar os medicamentos até a cômoda ao lado de sua cama, fixando seus olhos nesta, por um instante. Reconhecia serem necessários alguns agradecimentos, bem como a sua presença junto à sua família enquanto se reorganizavam. No entanto, ali permaneceu, de olhos fechados, esperando pelo amanhecer.

O desconforto de Diana, sem qualquer piedade, tornara-se o desconforto de Sofia naquela madrugada. A segunda imediata remexera-se em sua rede durante toda a noite, ao que a primeira imediata careceu de permanecer num estado mínimo de alerta para preveni-la de dormir sobre o braço ou fazer algum movimento que debilitasse a sutura de Cínzia; embora soubesse que tal possibilidade fosse pouco provável, dada a experiência da cirurgiã. Antonieta, por sua vez, entregara-se à Orfeu sem quaisquer dificuldades – o ferimento em suas costas não oferecendo impedimento à sua maneira habitual de deitar-se. Esta contradição, destarte, se fez visível durante o desjejum. A Barbieri descera de seus aposentos com a pele revitalizada pelo descanso, recebendo os olhares de indignada fúria por parte de suas irmãs.

— Dormiu bem, fofa? – desdenhou a mulher Murphy com a voz rouca de veneno. Mia sorriu de lado, servindo-se de um caneco. – Porra. Me esqueci de como essas coisas são incômodas, — comentou ao tentar alcançar um dos pães com o braço errado -, eu devia ter deixado ela pra você.

Fico feliz que não tenha, boneca. – retorquiu propondo um falso brinde à Diana. Apesar de ambas saberem, de fato, o quanto eram gratas uma a outra. Por fim, a capitã subiu sobre seu banco, batendo com a faca contra seu caneco. – Então. Quem poderá dizer que uma coleta de suprimentos não pode ser excitante, hein? – brincou, recebendo vários meneios exaustos de cabeça como resposta junto a risos cálidos. – Lamento que tenha sido culpa minha...

— Se deixando manipular por uma hiena como Lucena... diabos, eu devia ter te deixado tomar aquele tiro... – resmungou Diana, sendo censurada por Sofia, que beliscou-a no braço bom.

— Estávamos cientes dos riscos, capitã. – comentou Nico, apoiado num canto com Alex. – Nada muito fora dos padrões quando se vai visitar os parentes do homem que você matou, eu diria. – ponderou, e todos riram.

— Realmente, acredito que fomos bem claros com nosso apontamento final. – brincou Mia, recebendo vivas gerais. – E acredito também que tamanho acontecimento deva ser celebrado da melhor forma possível... Sendo assim, por esta noite, e em honra à nossa cara ferida Diana, estão liberadas as apostas e as cartas.

— Só tem uma coisa que eu aceito como suborno! – exclamou a mulher Murphy, sua voz gutural sobrepondo-se à balbúrdia geral. Os olhos voltaram-se para ela cheios de expectativa e medo, no caso de Antonieta, que já imaginava o desenrolar dos fatos. – O vestido. – revelou dramaticamente e várias mãos bateram ferozmente contra a madeira, entoando assovios tão obscenos quanto na ocasião da noite de Sofia e Alberto nos aposentos da Barbieri. A tripulação do Pérola Negra fitava a discussão que se seguiu entre Mia e Diana sem entender patavinas do que transcorria diante de seus olhos. – Capitão Barbossa, vai me agradecer depois! – a risada de Murphy exclamou, ecoando indiferente à reação dele.

— De acordo com a tradição, primeiro eu preciso perder nas cartas pra você! – o sangue de Antonieta fervia e ela praticamente cuspia contra Diana, que se manteve neutra.

— Bem, se uma humilhação não é o bastante... jogamos ao pôr-do-sol, então. Assim, terá tempo para se aprontar para a nossa celebração. – anuiu estendendo a mão do braço bom para que Antonieta apertasse. Esta, por sua vez, recusou-se a apertá-la, jogando-se contra o ombro suturado de Diana ao passar por ela. – AH... puta maldita...

Prontamente, as mesas se esvaziaram e a cantoria iniciada pelo cântico entristecido de Mia, à vista de uma verdadeira extravaganza italiana, engabelou-se através dos ânimos renovados de seus homens em entoares de melodias ritmadas a uma vida que soava tão antiga quanto as águas. O trabalho acelerou-se com o bom vento que lhes era concedido, a aquiescência dos deuses de que uma noite de folga era merecida ao grupo.

— Te devo desculpas por ter colocado Alberto no meio do tiroteio no bar? – perguntou a Sofia enquanto seguiam pelo deque até o tombadilho.

— Quer dizer, se eu fiquei zangada com meu marido por ele ter ido socorrer sua irmã mais nova? Claro que fiquei. – zombou Sofia revirando os olhos, e gargalharam juntas. – Isso nas suas costas é trabalho de Tia Dalma? – averiguou. Mia assentiu e a primeira se abaixou para sentir o cheiro emanando do curativo, fazendo uma careta de nojo que surpreendeu a capitã, levando-as mais uma vez à risada. – E preciso confessar a você; foi uma surpresa interessante... a participação de Barbossa... deveria agradecê-lo. – a voz da senhora Barbieri saiu com grande dificuldade, mas fora o mais brando que se aproximara ao usar o nome do capitão em uma sentença, desde o reencontro.

— O que?! – exclamou Antonieta, pressionando uma mão em seu ombro.

— Falo sério, Mia. – disse na defensiva. – Luigi estava impedido, a maioria de nós... ele não só me impediu de tomar um tiro, mas salvou seu precioso navio. – explicou. Limpando a garganta, a capitã apontou para alguns dos estragos que estavam sendo consertados pelos Ferretti diante dos olhos delas. – Bem, ela ainda está flutuando, não está?

— Bem, e eu devo dizer que se uma bala não acertou sua cabeça, alguma outra coisa acertou. – disse com escárnio, a alguns passos delas, Diana xingava Cínzia audivelmente por insistir que ela ficasse quieta. – Às vezes me esqueço de como ela fica quando está machucada.

— Me sinto bem por saber que não sou, realmente, o único bimbo[1] nesse navio. – comentou Téo, surgindo ao lado delas. Sofia sorriu, acariciando o rosto cansado de seu ragazzino.

— Nesse caso, me ajude a conter sua irmã. – a loira brincou, indo mediar a discussão entre cirurgiã e segunda imediata. Téo fez uma breve reverência à sua tia, que seguiu-o com os olhos risonha e satisfeita; sobressalta ao se dar conta da figura que já se encontrava ao seu lado no tombadilho. Hector sustentava um sorriso presunçoso e isso foi o bastante para Mia suspeitar que houvesse escutado toda sua conversa com Sofia, e agora aguardasse os louros por sua conduta exemplar à chance de crise.

— Então, você não roubou meu navio, — começou ela virando-se para encarar o mar atrás deles, — mas, ainda assim, tomou algumas liberdades com ele. – pontuou acariciando sugestivamente a madeira lascada no parapeito, limpando a poeira de seus dedos com os olhos suspensos junto aos dele.

— De nada. – ele respondeu, polidamente; e Antonieta sentiu qualquer coisa ao constatar a sutileza com a qual seu sorriso presunçoso se alargou um milímetro a mais com ela e seu orgulho.

— Obrigada. – aquiesceu, soltando o ar com um sorriso igualmente altivo. Mais uma vez ele acenou polidamente, deixando-a em seguida.

℘℘℘

Foi um massacre. Assim como Olívia, Diana era conhecida por suas mãos de sorte, mácula de seu sangue irlandês, diziam. Acompanhar uma partida entre Murphy e Tiziana consistia em algo semelhante à uma batalha de intelectos desbravadores da probabilidade. Os Barbieri, por outro lado, não detinham tal reputação. À perspectiva de ver-se enfurnada em um espartilho que lhe roubaria o ar e o conforto, as atenções de Antonieta encontravam-se muito distantes daquele jogo. Afinal, perdendo ou ganhando, o fato é que devia um favor a Diana; o qual ela cobraria apenas com o uso do maldito vestido. Assim eram as apostas com o furacão Murphy. Conhecedora das regras do navio, ela adaptara seus soldos para que colocar seus companheiros em posição desconfortável lhe rendesse mais do que ouro.

Erguida a lua no céu, os homens se reuniram à cozinha, com os instrumentos que até então estiveram guardados junto aos seus pertences. Ilaria e Matteo organizaram as mesas para que o centro permanecesse livre às danças e o cheiro da fogazza vinha dos fundos, misturado ao vinho e ao rum; uma verdadeira extravaganza. Elizabeth sentou-se um tanto deslumbrada ao lado de Gibbs, sua experiência anterior em navios não tendo-a preparado para confraternizações como aquela; música e dança... qual fora a última vez que se permitira tais frugalidades? Pintel e Ragetti misturaram-se entre os italianos, batendo canecos à medida que as canções iam ganhando prumo. Diana ainda tinha o braço enfaixado, contudo não deixou de ficar claro à Elizabeth quem era a imperatriz da noite. Após algumas tarantelas bem animadas, o som que fez-se ouvir foram os mesmos que certa vez escutara dentro dos bares de Tortuga.

Sendo a única irlandesa numa tripulação de italianos, durante muitos meses após sua chegada a Porto Venere, a mulher Murphy sentia-se deslocada em momentos como aquele, batendo o pé num ritmo diferente daquele que era tocado. Determinada noite, porém, Cícero Barbieri lhe convidou para que o ensinasse aquela dança e assim toda uma comuna se afeiçoou às várias modalidades da riverdance, seguindo-se para que ela entoasse canções de sua casa. Assim dividia-se o mundo dos Barbieri. No centro, contra as indicações de Cínzia, Alberto e Diana sapateavam ferozmente, pulando e girando de um lado para o outro em uníssono. Elizabeth começou a bater palmas junto aos outros observadores, tentando bater os pés com a melodia; Sofia puxou-a para o centro, ensinando-a o básico antes de entregá-la para que girasse com Diana, ao passo que ela ia com Alberto.

Barbossa observava-os escorado à parede da entrada. Embora não fosse de seu feitio admitir, existira um tempo onde ele mesmo se engabelara por aquelas atividades... e Sparrow estaria com ele, para sua surpresa. A facilidade com a qual fugia de uma boa briga era a mesma para se infiltrar em celebrações alheias. Sua distância com a cena, no entanto, permitiu-o o primeiro vislumbre daquilo que consistia, para Antonieta, perder uma aposta com Diana. A mulher vinha descendo as escadas trajada com o que seria o vestido e Barbossa teve que sorrir ao compreender o que a Murphy quisera dizer ao afirmar que ele lhe agradeceria. Apesar do visível desconforto da capitã, assentava muito bem nela o tecido tingido de vermelho, com as mangas abaixadas aos ombros para que seu corte pudesse respirar.

— Malato d'amore, ho cercato la medicina nella vita notturna [2]. – a riverdance cessou imediatamente, enquanto os músicos seguiam o cortejo de Diana com um cântico italiano para Antonieta, que adentrava a cozinha acompanhada de assovios e palmas aprovadoras de seus companheiros. A cantoria prosseguiu até que ela estivesse servida de uma volumosa taça de vinho, quando finalmente atingiram o fim do primeiro refrão. — Ho bevuto troppo e non riesco nemmeno a ricordare quale fosse il nome di quella donna. Il fiore della notte nella barra blu![3]— concluíram num coro emocionado, assoviando louros para a voz contagiante de Diana. – Agora sim é uma festa!

Antonieta passou a mão violentamente em seu queixo, gesto que apenas os italianos compreenderam, pondo-se a rirem. Continuou, então, a música, e a capitã, em vias de amansar seu ânimo, descia os canecos com a mesma velocidade de Tristan Parisi; uma competição silenciosa se iniciando entre eles. Alberto tentou afastá-la do vinho puxando o coro para a música do marinheiro bêbado; um coro de enunciações no qual os homens e as mulheres deveriam fazer uma lista com aquilo que fariam com o dito felizardo que bebesse além da conta. Era a alma da diversão de seu pai, pois seus homens sempre se esforçavam para pensar nas estrofes mais engraçadas.

— Coloque-o na cama com a filha do capitão! Coloque-o na cama com a filha do capitão, pela madrugada! – cantou Mia, rendendo-se ao ritmo a fim de dançar com seu irmão mais velho pelo menos uma vez antes de render-se ao álcool completamente. – É isso o que fazemos com o marujo bêbado, é isso que fazemos com o marujo bêbado, pela madrugada! – e sentou-se, sem folego e brutalmente em seu lugar. Gibbs, então, puxou o coro para a canção de Nancy Mulligan; um rapaz explicava aos seus homens porque se casaria com a dita mocinha, o quanto a amava. Alberto puxou Sofia para o centro e os homens urraram vivas, batendo palmas no ritmo da melodia. Durante os refrãos, o Barbieri mudaria o nome de Nancy para Sofia e todos ririam.

Antonieta observou Barbossa parado à porta, observando seus irmãos, e ponderou a letra da canção; se lhe causava alguma dor, nada transparecia. Contudo, acostumara-se com o indecifrável enigma. Seus olhos encontraram-se, então, e ela lhe ergueu o caneco, bebendo uma grande golada antes de reassumir a frente no coro, recolocando-se de pé para verificar seu equilíbrio. Ainda firme. Diana, ao seu lado, brindou com sua caneca, piscando maliciosamente em sua direção.

— A Lady da Ligúria, finalmente!

— Eu poderia te jogar pra fora do navio por isso... esses malditos ferros... vão me dar cicatrizes piores do que essa. – praguejou apontando para suas costas e Diana riu. Os ânimos permaneceram exaltados, quando por fim não estavam mais; jaziam todos sentados em suas mesas.

— Venham todas, moças belas e cálidas... que florescem ao auge... cuidado, cuidado, se for boa e bela... não deixe nenhum homem roubar seu tomilho. Não deixe nenhum homem roubar seu tomilho. – iniciou Diana, chamando atenção de volta para si. Sua voz, rouca e carregada de malícia, agora soava como a mais pura das crianças e aquilo surpreendeu tanto William quanto Elizabeth, acostumados a apenas uma de suas facetas. – Pois quando seu tomilho, estiver passado... ele não mais vai se importar...

Antonieta detestava aquela canção, pois mantinha ciência de quando ela começou a ser cantada; e para quem. Sua cabeça estava pesada, mas ela ainda conseguiu identificar a falta de um rosto ali, perguntando-se quando e o que o teria espantado.

— Se ao menos eu soubesse que, a partir do momento em que nos encaramos pela primeira vez, eu estava olhando para o resto da minha vida. – ela disse com a voz arrastada, arrastando a si própria para o lado dele no deque, ainda ouvindo Diana. Bêbada, sem dúvida; cansada, como nunca estivera. – Meus pais sempre viveram assim; mas eu não queria... não sabia que queria... até você aparecer. – continuou enfiando o dedo no meio do nariz dele.

— Você está bêbada demais, Antonieta. – Hector disse, constatando o óbvio. – É melhor não falar nada de que possa se arrepender pela manhã.

— Eu estou cansada de não falar nada. – lamentou, dramaticamente, subindo no parapeito para se sentar, perdendo um pouco do equilíbrio. Instintivamente, Barbossa segurou-a pela cintura, obrigando-a a descer. – Nós não costumávamos “não falar nada”, nós falávamos sobre qualquer coisa... e agora eu tenho esse monte de informações que não me interessam mais e eu não sei o que fazer com isso. – ele apenas olhava para ela, desestimulado, mas permitindo que tivesse seu acesso. – Éramos amigos melhores do que isso...

— Nenhum de nós é a mesma pessoa que costumava ser, Antonieta. – Barbossa ponderou vários tons abaixo do dela, tentando fazê-la se acalmar. – Muito embora você estivesse usando algo parecido com isso quando nos conhecemos. – acrescentou gravemente, mas jocoso e ela bateu a mão contra o ombro dele, rosnando de raiva.

— Isso é uma merda! – sussurrou apoiando a cabeça entre as mãos. Ele, por conseguinte, lhe ofereceu um pequeno cantil. – Acabou de dizer que estou bêbada demais...

— Água. – esclareceu Hector e ela engoliu sem questionar o gesto. Tornara-se habitual dentre os momentos que passaram a dividir desde o início daquela viagem, que ele lhe contasse qualquer coisa ou reagisse de alguma maneira que viesse a fazê-la se sentir culpada por ter falado demais. Todavia, era sempre Barbossa quem se despedaçava por sua insistência.

— Você ouviu Nico esta manhã... o motivo para nossa visita em Cádiz ter sido um desastre desde o começo; há vários anos, eu me apaixonei por Lorenzo Lucena. – começou brandamente, bebendo outro gole de água, permitindo que ela clareasse seus pensamentos, vez que jamais lavara suas lembranças. Hector encarou-a por um segundo, apreendendo o caimento em seus ombros e o novo significado na cicatriz em suas costas. – Eu já melhorara meu jogo de espadas, minhas relações com os capatazes no porto... até beijava melhor do que você deve se lembrar, — brincou, fazendo-o rir pelo nariz, — mas parece que eu ainda precisava ser traída por alguém que amasse. E Lorenzo soube como me manipular direitinho; até que abocanhou mais do que seria capaz de engolir e eu descobri que ele viera me roubando; e, na frente de todos, na frente do Téo... eu o matei.

— Não julgo você. – o capitão respondeu após encará-la por um longo minuto. Estivera na pele de quem cometera atrocidades semelhantes, com pessoas de seu círculo mais chegado e sabia que não eram exatamente palavras o que ela esperava dele. Bem como não as esperara dela em nenhum momento quando lhe confessava qualquer coisa. Resumia-se ao mais próximo que alguém com a confiança tão debilitada e tantas cicatrizes em seus passados quanto eles, poderiam chegar de intimidade; o que, sem dúvida, Antonieta realmente queria dizer ao afirmar que algum dia eles foram amigos melhores do que agora.

— E você teve sorte. – constatou ela, meigamente, abrindo um sorriso impensado em seus lábios. Sim, sorte. Mas, não no fim. – Eu queria tê-la conhecido. – assumiu em voz baixa.

— Ela teria gostado de você. – ele também assumiu, em voz baixa. Antonieta surpreendeu-se com o quanto de sentimento havia na voz dele e respirou fundo, afastando qualquer sentimento irrelevante do passado.

— Teria? Eu? A mulher que desde o segundo número um quis arrastar o homem dela pra cama? – inquiriu arqueando as sobrancelhas, reprimindo uma risada à imagem que se formou em sua mente. Margaret Smyth tentando acertá-la com alguma coisa pesada. Imaginou que teria uma força sobrenatural quando provocada.

— Ah, Margaret teria encontrado uma forma de colocar a culpa em mim; diria que eu facilitei demais pra você. – Hector rebateu de volta, de fato, recordando-se da imagem da mulher, mais baixa do que ele e, ainda assim, com a força de um touro, esmurrando seus braços; mirando na altura de seus olhos. Antonieta riu com gosto.

— Eu gostei dela; meu tipo de garota.

— Ela morreu dando à luz. Uma menina. Carina. – revelou ele, quando as risadas cessaram. Mia fechou os olhos, apertando-os ao se lembrar da tarde conversando com Ilaria e ele acerca da infância de Téo. – Ha, eu sei, Antonieta, eu sei... você guarda coisas a meu respeito? Se tem algo que guardei de você foi a sua capacidade de abrir feridas que nem sabe que existem.

— Encantador. – desdenhou. – E onde... onde está ela?

— Levei-a para a Inglaterra; num orfanato comandado por um grupo de freiras... eu não poderia trazê-la para... para isso... fiz o melhor que poderia fazer por ela; o seu diário... o rubi... estão com ela; com certeza é o suficiente para comprar uma boa vida. – ele passava certeza ao mesmo tempo em que tentava se justificar pela possibilidade de ter sido um erro, Mia notou, empática.

— No entanto, você teme que também tenha sido porque não visualizava espaço para ela dentro da pessoa que sua vida exigia que você fosse. – observou recostando-se de costas para o parapeito, encarando as estrelas acima deles. Hector fitou-a finalmente surpreso. Antonieta sorriu. – Federica é minha filha. – revelou simplesmente e ele assentiu, um tanto frustrado por não ter notado a semelhança antes, o que fê-la rir novamente. – Passei pela mesma coisa enquanto estava grávida; no fundo, você não sabe se realmente os deseja, mas tampouco quer que algo de ruim aconteça... Encontrei uma boa família no porto e ela é feliz...

— E você sabe que ela é feliz. – interpôs Barbossa com uma das mãos apoiada ao parapeito. Subitamente, sentiu a mão de Antonieta em seu rosto, prendendo seu queixo para que não perdesse os olhos dela, fechando um pouco do espaço entre eles.

— Se Carina for metade do que o pai e a mãe dela são, tenha certeza de que ela vai estar mais do que bem. – disse pausadamente, apertando seus dedos contra o queixo dele à medida que falava, com gentileza. – Não espere que eu repita isso sóbria. Pelo menos não a seu respeito. – acrescentou, soltando-o, mas sem reabrir o espaço entre seus corpos. – Então... meu rubi... meu rubi foi a sua herança para que sua filha ficasse bem... meu rubi. E eu não recebi nenhum agradecimento pela minha generosidade.

— E o que você quer? – indagou revirando os olhos.

— Você sabe o que eu quero. – murmurou, encarando-o nos olhos, repousando ambas as mãos em seus ombros, apertando-os significativamente. – Eu não concordei para que você fosse o meu primeiro, à época, independentemente do quão persuasivo pudesse ser... e que cavalheiro, por aquiescer à minha negativa. – as mãos dela subiram para seu pescoço e ele não se mexeu, sentindo... desfrutando do calor que lhe fora negado por dez anos. – Anos de experiência depois... poderia ser uma distração melhor. – os olhos dele correram da boca para o colo exposto dela. Várias outras informações guardadas a seu respeito escondidas no caminho desde um até o outro.

— Esse é o problema, Antonieta. – cortou, tomando as mãos dela nas suas, sobrepondo-as em seu peito. – Um homem que se deita com você buscando apenas uma distração... bem, não me admira que o pobre Lucena esteja morto agora. – ela sorriu de lado, esticando-se o pouco que precisava para alcançar o canto de seus lábios, beijando-o ali.

— Eu poderia te trazer paz, Héctor. – murmurou com entristecido desejo. – Embora nós dois saibamos que eu não sou aquela a quem você pediria, caso houvesse a possibilidade. – custosa, ela se afastou, segurando ainda uma das mãos dele. – Também me importa o consentimento. – concluiu, desprendendo-se por completo. Deixando Barbossa para trás com o inconfundível sabor do fel.

[1] criança

[2] Doente de amor, procurei remédio na vida noturna.

[3] Eu bebi demais e não consigo me lembrar sequer qual era o nome daquela mulher. A flor da noite no bar azul.

Notas finais
Pessoal, eu gostaria de dizer que a autora também está I M P A C T A D A com as imagens que entregou à vocês, depois de 84 anos do naufrágio do Titanic. Ainda assim, estou me sentindo REALIZADA com a Mia bêbada. MEU ANIMAL ESPIRITUAL. Durou pouco, mas ela enfiando o dedão na cara do Hector foi muito goals, pelo menos para mim! E eu não sei vocês, mas esse foi o point of no return, na minha opinião... tem como esses dois não irem para a cama depois destes acontecimentos???? Eu quase o fiz agarrá-la pelo braço e tascar aquele beijo de cinema que todos nós amamos, mas... ainda não é o momento. Aliás, minha parte favorita foi a citação à Margaret e como bêbada a Mia reconhece que ainda machuca um pouco tudo o que aconteceu no passado; e como, nos próximos capítulos, sóbria, ela vai chegar a uma conclusão bem madura e humana acerca destes sentimentos. Espero que os senhores gostem. Acho inadmissível que haja tantos leitores fantasminhas não me cedendo nem um segundinho para me contar o que está bom e o que está ruim. Sério, pessoal!! O feedback é tão importante!! Mas eu amo vocês, independente do quê!! Beijoos e até a próxima!