Lembranças de Porto Venere
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Cada alma atada ao destino do Stella De La Sera mantinha, em silêncio ou escancarado pesar, fardos intercorrentes de suas vidas passadas. Almejos e melas que os impulsionaram a sobreviver apenas o suficiente até que chegassem àquele deque. E mesmo num antro propício a consagração de assassinos e ladrões; competidores no grau de sua baixeza e dor; nenhum deles jamais questionaria que, dentre todos e tantos, o mais vil de sua laia era o tempo. Na mais límpida das hipóteses, um crime custar-lhes-ia nada além de uma vida; de um terceiro desconhecido ou mesmo de algum amigo. Na mais cruel, um existir sem viver ou o parar completo. Juízes e carrascos agiam para que pena e lei fossem obedecidas. Contudo, acima deles, o tempo privava de dádiva uns e as concedia a outros; parava para uns e continuava para outros.
Afinal, algumas verdades eram tão absolutas em sua simplicidade quanto as mãos de Antonieta Barbieri envoltas em seu pescoço. A suave permissão de saborear um relance das possibilidades conhecidas de outrora, num único toque. De, por fato, finalmente deixar de sentir apenas a mácula trazida por seus encontros e desencontros, para redescobrir detalhes tão pequenos; que lhe soava patético o quanto faziam falta e afligia a memória pelo quanto significaram. Repousar suas mãos entre as dela e, indubitavelmente, sentir o contraste do cuidado dela contra o seu desleixo. E ver-se forçado a lembrar-se do que o tempo lhe tornara e roubou, a fim de não conceder a ela tão merecida vitória.
No entanto, independentemente de uma lhe ser concedida, Antonieta – por mérito de sua personalidade – não conseguia evitar o desfrute de quaisquer outros menores sucessos. Assim, Hector analisava o semblante paradoxalmente rejuvenescido após uma noite de inflamada ressaca, ainda usando o vestido vermelho em respeito à faixa que sustentava por mais um dia o braço da mulher Murphy. O próprio corte em suas costas cicatrizando com a ajuda dos unguentos de Tia Dalma, embora ele duvidasse que a deusa houvesse prestado tal serviço sem cogitar qualquer preço em troca; cedo ou tarde, ela sempre requereria pagamento. A Barbieri, por sua vez, não demonstrava sinais de que estivesse preocupada com o súbito interesse da bruxa... não era supersticiosa o suficiente.
Despreocupadas, ela e suas companheiras de armas – aquelas que a escala de trabalhos liberara – reuniram-se à ponte. Elizabeth oficialmente completaria seus dias com a moda Tiziana e o lorde pirata verificou certo desapontamento nas feições da jovem Swann. Como se ansiasse por mais meses como aqueles vinham sendo para ela; notadamente, os embates com Tiziana e Alighieri mantiveram-na afastada da monotonia que, muitas vezes, se sentia durante uma viagem longa nas quais paradas ocasionais haviam sido proibidas, graças aos acontecimentos recentes. E tais conclusões certamente estariam muito próximas da verdade, fosse ele tão sensível às realidades que o circundavam, como sua anfitriã. Mia, com a mesma perspicácia, verificou o semblante de Elizabeth. Todavia, detinha mais informações para saber que o desejo da Swann era permanecer a mais afastada possível de pensar na distância entre Will e ela.
— A perspectiva da possibilidade de ter sido uma excelente cafetina, me soa tão mais sedutora agora. – comentou Diana, remexendo o braço com desconforto e conseguindo a atenção de Elizabeth. A mulher Murphy se sentara ao parapeito, com a capitã escorada ao seu lado; e ela ao chão, com a cabeça apoiada para trás, Sofia à sua frente, com o chapéu tampando totalmente seu rosto e Olívia e Beatrice sentadas sobre dois barris esquecidos ali.
— Nunca é tarde demais. – brincou Antonieta, correndo os olhos pela sutura precisa de Cínzia.
— É tarde demais quando a que deveria ser a sua principal atração já está desgastada. – retrucou fitando a capitã da cabeça aos pés – ela não deixaria Antonieta esquecer-se tão cedo a culpada por sua dor – e as mulheres riram baixinho. Exceto Sofia e Elizabeth, mas por razões diversas.
— Ainda dói? – inquiriu o jovem cigno, virando a cabeça para encarar Diana àquela altura, os olhos apertados pelo sol. A morena tornou a remexer-se.
— Só é desconfortável, à essa altura. – dispensou com um aceno rápido de cabeça. – Os deuses me ofereceram uma saúde e um estômago de ferro, mas o corpo do mais fino vidro. – acrescentou em sinal de troça para Elizabeth. A loira concordou, um pouco desconfortável ela mesma. Baixando os olhos lentamente, percebeu o início do desenho de uma crista em seu tornozelo direito.
— É um galo. – respondeu Sofia, percebendo a expressão de curiosidade velada no semblante da outra. A resposta chamou a atenção de Diana, interrompendo sua conversa com Olívia.
— Sim, boneca. – continuou, puxando a barra da perna esquerda de sua calça para cima, à altura de seu joelho, com o braço bom, acenando para que Elizabeth se levantasse e visse. – É um velho ditado que ouvi há muitos anos... Porco no joelho, sorte no mar. Galo no tornozelo, todas brigas vais ganhar. – recitou com uma risada infame.
— E funcionou muito bem. – dispensou Antonieta, dando de ombros para Elizabeth, indicando o ferimento da mulher Murphy.
— Também, porcos e galos nunca são pegos num naufrágio. Eles sempre voltam para terra, independente do que os afunde. – continuou, pressionando a narina direita com o indicador, piscando para a senhorita Swann, sem dar atenção à Antonieta. – Você deveria tatuar um cisne, para não se esquecer de nós. – sugeriu repuxando a barra de volta para baixo. Elizabeth riu pelo nariz.
— Como se eu conseguisse... – retorquiu, encarando Antonieta com a lembrança de sua conversa em sua cabine. Parecia já terem se passado anos, desde então.
— Não nos contou a sua história, senhorita Swann. – interveio Sofia, finalmente afastando o chapéu de seus olhos. Estes que brilhavam num azul quase celeste. – Antonieta a chamou de entusiasta e nos informou que era filha de alguém importante... – continuou branda. A jovem virou-se sutilmente para a capitã, entendendo o que teria se passado em sua cabine, à época, não fosse o estado que falar a respeito de seu pai lhe deixara. Nenhuma delas falava a respeito do passado, tampouco. Contudo, supunha-se que para um grande grupo se abrir, alguém deveria começar; e ela representava o exemplar mais interessante, visto que todas as outras já deveriam conhecer suas histórias há muito.
— Filha do governador de Port Royal, sim. – informou-as, tornando a se sentar frente à Sofia, que levantou uma sobrancelha.
— O que faz tão longe de casa, minha jovem? – brincou, erguendo sorrisos aos lábios de todas.
— Salvar Jack Sparrow, livrar a todos de Lord Beckett, aparentemente...
— E como conheceu Jack? – interpôs Diana, interessada; sorrindo maliciosamente, conhecedora da reputação de Sparrow.
— Eu caí de uma torre do forte Charles, enquanto recebia uma proposta de casamento e Jack Sparrow me salvou antes que morresse afogada. – respondeu rápida e simplesmente, sua voz carregada por um misto de allure e amargor. Diana riu, assentindo positivamente com a cabeça.
— Agora, esta é uma excelente maneira de se apresentar a uma lady. – brincou.
— E quanto ao senhor Turner? – inquiriu Olívia.
— Bem... eu... conheço Will desde que éramos crianças. – começou com dificuldade; subitamente conseguindo mais da atenção de Sofia. – Nós o salvamos de um naufrágio e imaginei que ele fosse um pirata, porque trazia um medalhão bem... característico, no pescoço... mas eu ocultei a informação de meu pai e ele acabou sendo mandado para viver como aprendiz com um dos ferreiros de Port Royal, quando chegamos.
— E o que aconteceu para que ferreiro e filha do governador de Port Royal viessem a se juntar à nossa festa. – indagou Beatrice.
— Jack Sparrow, que mais? – respondeu Diana, ainda risonha. Elizabeth forçou uma risada. – Não foi?
— Na verdade... foi o Capitão Barbossa... – confessou, erguendo os olhos até Antonieta. – Ele estava atrás do medalhão de Will... que eu havia roubado, a bem da verdade, estava atrás do sangue de Will – mas eu só descobri isso depois; era parte de um ritual para se livrar de uma maldição; bem, eu disse a Barbossa que meu nome era Turner e ele me sequestrou...
— O velho bastardo sempre teve uma coisa pelas mais jovens. – troçou Antonieta; e desta vez todas riram.
— Will e Jack vieram me salvar. Depois disso, passamos quase um ano sem receber notícias... e de repente Lord Beckett invade nosso casamento nos condenando por termos trabalhado em conluio com Jack e termos facilitado sua escapada da forca. Will embarcou num navio para encontrá-lo e eu fui atrás dele... o resto... bem... aqui estamos. – concluiu fechando os joelhos entre as mãos, em sinal de rendição.
— Mas, se estiveram noivos... por quê?... – interpôs Olívia, após utilizarem o silêncio para apreender o quadro geral.
— É complicado. – afirmou Antonieta, colocando uma pedra bem firme sobre o assunto e Elizabeth agradeceu-lhe mentalmente.
— Eu me lembro de que quando conheci Will, minutos antes, eu dizia a papai sobre como seria espetacular conhecer um pirata... Na verdade, foi uma enorme bagunça. – murmurou, lamentosa.
— Reconsiderando? – perguntou Sofia, cálida. Elizabeth ergueu os olhos para encará-la, notando que diante dela estava a primeira mulher com alguma experiência semelhante àquela que almejava para si.
— Você? Alguma vez?
— Apenas me parece que suas últimas decisões estiveram atadas apenas às consequências que trariam a vida do senhor Turner; e só agora você começa a perceber um outro lado de si mesma... – ponderou sem força de julgamento, mirando a espada que ela mantinha junto ao corpo significativamente. Com alguma consciência do que a senhora Barbieri queria dizer, alisou a lâmina fria, respirando fundo. – Talvez, este tempo separados ajude-os a entender a si mesmos um pouco melhor. Não tenha pressa. Siga o exemplo de Antonieta por mais alguns meses. – brincou piscando com camaradagem.
— E o que isso implica? – questionou Elizabeth, sabiamente, pondo-se de pé ao encalço da Barbieri.
— Por certo, espero que Sofia, Sofia, não esteja sugerindo à nobre senhorita Swann que... como posso dizer... guarde abrigo em cada porto que visitar. – troçou Olívia, fazendo Beatrice e Diana gargalharem.
— Claro que não! Jamais ousaria acometer tamanha dor ao coração do jovem mestre Turner; tenho demasiado carinho por ele. É um bom rapaz. – defendeu-se a senhora Barbieri. – Mas, o motivo, imagino, para Antonieta ser aceita em tantos abrigos; ela sempre tomou tempo para compreender a si mesma...
— Ora, a senhorita Swann e eu temos um traço bastante vivo em comum, se ela quisesse... – falou Mia, segurando Elizabeth pelos ombros maternalmente, os olhos verdes fitando Sofia em travesso desafio.
— De fato, aparentemente sou culpado de ter arrastado a ambas para a danação. – interpôs Barbossa, rancoroso; parado a alguns passos de Antonieta, altivo. Imediatamente, as outras dispersaram, com Elizabeth sutilmente tocando uma das mãos de Mia antes de afastar-se de seus braços. Somente Diana permaneceu sentada ao parapeito. – Ou não foi isso que quis dizer “não sabia que queria, até você aparecer”. – prosseguiu desafiando-a.
— Imaginei que fosse lisonjeá-lo. – rebateu venenosa, apoiando-se ao lado da mulher Murphy mais uma vez, entrelaçando os dedos, repousando as mãos unidas com impaciência sobre a saia. – E sei que nossa conversa de ontem acabou num tom menos infantil do que isso...
— Terminou. Contudo, aquilo que você diz me parece estar muito distante do que realmente acredita. – retorquiu, desdenhosamente, com a cabeça pendendo para o lado. – Já existe culpa suficiente que me caiba sem que...
— Sem que o quê? – cortou Mia, levando as mãos à cintura num rompante. – Sem que eu fabrique mais alguma? Mas é verdade. – continuou com veemência. – Você não me amou, mas me mudou. Me ensinou. Me amadureceu. – ela parou de repente, retomando fôlego, murmurando uma praga ao espartilho. Barbossa ainda a encarava altivo, mas seus ombros e mesmo suas feições já se encontravam mais relaxadas do que antes. – Não é uma questão de culpa... eu disse que o mantenho em alta conta, naquela noite em Tortuga; por alguém que me traiu duas vezes; se acha tão inteligente, não imaginou que fosse por isso?
Ao lado deles, Diana soltou um longo assobio, disfarçando seu significado ao engajá-lo em uma melodia antiga, no entanto, Antonieta a conhecia bem demais e se calou. Hector fechou as mãos em punhos, repousando-as com alguma violência sobre o parapeito, evitando o verde dos olhos de Mia por um momento. O quão mais fácil seria se nenhuma daquelas noites jamais existissem; se pudesse dispensá-la como um mero acaso do tempo, porque sem nenhuma razão aparente escolheram o porto de Porto Venere para um retiro; se nunca houvesse subido até as ruínas da velha igreja de São Pedro... não, porém. Havia gostado de Antonieta Barbieri desde o princípio.
— Aliás, estive esquecendo de mencionar. – ela continuou, cortando o silêncio com uma posição mais séria. – Não sei quais são seus planos para quando atingirmos a entrada para as águas de Sao Feng, mas, esteja avisado, ele não vai ficar satisfeito em me ver. – disse conseguindo que ele a encarasse, a pergunta no arquear de suas sobrancelhas. – Longa curta história, estávamos interceptando um carregamento de sedas dele para Dona Ching e, a fim de conseguirmos um preço melhor com o capataz, à oportunidade, enquanto Diana fechava o negócio, eu distraí Sao Feng. – explicou estufando um pouco mais o peito para que ele entendesse como exatamente o fizera.
— Eu supunha que a Lady da Ligúria não recebesse reclamações em tal departamento. – troçou com desdém e Antonieta seguiu-o, bufando.
— Ele não tinha nenhuma reclamação a meu respeito. Não quer dizer que eu não tivesse. – defendeu-se sem rodeios, cruzando os braços com impaciência. – Ou, por acaso, você é um daqueles...
— Não me tente, Antonieta. – interveio fechando os olhos num súbito rompante de controle; alguns rostos já se viravam para eles. Diana, por sua vez, deleitava-se com o teor da conversa. – Então, convenientemente a integridade do nosso disfarce...
— Sempre esteve comprometida. – sentenciou ela remexendo os ombros. – Sao Feng matou o próprio irmão para assumir sua cadeira na corte; não é exatamente aberto a confiar nas pessoas. Eu ter balançado o ego dele anos atrás não influi em nada...
— E, no entanto, parece que todos os obstáculos que viemos tendo foram fruto da sua incapacidade de não escorregar pelo meio das pernas... – sentenciou ele, interrompido pela risada fria e alta da capitã.
— Ora, cale a boca, Hector! – disse, mordazmente, levando-o a se empertigar diante dela. – Não vá por aí ou vai ter algo pelo que se culpar. – advertiu, fria. – Acha que é o primeiro que tenta me envergonhar pelos meus apetites? Você quer que eu me sinta patética por sua causa? Ou por qualquer um deles? – inquiriu calmamente, mas seus olhos soltavam faíscas. – Você quis pôr as mãos em mim há dezenove anos, você quer pôr as mãos em mim desde que eu me ergui naquela banheira. Você é a figura triste e patética aqui... e eu posso ser uma puta maldita por dizer isso, mas não – e nunca mais repita – porque eu escorrego pelo meio das pernas de alguém.
Ela bateu com o punho fechado contra o parapeito. Em seus olhos jazia o mesmo feitiço de quando observara os navios do porto de Lucena queimar; e todo seu corpo retraíra-se com a profunda mágoa de um animal ferido, quase suficiente para fazê-lo suspeitar que o passado, presente e futuro ali morriam. Não fosse a certeza de que circunstâncias sempre recaíam sobre seus orgulhos, obrigando-os a restabelecerem a mútua empatia que, sem muito esforço, nutriam entre si. Aquilo que chamavam de amizade no continente.
— Escolheu um ponto muito delicado, capitão. – Diana comentou, soturna, lembrando-o de sua presença. – Palavras semelhantes foram trocadas entre Sofia e ela, na época em que Lucena foi morto... Antonieta não aceitou muito bem, mesmo assim. – disse. O Lorde do Mar Cáspio resumiu-se a um aceno displicente, buscando uma saída dali. Contudo, repentinamente, a verdade lhe abateu. – Sinto muito, Capitão Barbossa. Este também costuma ser o ponto do Stella para onde fujo quando quero ficar sozinha... e o senhor veio monopolizando-o durante estes últimos meses.
— Um furto bastante não intencionado, eu lhe asseguro, senhorita Murphy. – disse com falsa polidez. Diana riu. Nem mesmo Elizabeth dirigia-se a ela como senhorita. – No entanto, imagino que não ocorra com tanta frequência. Conheço poucas pessoas com tamanha disposição para o público. – acrescentou, utilizando o tom que ela lembrava-se de tê-lo visto usando com Jack em diversas ocasiões.
— Se cansa mais facilmente dos rostos amigos, do que dos desconhecidos, capitão. – rebateu com simplicidade, dando de ombros. Barbossa apenas ergueu um pouco as sobrancelhas em sinal de anuência, resolvendo, por fim, ignorá-la. – E assim como tocou nesse assunto para ferir o orgulho dela, ela também cutucou seu orgulho para feri-lo; mas, a aposta ainda está valendo.
À menção daquela palavra, Hector voltou-se para ela, sereno, entendendo que seria impossível fingir que estavam sozinhos ali; e por um milésimo de segundo, uma espécie de entendimento secreto perpassou por ambos. Aliviando as tensões que imaginassem possuir um com o outro, dentre diversas ocasiões divididas como reles expectadores. Ainda, a presença de Sofia Acidália remanescia mais ameaçadora do que o mistério cristalino nos grandes olhos azuis de Diana Murphy.
— No dia em que reafirmaram a liderança dela, a senhorita foi a única a não dividir o conto de como seus caminhos se cruzaram. – observou ele, abandonando o falso polimento.
— Não mesmo. – concordou batendo os calcanhares. – Quantos anos tinha quando saiu da Cornualha? – inquiriu com naturalidade.
— Treze anos. – ele respondeu, após alguma surpresa por ela deter tal informação.
— Conheço a maioria dos sotaques das ilhas. – falou rapidamente, em vias de responder aquela pergunta não formulada. – Eu tinha nove anos. Convencida de que nenhum risco que corresse no mar me sufocaria mais do que ficar onde estava. – começou, deixando algumas lacunas que ele dificilmente não conseguiria preencher. Lembrava-se de situações parecidas ocorrendo em terras próximas à sua; a valer, o que desigualava a senhorita Murphy era o seu espírito de luta e desprendimento. Apreender, afinal, aquela parcela de seu caráter não se igualava, contudo, a conhecer o tempo que levara para moldá-lo.
— A sua irmã adotiva fez boa primeira impressão? – Hector pegou-se desdenhando, mas com alguma gentileza. Diana bufou em resposta.
— Não se sinta especial pela copiosidade de perguntas dela. – disse, passando a mão pelo cabelo. – Ela esteve te encurralando? No meu caso não foi nem uma metáfora. – pontou, sôfrega. – Cheguei a Porto Venere em um navio pesqueiro; nem sabia pra onde estávamos indo... só morria de medo de que naufragássemos antes de alcançar qualquer terra... a própria definição de cortiço... mas nenhuma das famílias, nem Allegra ou Cícero, quando me ofereceram uma posição entre os seus, me encheram com tantos questionamentos quanto Antonieta. Alberto chegou a mandá-la calar a boca, uma vez. – recordava-se em detalhes de tal ocasião. À mesa do jantar, com a tripulação reunida, a jovem Mia Barbieri, com os cabelos embaraçados e as saias puídas, irrequieta a fazer milhões de perguntas sobre sua casa e família, porque fugira, porque tinha marcas tão escuras nas costas se garantira à sua mãe que nunca esteve nas mãos do contramestre antes... – Quer saber como ela me conquistou?
Barbossa apenas assentiu.
— Nunca suba pelas ruelas escuras de Le Grazie sem Alberto. Era essa a regra. E, claro, eu quebrei. – ela achara seu erro pequeno antes e ainda o considerava assim, sua voz implicou à Hector, que não esboçou nenhuma reação. – Três garotos, mais velhos do que nós, apareceram em uma das curvas; eu estava sozinha e, diferente da senhorita Swann, não fui iniciada ao método Tiziana tão logo adentrei ao bando. Eles me desarmaram facilmente e começaram a me bater; nunca ficou claro se pretendiam apenas me assustar ou se... obteriam alguma vantagem. Em todo caso. Antonieta já tinha algum tempo de prática a mais do que eu e era a filha de Allegra e Cícero Barbieri; e apareceu de lugar nenhum para me ajudar. Certamente, hoje, com muita facilidade eu chuto o traseiro dela, mas na época... vê-la se metendo num mão a mão com três rapagões, foi impressionante.
— Foi uma vitória? – Hector perguntou, manso, atraído pela maneira com a qual ela narrava. As terras altas, afinal, formavam os melhores contadores de história e Diana desenrolava aquela como se o dia estivesse se repetindo bem diante de seus olhos.
— Apanhamos como duas desvairadas. – rebateu, conseguindo que ele risse. – Mas nenhuma de nós correu. – concluiu solenemente; como se aquelas palavras explicassem todo o complexo através do qual uma amizade nasce e se fixa. – Assim é a mulher cujo orgulho você feriu. Duas vezes. A mulher que tem tentado te levar pra cama. – acrescentou depois de um tempo, seriamente.
O riso dócil, quase juvenil, que escapou ao velho capitão convenceu-a de sua própria esperteza, ao passo que ele se convencia de sua leviandade. Por óbvio, ela não revelaria nada tão íntimo sem um propósito.
— A qual parte da aposta a senhorita aproveita? – mesmo taciturno, havia o resquício de um sorriso brincando no canto de sua boca onde Antonieta beijara-o.
— Os vencedores, sempre. – respondeu de pronto. – No entanto, percebo agora que foi um erro apostar pela reles expectativa da vitória; assim como Bea me alertou. Esse jogo é demasiado particular entre vocês, mas se me permite mais um adendo, meu caro capitão, a parte que aproveita, talvez seja a sua. – ponderou. Barbossa buscou por algum sinal de que estivesse tentando provocá-lo, porém os olhos da mulher Murphy brilhavam com foco e entendimento. Abrindo a boca para retrucar, ela o interrompeu. – Ha, meu querido, eu conheço a história; eu estava lá! Sei o que aconteceu, o que não aconteceu... entrei para a tripulação Barbieri buscando fugir dos meus demônios, mas não existe saída de si mesmo. Só existe a escolha mais estúpida e mais difícil: o passado ou algo que te faça querer um futuro. – e proferiu suas últimas conclusões abraçando toda a embarcação num gesto soberbo com os braços.
— E nos termos da sua aposta, Antonieta é esse algo. – analisou Hector, apertando os olhos em descrença. Diana deu de ombros.
— Quem sou eu! – exclamou num raro momento de humildade. – Mas, sejamos francos, quantas mulheres do seu passado, antes e além da senhorita Smyth, mantém tão forte e viva primeira impressão? Nos termos da minha aposta, capitão, e à parte que lhe aproveita, não acredito que seja tão pretensiosa quanto a ideia de um futuro; mas recobrar a certeza da possibilidade de um presente. – em seus lábios jazia um sorriso enlevado de pura inspiração, consciente de que ele a entendia e, ainda que à contragosto, legitimava suas palavras. – Você mesmo já está convencido disso, mas dói. A ideia de manchar a honra de algo que foi forte o bastante para deixá-lo mais humano, antes que a perdesse completamente... alguns acontecimentos corroem tão profundamente que pervertem a segurança de merecer uma segunda chance.
Ele quase sentiu-se compelido a indagar sobre ela. Ao que ela não mais se achava no direito de ter. Contudo, da mesma forma que conseguia enxergar o que a levara embora de sua casa, vislumbrava o que a mulher Murphy deixou de almejar para si.
— Margaret ficaria assim tão decepcionada com a escolha? – foi sua pergunta final, antes de descer do parapeito; piscando pelo canto do olho esquerdo; seguindo para o andar de baixo. Teria acabado, realmente, com todo aquele circo, como a pergunta embebida pelo vinho de Antonieta na noite anterior queria dizer, se ambas houvessem se conhecido?
Margaret foi o mais próximo de lar que já conhecera. Tão segura quanto o olho de uma tempestade; e com clareza ainda a via com o diário de Antonieta, segurando-o com a precisão matemática, ao passo que sua dona natural cuidava para que nenhum traço do que lhe representava desaparecesse entre seus dedos. “Ela teria gostado de você”. Ele nunca conseguiu evitar o contrário.
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