Notas iniciais
Boa Leitura, amores... vamos deixar as péssimas - ou nem tanto - notícias para o final!

Elizabeth não fazia certeza se, ou Antonieta Barbieri possuía aquela força em seus braços ou Will cedeu à sua vontade, aceitando ser guiado para longe do convés. Qualquer que fosse o caso, ele e todos os outros saberiam ter partido de si o chamado para que ela interferisse no possível atentado que seguiria num confronto entre Barbossa e William; ambos reconhecidamente implacáveis quando atiçados pela fúria. Pois sim, a mesma mulher que fizera a voz do velho capitão fraquejar, deteria imponência o bastante para impedir mestre Turner de sentenciar a viagem deles até Singapura. Agora sem o pesadelo da culpa, Elizabeth aceitava o retorno de Jack como uma graça negada a tantos outros homens – como aqueles com quem dividia as refeições – de reverem velhos amigos há muito condenados pela irredutibilidade do mar.

Pirata. Ele a entendera e, portanto, ressentimentos à parte, a fraternidade de sua relação não estaria comprometida quando se reencontrassem. Sparrow, em contrapartida com o juízo de estranhos à situação, ainda haveria de querê-la viva e bem; tal qual Elizabeth desejava agora. Ele mentira e a manipulara para que o levasse até o coração de Davy Jones, e ainda assim persistia em admirá-lo como um bom homem; por quem, de fato, sentira certa atração, não obstante saber que esta jamais foi ou seria maior do que aquilo que sente por Will. O que pensar, aliás, de todos os homens que cruzaram seu caminho? Will, Jack, James... todos eles ambiciosos por seu favor. Deveria orgulhar-se por isso? Outra possivelmente iria. Contudo, Elizabeth apenas aceitava que aquelas eram forças além de seu poder de manipulação – embora houvesse tentando usá-las contra Sparrow a fim de convencê-lo a ajudá-los – e só lhe importava que a ambição de um deles se mantivesse intacta...

E apesar daquele trio que a perseguiu por aqueles anos adentro, a bordo do Stella jazia outro em quem deixou certa impressão e o qual também a marcara... para mal e para bem. Nenhuma daquelas aventuras que seguiram a noite do saque à Port Royal faria muito sentido, não fosse a visão de um grupo amaldiçoado de piratas, liderados por um homem cuja reputação se convertera em lenda. Dentre todo o remanescente do Pérola Negra, Barbossa era o único que se mantinha indiferente a qualquer obrigação que pudessem ter ante a generosidade daquelas pessoas em transportá-los; e ninguém chamava sua atenção por isso. Havia trocado poucas palavras com ele desde seu retorno, consciente de sua natureza taciturna, e mesmo a Capitã Barbieri manteve distância naquelas últimas semanas, no entanto Elizabeth se achava destemida o suficiente... ou próxima o suficiente, para tentar.

— Will está ciente de seus feitos passados. – começou brandamente, incerta, mantendo-se a alguns passos de suas costas. Lentamente, a cabeça de Barbossa virou-se de soslaio, sem encará-la, dando sinais de que a ouvia atentamente. Percebia-se o arquear soturno de suas sobrancelhas, como se não a entendesse, e então voltou a encarar o horizonte. – O que fez com Bootstrap. – elucidou, dando um passo à frente.

Ela não o via, mas os olhos do velho pirata se fecharam com o reconhecer de a quais feitos ela se referia. Correntes demais em seu passado para que se lembrasse de cada uma prontamente. Aos poucos, o jovem cigno[1] se firmou ao lado dele, evitando suas feições, não querendo parecer julgá-lo, permitindo-se o frescor leve e convidativo da brisa; uma sorte que viajassem no verão; logo seria outono, porém.

— E aonde está o jovem mestre Turner agora? – Hector inquiriu calmamente, baixando os olhos para encará-la. A pergunta que de fato fazia, contudo, constatou Elizabeth, era outra.

— Ele bem quis; mas foi impedido pela mulher Murphy e Gibbs... – respondeu simplesmente. – E a Capitã Barbieri; eu a chamei. Está com ela agora. – acrescentou erguendo os olhos na direção dele, vendo-o enlevar levemente o canto esquerdo dos lábios com certo escárnio.

— Entendo. – assentiu ele, cortando o contato visual. – Que gentileza a sua, se preocupar com a minha integridade física a ponto de precisar correr até a mamma. – acrescentou rápido, desdenhoso. O rosto de Elizabeth se contorceu, estupefato, mas ela manteve a compostura.

— Só achei que era direito dela; saber que uma tentativa de assassinato estava tomando prumo em seu navio. – cortou, friamente. Não embarcaria em um discurso inflamado e, de certa maneira infantil, sobre como foi desmantelador encontrá-la de saias levantadas, usando creme de barbear nas pernas. Hector emitiu um som zombeteiro.

Tentativa, de fato. – disse, levando-a a crer que não confiava, nem por um segundo, que Will fosse bom o bastante para abatê-lo. Forçada pelo hábito, ela abriu a boca para defendê-lo, mas reprimiu-se por um momento, refletindo sua abordagem.

— Quão presunçoso um homem consegue ser? – indagou sem esconder um pouco do seu escárnio, Barbossa riu.

— Minha cara senhorita Swann, um homem não consegue sobreviver a este mundo, se não tiver um pouco de estima por si mesmo. – ponderou sorrindo de lado para ela, que lhe cedeu algo bem próximo de um, pensando na própria vaidade da Capitã Barbieri.

Silêncio, então. Por entre o qual o lorde pirata refletiu sobre o progresso dela no último mês, tendo-o acompanhado ao longe. Quando finalmente chegassem a Singapura, dali cinco meses, ela já estaria virando sobre os próprios pés sem vacilar em nenhum momento. Demasiado diferente, mas não tanto, da jovem que o enganara com o sobrenome falso, dois anos antes. Apunhalara-o usando uma faca de mesa, demonstrando força fora do comum – de variadas formas – em distintas ocasiões ao trâmite do período em que cruzaram caminho e, deveras, o tempo concedeu-lhe alguma imponência junto ao bronzeado de seu rosto. Longe... muito longe da moça amedrontada à imagem de sua figura esquelética amaldiçoada.

— O progresso está sendo notável, senhorita Swann. – disse por fim, chamando a atenção dela. Sentiu uma pontada de orgulho pelo elogio, mas sem transparecê-lo.

— Bons mestres. – rebateu voltando os olhos por um momento na direção de Olívia e Beatrice conversando. Hector anuiu à contragosto e Lizzie arqueou as sobrancelhas. – O que?

— Me surpreende que ainda não tenham trocado a arma em suas mãos. – falou dando de ombros, cruzando os braços.

— Dominar a espada não é o mais importante? – questionou ela. Barbossa ergueu um sorriso enviesado.

— Não quando se está sozinho e contra mais homens do que seus braços dão conta. – respondeu puxando a pistola de seu cinto, entregando-a a ela. Elizabeth abriu os olhos mais alguns milímetros, surpresa e ao mesmo tempo maravilhada pelo gesto. À ideia de Hector Barbossa – o homem que a sequestrara – lhe ensinando qualquer coisa. No entanto, era bem a verdade, com ele se posicionando a alguns passos de sua esquerda, arrumando suas mãos e dando ordens sobre como manter suas pernas afastadas em diagonal, e o rosto levemente virado para que a pólvora não voltasse contra seus olhos quando puxasse o gatilho. – Os dois olhos abertos, Swann. – aconselhou por fim, fazendo sinal para que ela atirasse.

— Que merda é essa? – o som da voz de Olívia ecoou junto ao zumbido do tiro. Tanto Elizabeth quanto Barbossa viraram-se para ela, que mantinha as duas mãos atadas à cintura.

— Capitão Barbossa estava me ensinando a atirar... – tentou ela olhando de um para o outro, incerta. Olívia fingiu sorrir de alegria e então fuzilou o lorde do mar cáspio por um segundo antes de prosseguir falando.

Ascoltami, vecchio[2], — começou friamente e mesmo sem conhecer uma palavra de italiano, Elizabeth entendeu o que aquela significava, e interpretou o arquear de cabeça de Barbossa como um aviso deveras incisivo, embora silencioso. – Não gosto que se enfiem no meio dos meus métodos, capisce?

— Eu perguntei... – interveio a senhorita Swann, resoluta e Olívia lançou um último olhar aos dois.

— Ele, de fato, se igualou a Antonieta; mas, você foi colocada sob a minha tutela, Swann. Não me desrespeite dessa maneira. – disse com veemência à outra.

— Deixe a garota, Liv. – interpôs Barbieri, pegando o pequeno grupo de surpresa ao se aproximar por trás. – Ela não está desrespeitando o método Tiziana; só está sendo curiosa. Não te lembra alguém? – indagou significativamente, e Olívia assentiu desgostosa, acenando para a Swann antes de voltar para junto de Beatrice. Elizabeth entendeu aquilo como um chamado para continuar seu treino, mas Antonieta a parou, segurando-a pelo ombro. – Não vá; e não deixe Olívia intimidá-la. Ela é sua tutora, não quer dizer que possa mandar em você. Tire dois minutos para descansar. – sugeriu com um sorriso malicioso.

— Isso não é mandar em mim? – indagou Elizabeth, recostando-se no parapeito do navio. Mia sorriu.

— Não se a ordem lhe aproveita. – constatou, tocando sua têmpora direita sugestivamente, fazendo a outra rir consigo. Então, voltou-se para Hector, parado ao lado delas e seu sorriso se abrandou um pouco; um erguer de lábios gentil, ao passo que retirava algo de um dos bolsos de sua saia. Os olhos dele se abriram um pouco em velada surpresa, logo convertendo-se num arquear esperto de sobrancelhas, ao ver a maçã verde que ela lhe oferecia. – Parola? – Havia pedido para que lhe deixasse ter paz e, contra toda crença, ela educadamente o evitou por semanas. Seguindo, agora, o código, lhe estendia oportunidade de oferecer-lhe, ou não, privilégio da trégua como somente os piratas conheciam. Em resposta, ele tomou a maçã de sua mão, mordendo-a, aquiescendo. Como retruque seu, Antonieta retirou outra do bolso, vermelha, partindo-a ao meio com uma faca de seu cinto, a fim de entregar uma metade à Elizabeth.

Seguiu-se o confortável silêncio entre os três, atentos somente ao reverberar dos murmúrios da tripulação. Até que, findo o leve movimento de seu maxilar, Antonieta quebrou-o mansamente.

— O destino de Bill Turner... o quanto de seu rancor por Sparrow influenciou o número de balas atadas a ele?

A mandíbula do jovem cigno parou instantaneamente, estudando a franqueza de Mia pelo canto de seus olhos. Os dela, subiam despretensiosos até Barbossa, despidos de julgamento, conscientes de seu tiro no escuro, da sua incapacidade em avaliar a mente daquele homem, embora de alguma forma enxergasse-o completamente. No que tangia seu interlocutor, não via razão para se explicar ou mesmo progredir num discurso que – conforme espirituosa observação da capitã – justificaria seus erros nos dela. Estava feito; e diferente de tantos outros crimes, o desfecho daquele não fora o pior, se o velho Turner encontrou um modo de expurgar seu julgamento.

— As escolhas pessoais de um homem são, dificilmente, um motivo sensato para guardar qualquer rancor por ele. – pontuou Hector, despendendo outra mordida ruidosa na maçã. Mia assentiu, contrita.

— O jovem Turner não parece concordar com você. – observou a capitã, semicerrando seus olhos frente ao mormaço. – Mas, talvez ainda haja tempo para que você lhe repita estas mesmas palavras; com a mesma eloquência. – disse virando-se para a água, tentando evitar que o sol a queimasse mais, e Elizabeth imitou-a, ao passo que punha-se a desvendar o misto de zombaria e compreensão presentes na voz da Barbieri.

— Não, se você continuar roubando minhas chances. – rebateu Barbossa, em resposta à sua intervenção. Ela riu baixinho, cortando outra fatia da maçã.

— Não é meu dever garantir que chegue em Singapura intacto? – ponderou, antes de calar-se para mastigar; Elizabeth sorriu de lado ante seus modos e à lembrança da conversa que dividiram. “Estando em meu navio, é meu dever prezar pelo seu bem-estar.” O brilho nos olhos da mulher, todavia, determinava pormenores muito maiores do que suas reles responsabilidades. O que certamente influiu para que Hector ergue-se meio sorriso a ela, em respeito à sua sagacidade. Deveras. Intacto para cumprir sua palavra com a bruxa e falar como aquele quem fizera o chamado à Corte.

— Ocorre, contudo, que o jovem Mestre Turner se esquece de que este débito já foi pago, pois se me falta a memória, ele ajudou Sparrow com a minha morte, à época. – comentou o lorde pirata, seus olhos então voltados para Elizabeth. Antonieta piscou, dando-se conta de que ignorara as circunstâncias pelas quais aquele grupo se uniu, em primeiro caso. Outra história que pediria ao pequeno cigno, sem dúvida.

— E, de qualquer forma, aqui está você. – argumentou a senhorita Swann, dando de ombros. – Troçando de todos os nossos esforços. – acrescentou em frustração.

— Por que, então, impediu? – inquiriu o capitão, arqueando interrogativamente uma das sobrancelhas a ela. Elizabeth bufou ante o desafio, batendo com as duas mãos livres contra o parapeito, ao que Mia lhe ofereceu outra lasca da maçã.

— Porque eu não sou estúpida! – defendeu-se com eloquência. – Se a bruxa disse que precisamos da sua ajuda, então precisamos de sua ajuda. – concluiu e Barbossa lhe cedeu um desdenhoso aceno de cabeça. – Ragetti e Pintel, ao que me pareceu, tentaram intervir em seu favor. – interpôs após algum silêncio, a afirmação entremeada de perguntas, mas ele não as respondeu.

— Lembra-se da nossa conversa sobre como histórias podem ser manipuladas, cara? – interveio Antonieta com os olhos fixos na figura calada de Barbossa, virando-se rapidamente para pegar o aceno positivo de Elizabeth, então tornando a encará-lo. – É muito fácil ceder a elas, mas pequenos detalhes como este fazem toda a diferença. Ele lhes salvou a vida, há muitos anos. – revelou prontamente, chamando a atenção do lorde pirata às suas palavras; à precisão de sua memória. – Sim... o homem tão mau que o próprio inferno o expulsou de lá; ele também se preocupa com a sua tripulação. – Antonieta falava como se em vezes de desbancar uma mentira; elevando sorriso tão gracioso, que embebia sua voz de promessas a respostas de todos os mistérios acerca do caráter humano.

— Agora, quem tenta justificar o que em quem? – Hector devolveu, mas sua própria voz não carregava qualquer sinal de desgosto para com a análise dela. Antonieta riu pelo nariz, dando de ombros antes de voltar-se para Elizabeth.

— Apenas – com fins a educação da senhorita Swann, vez que lhe fiz uma promessa quanto ao teor desta viagem a ela – estou tentando pontuar que... você não o odeia tanto quanto quer odiar. – Mia explicou-se brandamente, suas últimas constatações proferidas de encontro aos olhos dele. Outra vez abrindo espaço para a velada surpresa em suas feições, desafiando-a a provar que estava certa. Antonieta vira aquele mesmo olhar diversas vezes em Alberto, enquanto cresciam, para se deixar levar por ele. – Você não carrega o monopólio das escolhas pobres... não é como se nenhum de nós nunca houvesse feito algo assim antes...

— Fez? – foi Elizabeth quem a interrompeu, curiosa. Ao mirá-la, a Barbieri pareceu disfarçar a carga de cansaço que uma resposta lhe traria com um sorriso gentil e que, à certa luz, parecia desejar escusá-la de algum mal. Em tanto pareceu envelhece-la e diminuí-la que o cigno ousou fazer menção de apertar uma de suas mãos, solidária. Contudo, o breve encontrar com os olhos do velho capitão alertou-a para que se retratasse; Antonieta não a aceitaria.

— Fiz. – resolveu responder, por fim, suspirando. – A mesma brutalidade calculada, arrisco dizer. – riu, erguendo, por segundos, os olhos verdes até seu antigo algoz. – Logo no início de minha carreira... um galeão espanhol e, pelo que me lembro, estávamos deixando nenhum sobrevivente naquele dia... Villanueva tentou me humilhar, então eu devolvi na mesma moeda. – a explicação vinha sem qualquer vestígio da dureza que empregara ao falar-lhe sobre os homens que manipulavam as histórias de seu mundo, observou Elizabeth. – No entanto, recordo que o último homem a morrer me pediu um momento... e então me implorou para ser o único sobrevivente; ele tinha uma filha, aparentemente. Eu não me importei; e atravessei uma bala pela cabeça dele. Acreditando... me convencendo de que uma morte rápida.... fosse clemência. – concluiu soturna. Os olhos da senhorita Swann arregalados contra ela, e Antonieta soube que parte dela havia escapado de suas mãos para sempre.

Em verdade, porém, tal qual acontecera entre a loira e Jack Sparrow, tampouco aquela revelação sombria do caráter de Antonieta – presente ou passada – conseguia repeli-la totalmente de sua companhia. Nem mesmo a epifania da participação de Barbossa em acontecimentos pregressos que influenciaram o status ao qual fora reduzida no presente, diminuíam a centelha de respeito que começava a nutrir por ele; por ambos. Surpreendia-a, talvez, reconhecer que mais cinco meses ao lado deles simbolizasse um adeus à ignorância de primeiras impressões.

— Não se sobrevive muito tempo, — interpôs Barbossa, arremessando os restos de sua maçã ao mar, quando o silêncio se tornou insuportável demais; ou porque sentia-se no dever de pagar a defesa de Antonieta na mesma moeda, — caso comece a se importar com todas as vidas que cortam seu caminho. No fim, só se resume ao que um homem pode ou não pode fazer. – sua voz alcançava as duas, que abandonaram a discussão silenciosa de seus olhos a fim de cederem à divagação moral do outro capitão. – Eu poderia ter me mantido à sombra de um homem que seria para sempre um garoto, aceitado o descaso, vezes deliberado, outras não, despendido a mim e aos outros rapazes; que após anos sendo o dono de meu próprio destino, agora estava para sempre amarrado ao do mais leviano dos capitães... eu poderia tê-lo matado...

— Mas não matou. – observou Elizabeth, calma, com olhos simpatizantes aos dois. Reconhecendo, sim. Barbossa poderia tê-la matado, e Jack, ao invés de deixá-los naquela ilha mais uma vez. Especialmente ela... com quem não detinha nenhuma relação e que o enganara descaradamente. – Talvez a Capitã Barbieri tenha razão, — ao que Mia remedou em um murmúrio de desdém “talvez?”, — e você não o odeie tanto quanto quer odiar.

— Não estou negando a esperteza de Sparrow, tampouco sua natureza irritante, volúvel e o maldito ego...

Da che pulpito viene la predica! [3]— Mia interrompeu batendo as mãos contra o parapeito à bombordo de sua Stella, entre gargalhadas ruidosas. Elizabeth, mesmo sem entender, não resistiu ao trovar de sua voz, tão contagiante, acompanhando-a com um largo sorriso. Quanto a Hector, este apenas admirou-as com um grave muxoxo zombeteiro, aumentando a graça para Mia que ousou desferir palmadinhas amistosas em seu ombro; ao que ele desvencilhou-se da mão dela, abrupto, mas nada quebraria o espírito da capitã. A senhorita Swann observou-os, mesmerizada, ainda sorrindo. Com que facilidade ainda reprovaria outras de suas histórias e se permitiria intoxicar pela agilidade com a qual sombras desatavam gargalhadas; tornando muito mais genuíno vê-los exatamente como Antonieta os pintava.

Aos poucos, o rompante foi diminuindo e a capitã lutava para recobrar seu fôlego; a falsa humildade do capitão assumindo o pódio da melhor piada ao seu ponto de vista.

— O direito do jovem Turner de obter alforra comigo, espero, não deverá ser questionado uma segunda vez. – disse Hector, por fim, com toda a elegância aguardando o momento em que ela deixaria de rir-se dele. O resquício de uma busca por permissão, disfarçada no apurar das circunstâncias, recobrou a compostura dela.

— Não. – assentiu ela, sorrindo extasiada. Ele, então, assentiu polidamente, acenando com um floreio à Elizabeth, que riu, antes que lhe desse as costas. – No entanto, eu espero que tenha percebido, à essa altura, que uma das principais razões que me levaram a concordar em ajudá-lo foi a chance de que o prazer possa ser meu; quando for a hora certa. – acrescentou aumentando o volume em sua voz e a malícia no extasiar de seu sorriso, para que ele se sentisse obrigado a prestar atenção nela, estancando-o no meio do caminho; permanecendo de costas para ela, ouvindo o sorriso em sua voz, vendo-o ao fechar os olhos por um segundo de resignação. Elizabeth olhou de um para o outro, sentindo-se um tanto invasiva; a mudança no teor da conversa palpável.

— Eu talvez também tenha um último pedido. – e contrariando toda a irritação que aquele traço na personalidade expansiva de Antonieta lhe provocava, ele flertou de volta, e ela sentiu o sorriso em sua voz relaxando-a. A graça da parola.

— E o que eu não faria, Héctor,[4] por um velho amigo como você? – indagou recostada no parapeito, limpando a lâmina da adaga que estivera usando com a barra de sua saia. A jovem Swann notou os ombros dele relaxando por um segundo, sem conceder-lhe qualquer resposta, antes de seguir para o andar de baixo. Alerta, a Swann procurou por Will, encontrando-o junto a mezena com dois outros marujos. Com que, então, seus olhos voltaram para Mia, de soslaio, fitando-a sutilmente; o passo com o qual seu sorriso se sustentava no mesmo tempo que parecia morrer. Percebendo, tão logo seus ombros tornavam a se tencionar, a atenção da outra. E Antonieta piscou, apertando seu ombro com gentileza antes de tomar o caminho para o tombadilho. Seus passos imbuídos de naturalidade forçada; como se sua disciplina lhe fosse mais cara do que o frustrar por uma proposital omissão.

[1] cisne

[2] Escute aqui, velhinho.

[3] Expressão idiomática italiana que significa "Olhe de qual púlpito vem esse sermão!", mas que aqui vamos traduzir como: o sujo falando do mal lavado, mas com estilo.

[4] Aquela pronúncia maliciosa de Hector no italiano. Eu vivo por ela.

Notas finais
Vamos às péssimas notícias primeiro? Bem, existe um mal social chamado faculdade. Por culpa sua, não poderei atualizar Porto Venere na semana que vem e, talvez não por algumas semanas. Porém, não se desesperem. Não os deixarei esperando para sempre, tampouco desistirei da fic. Como sabem esta é uma reescrita que me é muito cara, logo, jamais a deixaria assim! Olhando pelo lado positivo, posso dizer que o capítulo 15 - o qual está em rascunhos na minha mente - vai ser o desfecho de um primeiro nó presente na história, então, conviria uma releitura enquanto ele não chega e para que os senhores leitores fantasmas e comentantes não se sintam abandonados kkkk Segundo, não é novidade para ninguém o meu amor por diálogos e capítulos que possibilitam que eu dê um significado maior a eles. O subtext está all over este aqui e eu gostei MUITO dele! Passou por várias edições, mas creio que o projeto final tenha sido satisfatório. Aguardo as opiniões dos senhores na caixinha de comentários!! Um beijo do fundo do meu coração ♥ Até logo. Prometo.