Notas iniciais
Boa Leitura! Nos vemos lá embaixo!

O que ela não faria por um velho amigo como ele, Antonieta dissera; carregando seu sotaque ao chamá-lo, em reminiscência a anedotas passadas. Aos poucos, com inquestionável consciência, ela transpunha as barreiras erguidas pelo tempo que os mantivera separados. Contudo, diferente do que imaginara durante seu reencontro, – de fato, àquela altura a Lady da Ligúria indubitavelmente tentara desfalca-lo por despeito –, não era mais prazer o que parecia compeli-la a tal. A vingança, o tipo de alforra que o jovem Mestre Turner gostaria de ter com ele, não fosse o impedimento representado na forma física resoluta da Capitã Barbieri; existiam diversas cores em seus olhos ao fixa-los nos dele. Nenhuma naquele vermelho pungente. Desde que lhe contara sobre a morte de Margaret e também da pequena encenação à frente de toda sua trupe, não era senão outra coisa o que enxergava nela. Ânsia. E sobre a frustração imbuída a este sentimento, Hector Barbossa ainda detinha vasto conhecimento.

Enquanto seguiam-se os anos, o velho Lorde do Mar Cáspio mantinha intacta sua, assim chamada por seus inimigos, tendenciosa e viciada opinião acerca de suas capacidades mentais. Poucos que a colocaram à prova, todavia, desfrutaram da oportunidade de contradizê-la; e muito provavelmente por isso sua raiva por Jack Sparrow jamais se abrandou. A chance sorriu-lhe mais de uma vez. “Você não o odeia tanto quanto quer odiar”, ela flexionara e nem todo o descrédito de seus olhos azuis teriam injeto incerteza à sua sentença, pois estava certa. O que permitia que ela estivesse, por outro lado, escapava a ele completamente. O que teria a tornado sempre tão esclarecida quanto às outras pessoas? Ainda que errasse, a falta da insegurança em suas palavras detinha poder o suficiente para que a incerteza fosse do outro... “e se ela estiver certa?”. E não por soberba, por vaidade, mas cautela e gentileza que vira-a despender apenas aos seus familiares mais próximos, à época.

Isto, independentemente do que suas perguntas viessem a lhe despertar, era inegável. Não foi vaidade ou o desejo de saber mais o que levou-a a insistir – quase três meses antes – sobre Margaret. Aquele foi o resquício último do orgulho da menina que conhecera. E não foi, tampouco, crueldade calculada o que levou-a a mencionar o nome de Carina, afinal, sequer sabia de sua existência. Não. Aquela foi a ânsia. E apesar de conhecer cada uma de suas versões e imaginar, com vigor, o que cada uma seria capaz de infligir sobre uma mulher como Antonieta Barbieri, surpreendia-se. Se ainda pretendia tê-lo como um de seus joguetes, e ele sabia que sim, não importava. O mais interessante, agora, era assisti-la tentando recobrar algo deveras diversificado para as circunstâncias. Algo muito próximo de camaradagem... e um respeito nunca enunciado, mas tampouco negligenciado por ambos. Antonieta o tinha em alguma conta. E Barbossa, para sua surpresa, desconfiava que seria demasiado natural dividir de tal graça.

Trazendo-lhe certa consternação – e grave desconforto – as palavras de Tia Dalma começavam a fazer sentido e a Lady da Ligúria parecia temê-la o suficiente para assegurar-se de que tivesse acomodações próprias em seus porões. “Alguém em que já tenha confiado e em quem poderia confiar de novo...” pouco provável, ele dissera. As probabilidades alternavam-se a todo momento. E, de fato, qual gesto seria grandioso o bastante para dois velhos amigos como eles? Perguntava-se, permitindo que seus olhos recaíssem sobre a figura parada ao seu lado com os braços cruzados e a expressão atenta aos movimentos de Elizabeth Swann contra sua cirurgiã; a seriedade acentuada pelo coque baixo no qual insistia manter seus cabelos. Finalmente, as lâminas foram abaixadas e ele desviou-se dela antes que percebesse – e tecesse qualquer comentário sobre – sua atenção. Sabiamente, assistia enquanto entre aqueles italianos, especialmente entre as mulheres e a senhorita Swann, crescia certo sentimento de comunhão calorosa.

— Como o conheceu? – a pergunta vinha de Antonieta, esticando a ponta dos dedos na direção do pequeno Jack que viera a sentar-se entre eles, ao parapeito do navio.

— Uma mão de sorte num jogo de cartas. – ele respondeu simplesmente, mesmerizado com a aceitação de seu companheiro para com os carinhos da capitã. – Teria ficado com ele de qualquer forma, contudo. O verme que o mantinha antes era um monstro. – acrescentou rapidamente. Antonieta sorriu.

— Palavras fortes. – comentou deixando que Jack subisse para o ombro de seu dono, acompanhando seu gingado com um risinho encantado. – Me dá esperança, sabe? – acrescentou fitando-o com a ânsia logo reconhecida por Barbossa, que sorriu enviesado, consciente.

— Esperança? – repetiu apertando os olhos e reabrindo-os significativamente.

— Sim. – assentiu a mulher, ajeitando uma pena de seu chapéu. – Você me contou sobre a Polly, lembra-se? – disse, recordando-o. Sua primeira macaquinha, antes de Jack. Polly. Esperta. Linda em seu vestidinho azul. Entendia tudo o que lhe dizia. Apenas duas pessoas sabiam sobre ela... Jack Sparrow e Antonieta Barbieri... e Margaret. Margaret também sabia. – Não se preocupe, seu ponto fraco está a salvo comigo. – ouviu-a dizer. Sua expressão devendo denunciar algo que ela compreendeu como aflição. – E, sim, me dá esperança.

— Devo ter confundido seu orgulho todos esses anos... se comparando a um animal de estimação?

Antonieta revirou os olhos.

— Você não os vê assim. – constatou, séria. – Se importa com eles da mesma forma com que se importa com o que lhe é mais caro, Héctor. E isso me dá esperança. – concluiu com uma piscadela imoral, deixando-o antes que pudesse refutar. Hector seguiu seus passos até Elizabeth com o olhar, dando-se conta de que a senhora Barbieri se mantivera atenta a eles; completava-se o terceiro mês de sua coexistência fria...

— Acredito que chegou o momento do juízo final para o nosso pequeno cigno. – Antonieta anunciava, dramaticamente. Dentre a tripulação instaurou-se um murmúrio calculado, enquanto sua capitã fazia uma pergunta silenciosa para sua segunda e primeira imediatas. O furacão Murphy jamais abriria mão de oportunidade para desafiar um recém-formado à moda Tiziana; assim Hector a conhecia. A velha Acidália, por sua vez, fitou a Barbieri longamente, fazendo com que o capitão refletisse sobre a chance dos outros tripulantes terem visto o mesmo que ele; o que, certamente, justificaria seus murmúrios. A coexistência fria estava destinada a acabar dentro do círculo que se abria sobre o deque. Se Antonieta compreendia o mesmo que todos, no entanto, preferiu ignorar.

— Vencer? – indagou a capitã para Elizabeth quando entraram em formação. As três graças contra a senhorita Swann.

— Trapacear. – respondeu a loira sorrindo de lado. Barbossa riu baixinho. Ela poderia ter aprendido bom-senso, mas seu espírito sempre prevaleceria. Suas mãos apertavam o punhal da espada com firmeza e o Lorde do Mar Cáspio lembrou-se de Antonieta cedendo-lhe uma de suas luvas sem dedos a fim de evitar que suas mãos caleassem em demasia, mas a filha do velho governador recusou-se. Sentia-se mais segura com a pele tocando diretamente o metal trabalhado, algo com o que, a seu entender sobre Mia, ambos os capitães poderiam se identificar na sua idade.

Diana atacou primeiro; e Elizabeth já mantinha seus olhos nela. A ambidestra. A pior parte de um duelo, na opinião dele, quando iniciou sua prática, sempre fora aquela tensão primordial quando nenhum dos dois combatentes sabe por onde o outro irá começar. Canhoto ou destro, isso parecia fazer muita diferença. No entanto, a experiência ensinara-o e, aparentemente, também à senhorita Murphy, que não importava o lugar onde se começa um embate, mas onde se está quando ele termina. Ele suspeitava que Diana fora uma daquelas pessoas forçadas, através das circunstâncias, a jamais aceitar a outra ponta da espada e, para tal, usaria de quaisquer métodos para evitá-la. Elizabeth já a conhecia um pouco, ao que seus movimentos indicavam. É claro, ele ignorara o pequeno duelo que a loira havia presenciado entre Murphy e Turner meses antes.

Sofia, então, entrou em auxílio a Diana, que abriu mão da esquerda para a outra loira que era, de fato, canhota. O cigno, como os italianos começaram a chamá-la, tentou afastá-la com um chute central, mas Acidália rapidamente retirou outra espada de seu coldre e cruzou-as à perna de Elizabeth, fazendo com que perdesse o equilíbrio por um segundo. Diana soltou um muxoxo agudo, chamando a atenção da novata para o embate que já possuíam em um de seus lados e esta aprumou-se agilmente, recobrando o fôlego. Sofia, prosseguindo, ousou quebrar a base de Elizabeth, mas ela alcançou a espada que já retornara ao coldre da italiana num rápido furto, impedindo seu pé com a ponta da lâmina. Ao fundo, Antonieta riu, dando a volta para se posicionar às costas de sua oponente. Sentindo-a, a loira driblou as outras e tentou acertar o vão de Mia por trás, sem tirar os olhos de Sofia e Diana. “Nunca os perca de vista”, Barbossa conseguia ouvi-la pensar na voz de Tiziana e Alighieri.

Intencionalmente, Antonieta desviou, tomando sua frente agora. Elizabeth sorriu, as três formavam a ponta de um triângulo e ela decidiu que iria pelo centro contra a capitã, deixando sua posição clara ao erguer a espada para arremessar o chapéu da Barbieri para longe de sua cabeça. A tripulação, tanto italiana quanto inglesa, inclusive a vítima do golpe do cigno, riram de sua ousadia, afundando-se dentro do triângulo a fim de permitir a passagem de Diana, que logo recobrou a liderança pela atenção da loira. Antonieta parou por um segundo, admirando-as; constituía hobbie antigo seu observar a dança a qual sua irmã submetia seus oponentes e havia beleza na forma com a qual Elizabeth a abraçava. Seus olhos, por fim, buscaram Hector entre os expectadores e ele acatou com um aceno de apreço desdenhoso que, ela entendeu, seria o máximo que elas obteriam pelo show. Por toda a brutalidade do golpe, subitamente, ela sentiu uma lâmina abrindo seu braço.

O grito imergiu o velho capitão para aquela noite, anos antes, quando ele próprio desferiu o mesmo golpe contra ela. Era tão perturbador agora quanto fora da primeira vez. Antonieta bufava com os olhos verdes abrindo-se em violenta surpresa contra sua primeira imediata. Eles brilhavam com a descoberta de uma nova modalidade de traição, ao passo que afastava a manga branca de sua camisa, manchada de sangue, e encarava o começo do corte e a cicatriz no pedaço não alcançado pela lâmina de Acidália. Aberta estava a velha cicatriz. Antonieta o encarou. O vermelho pungente finalmente fundindo-se à toda sua ânsia. Ela pareceu considerar por um momento que a culpa fosse sua, uma confabulação; mas logo, à altura em que seu rosto voltava a encarar Sofia – que nunca a perdera de vista – ateve-se ao fato de que aquilo era exatamente o que merecia por sua covardia.

Quebrou-se o silêncio com o choque da lâmina das duas irmãs. Alberto impetuosamente direcionou-se para o centro do círculo, mas Diana impediu-o. Elizabeth correu para junto de Gibbs e Olívia, apreensiva. Tia Dalma havia deixado seu covil ao som da balbúrdia e agora sorria misteriosamente à cena.

— Faça! – exclamou Antonieta, então, largando a espada e se ajoelhando ante Sofia que mantinha a espada erguida para ela.

Dio Mio! – esbravejou Diana. – Isso é ridículo! Ninguém quer ver vocês duas se comportando como... – mas sua advertência foi interrompida pelo grito ainda mais alto de Antonieta.

— Faça! – gritou. Contudo, Sofia escutara Diana, deixando que sua espada fosse ao chão, dando as costas para a capitã. Antonieta permaneceu ajoelhada por um instante. O conteúdo da conversa, de fato, não interessava a mais ninguém... não totalmente; “mas, foda-se” – Eu nunca te obriguei a ficar. – começou ao se colocar de pé, falando com vigor às costas dela, que tentava subir para o tombadilho – como se um andar de diferença ainda fosse o bastante para manter suas diferenças intocadas. – Eu. Nunca. Tomei. Suas. Decisões. Por você! – continuou pausadamente. – Você sempre quis ir... no fundo você odeia tudo isso! O que fazemos e como fazemos...

— E mesmo assim eu fiquei! – bradou Sofia em resposta, descendo até o último degrau, resoluta. Seus olhos azuis brilhavam com um tipo de traição diferente e Téo trocou olhares rápidos com seu pai. Alberto acenou para que as deixasse, observando Antonieta fraquejar diante de uma situação que já lhe era prevista. – O que isso diz sobre o meu amor e lealdade a você? Faz tão pouca diferença que é mais fácil simplesmente assumir que eu seria capaz de te matar, do que reconhecer a sua culpa? O quão egocêntrica você é, Antonieta?! É tão triste... você quer arrastar todos nós para o passado com você...

— Honrar as tradições que existiam neste navio antes de mim não é viver no passado, é respeito. O passado ao qual eu sei que você faz menção sequer existe mais, Sofia... e está sendo ingênua sobre o futuro. – encaravam-se como se outra vez estivessem naquela tarde em Siracusa. A cidade saqueada. A mãe de Sofia morta. Ela sem saber o que pensar a respeito da ideia de o auxílio vir na forma do mesmo tipo que a roubara. Tão ferida quanto a outra, a loira estancou.

— Não estou.

— Está. – Antonieta sorriu, empática. – Você está cansada de toda a matança; da traição e de como ela não parece fazer diferença sobre aqueles a quem escolhemos dar as costas ou não. Você está cansada das mentiras que contamos a nós mesmos e da moralidade deturpada que isso cria. Você odeia que Téo tenha crescido em meio a tudo isso, mesmo que ele não odeie. Você acha que assinar as cartas e ceder o controle de Porto Venere à homens como Lorde Beckett significa segurança; recomeço. E que a garantia conferida por uma assinatura num pedaço de papel significa que qualquer um daqueles porcos acredita em perdão, segurança e recomeço. – ela falava pesadamente e com calma. Os olhos de Sofia fecharam-se num misto de vergonha e dor; aquelas palavras reabrindo as suas próprias feridas, suas marcas tão ensanguentadas quanto a manga de Antonieta.

A Barbieri já não sentia remorso há meses. Os olhares, porém, atraiam-na para a vergonha, aproximando-a do momento em que deveria, por fim, admitir... A razão para não sentir mais nenhum remorso, o entendimento e quiçá aceitação daquilo que afastara seu olhar do porto naquela noite.

— Por que você acha que eu não olhei pra trás, Sofia? – inquiriu, então, chamando a atenção de todos.

— Orgulho. – sugeriu Acidália dando de ombros, mas seus olhos estavam marejados. Antonieta sorriu, respirando fundo.

— Medo. – foi a resposta da capitã, aprofundando o silêncio. Diana tornou a encarar Alberto; mais uma vez ela acreditava que o momento não pedia pela permanência de tantos olhos a testemunharem aquela conversa. No entanto, o Barbieri não se moveu. Seus olhos estavam não mais presos à esposa, mas em sua irmã. As mãos de Antonieta tremiam, como se seus pais houvessem acabado de morrer. – Em todo o Caribe; em todas as costas... forcas... nós somos ratos, Soff. Um pedaço de papel não nos torna menos ratos para eles. Foi assim que o Jack morreu...

Elizabeth piscou, sem entender. Antonieta sabia como Jack Sparrow morrera. No entanto, olhando ao redor, ninguém, a não ser William e ela, pareciam remeter o nome ao finado capitão sobre o qual aquela busca recaía. Rackham. Jack Rackham. Calico Jack. Ele também acreditara na clemência de um casaca vermelha; que um deles teria a humanidade de aceitar sua rendição em troca das vidas das duas únicas mulheres à bordo. Ele havia morrido alguns anos antes. Bonny e Mary segui-lo-iam pouco depois. Antonieta assistiu, disfarçada, à sua execução e a imagem de um amigo – um verdadeiro amigo – estrebuchando com a corda no pescoço de nada serviu para que acreditasse em homens como Lorde Beckett.

— Estou com medo. – ela repetiu olhando para todos os seus tripulantes, abrindo os braços em resignação. – Como você. – insistiu, esticando um de seus braços até Sofia. O coração da primeira pesava; aquela cena remetendo-a a todas as vezes em que precisou recolher os cacos de Antonieta a fim de reergue-la. – Eu falhei. Estamos vivos, mas assim que voltarmos... todos nós...

— Retomaremos o forte, lutando. – completou Cínzia, apoiada por todos.

— Dois navios foram o suficiente para nos dominar. – Antonieta insistiu, ferozmente. – Quantos mais aquele maledetto não colocou na costa? Eu não posso...

— Ótimo! Então você está sendo derrotista porque não acredita em nós ou porque está com medo de morrer? – inquiriu Angello Ferretti ao lado do irmão. Mia riu, uma risada abafada, cansada.

— Envergonhada por permitir que isso acontecesse, é melhor. Vocês precisavam de mim para lutar, naquela noite... eu estava prostrada...

— E onde eu estava? – desdenhou Alberto. Os olhos seguiram sua voz e cabeças assentiram. Bêbado. Caído sobre sua cama, indiferente a todo o terror da explosão. Quando Sofia desceu até a cabine de Mia e lhe contou o que acontecera, a prima reação do Capitão Barbieri fora o silêncio; e ânsia de vômito.

— Eu perdi seu navio. – sua irmã lembrou-o, como se aquele fosse o maior crime que uma fratella pudesse cometer contra seu fratello.

— Você salvou nossa família. – rebateu taciturno.

— Nem todos. – e aqui seus olhos recaíram sobre Beatrice, que sustentou o pesar em seus olhos com alguma simpatia. Olívia tomou-a pela mão, também fitando Antonieta como se assegurasse-a de que nenhum deles esperava que ela carregasse o mundo sobre seus ombros, mas ela não conseguia evitar. Responsabilidade. Tentara fugir por diversas vezes, negando que o destino de seus pais seria o dela; segura de que viver em terra, administrando um império, seria suficiente ao seu espírito dominante. Contudo, alguém a convenceu do contrário e despertou-a para outro lado de si mesma... alguém que a traíra duas vezes e mesmo assim, ali se encontrava. Dentre os seus homens.

— Acuar-se nunca foi a sua natureza. – ela ouviu-o dizer, naquele mesmo tom que escondia um elogio, remetendo-a à sua primeira conversa. Fechando os olhos, se permitiu o gozo daquelas palavras; sabendo que, mesmo escolhendo não encará-lo, Hector Barbossa sabia quando era ou não ouvido.

— Estávamos sendo explorados por aquele calhorda de Galera, você pagou para que ele nos liberasse. – disse Marco dando um passo à frente, sua voz quebrou o silêncio, chamando a atenção de sua capitã e companheiros. Antonieta recordava-se do dito dia; uma ilhota na Ligúria. Dois irmãos prodigiosos brutalmente maltratados por seu mentor; foi a primeira bonificação que pagou aos Ferretti e, segundo eles, ainda valia mais do que a porcentagem de seus saques.

— Meu irmão e eu estávamos à deriva, fugindo de um cargueiro de escravos. Você nos recolheu com mais nenhuma pergunta além de: conseguem fazer a volta do fiador? – os que se lembravam da ocasião riram sem-jeito, mas Mia permanecia estática. Aquele era um dos nós mais simples entre os marinheiros e a capitã simplesmente tivera a intenção de deixá-los à vontade, na época. Carlo mal conseguia falar diante dos horrores que vira, e ainda o atormentavam, dentro de um navio como aquele; sendo obrigado a fazer o suficiente para manter os escravos vivos, mas não, de fato, salvá-los.

Um por um, a tripulação desandou em relatos sobre como Antonieta entrara em suas vidas e, a cada anedota, uma imagem sólida se pintava aos olhos da tripulação do Pérola Negra a respeito daquela mulher. Diana foi a única a se recusar pois, segundo ela, “Antonieta sabe o que fez”.

— Nenhum de nós está acima do medo. – Alberto falou à sua vez, tomando-lhe a mão direita e erguendo-a à altura de seus olhos. – Este anel é seu por uma razão. Nunca se esqueça disso. – o anel em seu anelar; uma opala branca com uma mancha roxa semelhante a uma violeta ao centro; carregando, em seus poucos quilates, seu status de líder dentro daquela embarcação.

Ao lado de Alberto, Sofia assentiu, sorrindo.

— Eu estou aqui. Estou aqui e não vou a lugar nenhum. – disse a fim de lembrá-la de promessa muito maior do que quaisquer dúvidas que ainda pudessem a elencar sobre si mesmas.

— Por enquanto. – mas não havia traço algum de ressentimento na voz de Antonieta, mas paz. Uma nova normalidade, assim como prometera a Téo. Enfim, ela vasculhou os olhos de todos seus tripulantes, seus familiares, e encontrou Federica com seu chapéu. A pequena caminhou até ela, entregando-o. – Retomamos o forte. E então retomamos a nossa cidade!

Pés bateram pelo convés e uivos de glória ecoaram pelo oceano. Súbito, Mia sentiu uma leve pancada em seu ombro. Era Olívia. Seu sorriso brilhando cheio de significado para a capitã, enquanto desviava-se dela para a balbúrdia. O silêncio não é perdão. O silêncio não é consentimento. O silêncio não tem valor algum. O silêncio não mais se faria ouvir.

Notas finais
Olá, queridooos!!! Sentiram saudade?? Kkkkkkkk Eu senti! Nossa... minha crise de ansiedade atacou muito para digitar esse cap e voltar com os próximos!! Bem, não sei quando eles vão sair também, espero que breve; aproveitem essas três mil palavras! Pessoalmente, não sei o que pensar... não gostaria de me prolongar mais neste entrave, vez que este capítulo veio como paralelo ao capítulo 5 (que eu não planejei, juro!) - no qual Sofia e Diana tiveram sua chance de discutir um pouco. Entre ela e Antonieta... estou morrendo de medo de ter simplificado demais... então, vocês me digam o que acharam!! Beijinhos e até a próxima ♥