Lembranças
39 Winter has come
Notas iniciais
Acordei meio que desnorteada, porém logo me tranquilizei ao sentir que era o corpo do Rick junto ao meu. Olhei para o relógio na mesinha de cabeceira: 16h25min.
– Rick... – Sussurrei enquanto me aconchegava a ele.
– Hun... – E aquele sorriso de abriu enquanto seus braços me abraçavam mais forte. – Se for um sonho me deixa dormir mais um pouquinho. – O beijei levemente nos lábios.
– Sua sorte e minha sorte é que isso é realidade. – O beijei mais longamente. – Mas a falta de sorte se encontra no fato de que já são 16h e a gente precisa voltar pra Manhattan hoje.
– Um dia eu vou te raptar sabia?
Sorrimos e antes de me levantar ainda trocamos mais beijos e carinhos. Fugi da cama para o banheiro. Arrumei-me rapidinho. Sai do banheiro já juntando minhas coisas e tentando organizar a casa e o quarto para o deixarem na mesma ordem anterior. Do andar de cima dava para ouvir a forma desajeitada que Rick juntava e arrumava as coisas lá embaixo. Quando terminei tudo eu peguei a bolsa e desci. Encontrei Rick ainda cobrindo os móveis. Ajudei-o a terminar. Quando estávamos próximos da porta ouço meu celular tocar.
– Oi mãe!
– Oi querida, está tudo bem por ai?
– Tudo bem mãe.
– Como foi o almoço?
– Foi bom. A “tia da Lanie” fez uma receita italiana. – Rick segurou o riso enquanto eu o encarava.
– Que bom! E o parque? Deu para irem nessa chuva?
– Nem arriscamos, demos só uma volta e comemos algumas guloseimas. – Rick balançava a sacola com as guloseimas que ele havia comprado, enquanto ria.
– Já estão voltando? Cuidado com a chuva. Pede pra Lanie dirigir com cuidado... Ela tá ai perto? Deixa-me falar com ela...
– Não... Quer dizer, ela está aqui... – Fiz sinal pro Rick entrar no FaceTime pra falar com a Lanie. – Mas está terminando de tomar banho... Quando ela terminar a gente vai. Mas pode deixar que eu direi seu alerta para ela.
– Ok... Peça para ela me ligar depois que sair do banho. Quero falar com ela também.
– Ih mãe, pra quê tanto cuidado? Está tudo bem. – Ela estava me deixando nervosa. Rick fez sinal de que havia conectado.
– Katherine, eu sou sua mãe e todo cuidado é pouco. Não gosto de duas meninas, uma com recém-carteira tirada, dirigindo no meio da chuva.
– Eu sei mãe, desculpa. Mas estamos crescidas, a Lanie é sempre cuidadosa, não precisa se preocupar. Também tenho juízo. – Rick põe o celular, com Lanie na chamada, na minha frente. – E a chuva nem tá forte...
– Ok, ok... Mande um beijinho para ela. Juízo!... Espero você para o jantar?
– Acho que vou passar na Lanie primeiro, mãe.
– Tudo bem então. Até mais tarde. Qualquer coisa me ligue.
– Certo. Beijos.
Lanie que ainda esperava assustada na chamada finalmente falou algo quando me viu desligar e suspirar fundo.
– Garota essa foi por pouco!
– Ai Lanie, desculpa.
– Tudo bem, agora eu acho melhor vocês dois começarem a se mexerem para voltar. Andem logo, mais uma desculpa e ela não vai mais cair!
– Claro, estamos indo... Eu e Rick já estamos saindo. Ele vai me deixar ai na sua casa ok?
– Tudo bem... Ai você me conta os babados. – Lanie falou sugestivamente.
– Pera aí?! Contar o quê para ela Kate? – Rick se assustou. Nós duas gargalhamos.
– Nada que manche sua reputação Richard Rodgers. – Eu falei em meio às risadas.
– Ah Kate, quê isso?! Sério mesmo? – Ele estava realmente alarmado. – Lanie!
– Lanie, depois a gente se fala... Obrigada por tudo, beijos. – Desliguei a chamada e virei-me pro Rick.
– O que você fica falando sobre mim para a Lanie?
– Ah... Muitas coisas... – Falei o provocando. Abri a porta e da varanda o chamei que já estava com nossas bolsas na mão. – Agora vamos que não podemos nos atrasar. Mamãe pensa que estamos em Coney Island.
– No carro você vai me explicar, não vai?
– Vou pensar no seu caso...
Entramos no carro e durante todo o percurso de volta Rick ficou tentando me persuadir para contar sobre os assuntos que eu e Lanie costumávamos conversar.
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O tempo foi passando. Eu e Rick estávamos cada vez mais próximos. O inverno chegou mais frio que anos anteriores. Mas dessa vez eu tinha a sensação do amor mútuo. Era um inverno diferente.
Passamos o inverno entre livros, cobertores, fondues, patinações, tombos, omissões, fugidinhas e alguns dias na cabana dos meus pais, claro, essa última acompanhados. Infelizmente.
Logo o Natal se aproximou e o que já esperava que acontecesse se anunciou. Dona Martha Rodgers mandou através do Rick convites, para mim e meus pais, para um jantar na casa dela. Rick estava em pânico. Ele sempre me dizia que a mãe dele era uma louca convicta e que juntar ela com meus pais poderia ser uma explosão eminente. Eu na verdade estava nervosa pelo fato de finalmente rever a Dona Martha, ou melhor, apenas Martha como ela gostava, como namorada oficial do filho dela. Lembro-me dela quando eu e Rick éramos crianças. Ela sempre me pareceu divertida. Porém sempre ouvi e ouço Rick reclamar de sua ausência.
Foi, a princípio, um encontro amigável e sem muitos requintes, apesar do apartamento luxuoso que Rick vivia. Eu ainda não havia entrado lá. Conhecia o apartamento dele anterior. Não o novo. Ela me recebeu com um caloroso abraço e me disse que eu estava muito mais bonita. “Rick é um garoto de sorte mesmo!” Ela me disse sorrindo. Os olhos azuis tão brilhantes como os do Rick. Logo em seguida cumprimentou minha mãe com dois beijinhos no rosto e meu pai com um aperto de mão. Martha estava vestida de uma forma nada convencional e isso já deixou meu pai de sobrancelhas arqueadas e expressões fechadas. O jantar estava péssimo. E ao perceber, Martha que sempre agia e falava teatralmente, deixando minha mãe desnorteada, pediu a janta em um restaurante de entrega. Rick suava frio e tinha uma expressão preocupada com o fim do jantar. Eu procurava acalmá-lo.
Conforme o novo jantar foi sendo devorado, logo vários temas e assuntos foram sendo discutidos e de certa forma isso foi preocupante, porém bom. Os assuntos trocados permitiram que meus pais entendessem e conhecessem melhor aquela atriz. Permitiu ver a Martha Rodgers além da vida artística. Permitiu que Martha entendesse os limites dos meus pais. Mamãe estava mais propícia a querer conhecer o desconhecido. Papai, sendo influenciado pela sua esposa, acabou cedendo e se abrindo a diversas conversas. Pela primeira vez eu e Rick esboçávamos um sorriso durante o jantar. Creio que o vinho também ajudou para que muito em breve eles estivessem rindo enquanto Martha contava a vida dos bastidores televisivos.
Rick me levou para conhecer o quarto dele. Havia muitas coisas curiosas e nerds. Mas todos de um estilo que me agradava. A não ser por uma caveira esboçada em uma falsa carne viva e sangrenta. Era nojento! Algumas coisas, como coleções de quadrinhos e alguns jogos de videogame eram tão velhos quanto nossa amizade. Além de coleções e objetos, ele tinha muitos mais manuscritos do que eu poderia imaginar. Vez ou outra ele me deixava ler algum. Mas a maioria era quase um segredo. Ele se dedicava a essa habilidade. Ele acreditava e me fazia acreditar que realmente esse era o destino dele. As maiorias dos contos, que estariam na revista literária na volta as aulas, já estavam escritos. Ele fazia com que eu o admirasse.
Ele não queria que eu percebesse, mas era claro o esforço que ele vinha fazendo, para quem sabe, alcançar nota suficiente para concorrer a uma vaga em Stanford.
O jantar terminou bem. E logo ouvi comentários na volta para casa do Senhor e Senhora Beckett que Martha era uma boa pessoa apesar da sua loucura inegável. Que Rick tinha de quem herdar o bom coração. Esses comentários me tornaram, e a Rick também, mais confiante de que nossos rumos dariam certo.
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