Lembranças
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Alguns fios dourados de Emma Swan acariciavam levemente minha pele e eu soube. Ou, pelo menos, achava que sabia. Inclinei-me apenas alguns milímetros e nossos narizes de encostaram e se roçaram carinhosamente. Sua respiração agora era minha e o ar quente que emanava de nós poderia levantar um balão capadócio. Quando minha testa empurrou a de Emma um pouco mais e nossos lábios estavam prestes a se conhecerem, o ar ficou gelado novamente. A presença de Emma se misturando com a minha já era passado e ela expirou pesadamente, afastando-se com cuidado.
— Regina...
— Ah, Emma! Desculpe-me. Meu Deus, eu não sei o que deu em mim. – Eu tentava não gaguejar, mas as palavras pipocavam umas por cima das outras na pressa de tentar consertar a merda que eu fiz. – Nossa, eu-
— Está tudo bem. – Ela tentou me acalmar com um riso fraquinho. – Regina, eu não posso.
— Eu sei. Céus, eu sei. E eu muito menos. Acho que foi a emoção do momento, você dançando e falando aquelas coisas... Perdão, mais uma v-
— Aquela mulher é minha namorada. – Ela me atropelou. Em mais de um sentido. O impacto daquela sentença me jogou para o alto, me revirou a cabeça, o coração e o estômago.
— Como?
— Lily. O nome dela é Lily.
— Que seja. Quando vocês se conheceram? Por que não me contou que tinha uma namorada? – As palavras saíram como um soco em meu estômago. A cada dia que passava, Emma Swan era mais surpreendente.
— Então... – Ela pareceu ignorar a clara (ainda que escura) tristeza em meu rosto e em minha voz. – Você se lembra de quando eu te deixei meu cartão e disse que havia uma história naquele desenho? E também no dia do parque quando eu te disse que eu passei os melhores e piores anos da minha vida no Tallahassee? – Ela afundou as mãos nos bolsos e encolheu os ombros. A dor em seus olhos era gritante.
— Sim, claro, lembro... – Cruzei os braços e afirmei com a cabeça, dando-lhe autorização para continuar. Mas ela só me olhou. Franzi as sobrancelhas numa tentativa de ler a mente de Emma, mas falhei. Bem, nem tanto. – Oh, então... essa Lily... ela é o seu passado, não é? – Emma apertou os lábios e confirmou com a cabeça. – E quando ela voltou? Ou melhor, por que ela foi embora, em primeiro lugar?
— Ela... eu... – Eu mal conseguia escutar o que ela falava devido ao som ensurdecedor da banda de jazz que se apresentava naquele momento. – Regina, eu posso passar na sua casa hoje depois do festival? Tenho muita coisa para te contar, mas aqui está impossível.
— Tudo bem... mas sua namorada não vai ficar com ciúmes? – Um pouco de veneno escorreu sem querer ao respondê-la. Aprendi com Robin.
— Nah... eu não sei o que deu nela hoje. Lily nunca foi ciumenta. Desculpe-me por mais cedo. – Simplesmente sorri e aceitei as desculpas.
— Desculpe-me também.
— Pelo quê?
Sério? Ela ia me fazer falar o que eu quase fiz com ela alguns minutos atrás? Ela tem amnésia? Por Deus, Emma Swan. Por Deus.— Ah, você sabe... – Minhas bochechas já estavam em chamas. – Eu passei dos limites e –
— Ah, sim. Regina, está tudo bem.Você não sabia. Desculpe-me por não ter contado antes.
— Desculpe por eu não ter deixado você contar. Aliás, por que sempre terminamos uma conversa nos desculpando? – Ri para tentar amenizar o clima tenso que existia entre nós. – Será que estamos fazendo tudo errado mesmo? – Era para ser uma pergunta retórica, mas parece que sua resposta estava na ponta da língua.
— Eu não acho que estejamos fazendo tudo errado. Acho que tudo aconteceu rápido demais, e eu não reclamo disso. Regina, você foi a melhor coisa que aconteceu em minha vida em muito tempo. Nossas almas se conectaram instantaneamente e essas conversas e revelações apressadas foram quase que imperativas. Como se tivéssemos que recuperar o tempo perdido. – Uma pausa. Eu não tinha nada para falar, nem para pedir perdão, nem para perdoar. – Eu não sei você, Regi, mas eu perdi tempo demais me martirizando por todos na minha vida me deixarem. Os ponteiros repetiam seu ciclo cruel e intocável e eu fiz todas as coisas erradas e terminei sem ninguém. Você... bem, você fez tudo certo. Tudinho, nos mínimos detalhes. Você tem um lar, amigos, um marido, um filho maravilhoso, estabilidade financeira... e, ainda assim, me desculpa por dizer isso, você terminou sem ninguém. Eu só quero que você me deixe ser o alguém que falta na sua vida, na medida certa, e você será o meu. O que me diz?
Não tinha como eu me sentir ofendida com o fato de Emma Swan ter me chamado de infeliz aos quatro ventos. Porque, no fundo, era a mais pura verdade. E a verdade não ofende, só machuca. A vida crística que levava desde que posso me lembrar se chocava com os passos profanos de Emma e talvez por isso fôssemos almas gêmeas.
— Eu acho que... eu acho que assim está bom. Na medida certa. – Respondi sublimemente, com um sorriso pela metade. Qual seria a medida certa, afinal?
— Que bom. – O sorriso de Emma tinha uma curva de esperança. Meu sorriso em devolução foi um pouco murcho. Eu tinha medo de saber de qual medida Emma estava falando. Para um bêbado, alguns mililitros de cerveja não fazem mais efeito. Assim como, para mim, ter Emma como uma mera colega com quem posso fazer piqueniques e compras não faz efeito. Eu precisava de mais.
Logo depois de nossa desconfortável troca de sorrisos, Robin, como sempre, interrompeu nosso momento – talvez, dessa vez, eu até estivesse agradecida por isso. Henry e Mary estavam juntos a ele e se despediram de Emma com um forte abraço. Ela e meu marido deram um aperto de mão endurecido e, finalmente, eu e Emma trocamos um último olhar. Um olhar na medida certa para impedir que eu ficasse.
Meus pensamentos eram um rio correndo em direção ao abismo, sem represa, sem nada capaz de pará-lo, de impedi-lo de pensar no que aquela tarde havia sido e em tudo o que ela me contara. Eu não conseguia parar em Emma nem por um segundo, e em seus olhos tropicais, ensolarados, aconchegantes. Saber que aqueles olhos brilhavam por outra pessoa provocava em mim uma sensação sem precedentes.
Segui todo o caminho perdida em mim, seguindo em linha reta com direção a uma casa incompleta – tinha paredes, portas, janelas, mobília e tapete felpudo; mas o amor, o amor ficou trancado do lado de fora. Pensei demais nas palavras de Emma quando ela disse que ela é a amiga que eu nunca tive mas da qual sempre precisei. Lembrei do jeito como ela entrou na minha vida, subitamente, diretamente da escuridão – literalmente – e isso me fez rir. Meu marido lançou-me um olhar curioso e logo perguntou por que eu estava rindo. Respondi que era de Henry e de algo engraçado que ele dissera lá no parque e ele assentiu, sorrindo. Às vezes, muito lá no fundo, doía mentir para Robin. Apesar de ele ser rodeado por uma aura de enganações e hipocrisias, ele era meu marido. Era o homem a quem eu devia respeito e lealdade.
Chegamos à casa e o cheiro rotineiro de lar me revirou o estômago, por razões que eu não poderia explicar. Desejaria poder dizer que estou nessa só por Henry, mas a quem quero enganar? Faço isso por Robin também, e por mim. Para onde eu iria sem a estabilidade financeira e social que Robin me oferecia? Para os braços de Emma? Bem, não era uma opção. Ou, pelo menos, eu achava que não era. Esse cabo de guerra dentro de mim ficava cada vez mais intenso, e, a qualquer minuto, um lado puxaria mais forte e não teria mais volta. Eu já sabia o que fazer.
O tempo em que fiquei sob aquele teto de mentiras e relevamentos foi o de uma respiração profunda a fim de me acalmar por um segundo. Sem dar qualquer satisfação, eu saí.
Em passos ligeiros até o carro, eu já tinha um destino em mente. Parti, acelerando como louca que sou, com meus pensamentos presos a uma única pessoa, talvez a única pessoa que pudesse me iluminar naquele momento. Dirigi por estradas contínuas, de linha reta, que pareciam intermináveis – bem como minha vida. O primeiro alívio daquele dia estampou um sorriso que custou para se abrir, e esse alívio tomou meu peito quando passei pela placa ‘Welcome to Jefferson City, Alabama’.
Menos de dez minutos se passaram até que eu pudesse estacionar à frente de um jardim tímido, porém bem cuidado. Eu sabia que havia chegado ao lugar certo. Toquei a campainha e um sorriso diferente me deu as boas-vindas. Não era quem eu estava esperando, e um soco de preocupação acertou minha cabeça em cheio.
— Boa noite, senhorita Mills. – O sorriso me disse.
— Olá, querida. – Sorri de volta, ansiando entrar e verificar se estava tudo bem.
— Entre, fique à vontade. Ela estará de volta em alguns instantes.
Adentrei aquela casa que há muito não via, esperando pela residente cuja voz há muito não me acalmava. Sentei-me na poltrona de veludo empoeirada, mas não importava que tivesse empoeirada, pois continuaria mais limpa que meu julgamento.
Ela apareceu. Sua aparência era pacífica e tranquila.
— Regina, meu amor. – Agora sim, o sorriso que eu esperei e do qual eu tanto precisava nesse momento.
— Olá, mamãe. Como a senhora está? – Um aperto que eu não havia percebido estar ali acabara de ser liberado para fora do meu peito assim que eu abracei minha mãe. Sentia uma falta daquele abraço e daquele aconchego que casamento nenhum pode nos proporcionar.
— Quem é vivo sempre aparece, não é? Estou bem, filha. Onde está meu neto? E Robin? – Ela olhou por cima de meus ombros a procura dos outros membros da família.
— Ahn, então, eles não sabem que eu estou aqui. Vim às pressas porque preciso conversar. Preciso de uma luz. – Ela se sentou no sofá e eu me movi da poltrona senil para me assentar ao seu lado, tomando suas mãos nas minhas.
— Ah, entendo. Às vezes precisamos sair de dentro de todos para que possamos entrar em nós mesmas. – A sabedoria de minha mãe chegava a assustar de vez em quando. – Diga, Regina, o que te traz até a velha aqui? – Um sorriso complacente repousou sobre seu rosto cansado.
— Mamãe, estou confusa. Conheci uma pessoa há um tempo atrás, logo depois que saí da sua casa aquele domingo, lembra? – Um silêncio se estabeleceu. Alzheimer. Ela não se lembraria. Limpei a garganta e continuei. – Enfim, conheci uma pessoa. Ficamos próximas uma da outra rapidamente e nossa amizade estava indo super bem.
— Isso é ótimo, filha! Sempre te disse que você precisava de amigas novas, aquela Zelena não é flor que se cheire. – Zelena era o nome da minha melhor amiga no ensino fundamental. Era o Alzheimer falando.
— Eu sei, mãe. É ótimo, mesmo. Mas não acabou. Na verdade, está longe de acabar. Eu comecei a ter sentimentos por essa pessoa, sentimentos que eu não deveria ter mas não posso controlar. Cada dia que passa eles ficam mais claros na minha cabeça, mas não posso dar continuidade a isso. – Eu encarava o chão com uma expressão perdida.
— E por quê não? – Ela perguntou, como se fosse a pergunta mais banal do universo.
— Eu sou casada, mãe.
— E desde quando isso impede o amor de acontecer? – Ela continuava com o tom de simplicidade que, de fato, todas as coisas deveriam ter. Suspirei.
— Não é só isso. – Fechei os olhos e me preparei para o pior.
— O que mais está acontecendo? – Ela se inclinou em minha direção, procurando meus olhos para dar-me sua compreensão.
— Ela é... uma mulher. – Meus pensamentos tornaram-se pesados e uma tontura se alastrou pelo meu corpo.
— Oh. – Ela desviou o olhar e passou a, junto a mim, encarar o carpete. Eu não sabia se aquilo significava o fim da conversa ou somente o início. – Regina, eu-
— Não precisa dizer nada, mamãe. Eu sei que é demais para a senhora. Desculpe-me por ter vindo até aqui lhe importunar com meus delírios. Eu já vou indo. – Tentei me levantar do sofá mas seu toque materno me impediu. Seus dedos abraçaram meu punho e lá estava eu, sentada novamente, com lágrimas na beira de meus olhos, se segurando para não caírem.
— Filha, está tudo bem. – Foi tudo o que ela disse.
— Não, mãe não está. E, mesmo se estivesse, não estaria. Ela é comprometida. Tem uma história complicada que eu nem lhe dei a chance de me contar.
— E isso a torna diferente de você em algum sentido? – Ela retrucou.
— Não sei onde você quer chegar. – Franzi as sobrancelhas tentando achar nexo no que ela estava falando. Talvez eu não precisasse de tanto esforço. Alzheimer.
— Regina, acha que eu te conheci ontem? Posso estar caquética e doente, mas não sou uma estranha. Sou sua mãe. Nunca me esqueceria da sua história e de como você a enfrentou. Talvez essa mulher por quem você está perdidamente apaixonada precise de alguém que vá enfrentar essa batalha junto com ela. Vocês duas têm uma bagagem emocional bombardeada. Apoiem-se uma à outra e amem uma a outra. Você vai ver como tudo vai melhorar. E, por favor, não procure mais aquela Zelena. Amanhã vou telefonar para a mãe dela e ter uma conversa sobre os rumos que sua filha está tomando. – Eu não pude deixar de rir. Tão sábia.
— Mamãe... eu não posso. E Henry? Eu prometi a ele, em segredo, uma família. Uma mãe e um pai. E ele tem isso agora. Robin tem uma família, Henry tem uma família e eu tenho uma família. Não posso deixar tudo ruir por conta de uma paixonite que provavelmente é só mais uma fraqueza para me tirar do sério. – Céus, eu tentava mesmo me convencer de que era apenas uma paixão adolescente.
— Querida, eu estou doente. Eu não consigo me lembrar nem de coisas corriqueiras nem das memórias mais distantes, mesmo as mais felizes. Minha vida se resume ao momento. E assim é o amor: como uma doença. Mas não necessariamente uma fraqueza. O amor foi feito para ser sentido e compartilhado, não trancafiado e silenciado. O amor é inconsequente, vive pelo momento, porque é sempre certo. Amar, Regina, amar é sempre a coisa certa a se fazer. Se você não deixar o amor te trazer de volta à vida, você morre, assim como a mais mortal das doenças. Viva, ame! Ninguém se importa se é mulher ou homem. O amor não tem rosto, filha, apenas alma. Ame de alma para alma. – E sorriu, apertando minha mão entre seus dedos.
Eu não saberia dizer se era o Alzheimer falando por ela. Nós ouvimos histórias de pessoas que deliram por causa de um tumor no cérebro, de sentidos que se apuram na ausência ou deficiência de outro. Não sei se minha mãe disse aquilo do fundo de seu coração bom e inundado de amor ou de sua cabeça escangalhada. Mas ela disse o que eu precisava ouvir, então eu agradeci a ela por inteiro. Um silêncio, talvez necessário, se estabeleceu no ar. Digeri tudo o que minha mãe falou e, mais uma vez, quando estava prestes a me levantar, ela me segurou. Suas mãos me pegavam mais levemente, antecipando um assunto mais banal.
— Então... essa mulher, como ela se chama? – Ela me olhou e sorriu, realmente interessada em ouvir sua filha de treze anos falar sobre seu namoradinho. Bem, no caso, namoradinha. Minhas bochechas coraram e meu sorriso se expandiu espontaneamente.
— O nome dela é Emma. Emma Swan. – Céus, por que eu não parava de sorrir?
— Emma. Nome lindo, antigo, chique. Emma. – Ouvir minha mãe dizer seu nome me fazia ver a vida daqui a alguns anos: a casa cheia, Henry correndo e Cora e Emma conversando dobre jardinagem ou paisagismo, coisas que deixavam minha mãe em paz. E o sorriso em minha boca, esse seria o mesmo sempre. – O que ela faz?
— Ela é engenheira elétrica. Nos conhecemos na igreja no dia em que houve um apagão. Ela é minha luz, mãe. Você precisa conhece-la: ela é ótima com o Henry, parece que são duas crianças ao invés de uma. Ela é um terror cantando, mas nada que umas aulas não melhorem um pouquinho. – Eu sabia que minha mãe não estava conseguindo acompanhar nada do que eu falava, mas não importava. Ali, naquele momento, foi a primeira vez que pude falar de Emma Swan da maneira como eu realmente queria falar.
E, como se ainda fosse necessário, minha mãe perguntou:
— Ela te faz feliz, meu amor? – Seus olhos estavam marejados.
— Sim, mamãe. Ela faz. – E então não foi mais preciso esconder o que eu estava segurando desde que entrei em meu carro a caminho daqui. Chorei. Chorei sorrindo e agradeci a Deus por ter cedido uma mulher como Cora Mills para ser minha mãe. Ela, então, guiou meu rosto até seu ombro e ali todo o meu corpo repousou, de olhos fechados, podendo enfim descansar de todo o desgaste que o amor nos dá.
Não sei quanto tempo se passou, mas voltei à realidade quando minha mãe mexeu os ombros agitadamente chamando meu nome, nervosa.
— Regina! Regina! É hoje! Levante-se!!! – E ela me sacudiu. Hã?
— Mamãe, se acalme! O que tem hoje? Estou aqui! – Segurei-a pelos ombros, pois ela já estava andando pela sala procurando por alguma coisa. – O que a senhora está procurando?
— Está aqui em algum lugar! Regina, você vai se atrasar! – Ela coçava a cabeça em preocupação, e a procura por sei lá o quê continuava.
— Mãe! Eu não vou a lugar nenhum! Sente-se e se acalme. – Levei-a pelo braço até o sofá e consegui com que ela se sentasse.
— Regina, é claro que você vai. Hoje é o grande dia. Você vai se apresentar, e não estou nem aí se você pegou o papel de árvore naquela porcaria de peça. Você vai ser a árvore mais verde, frutífera e com a melhor sombra daquele palco! Não deixe a Tinker te ofuscar só porque ela conseguiu o papel principal. Você é minha macieira preferida, meu amor. – Ela acariciou minha bochecha e logo se levantou, mais calma. Caminhou, de forma fraca, até o aparador perto da porta e eu, é claro, a acompanhei. Minha mãe abriu uma gaveta e, de dentro dela, tirou uma pequena caixa que cantava quando aberta. Na caixa, um único colar repousava no forro de veludo vermelho. – Aqui, meu amor. Este colar lhe trará sorte em sua apresentação. Depois dela, fique com ele para que lhe traga felicidade. – Eu me virei para que ela pudesse abotoar a joia em meu pescoço. E então eu me lembrei. Esse mesmo colar fora me dado na mesma ocasião quando eu estava no quarto ano do ensino fundamental e minha turma faria uma releitura de O mágico de Oz. E eu fui a árvore. Uma árvore que vomitou no palco por um acesso de nervosismo. E então, arranquei aquela droga de colar do meu corpo porque ele era, nas minhas próprias palavras, uma farsa.
Eu não estava em condições de colocar a cabeça de minha mãe no lugar, então eu decidi entrar na cena que ela montou em sua cabeça enferma.
— Obrigada, mamãe. Acene para mim quando eu entrar no palco, tudo bem?
— É claro, meu doce. Mamãe ama você. Agora vá, você tem uma peça para fazer.
— Adeus, mãe. – Segurei com força o pingente que, ironicamente, era uma árvore dourada. Com a outra mão, fechava a porta quando ouvi minha mãe me chamar uma última vez:
— Ah e, Regina?
— Sim?
— Não se esqueça: ame de alma para alma. Se é necessário mais do que isso, deixe ir.
Eu apenas sorri. Se ela estava sã novamente ou não, pouco importava. Sua alma nunca esteve tão saudável.
O caminho de volta para casa foi completamente diferente. As palavras doces de minha mãe viajavam por todos os cantos de minha mente e eu não poderia estar mais convencida de que era amor e que eu não poderia lutar contra ele, mesmo que eu quisesse muito. E então meu pensamento se mudou para a razão dos meus sorrisos, das minhas lágrimas, das minhas noites em claro e de meus pensamentos... impuros. E aí freei o carro bruscamente no meio da estrada. Emma Swan. Eu havia marcado de encontrar Emma Swan quando eu saísse do festival. Comecei, então, uma busca infinita por meu celular dentro dos bolsos, da bolsa, embaixo dos bancos... nada. Merda. Havia deixado o celular em casa e estava incomunicável. Eu evitei pensar na cara que Robin estaria fazendo no momento para não estragar minha noite. Muito menos na que Emma estaria fazendo ao tentar me ligar milhões de vezes – afinal, ela era quem realmente importava.
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