Lembranças
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Duas semanas se passaram sem que eu visse o rosto de Emma Swan. O famoso New Orleans Jazz and Heritage Festival se aproximava e Emma ficou responsável por toda a parte elétrica do espetáculo. Era o evento mais famoso de nossa cidade, portanto, nada poderia dar errado. Eu amava ir ao Jazz Fest, então, por mais que eu estivesse um pouco triste com essa ausência, eu sabia que valeria a pena.
Aquela era mais uma sexta-feira que eu passava casada com Robin Hood. Mais uma noite se aproximava e meu marido estava sabe Deus onde e eu me sentia mais vazia do que nunca. Eu não tinha Emma. Eu não tinha Robin. Henry estava na casa de minha mãe. Às vezes era mais fácil ser minha mãe. O Alzheimer, aos poucos, corroia sua memória, suas lembranças. Mas também dava cabo de suas dores passadas, de seus arrependimentos, de suas angústias. A cada dia que passava, minha mãe estava mais anestesiada. A companhia de Henry lhe fazia bem. Por isso, eu o deixava lá sempre que achava seguro e sempre que ele ou ela me pedia.
Já eram seis horas da tarde quando meu celular tocou. Minha expectativa era que fosse Emma me chamando para um programa qualquer; mas talvez fosse Robin dizendo que, finalmente, iria cedo para casa. Entretanto, era minha mãe pedindo que eu fosse buscar Henry. Fiquei um pouco decepcionada, mas pelo menos meu filho estaria comigo e poderíamos nos divertir.
No caminho para a casa de minha mãe, a mesma música que Emma cantarolou no banco do carona outro dia começou a tocar e eu sorria mais e mais a cada verso, e como eu queria que ela estivesse cantando aquelas palavras para mim! Não que eu estivesse sentindo algo além de amizade por Emma Swan, mas seria legal cantar Let Me Love You de volta para ela.
Já na casa de Cora Mills, tomei um rápido café com minha mãe e a ouvi contar histórias da sua imaginação, mas que ela jurou serem verdadeiras. Henry me contou que sua avó o ajudara a escrever uma redação sobre o mundo fantástico, e tive certeza de que ele ganharia a nota máxima. O estado mental de mamãe somado ao talento que meu filho tinha para a escrita, o resultado não poderia ser diferente de sucesso.
Voltamos para casa e, no caminho, meu coração sangrava. Apesar de não ter o relacionamento mais apaixonante do mundo com meu marido, a ausência crônica de Robin me machucava em escalas que nem eu conseguia entender. Na verdade, eu não entendia por que eu o amava. Por que eu havia me casado com aquele homem. Por que eu quis formar uma família com ele. Deixei uma lágrima escapar de meus olhos e logo a tirei de minhas bochechas antes que Henry visse. Eu tentava deixá-lo o mais afastado possível desse caos. Não era culpa dele. Ele era apenas uma criança. Olhei para trás enquanto o semáforo estava vermelho e sorri para ele. Seus lábios se curvaram para cima e logo ele mostrou seus dentes pequeninos. Eu podia não saber lidar com o amor em meu casamento, mas por Henry eu sentia algo fora desse planeta. Um amor que só uma mãe consegue sentir e entender. É um amor que vem das entranhas e se esparrama pela alma, sem questionamentos, sem condições, sem hipóteses. Henry Daniel Mills era meu filho e pronto, isso bastava para que eu o achasse a criança mais linda, adorável e talentosa do mundo. Ele era. E ai de quem me dissesse o contrário.
Perdida em meus pensamentos, quase não vi que já havíamos chegado em casa e que eu quase atropelei nossa caixa de correio. Freei bruscamente e olhei novamente para trás, à procura de Henry. Seu rosto estava colado no encosto de cabeça do bando do carona, e seus olhos estavam arregalados. Sussurrou um ‘estou bem, mamãe’ e aquilo estancou o sangue em meu coração. O fato de ele ainda me chamar de ‘mamãe’ me levava às nuvens. Não tinha como ele ser mais fofo.
Em casa, apressei Henry em seu banho porque, como toda sexta-feira, era o dia das atividades infantis na igreja. Ainda acho que era só uma desculpa para deixar os pais sozinhos em casa e fazerem algo diferente, a sós. Bem, não seria nem um pouco o meu caso.
– Henry, querido, vamos! Já são quase oito horas, você vai se atrasar! Mary deve passar aqui daqui a pouco! – Gritei do corredor. Poucos segundos depois, a porta de seu quarto se abriu e revelou um Henry todo engomado, de camisa polo e calça de brim escura, e os cabelos arrumados num topetinho estilo marinheiro.
– Já estou aqui, madame! Lindo como sempre, você não acha? – Ele levantou a gola da camisa e deu uma voltinha. Eu não consegui me segurar e gargalhei alto.
– Henry, você não existe! – Ainda rindo, lutei para conseguir concluir minha frase. – E sim, você está lindo! Mas por que você se produziu tanto para um evento em que você sempre vai?
– Ah, é que a Grace vai estar lá. Tenho que estar bonitão, né? – Gargalhei novamente com a audácia precoce de Henry.
– Tem razão, Henry. Tem razão. – A risada foi morrendo aos poucos e me abaixei para ficar na altura dele. Envolvi-o num abraço apertado e abrasador, um que eu estava precisando há muito tempo. Ele me abraçou de volta e, quando nos separamos, ele sorriu para mim. Ouvi uma buzina vinda do lado de fora e imaginei que fosse Mary Margaret. Minha amiga era uma das responsáveis pelas crianças em semanas alternadas. Sempre que era a semana dela, ela gentilmente se oferecia para levar Henry. Um amor.
– Vamos, mãe! Mary chegou. – Ele pegou minha mãe e foi me arrastando escada abaixo, super animado e ansioso para encontrar com Grace. Apesar de ele jurar que era para encontrar com Jesus. Abri a porta, caminhei até o carro de Mary e nos cumprimentamos com um sorriso.
– Oi, amiga! Dez horas. Não precisa me lembrar. – Ela acenou para mim e depois sacudiu a mão para que eu não me preocupasse.
– Você é a melhor de todas. Obrigada. – Dei um passo até a porta de trás e Henry abaixou o vidro para me dar um beijo na bochecha.
– Tchau, mãe! Não me espere acordada. – Eu ri daquilo, mas, no fundo, me preocupei, pois sabia de quem ele havia ouvido aquilo para que pudesse copiar.
Os vi partir e só retornei para dentro de minha casa quando o carro virou a esquina. Bom, pelo menos, tentei voltar. Uma outra buzina me assustou e dei um pulo quando um monstrengo amarelo avançou pela minha calçada e parou apenas a alguns metros de mim. O susto passou num instante quando reconheci aquela lata velha. Era o fusca de Emma Swan.
Ela buzinou mais uma vez e pôs a cabeça para fora do carro:
– Regina! Oi!
– Emma! – Quase que o nome não sai de tão aberto que era meu sorriso. Corri ao seu encontro e me debrucei na janela, o que deixou meu rosto centímetros distante do dela. – Nossa, quanto tempo! Como você está? Por que não me ligou? E o que está fazendo aqui?
– Wow, muitas perguntas. Ok, questão número um: estou bem. Atolada com o festival e algumas coisinhas a mais, exausta, mas bem; questão número dois: eu não tive tempo de ligar e sabia que, se o fizesse, ficaríamos horas a fio conversando e isso poderia me desviar das plantas e cálculos e orçamentos; questão número três: vim te fazer uma visita, já que consegui dar uma adiantada no trabalho. Mais alguma coisa? – Emma mal havia chegado e já me fizera rir.
– Na verdade, sim. Por que não avisou que vinha? Estou toda desarrumada.
– Queria fazer uma surpresa. Mas não esperava ver você aqui fora já à minha espera. Você deve ter sentido muitas saudades mesmo. – Ainda que estivesse usando um tom divertido, eu queria lhe dizer que ela estava certa. Não sobre estar esperando-a,mas sobre ter sentido saudades demais. Eu senti. Não se passava um minuto sem que eu não sentisse falta de Emma Swan. Mas eu não poderia falar nada daquilo, então apenas ri antes que as palavras me atropelassem e acabassem saindo.
– Bem, então estamos fazendo o que aqui fora? Entra! – Sem dar espaço nem para um silêncio apaziguador, Emma abriu a porta de seu carro (e muitas aspas nessa palavra), pegou uma sacola e me acompanhou para dentro de meu lar. Sem mesmo pedir permissão, colocou a sacola de papel em cima do balcão da cozinha e sentou-se em um dos bancos. Confusa, acompanhei-a e me sentei no banco ao lado.
– O que é isso? – Perguntei, erguendo uma sobrancelha. Tirando o conteúdo do saco, ela prosseguiu, calmamente:
– Trouxe jantar, ué. – Como se fosse a coisa mais normal do mundo Emma Swan aparecer do nada em sua casa, numa sexta à noite, com um saco de papel em mãos e sentindo-se em casa.
– Jantar? Sério? – Minhas sobrancelhas se ergueram mais ainda e lancei-lhe um olhar descrente, pegando o pote do KFC de sua mão e analisando seu rótulo em seguida. – Você sempre come esse infarto com gosto de frango? – Mordi meu lábio para conter minha risada.
– Sim, mamãe. Com licença, eu estou faminta. – Ela respondeu com uma voz infantilizada e arrancou o pote de minhas mãos. Tirou outro igualzinho da bolsa, me entregou e repousou duas latas de Dr. Pepper no balcão. – E você também deve estar.
– Emma, você come como uma criança. Não vou comer essa... coisa. – Fiz uma careta e encarei o pote em minha frente. Havia pedaços de frango frito e batatas fritas dentro do mesmo recipiente. Aquilo gritava entupimento de artérias cardíacas. A mulher ao meu lado parou de mastigar e me olhou espantada. Após uns instantes silenciosos, vi que sua reação não mudou e resolvi intervir. – O que foi? – Franzi a testa levemente.
– Não insulte minha comida nunca mais. Levei muito tempo preparando-a, ok? – Sua voz era falsamente séria e sua cara de pau me fez gargalhar.
– Levou muito tempo na fila do drive thru, você quer dizer?
– Tanto faz. Quase a mesma coisa. Agora coma essa coisa dos deuses! – Enquanto falava a última parte, mordeu com vontade o frango frito que estava em sua mão, o que me fez repreendê-la:
– Emma, não se fala de boca cheia! Meu Deus, até o Henry tem mais modos que você. E come coisas mais saudáveis que você.
– É porque eu não tive uma mãe chata como você. – Ela me lançou um sorriso desafiador.
– Ah, você me acha chata? – Ergui uma sobrancelha e apoiei o queixo na mão, interessada em que rumo aquela conversa poderia tomar.
– Positivo. A mais chata de todas. A mais super-controladora. A mais fresca. A mais burguesinha de todas.
– Tem certeza disso? – Meu tom era mais baixo e usei uma voz um tanto sedutora e desafiadora.
– Tenho.
Seus olhos percorreram toda a extensão do meu rosto, capturando cada pedacinho dele, pela milésima vez. E, quanto mais vezes ela me olhava por completo, mais natural aquilo parecia, e mais suspiros me arrancava. Fiz o mesmo e suguei cada poro de seu pálido rosto com o olhar, sem notar que me aproximei demais dele. Emma também havia se movido, então nossos narizes se encostaram levemente. Ao perceber o toque eletrizante, numa fração de segundos, engoli à seco e peguei a primeira coisa ao meu alcance para tentar evitar o ato seguinte, e minha bile veio à garganta quando vi que o que eu havia pegado e levado à boca foi um dos frangos nojentos do meu pote. Ignorei a súbita ânsia de vômito e dei uma mordida rápida, ignorando minha prévia bronca em Emma e sussurrando de boca cheia:
– Quem é a mais chata de todas agora? – Dei a ela uma piscadela e me afastei de seu rosto, voltando minha atenção àquele monte de lixo que Emma chamava de jantar.
– Uau. – Foi tudo o que disse. Virei a cabeça para encontrar seus olhos novamente e sacudi a cabeça em confusão. – Regina Mills comeu frango frito. Essa é para entrar para a história!
Confesso que fiquei um pouco decepcionada com relação à que se referia o ‘uau’. Que tolice achar que talvez, e só talvez, o coração de Emma tivesse acelerado com nossa proximidade e nosso toque. Decidi encarar o balde de lixo à minha frente e pegar mais um pedaço.
– Não é tão ruim assim... – Minha voz era um pouco triste e tive medo de Emma ter percebido.
– Eu te disse! Melhor jantar do mundo, huh? – Estava aliviada porque não havia notado, mas aborrecida porque não havia notado. Talvez eu tivesse que aceitar que Emma Swan não prestava muita atenção em mim e que eu era, sim, apenas mais uma amiga.
– Não força a barra. – Ergui uma sobrancelha e lhe entreguei uma expressão séria. Alguns instantes depois, dei uma cotovelada de leve em seu ombro e continuei. – Ei. – Seus olhos se fixaram nos meus. – Obrigada. Por tudo, inclusive por esse jantar maluco. Senti saudades. – As verdes águas nos olhos de Emma se abriram como as águas do mar vermelho se abriram para Moisés e ela sorriu.
– Eu também senti, Regina. Obrigada por aceitar minha companhia e esse jantar fuleiro numa sexta à noite. Por falar em fuleiro, cadê o Robin?
O sorriso que eu sustentava em meus lábios sem o mínimo esforço escorreu e minha expressão tornou-se uma desconfortável, enjoada.
– Não sei.
– Regina?
– Sim?
– Aquele dia... vocês conversaram? Você contou o que viu? – Ela me direcionou calmamente, tentando procurar meus olhos, que, naquele momento, encaravam o vazio.
Eu apenas deixei meus ombros caírem e suspirei por um longo instante.
– Emma, eu... eu não posso. – E antes que pudesse evitar, uma lágrima escorreu pelo meu rosto. – Eu não posso me mover, eu não posso respirar, sem que ele autorize. E eu respeito isso, Emma. Eu tenho que respeitar.
– REGINA! – Ela gritou, bateu no balcão e levantou abruptamente. – NÃO! Você é uma mulher livre, um ser humano, uma cidadã, você tem direito de ser livre e tomar as próprias decisões, porra! – Ela andava de um lado para o outro atrás de mim.
– Emma, não é tão fácil. – Eu tentava acalmá-la com minha voz. Mas, é claro, não estava funcionando.
– Ah, não? Por que não, Regina? ME EXPLICA PORQUE EU NÃO CONSIGO ENTENDER! – Sua voz tomou um aspecto maligno.
– PORQUE, SENHORITA SWAN, HÁ QUASE NOVE ANOS EU FIZ UMA PROMESSA PARA DEUS E PARA MEU MARIDO. ROBIN SERIA A MINHA FAMÍLIA E EU A DELE E ASSIM SERÁ ATÉ O FIM DE NOSSAS VIDAS! – As palavras quase capotaram umas por cima das outras de tão rápida e raivosamente que as pronunciei.
– Então é isso? Você simplesmente vai se calar? – Seu timbre era mais pacífico, mas ainda incrédulo e aborrecido.
– Eu não tenho outra saída.
– Tem que ter!
– Mas não tem, Emma. – Encolhi ainda mais os ombros. – Não tem.
– Regina, olhe para mim. – E ela tomou meu rosto entre suas mãos. Fechei os olhos para me concentrar em seu toque mas ela repetiu. – Olhe para mim. – Fiz como ela mandou. – Nada pode te controlar ou te prender, ok? Robin é um homem opressor. Retrógrado. Ele não é seu dono, Regina. Eu sei que você fez votos de matrimônio há um tempão, mas era para ser um casamento, não uma sentença de prisão perpétua. A única coisa que liga vocês dois é o Henry, e ele já é grande o suficiente para entender que vocês não dão certo. Ele pode se acostumar a ter pais separados. – Ao mencionar Henry, desviei o olhar rapidamente, tentando abstrair essa parte, o que passou despercebido por Emma. Ainda com as mãos dela sobre minhas bochechas, respondi:
– Emma... – Após alguns segundos sem obter respostas, notei que os olhos de Emma exploravam os meus até o âmago. Resolvi continuar, mesmo que ela não estivesse prestando atenção. – o Henry, ele... ele não é filho do Robin. – Embora estivesse torcendo para que ela estivesse perdida em seus pensamentos, seus olhos pareceram voltar à órbita e ela logo tirou aos mãos de meu rosto.
– O quê?? – Seus olhos se esbugalharam e quase saltaram de seu rosto.
– É isso mesmo. Henry é apenas enteado de Robin. – Tudo dentro de mim se revirava. Esse era o primeiro segredo que eu compartilhava com Emma Swan.
– E ele-ele sabe disso? – Seu gaguejar entregou seu nervosismo misturado com choque e preocupação.
– Sim, ele sabe. Daniel, seu pai biológico, morreu quando ele tinha apenas um ano de idade. Acidente de carro, assim como seus pais. Aquela madrugada foi infinita, rodeada de desolamento por todos os lados, sem uma brecha sequer. Emma, quando eu recebi a ligação da emergência, eu senti o chão sob meus pés desaparecer e eu estava caindo num abismo. Henry havia passado a noite chorando e descobrimos que era cólica. Daniel saiu no meio da noite para comprar um remédio e nunca mais voltou. Emma, ele não voltou para casa. Nunca mais. – Eu já havia desistido de segurar o choro e agora ele acariciava livremente o meu rosto. – Ele chegou no hospital morto. – Consegui dizer após controlar um pouco as lágrimas. – Eu não pude fazer nada para salvá-lo, Emma. Henry cresceria sem um pai e eu nunca teria a chance de me casar com o homem da minha vida. – As danadas estavam de volta e meu rosto era agora um oceano. – Conheci Robin um ano depois, na igreja. Fui parar lá por convite de Mary Margaret, que estava preocupada com o rumo que minha vida estava tomando. Eu entrei numa depressão profunda e tentei me matar algumas vezes. Eu e Robin começamos a namorar logo em seguida e eu vi nele um futuro. Eu vi nele um pai para Henry. E assim tem sido há mais de oito anos. Quando Henry completou seis anos, no dia do aniversário de falecimento de seu pai, eu o levei no cartório para realizar o acréscimo de um nome em sua certidão. Expliquei a ele toda a história, uma versão adaptada para crianças, é claro, e mudei seu nome para Henry Daniel Mills. Ele ficou animado em saber que seu pai fora um super-herói e, por isso, virara uma estrela grandona no céu. – Sorri com aquela lembrança. Suspirei longamente e olhei para Emma com os olhos inchados. – E Robin, dois anos antes de me conheceu, perdeu sua esposa, que estava grávida, para o câncer. Essa é a história da minha família, Emma. Uma história de perdas, de mortes, de abandonos. Eu preciso de raízes, e finalmente consegui estabelecer algumas. Entende agora por que eu não posso deixar Robin?
Emma não conseguia dizer uma palavra. Só olhava para as últimas lágrimas que desciam de meus olhos. Após quase um minuto de um silêncio devorador, ela se pronunciou.
– Uau, Regina. Isso é... é muito. Uau. Nossa. Eu nem imaginava, e-eu- Sua voz começava a se acelerar, mas decidi interrompê-la.
– Não tem problema, Emma. Não tinha como você adivinhar. Estou feliz que eu tenha te contado isso. É uma grande parte da minha vida. Na verdade, acho que a maior de todas. – Curvei um pouco os lábios e a vi fazer o mesmo. Logo, seus braços estavam envoltos em meu pescoço e todo o meu corpo repousava sobre o peito de Emma, que ecoava as batidas frenéticas de seu coração em êxtase. Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, escutei a porta se abrindo e Henry veio como um furacão em nossa direção, participando também daquele abraço que era, até o momento, o melhor que já ganhei na vida.
– Oi, Emma! Quanto tempo! Está tudo bem? Você vai dormir aqui? – Ele perguntou tudo de uma vez, e aproveitei que sua atenção estava voltada para ela para enxugar as derradeiras lágrimas e tentar melhorar minha aparência.
– Nossa, essa coisa de fazer um milhão de perguntas é hereditário? – Ela disse entre suas gargalhadas. Meu filho, mesmo sem entender, entrou na risada ela. – Estou bem sim, garoto. Saudades de você. E não, não vou dormir aqui.
– Por quê? – Mesmo mostrando aquela maturidade de sempre, Henry era uma criança, afinal. Era inocente como todas as outras.
– Porque o seu pai é que vai dormir aqui. Daqui a pouco. – Ela acariciou seu cabelo e ele apenas deu de ombros.
– Eu vou dormir agora. Amanhã tenho que acordar bem cedo porque vou à casa da tia Mary brincar com a Grace. – Ele explicou.
– Oi? Que história é essa, mocinho? – Coloquei as mãos na cintura.
– Você deixa, mãe? Por favooooor! – Não tinha como dizer não à uma criança como Henry.
– Tudo beeeeem – Imitei a voz dele. – Com uma condição. – Ergui a cabeça para que ele prestasse atenção.
– Qual? – Parecia ansioso.
– Você vai me dar um abraço e um beijo agorinha mesmo. – Sem precisar pensar, meu filho se pendurou em meu pescoço e me encheu de beijos e sorrisos.
– Posso ir?
– Hmmmmm... pode! – Ele comemorou dançando passos peculiares e personalizados, o que fez com que eu e Emma caíssemos na gargalhada. – Agora já para cima, rapazinho. Escovar os dentes e ca-ma. – Novamente sem precisar pensar, ele se retirou da cozinha e foi para o andar de cima. Após alguns minutos, segurei a mão de Emma e comecei a conduzi-la para as escadas.
– Venha cá. Eu quero te mostrar uma coisa. – Ela simplesmente concordou com a cabeça e me seguiu.
Fiz o caminho em direção ao quarto de Henry e parei em sua porta. Ele estava ajeitando as cobertas para se deitar e então dei alguns passos, entrando no cômodo, nunca soltando a mão de Emma.
– Filho?
– Oi, mamãe.
– O que você acha de a mamãe cantar a sua canção de ninar favorita?
– Sério? Você faria isso? – A empolgação tomou conta de seus olhos e de sua voz.
– Sim. Já faz tanto tempo, não é?
– É mesmo. Canta, mãe. Eu amo te ouvir cantar. – Ele se aconchegou dentro das cobertas e obsevou a mim e Emma, que não havia dito nada até agora, sentarmos na ponta de sua cama.
E então eu cantei. Reproduzi a canção Hush Little Baby, a favorita de Henry nas noites de pesadelo. Minha voz saiu afinadíssima, mesmo sem nenhum aquecimento prévio, e cada nota alcançada era um suspiro que eu podia ouvir de Emma. Mesmo sem estar olhando para ela, eu sabia que estava de olhos fechados, quase tão fechados quanto os de meu filho, que há havia caído no sono ao final da música. Fiquei alguns segundos em silêncio observando Henry e então me virei para Emma. A expressão em seu rosto era impagável: seus lábios estavam partidos em descrença e seus olhos estavam um pouco arregalados.
– E então? O que achou?
– Re-Regina. Você é um anjo. Você canta como um anjo. – Seu olhar ainda estava congelado no meu e sua voz era um sussurro. – Dei a ela um sorriso de agradecimento.
– Obrigada.
– Não, é sério. Regina, você precisa fazer algo com a sua voz. Ela é... incrível! – Ela se levantou lentamente da cama e eu fiz o mesmo.
– Ah, eu me acostumei assim, e acho que gosto de manter essa dádiva do canto só para os mais próximos. Que bom que gostou.
– Eu amei, Regina. Queria poder te ouvir mais vezes. Você cantaria para mim?
– Mas é claro que sim! Quando você quiser. – Ela só respondeu com um sorriso e voltamos ao primeiro andar. Depois de um silêncio ter se formado, Emma o quebrou:
– Regina, obrigada por ter compartilhado aquilo comigo mais cedo. Eu tenho algo a te dizer. Uma parte enorme da minha vida também. Tive muito medo de te falar, na verdade, ainda tenho pavor, mas sinto que você merece saber.
– Nossa... O que é?
– Regina, sente-se. – Ela era cautelosa em seu tom de voz. Não queria me assustar, seja lá o que ela tivesse a me dizer.
Caminhei até o sofá e Emma se sentou ao meu lado. Após um suspiro para tomar coragem, eu finalmente ouvi uma revelação sobre o enigma Emma Swan.
– Regina, não tem um melhor jeito de eu te falar isso. Não tenho como encenar. Não tenho como desenhar. Não tenho como minimizar. Então eu vou ser direta, ok? – Suas mãos estavam trêmulas assim como sua voz.
– Ok... Emma, você está me assustando. Fala logo o que é, não pode ser tão grave assi-
– Regina, eu sou gay.
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