Lembranças
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Quando, há quase dez anos, recebi uma ligação do corpo de bombeiros dizendo que o homem que eu amava estava morto, senti meu coração parar e o chão sob meus pés se abrir. Minha mente apagou e uma parte de mim morreu junto com Daniel. O oxigênio, naquele momento, me faltava tanto quanto a presença de Daniel e eu não consegui respirar por dois anos. Até conhecer Robin, eu vivi nesse estado de pisar num vácuo, nesse estado de pavor e insegurança. Eu não sabia o que dizer nunca; calei-me para as pessoas e para mim mesma, afinal, não havia mais o que falar, com quem falar, ou sobre o que falar. Eu era uma estátua com tendências suicidas.
Quando Emma Swan entrou em minha vida, eu me senti totalmente ao contrário. De cabeça para baixo. Do avesso. Emma Swan me fazia rir como ninguém, me fazia trazer à tona os questionamentos que sempre tive. Ela entendia a minha complexidade porque era tão complexa quanto eu. Éramos mulheres, afinal! Emma Swan me tirou da escuridão aquele dia na igreja e eu não sabia o quão conotativo aquilo seria. Ela me puxou para a luz, para a felicidade, para a verdade, em muito pouco tempo. Foi como se eu tivesse uma epifania, um estalo para a vida que eu sempre procurei. Ter Emma por perto era a melhor coisa que poderia me acontecer.
Só que agora Emma Swan havia se revelado por completo. Por mais que, em algumas situações, meu coração batesse mais rápido do que o normal e por motivos de olhares penetrantes e um corpo escultural, eu nunca pensei que Emma pertencesse a esse campo semântico. Eu nunca cogitei a possibilidade de deixar uma pessoa como ela entrar em minha vida. Na teoria, são pessoas como nós, devem ter seus direitos garantidos assim como eu. Porém, quando um deles entra em nossas vidas, é difícil. É difícil lidar, se aproximar, abordar, conversar. Sob a perspectiva de minha religião, homossexuais são seres sensíveis, alterados, pecadores. Eu não saberia como conversar com Emma Swan sem pensar na imagem dela se deitando com outras mulheres. Eu não estava acostumada com aquilo e não sabia se algum dia me acostumaria. Então, eu fiz o que era mais fácil e acessível considerando-se que eu estava atordoada e muito, muito confusa.
– O quê?
– Eu sou gay, Regina.
– Por que você está me dizendo isso? Quero dizer, você tem certeza? – Eu senti uma leve risada escapar da boca dela.
– Tenho. Absoluta. – Seus lábios se curvaram minimamente.
– Emma, eu-
– Está tudo bem, Regina. Eu sei que é muito para você mas – Ela se aproximou e procurou minha mão. Nossos dedos se tocaram por uma fração de segundos e logo dei um passo para trás e passei a encarar o chão.
– Emma, acho melhor você ir. – Eu tentava controlar todos os processos em meu corpo. Meu respirar, minha voz, meus braços, minhas bambas pernas.
– Não. Regina, não! Eu quero falar sobre isso. – Quase que como uma dança, ela também deu um passo à frente logo depois de eu me esquivar.
– Não há o que conversar, Emma. Desculpe-me, mas eu não sei como reagir. – Um pesado silêncio se estabeleceu e veio para roubar a cena das palavras que precisavam ser ditas mas nenhuma das duas conseguia proferir.
– Dê-me uma chance de começar. Por favor, eu quero que você saiba quem eu sou. Inteiramente. – Sua voz era muito mais calma e cautelosa, como se estivesse de frente para a jaula aberta de um leão.
– Robin deve chegar a qualquer momento. Você precisa ir agora. – Argumentei, já caminhando até a porta. Ouvi seus pés me seguindo.
– Mas eu preciso-
– Boa noite, Emma. Mais uma vez, obrigada por tudo. – Tentei com todas as minhas forças formar um esboço de sorriso em meus lábios mas, embora eu tenha conseguido, meus olhos gritavam pavor e, de alguma forma, curiosidade. Abri a porta com receio. Eu não queria nem um pouco que Emma Swan atravessasse a passagem para o lado de fora. Ela estaria longe, em seu carro, em sua casa, e eu voltaria a me sentir vazia e desprotegida.
Sem dizer mais nada, Emma Swan partiu. Deixou em minha mente apenas seu último olhar, que era uma mistura de decepção e imploração. Ela precisava falar e eu sabia que precisava escutar.
Encostei meu ombro na moldura da porta e cruzei os braços, observando Emma se afastar mais a cada segundo. Notei que seus passos eram brutos e firmes, como se estivesse mesmo querendo sair dali. Quando ela já estava prestes a pisar no acelerador, nossos olhares se conectaram uma última vez e a tristeza vazava de seus verdes mares cristalinos. Eu não aguentaria resistir àqueles olhos por muito tempo, por isso, desviei os meus e entrei em casa, deixando-a para trás.
Que covarde eu sou. E egoísta. Emma Swan deve me odiar. Ela esteve sentada naquele sofá escutando a mais sombria fase de minha vida e foi tão atenciosa e carinhosa! E eu... eu não consegui escutá-la. Por quê? Eu me perguntava. Aquela era quem Emma era, da cabeça aos pés, até a alma. Saber que uma criatura como ela se interessava por mulheres me deixou atordoada em níveis que nem eu conseguiria explicar. Eu precisava de um tempo para digerir tudo aquilo e aceitar tudo aquilo. Eu tinha certeza, até algumas horas atrás, que Swan foi uma dádiva em minha vida, mas, depois do que ela me confessou, eu duvidei. Talvez ela fosse um fardo que eu tivesse que carregar. E então eu aprenderia com seu peso. Aprenderia que as pessoas são mais do que elas aparentam ou confessam ser. Mas era demais para mim. Eu estava dividida entre o que eu aprendi na igreja e o que o meu coração me dizia. Eu havia travado uma batalha com minha própria mente em muitos aspectos: eu estava certa ou errada? Emma é pecadora ou não? Eu deveria me afastar ou não? Eu não sabia se haveria um vencedor, mas tinha certeza de que eu já estava exausta daquilo mesmo antes de começar.
Decidi trancar-me no quarto e dedicar-me à poesia. Podei em versos tudo o que minha alma sangrava e clamava. Eu falei de amor, da falta dele, de felicidade, da busca por ela, de Emma e de Robin. Em Robin havia uma busca constante por algo que nunca achei nem uma pista sequer, e, por conveniência ou teimosia, eu insistia em procurar. Era o amor, a luz, a liberdade. Era Emma que eu sempre procurei em Robin, mas agora, aparentemente, eu perdi os dois. Meu parceiro já estava perdido há muito, como um homem fora da lei que age de acordo com sua própria verdade. E Emma, eu a deixei escorrer pelas minhas mãos e não fiz nenhum esforço para recuperá-la. Eu voltei para o início de tudo. Sem ninguém em quem me segurar. Sem nenhum ombro para ensopar com minhas lágrimas. Éramos apenas eu, meu filho, minha solidão crônica e minha arte oculta.
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Mais um mês se passou sem que eu tivesse uma palavra sobre Emma. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação, nenhum choque de carrinhos no supermercado, nenhum jantar gorduroso. Acima de tudo, não tive um segredo a compartilhar, uma angústia, um desejo. Eu continuava vazia, oca e seca. Os únicos momentos de alegria plena eram aqueles que eu passava com meu filho, fazendo biscoitos, jogando jogos de tabuleiro ou construindo castelos de lençóis e travesseiros pela casa. Henry era a razão de minha vida, literalmente, e só de ver seu sorriso, o que era seco e rachado dentro de mim torna-se inundado e abundante de alegria e um amor tão profundo e incondicional que eu nunca serei capaz de explicar.
Os encontros extracurriculares de Robin tornaram-se menos frequentes e ele parecia um pouco mais interessado em minha vida miserável. O estado de saúde de mamãe piorou drasticamente em um curtíssimo período de tempo e aquilo me dava pontadas agudas no peito. Meu marido continuava pagando por remédios e tratamentos cada vez mais complicados e caros, mas nada parecia dar certo mais. Ter uma mãe à beira da morte era doloroso, mas apenas o pensamento de não ter uma mãe de jeito nenhum era insuportável. Isso me fazia pensar em Emma. Isso me fazia lembrar como eu sou uma pessoa horrível por enxotá-la da minha vida quando ela já havia deixado bem claro que não tinha ninguém. Ela não tinha uma mãe adoecida. Seus pais estavam a sete palmos do chão, perdendo todos os momentos da vida da filha. Mesmo minha mãe não se lembrando mais de mim, eu era grata a Deus por me permitir olhar para ela sempre que eu quisesse, e eu me lembraria por ela. Eu penteava seus cabelos como ela penteou os meus em minha infância. Eu cantaria canções de ninar até que ela adormecesse em seus pensamentos falhos e eu lhe falaria sobre a vida e sobre o mundo que a esperava. Na verdade, eu falaria sobre o mundo que realmente a esperava; um mundo que eu não conhecia e do qual ninguém nunca voltou para contar como é. E tudo isso eu fiz.
Os dias passavam...
Sem Emma
Passavam...
Passaram.
E ali estava eu, naquela manhã, um mês depois de ter olhado nos olhos de Emma Swan, repassando com minha família as expectativas para o tão aguardado New Orleans Jazz and Heritage Festival. Todos os anos nossa família marcava presença lá. Henry adorava as atrações e os brinquedos e as besteiras que eu o deixava comer. Eu aproveitava esses finais de semana para apreciar a música gospel e o jazz. E Robin me acompanhava e tínhamos sempre ótimos momentos a sós, aproveitando os resquícios de amor em nosso casamento. Mary Margaret também sempre nos acompanhava e tomava conta de Henry – ela dizia que ter uma criança consigo atrairia os olhares masculinos. Que bobagem. Nunca deu certo, mas ela, todos os anos, insistia.
Tomamos um café da manhã agradável em muito tempo, envolto de animação e palinhas de músicas que provavelmente os artistas convidados cantarão. Robin e Emma poderiam ser polos opostos, mas ambos compartilhavam uma característica: a capacidade de quase estourarem meus tímpanos de tão desafinados que eram.
O festival começou às onze da manhã e fomos um dos primeiros a chegar. Encontramos algumas famílias da igreja e decidimos que, esse ano, ficaríamos todos juntos. Estendemos algumas cangas e toalhas no chão e nos sentamos para relaxar. Mary Margaret logo chegou, toda produzida e pronta para pôr sua teoria em prática. Talvez tivesse dado certo se Henry não tivesse pedido para ficar conosco por enquanto e a convidasse para se juntar a nós.
Então estávamos todos ali, nos divertindo e contando as novidades sobre nossas vidas – menos eu, é claro. O que eu contaria? Que minha amiga pela qual meu coração pulsava inexplicavelmente mais forte havia me contado ser gay e então eu simplesmente a excluí de minha vida? Não. Mas pelo menos era relaxante ouvir outras histórias, tirar minhas conclusões e chegar à de que todos são infelizes, pelo menos um pouquinho.
Fui tirada de meus devaneios algumas horas depois, quando Henry me puxou pela camisa anunciando que Grace havia chegado.
– Mãããe, Grace está aqui! Vamos lá, vamos lá, vamos lá? – Ele perguntou enquanto dava pulinhos.
– Henry, assim vai rasgar minha blusa! – Repreendi-o num tom divertido. – Onde ela está?
– Ela passou com a mãe dela para lá – Continuou, apontando para o lugar onde estavam as barracas de comida. – Vamooos! – Ele me puxou mais uma vez e fez uma cara triste.
– Por que você não vai com a Mary? Ela sempre fica com você quando viemos.
– Exatamente! Ela sempre fica comigo e hoje eu quero ficar com você. Além disso, eu acho que ela me usa para conseguir namorados. – Ele encolheu os ombros e murmurou a última parte. Até aborrecido ele era uma graça. – E então, vamos?
– Tá boooom. Mas só se você pagar o meu almoço. – Apertei os olhos e sorri desafiadoramente.
– Como, mãe? Eu nem tenho dinheiro! – Ele parecia realmente preocupado. Após um suspiro falsamente decepcionado, eu me levantei e comecei a andar na direção apontada. Percebendo que Henry não me seguiu, virei para trás.
– Henry? Vai ficar aí papando mosca? Pensei em apostarmos uma corrida: quem ganhar paga o almoço. Que tal? – Ele ficou pensativo por alguns segundos antes de começar a correr. Quando passou por mim, gritou:
– Não sei sobre eu papar mosca, mas você vai comer poeira! Te vejo lá na barraca, mãe! – Ele me deu língua e se concentrou em sua corrida. Eu abri a boca em descrença e logo tratei de correr.
Obviamente, meu filho chegou antes de mim e ficamos recuperando o fôlego no meio de muitas outras pessoas. E nenhuma delas era Grace. Após nossas respirações terem voltado ao normal, soquei seu ombro e perguntei:
– Então... cadê sua namorada? – Mesmo estando ao seu lado, podia sentir suas bochechas arderem de vergonha. Fazia parte do papel de mãe deixar o filho constrangido. Era engraçado. Soltei uma risada e ele me fulminou com o olhar. Engoli o riso e limpei a garganta.
– Ela não é minha namorada. – Revirou os olhos como se fosse um homem de negócios cansado da incompetência de seus funcionários. – Mas ela está bem ali. – Ele ergueu as sobrancelhas e apontou com a cabeça para trás de mim. Quando me virei e capturei aonde ele se referia, quase enfartei.
– Henry, aquela não é-
– EMMA! – Ele deu um grito ulta-mega-power animado e foi correndo em sua direção. Eu assisti à cena, perplexa.
– Olá, garoto! Quanto tempo! – Ela respondeu do mesmo modo entusiasmado, envolvendo- num abraço. – Como você está?
– Estou bem. Estava com saudade! – Ele olhou para cima e seus olhares se encontraram. Se eu estivesse na pele de Emma, poderia sentir a verdade nos olhos de Henry.
– Eu também estava, garoto. – Deu a ele um sorriso triste e depois murmurou alguma coisa que eu não consegui escutar. Porém, pude deduzir, já que meu filho virou-se para mim e gesticulou para que eu me aproximasse deles.
– Regina... – Seus olhos foram se expandindo lentamente e sua voz saiu como um suspiro. Eu alternava meu olhar entre ela e a grama e tinha em meus lábios um sorriso tenso. – Uau, você...
– Olá, Emma. – Coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha, o que deve ter denunciado meu nervosismo. Naquele momento, eu parecia uma adolescente falando com o crush pela primeira vez. – Como vai?
– Estou bem... Regina, nossa, quanto tempo! O que tem feito? – Ela tentou sorrir mas parecia surpresa demais para isso.
Eu queria abraçá-la. Queria que ela estivesse em meus braços e queria me desculpar por tudo o que eu fiz. Queria perguntá-la por que sofri tanto com sua ausência e por que ela me fazia sentir todas aquelas coisas que toda menina sempre sonhou sentir após ler histórias de ‘era uma vez’. Mas não.
– Você parece bem, mesmo... – Queria continuar dizendo ‘já eu... eu estou um bagaço mastigado e cuspido. Estou em pedaços e aparentemente com sentimentos por minha amiga lésbica.’ Consegui manter essa parte apenas em minha cabeça, felizmente. – Eu também estou bem. Tenho feito o de sempre, na verdade. – Completei com um sorriso um pouco tímido e até envergonhado de ter de dizer que minha vida continuava sendo medíocre.
– Ah, sim. Que bom, eu acho. – Ela respondeu, levando sua mão ao meu braço e acariciando-o rapidamente. Aquele breve toque me causou arrepios desde o dedão do pé até meu último fio de cabelo. Controlei um suspiro que veio com toda a força, claro, Emma Swan não podia saber que meu corpo não sabia se controlar diante de sua presença.
Ficamos nos olhando por um tempo, haurindo todos aqueles traços que há muito deixamos de olhar e admirar uma na outra. Henry continuava preso ao abraço de Emma e me olhava atentamente, eu pude perceber. É claro que ele levaria uma bronca por mentir dizendo que ele viria ver Grace, mas eu poderia pegar leve porque, se não fosse por ele, talvez aquelas esmeraldas para as quais eu olhava ainda estariam distantes. Dei uma risada fraca ao imaginar como esse sermão seria mas, quando Emma fez uma careta e estava prestes a falar, uma terceira pessoa abordou-a.
– Finalmente! Olha, eu não achava que essa cidade podia ter tanta gente. Fui comprar algodão doce e me perdi completamente. Desculpa a demora, docinho. – Uma mulher morena, um pouco mais baixa do que Emma, de cabelos longos aproximou-se dela e beijou-a na bochecha. – Ficou com saudades? – Sem dar tempo para respostas, ela emendou. – Ué... quem é esse? Está perdido?
Meu sangue ferveu assim que ela apontou para Henry como se ele fosse um menino de rua, ou filho de uma mãe desnaturada. Ele também borbulhou por eu ter presenciado aquele beijo, que, apesar de não ter sido obsceno, me deixou muito, muito aborrecida. Agora quem não deixou Emma responder fui eu. Limpei a garganta e parti para cima.
– Olá, esse é o meu filho, sim? Eu e a senhorita Swan estávamos batendo um papo mas já estávamos de saída. Aproveite seu algodão doce, espero que você não se engasgue ou algo do tipo. Vamos, Henry. – Peguei meu filho pela mão, soltando-o do abraço de Emma. – Até algum dia, Swan. – Minha voz era autoritária e direta. Henry pareceu confuso, mas fez como eu mandei.
– Até logo, Emma. – Ele virou para trás e acenou. Ela pareceu ignorar sua despedida.
– Regina! Regina, volte aqui! – Senti que ela começou a me seguir, mas eu apertei o passo, arrastei meu filho comigo e desapareci no meio da multidão.
Que mulher era aquela? De onde diabos ela saiu? Por que beijou Emma daquele jeito? E a pergunta mais importante: por que, em nome de Jesus, em fiquei tão abalada com tudo aquilo? No fundo, eu sabia a resposta, mas eu teria que lutar muito para que ela não viesse à tona.
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