Lembranças
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Meus braços exaustos, num esforço incomum, se moldaram lentamente nas costas de Emma e repousei minha cabeça em seu ombro, fechando os olhos. Preocupação sondava meu consciente, já que eu acabara de proferir que a amava. Embora o espectro do amor seja amplo, ele é tênue. Se o amor da amizade cambaleia alguns passos, acaba virando o amor que conhecemos da televisão, aquele transcendental, dos pombinhos apaixonados. E eu, naquele momento, estava cansada demais para tentar andar em linha reta.
— Eu também amo você, Gina. Você é muito especial. – Ela também me envolveu e sussurrou em meu ouvido. Ela parecia aliviada. O amor de sua vida estava a salvo, afinal. – Obrigada por ser uma amiga tão boa para mim.
— Mesmo quando eu tento te beijar? – O quê? Mas que porra de droga você usou, Regina? Pensei. Regina Só Fala Merda Mills estava de volta a todo vapor, versão Preciso Muito Dormir. Tentei disfarçar com uma risada descontraída, e parece que funcionou.
— Mesmo assim, — respondeu, sorrindo genuinamente – mesmo assim você é a melhor amiga. Na verdade, acho que são esses momentos que te fazem a melhor. – Ela saiu do meu abraço e meu corpo instantaneamente protestou. – Você tem tudo, Regina.
Eu queria me afundar em seu peito e por ali ficar até o para sempre acabar. Emma sabia exatamente como fazer uma pessoa se apaixonar perdidamente por cada pedacinho de seu ser. Será que era isso, então? Será que eu estava apaixonada por Emma Swan? Não poderia ser. A linha era tênue, afinal.
Entristecia-me um pouco o fato de Emma sempre deixar ao relento assuntos daquele tipo. Quando eu trouxe de volta o episódio do beijo, logo ela tratou de afoga-lo. Seria agradável, pelo menos uma vez, falar sobre isso. Eu desejava desmedidamente saber se, em algum canto daquele coração, havia uma frestinha que batia exclusivamente por mim.
Desviei todos aqueles pensamentos insensatos para a pilha de devaneios que eu não poderia ter se eu não quisesse me encher de mais falsas esperanças. Emma disse que me amava, mas que amor era aquele?
Estávamos sentadas no sofá do saguão da UTI, encarando o teto, as paredes, o chão. Sacudi a cabeça rapidamente, a fim de voltar do mundo da Lua – onde tudo era exatamente como eu queria que fosse.
— Emma
— Regina – dissemos ao mesmo tempo. Após compartilharmos sorrisos bobos e uma careta, cutuquei a coxa de Emma para que ela falasse.
— Regina, você está exausta. Pode ir para sua casa, muito obrigada por ter vindo. Obrigada mesmo. – Sua mão procurou pela minha e logo a achou. Aquele movimento estava se tornando tão natural e abrasador quanto o sol que nasce todas as manhãs. Eu estava mesmo extenuada, mas não importava, pois Emma estava ali, e aquilo me fazia ficar desperta.
— Não e não. Ficarei aqui com você. Não há nada de mais importante do que você me esperando fora desse hospital. – Foi bizarro dizer que Emma era mais importante do que minha mãe, do que meu marido, do que meu filho. Ela me olhou um pouco assustada, mas logo assentiu. Espero que tenha entendido que todos estavam relativamente bem, menos ela. E eu precisava estar ali por ela. – Apenas descanse.
— Tudo bem... vou encostar aqui. – Ela apontou para a parede e parecia que, para ela, a situação era embaraçosa. Ou, pelo menos, não era familiar.
Não demorou muito até que caísse no sono de vez. E só pude constatar que estava num sono pesado porque eu não consegui parar de observá-la nem por um segundo. Passaram macas, pessoas chorando, médicos ensanguentados e, no meu campo de visão, só existia Emma Swan dormindo toda torta naquele sofá. E era uma visão celestial, apesar de seus etéreos olhos estarem cerrados. Sua cabeça caía de um lado para o outro, para frente e para trás. Antes que eu tivesse noção do que estava fazendo, minha mão empurrou, devagar, sua cabeça até meu colo. Sua mão, inconscientemente, percorreu todo o caminho de minha coxa e abraçou minha cintura. Um sorriso pacífico se alojava em sua boca e eu tive a certeza de que um sonho bom estava lhe visitando.
Ter aquela visão do perfil de Emma, sentir seu corpo se inflar e desinflar com sua respiração, imaginar que eu povoava seus sonhos provocou em mim uma reação incontrolável. Meus dedos estavam erguidos, estáticos, hesitantes, apenas alguns centímetros longe de seus fios de ouro. Puxei o ar como se estivesse prestes a pular de um precipício e, num instante de coragem, permiti que eles começassem a passear por seus cabelos. Eles estavam presos, mas não por muito tempo, já que logo desmanchei seu rabo de cavalo e penteei as mechas com os dedos. Cada fio desempenhava o papel crucial de brilhar com maestria, tornando o conjunto da obra algo difícil de se acreditar. Se você tivesse ideia do quanto eu te quero, Swan…, sussurrei. Tentei fechar os olhos para, finalmente, tirar um necessitado cochilo mas a mesma voz de antes me interrompeu. Eu estava começando a achar que aquela história de ‘o sono dos justos’ era uma demagogia sem tamanho.
— Senhorita Swan? — Pela voz do médico, ele trazia boas notícias.
— Pois não? — Eu não ousaria acordar Emma.
— Desculpe, a senhora é da família?
— Eu estou acompanhando a senhorita Emma, mas ela está descansando agora. Você pode dar as notícias a mim?
— Ahn, sim, claro. É só para avisar que Lily acordou e foi transferida para o quarto. As senhoritas gostariam de vê-la? — Ele perguntou educadamente.
— Assim que a Emma acordar, iremos. Muito obrigada. — Sorri e ele se foi.
Eu tinha plena consciência de que o que eu estava fazendo era egoísta demais. Eu sabia que, se Emma estivesse acordada, ela sairia correndo para o quarto sem pestanejar. Mas eu não queria perder Emma tão cedo. Havia meses que eu não a via, que não havia vida em mim. Só mais alguns instantes admirando sua forma era o que eu precisava.
Quando a culpa já era maior que o amor, eu decidi desperta-la.
— Emma? — Acariciei seu braço e chamei baixinho. Em resposta, obtive apenas um manhoso grunhido. Repeti. — Emma, acorde. Tenho notícias.
— Mhhmm...not...NOTÍCIAS? — Ela saltou como uma fera e aterrisou no sofá, ajeitando os cabelos e refazendo seu rabo de cavalo. — Lily! Como ela está? — Ela olhava a sua volta atordoadamente e sua voz era trêmula. Talvez o fim do sonho não tivesse sido tão feliz assim.
— Acalme-se, Emma. Lily está bem, já acordou e podemos vê-la. — Respondi, segurando seu rosto em minhas mãos. Um sorriso se desenhou em seus lábios e seus olhos agora transmitiam tranquilidade.
Calmamente, peguei sua mão e fomos caminhando até o quarto 208. Para minha surpresa, Emma não parecia tão animada; ao invés disso, eu consegui encontrar um certo medo em seus olhos. Eu queria lhe dizer que tudo ficaria bem e que, daqui para frente, elas seriam felizes. Mas essa não era a verdade que me dominava. O que corria dentro de mim era o desejo de que tudo voltasse a ser como era antes: Emma era minha, assistíamos filme, comíamos burritos, dançávamos… eu queria que Lily nunca tivesse voltado de Nova York. Aliás, como ela encontrou Emma em Nova Orleans depois de tanto tempo? Essa era uma pergunta cuja resposta eu teria que batalhar para conseguir.
Ou não.
Parada na frente da porta, Emma me olhou antes de empurrar a maçaneta. Por que estava sendo tão difícil para ela entrar naquele quarto e finalmente ver a Lily?
— Pronta? — O que mais eu deveria dizer para alguém que passou as últimas horas demonstrando o amor que sente pela namorada e, agora, simplesmente mal conseguia andar?
— Tenho que estar. — Seu sorriso era fraco.
— Vai lá. Ela está bem, e está novinha em folha. Emma, você merece ser feliz do lado de quem ama. Eu estarei aqui fora se precisar. — Acariciei sua bochecha.
Ela assentiu e respirou fundo. Entrou no quarto e só depois que a porta se fechou eu soltei o ar que não percebi que estava segurando. Olhei no relógio e eram duas da manhã. Vantagens de ser uma mulher submissa: eu não teria que acordar cedo para ir trabalhar. Aproveitei meu tempo a sós com meu cansaço para ir ao banheiro lavar o rosto.
De frente para o espelho, eu via uma mulher acorrentada pelas convenções sociais, amordaçada pela solidão e despida de qualquer opinião. Eu não era ninguém. Eu era um esqueleto vagando pela existência, implorando esmola para qualquer um com um resquício de vida, para que me ensinasse a viver. O tempo havia passado para mim e eu era ninguém. Nem Emma conseguira me transformar num ser, de fato, vivente. Talvez aquela não fosse a medida certa, como ela estabelecera. Eu precisava de Emma por inteiro, eu precisava voltar a respirar. Assim que senti meu nariz formigar, o que indicava a iminência de lágrimas, eu me recompus e voltei para o saguão.
Emma andava de um lado para o outro, não de forma apressada, mas de forma perdida. Quando seus olhos finalmente pararam em mim, suas pernas também pararam.
— Regina! Achei que você tivesse ido embora. Não que você não devesse ir e descansar mas é que-
— Tudo bem, Emma. Só fui ao banheiro, já estou aqui. Eu não vou embora, não se preocupe. — Seria mentira se eu dissesse que não gostei de como ela ficou atordoada com a possibilidade de eu realmente ter ido embora. Era um bom sinal, não era? Ela não queria que eu fosse embora.
— Regina, Lily quer falar com você. — Ela cortou.
— Como? — Minha boca secou.
— Ela quer conversar com você agora, a sós. Talvez queira começar a te conhecer melhor, o que você diz? Você acha que conseguem ser amigas? — Havia esperança na voz de Emma. Uma esperança que jamais mudaria para o plano da realidade, mas não custava nada tentar. Na verdade, acho que era hora de eu abortar aquela esperança de crescia cada dia mais dentro de mim. Era hora de eu entender que o amor era feito de deixar ir. Então, naquele momento, eu deixava Emma Swan ir.
— Tudo bem… vou até lá. Você me espera aqui? — Eu respondi, ainda um pouco confusa com a decisão que minha mente acabara de tomar.
— Sempre. — Era tão difícil resistir àquele sorriso… Lily tinha sorte.
Meus passos até Lily eram cautelosos, como se eu estivesse num campo minado. Nem quando eu era pequena, que tive que ter ‘A Conversa’ com minha mãe, eu me senti tão nervosa. Saber como nascem os bebês não era tão perturbador quanto a conversa que eu estava prestes a ter. Apenas assistam.
— Lily? Está acordada? — Sussurrei.
— Regina… olá… estou sim. — Ela disse, meio zonza. Ajeitou-se na posição sentada e indicou para que eu me sentasse ao seu lado, na ponta da cama. — Obrigada por concordar em vir aqui. Emma me disse que você está aqui com ela há horas… deve estar exausta…- Pela primeira vez, eu não via sarcasmo ou deboche em sua voz.
— Ah, não é nada. É para isso que servem as amigas, não é mesmo? — Sorri um sorriso amarelo, o mesmo que sorria para Robin o tempo todo.
— Amigas? Regina, você -
— Amigas, sim, Lily. Não há nada entre mim e sua namorada, portanto, os ciúmes e o desdém podem acabar por aqui. — Eu estava começando a perder a paciência, mas provavelmente era o cansaço falando.
— Não, Regina. Deixe-me falar. Antes disso — ela rodeia o quarto, apontando — eu e Emma estávamos em casa, discutindo. Brigávamos quase como quando eu sofri o acidente, do qual, presumo, ela já lhe contou. — Assinto. — Pois bem, eu queria arrancar de Emma as palavras que eu sentia que estavam engasgadas em sua garganta, lhe sufocando dia após dia.
— Que palavras? — Interrogo, franzindo o cenho.
— As palavras mágicas, Regina. — Após notar o ponto de interrogação que permanecia no meio da minha cara, ela suspira e continua. — Emma está apaixonada por você.
Emma está apaixonada por você. Essas palavras se repetiam atordoadamente, em eco, na minha cabeça, no meu coração, no meu sangue. Seria um jogo? Uma brincadeira de mau gosto? Porque era apenas impossível que Emma Swan estivesse apaixonada por mim. Ela não deu sinais desde que voltou para mim. Na verdade, mesmo quando ela era o ponto alto dos meus dias, os sinais eram escassos, e eu nunca interpretava como uma luz verde indicando que sim, ela estava gostando de mim. Eu não conseguia acreditar que ela falaria isso para Lily. Não depois de ter ouvido Emma falar de sua namorada com tanto fervor, com tanta paixão. Era mentira. Todos os nossos momentos juntas passaram em minhas memórias num flashback, num piscar de olhos, numa fração de segundo. Nenhuma evidência concreta fora encontrada, então como poderia ser verdade? E mesmo que, numa possibilidade tão pequena quanto um grão de mostarda perdido no meio do campo, fosse verdade, o que aconteceria depois? Lily simplesmente sumiria de novo e daria um jeito de levar Robin embora da minha vida, também? Não, algo estava errado.
— N-não pode s-ser... Emma e eu sempre f-fomos amigas, nunc-ca aconteceu n-nada entre nós, Lily... – As palavras simplesmente freavam bruscamente antes de saírem.
— Eu acredito em você, Regina. É a mais pura verdade: Emma confessou que tem sentimentos por você, mas ela nem precisava dizer nada, já que isso estava estampado em neon nos olhos dela toda vez que ela falava de você. – Ela despejou, não se importando se isso tudo seria demais para mim ou não.
— Mas você disse que ela nem falava de mim para você… — Respondi, roboticamente, tentando assimilar todas as coisas. Tentando assimilar aquela noite.
— Eu menti. Tudo o que ela falava era sobre você. Nossas conversas, mesmo as mais profundas, sempre terminavam em você. Porque a Regina é isso, a Regina é aquilo, a Regina sabe fazer isso, ela é ótima naquilo… — Ela imitou numa voz fina. — No início, eu achei bom a Emma ter finalmente encontrado uma amiga, mas logo foi tomando uma dimensão maior do que eu esperava. No dia do festival, quando eu te conheci, eu soube por quê Emma havia se apaixonado por você e eu parei de culpá-la na hora. Você é, realmente, tudo o que ela dizia. Eu não sou uma pessoa ruim, Regina. Passei por muita coisa, tive que tomar decisões que nem todo mundo entende. Mas não sou uma pessoa ruim. Eu só quero o melhor que há nessa vida para Emma, e sei que, com você, ela terá. Ela não percebeu o tamanho de seus sentimentos, até que eu os mencionei. Hoje mais cedo, começamos a conversar sobre isso e ela apenas negava. Ela é casada, ela dizia. Então, algumas costuras do passado que estavam desfiadas vieram à tona e tentamos consertá-las da pior forma: brigamos, gritamos, lançamos objetos uma contra a outra, como se estivéssemos num documentário do Animal Planet. — Nós duas rimos desse comentário. Lily e Emma compartilhavam do mesmo senso de humor afiado. — Enfim, parece que eu me estressei demais e meu sangue ferveu. Meu aneurisma, até então desconhecido, ameaçou romper e eu comecei a ter convulsões. Emma me trouxe para cá e ligou para você. Fim. — Ela tentou sorrir, mas eu sabia que não estava nem perto do fim. Decidi que era melhor pensar em tudo isso mais tarde e aproveitar-me da ocasião.
— Lily… como você voltou? Quero dizer, como achou Emma aqui em Nova Orleans? Pelo que sei, você estava em Nova York e, da última vez que você a viu, Emma estava no Tallahassee. O que você fez? — Eu soava como Sherlock Holmes.
— É uma longa história, Regina… acho melhor apenas abafarmos essa parte. — Ela disse, remexendo-se nervosamente na cama.
— Não. Você vai me dizer como chegou até aqui, antes que eu conte à polícia que você é uma louca psicopata. — Eu nunca faria isso, sou péssima com mentiras. Após um suspiro, ela começou a me revelar seu trajeto.
— Quando ainda estávamos no Tallhassee, Emma não tinha amigos. Éramos apenas eu e ela, ela e eu. Entretanto, de vez em quando sua amiga Mary Alguma Coisa, do Alabama, ia visitá-la.
— Mary Margaret. — Corrigi.
Que seja. Em uma dessas visitas, eu tive a oportunidade de conhecê-la, e não nos demos nada bem: ela me acusava, a todo tempo, de ter corrompido a Emma para o mundo do homossexualismo, em suas próprias palavras. Trocávamos farfas o tempo inteiro, até que em uma dessas ela saiu correndo de nosso apartamento. Depois de me dar uma bronca, Emma me fez ir atrás dela e, depois de horas, eu a encontrei dentro de um carro que nunca havia visto antes, no banco do carona, deitada com a cabeça no banco do motorista, que estava ocupado por um homem barbudo nojento. Esperei para ver se ela estava morta ou algo do tipo e-
— Lily, Lily! O que diabos isso tem a ver com a história de como você veio parar aqui? — Eu a olhava, confusa.
— A Mary Alguma Coisa também mora aqui, não mora? Vocês inclusive não são amigas? — Ela respondeu com a maior naturalidade, como se tudo ali fizesse algum sentido.
— Sim, Mary Margaret mora aqui e sim, somos muito amigas, mas ainda não entendi onde você quer chegar.
— Apenas escute. — Ela fez um sinal com as mãos para que eu me acalmasse. — Bem, acontece que Mary estava chupando aquele cara. Que delícia, não é mesmo? — Pergunta retórica. — Oh, espera aí… a Mary não é a santinha da igreja? — Outra pergunta retórica. Mesmo que não fosse, eu estava chocada demais para responder. — E tem mais, Regina. Ela deu para aquele cara. Sentou gostoso em cima dele, e eu vi tudo. Ahhnn, Ohhh, vai, isso! Ela imitava os gemidos e aquilo soava estranhamente sensual. — Eu tive um ataque de risos na calçada e, assim que pude me recompor, esperei por ela na esquina. Vinte e poucos minutos depois, ela passou por mim e eu a segurei. Mas não disse nada. Para mim, ainda era a Mary Virginal de sempre. — Houve uma pausa mais do que necessária. Era doloroso aceitar que nem Mary Margaret, minha melhor amiga, era fiel àquela religião e seus dogmas. Tudo sobre aquele deus era, mesmo, uma fachada de isopor. — No período em que morei em Nova York, eu tive que seguir em frente. Aquela cidade dá medo e as pessoas parecem ter o dobro da sua altura no meio da multidão infindável. Então, eu conheci Aurora, conhecida por todos como Bela Adormecida. Aurora era uma traficante barra pesada. O sol não podia se pôr sem que ela tivesse autorizado. Seu apelido era esse porque seu material era tão forte que os clientes apagavam total. Tivemos um caso de amor torrencial e efêmero, que acabou quando eu me vi, um belo dia, jogada na rua sem dinheiro, sem teto, sem dignidade. Ela roubou tudo de mim. — Minha nossa. Será que todas as pessoas do mundo são emocionalmente fodidas? Será que não existem mais histórias felizes? Eu poderia usar uma, só para variar um pouco. — Minha mãe já havia voltado para a Georgia, de onde eu sou, e eu não queria ser um fardo novamente em sua vida. Eu não tive escolha. Ou era Emma, ou era a putrefação. E é aí que a história de Mary Alguma Coisa entra.
— Você a chantageou. — Eu dei meu palpite.
— Eu a chantageei.- Bingo. — Liguei para ela e disse que, se ela não me contasse onde Emma estava, eu mostraria ao Pastor as fotos dela e do papai noel transando. Mesmo estando do outro lado da linha, eu pude sentir sua pele congelando. E eu sequer tirei fotos dela. — Ela gargalhou sadicamente. Após perceber que eu não a acompanhei em sua doentia risada, ela limpou a garganta e continuou. — Entenda, Regina, eu não sou uma pessoa má. Eu precisava sobreviver, e Emma era a única pessoa que me conhecia no planeta Terra que não me julgaria.
— Então ela sabe dessa história toda? — Houve um silêncio perturbador. — É claro que ela não sabe. — Não havia como não soar possessa.
— Regina, não — Ela esticou o braço para tentar me segurar mas eu me levantei rapidamente e comecei a andar de um lado para o outro.
— Não o quê? Não conte a Emma?! Eu não vou contar nada a ela, Lily. Você vai. E, se você não contar agora, eu juro que te destruirei, nem que seja a última coisa que eu faça. — Caminhei lentamente até ela e, quando nossos rostos estavam a apenas alguns centímetros de distância, apontei meu indicador a ela. — Fui clara?
— F-foi. Eu contarei.
— Acho bom. — Sem mais um olhar, sem mais uma palavra, sem um toque, eu me retirei do quarto.
Emma esperava, com os cotovelos apoiados nas coxas, no mesmo sofá onde adormecera em meu colo. Sua expressão era indecifrável: uma mistura de derrota, medo e exaustão. E eu não estava nem um pouquinho diferente.
— Olá. — Caminhei até ela, oferecendo-lhe um sorriso fraco. Sem pedir permissão, sentei-me ao seu lado e passei meu braço por cima de seus ombros e a abracei. Naquele momento, era a maneira mais singela de dizer ‘Você não devia se apaixonar por mim.’ Não fazia sentido, mas esse conceito fora abolido há muito tempo quando se tratava de mim e Emma Swan.
— Oi, Gina. Como foi lá dentro? Vocês se mataram? — Ela se aconchegou em meu abraço e o calor que emanava seu corpo era como um spa afrodisíaco. Assim que nossos olhos se encontraram, eu tentava encontrar algo de diferente em seu jeito de me olhar. Procurei e procurei por qualquer vestígio de paixão, por qualquer brilho a mais, mas não encontrei nada. Lily era, sim, a pior das pessoas por mentir para mim daquele jeito.
— Quase. Mas está tudo bem. Nós conversamos e eu comecei a conhecer um pouco do que se esconde por trás da misteriosa namorada de Emma Swan. — Falei num tom divertido, embora essa resposta também fosse uma tentativa de arrancar alguma reação diferente. Nada. Em vez de um olhar diferente, ou até mesmo um desvio de olhar, ouvi risadas.
— Lily não é uma pessoa ruim, afinal de contas. Ela só é um pouco difícil de lidar. Sabe, uma coisa que eu realmente admiro nela é sua verdade. A única vez que Lily omitiu algo de mim foi quando ela teve um caso de uma noite com um advogado de seu escritório. Mas ela nunca mentiu. — Enquanto Emma falava sobre sua namorada, eu continuei procurando aquele brilho que Hollywood nos disse que existe. E não havia, também.
Lily não mentia. Então toda aquela história era verdade. Então Emma Swan estava realmente apaixonada por mim. Mas eu só me convenceria se as palavras saíssem da boca de Emma. Eu era uma Mills, porra.
— Isso é bom, eu acho. — Minha voz era suave. — Emma, Lily pediu que eu te chamasse. Vocês precisam conversar. — En segundos, minha voz era séria e direta.
— Conversar? Sobre o quê?
— Apenas vá lá. — Dei tapinhas nas costas de sua mão e beijei sua bochecha. Levantei-me sem tirar meus olhos dos dela. — Eu já vou indo, está bem? Se precisar de mim, é só gritar. — Antes que houvesse chance de resposta, ofereci-lhe uma piscadela e virei as costas, refazendo o caminho por aqueles corredores, dessa vez sem pressa, pois sabia que Emma estava sã e salva.
Dirigi até minha casa reencenando aquele dia que durou meses em minha cabeça. Ora eu ria, ora quase chorava. Seja lá como esse dia fosse terminar para Lily, eu sabia que Emma ainda seria minha, na medida certa.
Abri a porta com cautela e andei na ponta dos pés até o andar de cima, a fim de manter todos adormecidos. Olhei o visor do celular e este me dizia que eram três e quize da manhã. Bom dia, Regina. Sussurrei. Girei a maçaneta da porta lentamente, evitando fazer qualquer barulho. Ao passar por ela, eu fui arrastada pelos braços até a cama, onde fui selvagemente arremessada. Não era um fantasma. Não era um demônio. Era Robin, meu marido.
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