Lembranças
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Por toda minha vida, lidei com ferimentos. Quando eu era criança, meu pai me ensinou a andar de bicicleta e, como toda criança, ralei as pernas e as mãos diversas vezes até dominar o veículo. Minha mãe, que às vezes preferia a companhia do rádio à minha, testemunhou apelos por atenção que resultaram em quedas de árvore, da escada…E então chegou a adolescência e as lesões físicas se tornaram menos frequentes, dando lugar aos machucados emocionais. Primeira desilusão amorosa no ensino fundamental, primeiro relacionamento conturbado no ensino médio, o segundo lugar na coroação do baile de formatura.
Quando olhei para mim mesma no espelho e percebi que havia amadurecido e chegado à adultez, todas as dores anteriores foram sentidas ao mesmo tempo, numa espécie de replay torturante. Daniel havia morrido e me deixado na Terra com um filho para criar. Eu andava sobre um buraco negro de dor, muita dor. Robin entrou em minha vida a fim de curar essa dor. Mas, como dizem, eles dão com uma mão e tiram com a outra. Bem, no meu caso, essa outra mão é a que machuca. A que agride. A que me destrói. A mão que leva a aliança que pus em seu dedo há quase nove anos, jurando amor, lealdade e respeito. A mão que nunca seria tenra como a palma de Emma — que me machuca dolosamente quando diz que me ama como amiga. Depois desse dia em que Robin me estendeu a mão como um leão faminto, eu aprendi que uma pessoa nunca pode ter se ferido o suficiente. Há sempre mais.
Tenho quase certeza de que meu consciente foi se apagando, já sem força alguma, enquanto tudo acontecia, pois tudo do que me lembro são borrões, vozes e a veemência brutal do contato entre minha carne e a de Robin. Caí na cama ferozmente, e meu corpo imediatamente respondeu àquela superfície tão almejada. Meu corpo, em alguns segundos, simplesmente desligaria. Se não fosse por uma sacudida em meus ombros que fez tudo a minha volta rodar. Mas eu só via meu marido à minha frente, cuspindo fogo e palavras grotescas.
— Você vai aprender a me respeitar, e vai ser hoje. — Sua voz atroz saía entredentes.
— Robin, eu-
— Cala a boca, Regina!— Empurrou-me para a cama novamente, e lá fiquei, largada, ecoando um choro alto. — Eu nunca fui tão humilhado! Como você tem coragem de ser tão imunda? — Ele se sentou ao meu lado e pôs a cabeça entre as mãos. — Não consigo nem começar a imaginar você me traindo, se deitando com aquela sapatão. — O nojo em seu tom era evidente.
— Robin, não estou te traindo! — Gritei, expelindo dor de todos os poros que houvessem em meu corpo.
— Chega de mentiras, sua vagabunda! — Ele, pois, levantou-se ligeiramente e me agarrou pelos cabelos. Puxava-os com tanta força que eu não conseguia fechar os olhos, olhos esses que eram procurados pelos de meu marido, cheios de ódio. — Olhe bem para a minha cara. — Eu tentava desviar o olhar, mas, assim que eu tentava virar a cabeça, seus dedos puxavam meus cabelos de volta para o seu olhar. — Olha para mim, porra! Regina, eu quero que você fale para mim agora que está tendo um caso com a sapatão. Agora, Regina! — Balançava minha cabeça a cada sílaba. Eu esperava que a dor já estivesse anestesiada, mas pela quantidade de lágrimas que caíam involuntariamente, concluí que tudo doía. Principalmente as palavras.
— Eu não estou tendo caso nenhum com a Emma! Uma pessoa q-querida estava muito doente no hospital e ela precisava de apoio. F-fui lá como amiga ajudá-la naquele momento d-difícil. — Minha voz era embargada, inundada, afogada.
— Acha que essa historinha cola para mim, Regina? Não cola, não! Eu fui até sua preciosa salinha de recreação e vi tudo! Os poemas, os desenhos, as pinturas fajutas… a casa caiu para você, meu amor. E agora você vai aprender quem manda nessa casa, nessa família. Você se esquece que não foi aquela mulher que aceitou criar o filho que você fez com aquele delinquente, FUI EU! — Fui sacudida pelos braços e, por causa daquela pegada animalesca, arranhões e hematomas foram deixados ali. — Não foi ela que aturou suas crises, suas vontades e seus achismos ridículos, FUI EU! Não é ela que está pagando o tratamento daquela velha caquética que não lembra nem como se limpa a bunda, SOU EU! Mas você não deu valor a isso por bem. Infelizmente, vai ter que ser por mal.
— EU QUERIA ESTAR TENDO UM CASO COM EMMA SWAN, PELO MENOS ASSIM ALGUÉM ME AMARIA! — Uma brecha em minha garganta cheia de palavras sufocadas foi aberta e aquela frase saiu, ecoou ameaçadoramente pelo quarto, atingindo em cheio o flagelo da honra de meu marido.
A partir desse momento, por mais que eu tente, não tenho a mais vaga lembrança do que aconteceu. Como eu disse, meu corpo desligou. Se por cansaço ou dor eu não saberia dizer. Lembro-me apenas de tentar abrir os olhos mas ser impedida por uma dor descomunal. Encostei os dedos levemente em volta e senti que um deles estava inchado. Meus braços estavam doloridos e latejavam, pedindo socorro. Após um esforço colossal, consegui me sentar e, com o olho que ainda enxergava, me vi em meu quarto e, ao meu lado, meu filho segurava minha mão.
— Mamãe, você acordou! – Ao olhar para ele, percebo seu rosto irrigado.
— Meu amor, não chore! Mamãe está aqui. Por que você está aqui? – Aconcheguei-o em meu colo, acariciando seus cabelos lisinhos e finos, puros como toda criança deve ser.
— Eu estava dormindo e ouvi os gritos, o seu choro... vim correndo para cá para ver o que estava acontecendo. E-eu estou com muito medo, mãe. — Seu dizer engasgava. — O papai, ele… quando eu cheguei aqui, ele-
Henry permaneceu olhando para o nada, com a testa franzida em plena confusão, enquanto lágrimas singelas começavam a se formar em seus olhos. Sua expressão mudava, aos poucos, para uma horrorizada.
— O quê, Henry? O que tem o seu pai? — Eu tentei fazer essa pergunta calmamente, pois deixá-lo mais assustado era a última coisa que eu queria. Meu filho vira tudo o que aconteceu. Eu precisava dele naquele momento mais do que em qualquer outro.
— Ele estava com uma faca na mão, mamãe. Você estava dormindo, sem poder se defender. Seu olho estava assim mesmo. — Ele respondeu enfim, pausadamente, e tocou meu olho esquerdo, roxo como o crepúsculo da noite que habitava meu ser.
Meu sangue parou de correr quando Henry disse aquilo. Robin andava com uma faca. E se ele já planejava aquilo? Minha ficha caiu naquela hora: eu estava presa num casamento abusivo, agressivo, mortal. Eu teria que sair dali antes que fosse tarde demais. Ou talvez já fosse.
— Henry, ele te machucou? — Comecei a percorrer toda a extensão do corpo dele a procura de qualquer marca que aquele monstro houvesse deixado.
— Não… mas ele ia te machucar. Eu não deixei. — Uma ponta de orgulho de si exalava na voz daquela criança.
— Henry, o quê?! O que você fez? Meu Deus… — Abracei-o apertado, numa súbita agonia de pensar que Henry pudesse ter corrido perigo.
— Calma, mamãe. Eu estava parado na porta, tentando entender o que estava acontecendo. Ouvia o papai dizer coisas como “Você vai pagar por gritar comigo e por ter dito uma coisa dessas!” — Ele imitou uma voz grossa e perversa. Após uma pausa, ele continuou. — Quando vi que ele tinha puxado uma faca e você continuava naquela mesma posição, eu senti tanto medo! Nada pode acontecer com você, mãe. Nada. Eu amo você.
Aí eu empurrei ele com força e ele se cortou. — O silêncio invadiu o quarto. Repentinamente, ele parou de falar. Parecia que estava escolhendo as palavras, ou tentando acreditar em algo que sua cabeça lhe contava.
— O-o que mais aconteceu, querido? Estou aqui, você pode me contar. — Afaguei-o ainda mais. Ele se esquivou hesitantemente.
— Assim que ele viu que estava machucado, ele se virou para mim e disse “Henry, está vendo isso aqui? Esse é o sangue de um homem cuja honra foi manchada. Nunca deixe que manchem sua honra.” Ou algo do tipo. — Esperei que ele continuasse. Certamente Robin não falaria apenas aquilo. — Tem mais, mãe. — Bingo. — Ele disse que você destruirá nossa família. O que ele quis dizer com isso? — Ele parecia realmente confuso. Como Robin conseguia ser tão mau caráter assim? Manipular uma criança, uma criança, em nome de Jesus! Aquilo precisava de um fim, e eu sabia exatamente o que fazer.
— Filho, eu prometo que te conto. Eu não vou destruir nada nem ninguém, está bem. Não precisa de assustar. — Era o cúmulo do ridículo eu ter que falar com meu próprio filho como se ele fosse algum estranho desconfiado. — Onde está o seu pai, aliás? — Ele decidiu ignorar meu tranquilizante.
— Ele foi trabalhar. Fez um curativo no corte e saiu. Faz mais de meia hora, eu acho. — Sua voz era menos hostil, aos poucos Henry voltava a ser aquele menino que me ama vinte e seis horas por dia.
— Vamos sair daqui. Pegue algumas roupas e vamos. — Segurei sua mão num sinal de cumplicidade.
— O quê? Como? Para onde vamos? — Seus dedos suados apertavam minha mão trêmula e eu soube que Henry estaria comigo até o fim da vida.
— Vamos viver, meu filho. Vamos viver.
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