Lembra de mim
1 Prólogo
Dessa vez a música estava realmente muito alta. Já era tarde da noite, e mesmo que alguém gritasse em meus ouvidos eu não conseguiria escutar. Mas era assim que meus pensamentos tomavam forma. Era só com aquela música alta e naquele horário que eu conseguia desenhar o que estava em minha mente. Depois de meus sonhos me deixarem sem fôlego e sem palavras para identificar o que é real e o que não é.
Não que eu saiba o que é real ou não. Desde que voltei do hospital não tenho capacidade para identificar isso. Eu entrei em coma devido a um acidente de carro que ninguém sabe me explicar nem como eu fui parar dentro daquele carro, já que era menor de idade, e muito menos como eu sobrevivi àquilo. Depois disso, minha mente foi formatada e é por causa disso que não sei o que aconteceu no meu passado. Só sei o que as pessoas contam e isso, quando querem me contar. Essas pessoas se resumem a meus pais, já que estou de recuperação à quase um ano, e duas amigas, Giovana e Julia, que sempre passam aqui para conversar comigo.
Eu perdi dois anos da minha vida. Um freqüentando médicos, psicólogos e muitas indicações mais e outro desacordada. Não é para menos que eu queira ficar de pé a noite toda.
Devido a esse acidente também perdi muitas de minhas habilidades, porém a única que ficou foi o desenho. Os médicos explicam que essa devia ser o maior delas e meus pais concordam plenamente com essa afirmação. Mas, na verdade, eu não gosto muito de desenhar. Faço mais por hobby, já que é isso que sei fazer e tenho tempo o suficiente para não fazer nada.
Tudo bem que amanha de manhã todo esse tempo chega ao fim, já que vou voltar a freqüentar a escola. Eu até diria que essa insônia que eu estou tento é devido a esse fato tão importante, mas já que isso acontece praticamente todas as noites, eu estaria mentindo.
Em meus desenhos eu retrato basicamente meus sonhos. Neles eu vejo lugares, ouço vozes embaralhadas e vejo rostos que eu sinto que conheço, mas só sinto mesmo, porque além deu praticamente não conhecer ninguém, os rostos são também muito difíceis de decifrar.
Apenas um é certo e é esse o dono da maioria de meus desenhos. O rosto de um menino alto, bonito, de cabelos castanhos e lisos que possui o olhar mais lindo que já vi. No sonho ele não olha para mim até a última cena. Ele fica concentrado mesmo é nas outras pessoas, sempre com um ar de superioridade, como se todas elas não passassem de formiguinhas perto dele. Ele manda em todos a sua volta e isso, ao mesmo tempo em que é excitante, é também um tanto assustador. Só com um olhar ele consegue o que quiser.
Quando ele se vira e me vê, parece que é outra pessoa. Seu olhar muda; fica mais terno, mais sincero, mais bonito do que já é. Como se eu o mudasse de alguma forma e tudo que ele faz a sua volta não passasse de um simples ato mecânico. Como se não fosse ele aquele que eu vejo dando ordens e mandando em todos como se fosse um maníaco. Aquele olhar duro se torna singelo e simples.
Porém, do nada, no final do sonho, aparece uma luz branca muito forte e eu não agüento continuar de olhos fechado. Eu luto para continuar no sonho, mas é como se aquele fosse o final. Como se aquela luz significasse o fim de nossos dias.
E então, eu acordo ofegante e tudo esta escuro a minha volta. A luz branca some e o meu sonho chaga ao fim e da lugar a uma realidade tão desnorteante quanto aquele final. Depois disso não consigo parar um só momento. Fico pensando e preciso, de qualquer jeito, desenhar. Preciso ver esse garoto fora de meus sonhos, mesmo que esse lugar seja num mísero papel de desenho que ficara escondido de meus pais para sempre.
No começo achei que tudo isso fazia parte do meu passado. Expliquei para minha psicóloga, mostrei meus desenhos tanto para ela quanto para meus pais e os dois falaram que isso era loucura. Que era para eu parar de desenhar e sonhar com aquilo, pois só estava me prejudicando ainda mais. Que eu não percebia, mas minha mente estava sendo afetada. Passaram-me remédios para não sonhar e eu até os tomo de vez em quando, mas na verdade, eu amo meus sonhos. Tirando o final.
O que significa aquela luz afinal? Já parei para pensar tantas vezes que até perdi a conta. Não importa o que eu faça eu não consigo decifrar o que isso quer dizer. Quando estou perto de descobri me foge o pensamento. Como não tivesse nada para descobrir. Como se uma parte desse sonho tivesse sido apagada da minha memória. Talvez realmente não tenha nada para descobrir sobre isso, afinal, é apenas um sonho, não é?
Independendo do que meus pais digam com relação a quem eu sou hoje sei que não sou a mesma. Sinto que mudei. Ainda não descobri se para melhor ou pior, mas é fato que isso aconteceu. Tudo que me contam parece ser mentira. Eu aceito por não ter outra escolha, mas sinto que tudo que me falam não se encaixa. Eu sinto que sou outra. Sinto que mudei, mas não sei o que fazer para me lembrar. Eu já tentei, mas minha mente se foi para sempre e eu vou ter que continuar vivendo na incerteza das coisas que eu fiz. Fez-se algo importante ou não, se fiz as coisas que eu queria, se mudei algo ou, até mesmo, alguém nada disso tem importância. Eu não lembro, nem nunca vou lembrar. Tudo isso faz parte de mim e, apesar de já ter me acostumado com muitas coisas, essa parte eu não irei nunca me conformar.
Essas perguntas sempre voltam a minha mente como um imã. Por mais que os remédios me façam esquecer, toda noite, quando a única luz que ilumina meu quarto é a do pedestal de desenho, esses pensamentos me voltam como um furação. Principalmente quando começo a rabiscar aquele rosto.
Quem é ele? Será que é real ou coisa da minha cabeça? Eu procuro essas respostas todas às noites, mas na verdade, no fundo do meu coração, sinto que não quero descobrir quem ele é. Não dá para explicar o que eu sinto. Quando o assunto é esse, meus pensamentos perdem completamente o sentido e me desligo de tudo a minha volta.
Quando, finalmente, volto a mim, vejo a luz de meu quarto acessa e, num susto, me viro completamente desnorteada. Meu pai esta de frente a porta olhando para meu desenho e resmungando alguma coisa que eu não conseguia entender devido àquela música estonteando que, apensar deu nem estar prestando atenção, ainda está em meus ouvidos.
Tiro o fone do ouvido eu só consigo escutar ele falando que eu não devia estar desenhando “aquelas besteira” de novo. Eu cansei de retrucar com ele faz tanto tempo que para mim já é um ato natural. Sei que é inútil e que ele nunca irá me escutar. Aqueles desenhos eram tudo para mim. Era a única coisa que eu sabia fazer, era a única forma deu conseguir me expressar claramente e, mesmo assim, eu não poderia fazê-los por causa de minha mente? Que se foda ela! Ela já me arranja muitos problemas frequentemente, esse só será mais um. Já faz meses que desisti de recuperá-la mesmo.
Meu pai é severo, tem uma aparência de dar medo até mesmo a mim que sou filha dele. Seu cabelo é muito liso e bem preto. Ele não é alto, mas possui aquele ar de “se não quer levar um tiro, não mexa comigo”. Na verdade, ele até tem uma camisa escrito exatamente isso. Meu pai é dono de uma empresa de carros muito famosa aqui no Rio de Janeiro. Ele vive viajando a trabalho e quando não está no escritório, está dormindo. Eu nunca imaginei que ele entraria no meu quarto àquela hora da noite, quando me dei conta de que horas eram.
Eu já estava atrasada praticamente meia hora. Grande começo, Melanie! As meninas já deviam estar chegando e eu ainda nem tinha tomado meu banho. Desliguei a música do meu iPhone e corri para o banheiro.
- Tudo bem, já sei! Estou atrasada.
- É claro que está minha filha. Passou a noite fazendo esses desenhos ridículos.
- Pai, não são desenhos ridículos, mas não espero que o senhor entenda. Por favor, desce e fala para as meninas, quando elas chegarem, que eu ficarem pronta em minutos.
- Tudo bem, não demore! O carro estará esperando você e suas amigas.
Quando meu pai diz o carro, ele quer dizer o Zic, nosso motorista. Eu não queria ir para a escola com um motorista, mas ele fazia questão e minhas amigas também não se oporão, já que andar não é muito a nossa praia. Então resolvi aceitar a carona e espera que ninguém pense que eu sou uma riquinha mimada.
Pouco depois de sair do banho as meninas chegaram e eu já estava quase pronta. Quando desci, elas me cumprimentaram animadíssimas pelo meu primeiro dia de aula e saímos em direção ao Opirus que estava a nossa espera.
A cada passo minha respiração ficava mais acelerada. Eu estava nervosa. Por mais que eu estivesse voltando para minha antiga escola, eu não lembrava daquele lugar nem de ninguém.
As meninas falavam e falavam sobre as pessoas que eu ia encontrar lá. Coisas bobas de adolescente, mas eu não estava conseguindo me concentrar em nada a não ser que eu iria conviver com mais gente, que eu iria conhecer gente nova, só que, na verdade, eu não queria conhecer ninguém.
Até que, antes de sairmos do carro, tranquei as portas e falei em alto e bom som.
- Gi e Ju, escutem bem o que eu vou falar. Eu estou muito ansiosa para sair desse carro e conhecer todas as pessoas que vocês vivem falando, mas, por favor, não fiquem criando situações. Ainda não estou com capacidade para sair conversando com todo o mundo e, como vocês mesma vivem dizendo, todos me conhecem por causa do acidente. Não quero conversar sobre isso no meu primeiro dia, entendem? Não quero ter uma crise ou algo assim, por mais que isso não aconteça faz algum tempo. Então, por favor, não me apresentem diretamente a ninguém ou irei surtar.
- Tudo bem Mel. Não iremos fazer nada que te deixe chateada ou constrangida. Só que estamos muito ansiosas de passar esse ano com você. Só queremos vocês perto da gente. Estamos falando dos outros porque não queremos que se sinta deslocada. Nós também não somos muito sociáveis. Ficamos mais só em nosso grupinho mesmo.
- Ótimo, é isso mesmo que eu quero. Passar o ano com vocês!
- Tudo bem! — Disseram as duas em coro.
Enquanto estávamos dentro do carro, não pude deixar de perceber que algumas pessoas que passavam por nós estavam olhando com uma cara espantada para dentro do vidro do carro.
Então a Julia, com um estalar de dedos, me despertou daquele transe.
- Vamos Mel?! Ou você quer deixar para amanha? Porque se quiser, tudo bem. Podemos explicar sua falta.
Eu devia estar com uma cara de enjôo e era como eu estava me sentindo naquele momento. Eu queria vomitar ali mesmo. Queria voltar para casa e ficar com minhas folhas de desenhos ou, simplesmente, dormindo. Mas não, eu tinha que fazer isso. Tinha que segui em frente. Precisava voltar a minha vida normal, minha rotina. E mesmo que eu saiba que voltar não significava lembrar, eu tinha uma pitada de esperança.
Acenei a cabeça, tomei coragem e abri a porta.
Naquele momento eu vi todos os olhos se voltarem para mim. Eu sabia que as pessoas conheciam a minha história, mas daí isso?! Fiquei completamente vermelha e minhas amigas, percebendo, acenaram para que eu continuasse andando. E foi o que eu fiz. Comecei a andar vezes de cabeça baixa, vezes olhando para as coisas a minha volta e foi ai que os vi.
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