Lembra de mim
2 Primeiro Capítulo
Meses atrás, quando voltei a estudar, eu nem aguentava ficar de olhos fechados devido a meus sonhos devastadores, onde uma luz sempre acaba com meu final feliz. Hoje, quero fica dormindo todos os dias de minha vida.
O despertador toca e eu não quero acordar de jeito nenhum. Estou cansada não só da escola em si, mas também farta de ver todos os dias aqueles mesmos olhares, me encarando, como se eu fosse alguém de outro mundo. As pessoas fofocam sobre mim o tempo todo. Eu sinto que até meus amigos sempre me escondem alguma coisas. Mas tenho que acordar. Não posso deixar essas coisas me incomodarem. Hoje é quarta-feira e tenho médico, o que significa que nada de escola para mim.
Levanto da cama e vou tomar um banho. Quando volto, não consigo segurar a vontade de olhar debaixo daquele pano que cobre o quadro com o garoto dos meus sonhos. Já faz tanto tempo que não sonho com ele que estou começando a sentir saudades. Ele era meu refugio quando estava de repouso. Era em meus sonhos que me sentia mais viva, mais eu.
Levando a coberta só um pouco. Só para que eu possa ver aqueles olhos castanhos de novo. Antes de consegui chegar ao meu destino a porta se abre com tanta violência e vejo Gi em com seus cabelos ondulados perfeitos me encarando.
– Porque você sempre faz isso?
–Isso o que?
–Entra desse jeito quase me matando de susto?!
Ela me olha com um sorriso forçado no rosto e com um olhar meio desorientado. Aconteceu alguma coisa, mas ela não vai me contar o que é.
– Vim te ver antes de ir ao médico. Está tudo bem com você hoje? Temos que nos preocupar com essa sua ida ao médico outra vez?
Da última vez que fui ao médico desmaiei novamente. Era algo corriqueiro no começo do processo de recuperação, mas essa foi a primeira vez em muito tempo que isso volta a acontecer. Não lembro direito como cheguei a esse ponto, mas parece que mais uma vez tentei forçar a minha mente em um lembrança que não suporto. Segundo o médico não é algo anormal de se acontecer e desde que não vire frequente não é um mal, então o Doutor me recomendou a ficar tranquila e viver a vida daqui para frente e esquecer o passado, como sempre.
Como se isso fosse uma opção; esquecer o passado. Não lembro dele. Como posso esquecer uma coisa que não me recordo. Mas sei de uma coisa. Aquela luz ainda é a chave. Sempre que passo por ela, eu formato.
–Vou ficar bem, obrigada por se preocupar.
Ela me olha com aquele olhar desconfiado que faz qualquer um ficar com um pouco de receio. Como se estivesse me ameaçando a realmente não fazer nada, se não…
– Ok. Só volte para casa direto, pode ser? Baixei alguns filmes e chamei a Julia para vir ver aqui hoje, que tal?
– Claro! Legal, pode deixar. Até.
Ela se vira e fecha a porta ainda olhando pela abertura enquanto faz isso. Minhas amigas me amam muito. Isso não posso negar. Giovana principalmente. Ela sempre se preocupa com meu bem estar e sempre está do meu lado para me ajudar em qualquer coisa. Ela é a voz da razão que as vezes me falta.
Me visto e desço as escadas para o carro. Observo o dia lindo e entro no carro em meio ao azul do céu. Antes as idas ao médico eram prazerosas. Eu gostava principalmente porque era o momento em que eu podia ver o céu e me sentir livre da jaula que me privava da luz do dia e do rosto das pessoas. Claro, eu ainda era uma prisioneira de mim mesma, mas podia fingir.
Hoje já não é tão bom quanto ir a escola, por mais que as coisas não estejam tão bem quando o esperado. As vezes simplesmente nada é tão bom quando esperávamos. A vida é cheia de correntes e quando mais você se liberta delas, mas elas te enforcam.
Chego ao médico mais cedo que o esperado e me sento no hall. Todos, é claro, já me conhecem. Sou vip para eles. Eles sorriem para mim, com sorrisos calculados, e eu tento ser a mais simpática possível.
Espero ouvindo música bem alta e quando dá meu horário caminho até o consultório 787 para minha consulta na alá de psiquiatria. Muitos dos pacientes mais frequentes e aqueles que vivem aqui no hospital são familiares a mim e eu aceno quando os vejo e, vezes recebo um sorriso, vezes um olhar distante.
Quando chego no corredor do meu consultório escuto um alvoroço a frente. Alguém esta gritando e batendo em algum lugar e eu só consigo correr para a sala onde identifico esse barulho.
– ISSO NÃO É JUSTO CONOSCO! NÃO FAZ NENHUM SENTIDO!
É só o que consigo escutar. Quando apareço na porta do consultório 787, com os olhos arregalados e respiração ofegante, vejo o Dr. Wagner olhando para mim com olhos arregalados e um cabelo encaracolado cor de mel respitando forte e com as duas mão em cima da mesa do Doutor.
A princípio não o reconheci, mas depois que ele percebe que o médico parou com os olho imóveis nos meus ele se vira e posso ver melhor seu rosto. Ele tem os olhos azuis penetrantes e eu o conheço da minha aula de Química. Eu nunca falei com ele na vida, mas ele senta duas carteiras atrás da minha. É muito simpático com todas na sala, menos comigo. Na verdade, nunca fala comigo mesmo quando eu tento. No começo isso acontecia com frequência, mas desisti quando vi que o interesse dele não era esse. Mas as vezes o vejo olhando para mim e desviando o olhar.
– Bom dia senhorita Melanie. Desculpa o incomodo. O Sr. Thomas já estava de saída. Desculpa não poder ajudá-lo no momento, tenho uma consulta marcada para agora como pode ver.
Ele se vira com os lábios contraídos e com uma ruga na testa. Quando penso que vai simplesmente sair pela porta ele se vira e pergunta:
– O que você ouviu?
Meio desnorteada com a pergunta e com toda a situação que acabei de “presenciar” e só consigo falar:
– Nada.
Ele me olha desconfiado, mas mesmo assim não insiste. Se vira e sai andando com passos largos pelos corredores e eu o acompanho até virar, não antes de o ver olhando para mim.
Entro na sala do Dr. Wagner e ele me surpreende quando comenta que Thomas está passando por uma situação um pouco complicada. Só consigo olhar para ele com os olhos de desconfiança e sobrancelhas arqueadas e ele mudar de assunto.
– Como estamos hoje Melanie. Alguma novidade, recaída, algo que queira me contar. Comece me contanto como foi essa última semana.
Mesmas perguntas, mesmas respostas planejadas para não me prenderem mais aqui.
– Normal. Nenhuma recaída. Indo a escola, estávamos em época de prova então não ando saindo muito para poder estudar, e voltando sempre de carro, o que alias acho que o Senhor podia me ajudar nessa. Queria poder voltar sem um motorista. Nem a Gi e o Ju estão mais voltando comigo. Que tal liberar um carro?
– Depois da última recaída? Nem pensar, desculpa. Ainda não posso fazer isso. É um bem maior para a sociedade, você entende.
Ele esboça um sorriso e eu também. Até entendo.
– Mas que tal volta a pé com as meninas? Isso não me faria matar ninguém.
– Vamos fazer o seguinte: se não houver mais recaídas até a próxima consulta do mês que vem converso com seus pais sobre isso e libero você, tudo bem?
Já é mais do que eu consegui em muitos anos, então aceno com a cabeça com alegria.
A consulta continua na mesma e sou liberada com mais uma pilha de remédios que tenho que continuar tomando. Alguns eu até tomo, mas os que me deixam com muito sono eu descarto e tenho de sobra em casa.
– Bom, acabou por hoje Melanie. Te espero na próxima semana.
– Obrigada Doutor. Até a próxima.
Eu ando em direção ao carro, agora com um pingo a mais de esperança. Para muito o que pedi ao médico é irrelevante, mas para mim isso significa um pouco mais de liberdade. E é tudo que eu quero à principio.
Quando entro no carro e vejo que a música ainda está tocando no fone de ouvido eu lembro do incidente com Thomas e olho para a rua através do vidro. Lembro das palavras dele falando que “isso não faz sentido” e tenho vontade de voltar no tempo para fala — “nada faz sentido por aqui” — mas uma hora ele vai descobrir isso.
Quando vejo a chuva de verão começando a cair só consigo pensar em como as coisas mudam tão de repente e sem percebemos. Hoje de manha o céu estava claro, mas mesmo assim a chuva chegou, Thomas deve ter acabado de descobrir algo que não estava em seus planos e agora nada mais faz sentido para ele. Assim como aconteceu comigo. Pena que não posso conversar sobre isso com ele e falar que mesmo quando estamos na pior das tempestades de verão, o céu ainda permanece claro e só temos que esperar passar.
Era isso que eu estava fazendo. Esperando. E era isso que eu estava tentando falar pelo vidro do meu carro para o menino de cabelos encaracolados e olhos azuis que estava olhando fixamente para mim.
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