Leis da Noite - Antes do Escurecer
1 Prólogo
23 de março. 2011
Em algum lugar de Santa Felícia, uma pessoa sorria. Um sorriso sarcástico e, ao mesmo tempo, feliz. Um gesto típico daquele que vê tudo se concretizar como esperava, como dissera que seria, e debocha deste fato. Era também um sorrir maligno e ao mesmo tempo benigno, feito de más ou de boas intenções e planos que definitivamente trariam o bem, ou não. E acima de qualquer característica, aquele não era um sorriso humano. Por mais parecida, por mais enganadora que fosse a aparência daquele ser, ele definitivamente não era uma pessoa normal, era algo mais. Sua aparência era estranhamente comum, como qualquer pessoa que você possa encontrar pela rua, mas... Havia algo diferente... Não se podia dizer com precisão a idade daquela criatura, que poderia parecer ora ter 13 ora ter 31 anos, apenas saber, ter a certeza, de que algo não estava certo, perceber que aquele olhar, que aquela voz... Tudo... Tudo estava fora do lugar, nada parecia de todo correto. Mas, mesmo estas certezas, desapareceriam como bolhas ao vento, se assim aquele ser quisesse, pois ele tinha planos, maquinações antigas, muito antigas e agora tudo começava a se encaminhar pra um derradeiro final.
E começava com a chegada de 3 pessoas.
O homem (que não era homem, pois estava além de certas convenções) gargalhou enquanto andava por uma das vielas escuras da cidade, ao imaginar que tudo o que havia feito e planejado por eras, para aquele mundo, estava chegando ao ato final, à parte onde todo o desenrolar se aceleraria, num ritmo cada vez mais frenético, em direção ao fim, o verdadeiro, único e definitivo fim. E Aquele ser mais que humano esta adorando a idéia, que não perversa, mas poucos diriam ser boa.
Continuou a caminhar, deleitando-se com seu plano. Sem nem mesmo olhar ou desprender esforços, pulou uma enorme poça de água, causada pelas chuvas do dia anterior, que se acumulara na sarjeta da calçada à direita da viela a qual se encontrava. Não produziu som algum ao tocar novamente o concreto, caíra rápido, como qualquer um após um salto, mas tocara o solo com a leveza de uma pluma. Chutou desinteressadamente algumas folhas molhadas de jornal que estavam espalhadas pelo chão, que lhe lembraram que ali era “A Outra Santa Felícia”, nome que davam à parte pobre da cidade, embora isso não interessasse nem um pouco aquele ser tão concentrado em seus escusos planos. Apenas uma coisa habitava sua mente desde que entrara na pequena rua: Pensão Rónan.
E tudo começava com a chegada de três pessoas.
Ele poderia já ter chegado ao local, caso assim desejasse. Poderia simplesmente aparecer lá, como se sempre estivesse naquele lugar. Contudo, preferia simplesmente andar, sentir o cheiro da noite, a brisa noturna e seus pés, calçados em sandálias de couro, chapinhando nas pequenas poças de água que se acumulavam entre as pedras da mal-cuidada calçada daquela área suburbana. Virou à direita e continuou no trajeto. Passou a dez metros de um mendigo adormecido, que começou a se mover, e balbuciar, com o inicio de um pesadelo. Ao longe, alguns cachorros latiam.
Alguns postes de luz se apagaram conforme aquele ser mais que humano passava, voltando a se reacenderem apenas quando o vagante já estava muitos metros à frente. Ele virou à direita. Pulou um muro, novamente caindo sem peso ou barulho perceptível, flutuando. Atravessou silenciosamente uma parede. Parou. Observou o pequeno prédio acabado, precisando de pintura, retoques e diversas manutenções para que fosse apresentável como pensão. Ele sabia que aquele estabelecimento não recebia visitantes há anos. Sabia que o velho Rónan nem mais esperava por clientes, apenas morava no lugar e ia todos os dias para o balcão, tentando afastar a depressão e solidão que sentia. Porém, aquele ser sabia mais. Tinha o conhecimento de que em breve três pessoas pisariam na velha construção e tudo na cidade mudaria. Três é um numero de poder.
E faltava apenas a chegada de três pessoas, para o começo do fim.
Mais uma vez a criatura em forma de homem, de um homem comum, se largou nos devaneios de seus planos. Saboreando cada coisa que aconteceria. Alguns cachorros voltaram a latir, atrapalhando seus pensamentos. Ele apenas sorriu, olhou uma última vez para a Pensão Rónan e foi embora da rua, do bairro... Daquele mundo.
No outro dia, pela manhã, um mendigo acordou assustado, chorando por causa dos pesadelos. Ele se lembrava de pouca coisa, apenas de penas negras, que eram levadas docemente pelo vento. Mais tarde pessoas descobririam que seus queridos cães haviam morrido, mas teriam a estranha sensação de que aquilo poderia ser bom.
Tudo acabaria no fim.
Notas finais
Bem vindos á mais uma das minhas esquizofr... Histórias. espero que agrade à maioria. Se não agradar, tanto faz, continuarei a escrever, mesmo que me implorem para parar.
Ps: este capitulo ainda não foi betado.
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