Notas iniciais
Como sempre, divido os capitulos.

Capitulo 1 – “Jack”

Era uma agradável manhã de segunda-feira em Los Angeles. Já passavam das oito horas e a maioria das pessoas já havia chegado aos seus trabalhos, universidades e escolas, acabando com os constantes engarrafamentos de trânsito que ocorriam próximos a esse horário. Um garoto caminhava tranquilamente por uma calçada apinhada de pedestres, ele estava em um pequeno distrito comercial, próximo à North Holywood, o lugar era composto principalmente por lojas de pequeno porte e com preços espetarculamente baixos, o que justificava a quantidade de gente no local. Um uniforme da Goldensun Middle School adornava o corpo do rapaz, era como um estigma, uma marca que lhe implicava vários rótulos, mas o sinal mais claro que aquela roupava representava passava a seguinte mensagem para qualquer um dos pedestres que olhavam, mesmo que rapidamente, para o adolescente: Estou matando aula.


Porém, a maioria das pessoas nem mesmo perdiam o que diziam ser “seu precioso tempo” pensando por mais de um segundo sobre aquele garoto, não, a maioria apenas olhava (quando olhavam), pensavam “garoto levado, matando aula” e no instante seguinte já haviam esquecido o rosto daquele rapazinho para pensar na mais nova conta que haviam recebido ou em como o Super bowl tinha sido subitamente adiado de 5 de fevereiro para dali a uma semana, em primeiro de abril, por motivos que ninguém conhecia. Se alguém tivesse dispensado um mínimo de atenção, teria percebido o grande inchaço de cor arroxeada que estava ao redor do olho esquerdo do garoto, mas, as pessoas na rua mal olhavam para rostos, apenas para roupas, para rótulos. Deste modo aquele garoto se tornava mais um na torrente de pessoas que andava por aquela região, não sendo realmente notado por quase ninguém. QUASE ninguém.

A senhora Dafne era a típica velhinha dona de uma pequena loja que, não tendo muito o que fazer, ficava o dia inteiro a observar e monitorar os seus funcionários e qualquer outra pessoa que passasse em frente a sua lojinha de cosméticos e velharias. A mulher estava entediada, mantinha-se sentada em uma pequena cadeira de madeira logo na entrada de seu estabelecimento, enquanto, para se enquadrar melhor em alguma espécie de regra que rege este tipo de idosa, segurava seu cachorrinho pincher com uma mão e se abanava com um leque colorido com a outra. Como sempre, olhava para as pessoas na rua, citando mentalmente defeitos na aparência e na conduta daqueles cidadãos que nunca havia visto na vida, para quando a noite chegasse poder tagarelar para seu marido tudo o que havia visto de errado. Então o seu companheiro, um exemplar barrigudo e careca, diria um “éééé” desinteressado enquanto mudava algum canal em sua amiga para todas as horas, a televisão.


Com a mão que segurava o leque, a madame, ajeitou um pomposo chapéu que usava para proteger-se do sol e então se voltou novamente para os transeuntes. Viu o que pensou ser um executivo decadente, provavelmente do ramo imobiliário, vítima da crise que se passara em 2009, onde muitas empresas faliram e as bolsas despencaram. Percebeu duas garotas novas, com não mais que vinte e um anos, andando de mãos dadas. Sapatas, dona Dafne pensou enquanto se orgulhava de seus 60 anos bem femininos. Muita gente passou pela frente daquela pequenina loja, poucas escaparam das ácidas anotações mentais que Dafne fazia. Um mendigo sujo e preguiçoso andara por ali, pedindo esmolas, uma prostituta juvenil olhara rapidamente para as vitrines da “Make Up Emporium” antes de notar o olhar azedo da dona do local e preferir ir embora. Iria tudo continuar naquele mesmo ritmo, pessoas passavam, a senhora as insultava mentalmente, até que, o garoto, aquele, o que matara aula, passou em frente à lojinha.


A bisbilhoteira não pode deixar de reparar naquele rapazote.Seguiu o mesmo cronograma que sempre fazia, era algo quase religioso que ela não ousava desrespeitar, temendo de algum modo fazer algo errado. Sempre percorria o mesmo sentido: Aparência, roupas, maneirismos. Nunca percorria outro trajeto, considerava tal ordem uma das 13 técnicas secretas de observação da senhora Dafne. O garoto tinha por volta de um metro e sessenta e cinco, os cabelos eram curtos, loiros, ela não pode ver a cor dos olhos do rapaz, pois seu olho esquerdo estava roxo e inchado, bem como a região da orelha, na certa tinha apanhado de algum outro moleque. Aquele transeunte parecia ter quinze anos de idade, devido à altura e a expressão dura em seu rosto, mas, Dafne sabia, ele possuía exatamente treze anos, com o passar do tempo a perícia daquela de perceber a idade das pessoas havia alcançado níveis exorbitantes. Ela reparou um pequeno detalhe antes de passar para o estágio das roupas, aquele exemplar de adolescente, mesmo estando com o olho ferido, mantinha-o aberto, quase não piscando.


Não se demorou muito na parte das roupas, logo viu que ele usava as do colégio, camisa de farda, uma calça jeans básica e a mochila, para guardar o material. A senhora não se agüentou de pena, tudo estava fazendo sentido para ela. O pobre rapaz havia ido para a escola, apanhado de alguns valentões e agora perambulava por aí, com vergonha de se mostrar machucado diante os colegas e de voltar para o colégio. Tadinho, está com orgulho ferido, deve estar precisando que alguém converse com ele. Depois de convencer a si mesma de que estava indo ajudar o garoto e não apenas tentar descobrir o que havia acontecido, ficar sabendo mais uma fofoca para contar para o marido, largou o leque na cadeira e, segurando o silencioso cãozinho com as duas mãos, foi até o garoto.


A senhora Dafne foi num trajeto curvilíneo, caminhou diretamente até o rapaz, desviando de outros pedestres e então o interceptou, parando logo em sua frente. O adolescente não esboçou nenhuma reação, apenas estacou e, de lábios crispados, encarou a mulher que o abordara, sem nenhuma expressão aparente, apenas olhando. A bisbilhoteira se espantou, o garoto possuía um olhar vazio que chegava a amedrontá-la, ela olhou para os próprios pés por alguns segundos em que ninguém disse nada, e voltou os olhos novamente em direção a ele. Para sua sorte, ela era mais baixa, de modo que pode disfarçar e olhar para a boca do estranho.


- O que aconteceu com você, meu rapaz? – conseguiu dizer por fim.


- Segundos atrás alguém interrompeu meu caminho até a estação Redhawk. – respondeu ele imediatamente, sendo ofensivo, mas falando em um tom inquietamente neutro. – E não sou seu rapaz.


A mulher se sentiu ultrajada por ser tratada daquela maneira por um garoto tão jovem. Ela apenas queria ajudar, sim, ela queria muito saber pelo que o rapaz estava passando, só então, pensar em ajudá-lo. Dafne abriu seus lábios como que para soltar um “Oh” e então todo seu rosto se esticou devido as inúmeras plásticas e correções faciais que havia feito, mas não havia desistido de saber o que estava acontecendo. Algumas pessoas passaram e olharam para a cena, mas logo se desinteressaram.


- Não diga isso rapazinho, estou apenas tentando lhe ajudar – balançou o cachorro enquanto falava – ir até a estação não vai ajudá-lo a tomar coragem para resolver a situação e conseguir voltar para a escola, ou para casa.


O garoto deu um sorrisinho bem furtivo, mas sua expressão não se alterou.


- Senhora, não ligo a mínima para suas curiosidades idiotas disfarçadas de ajuda, mas se quiser, para poder fofocar para quem for de sua maldita escolha, vou falar. Estou indo para a estação de ônibus. Para sair dessa cidade e provavelmente você errou feio em quem supõe que me bateu, obrigado.


Ele fez uma pausa na qual se deliciou com a expressão da velha e então colocou sua delicada mão na orelha do cachorro que ela segurava.


- E se não sair de minha frente agora mesmo, pode ter certeza, a mesma certeza que lhe faz acreditar que tem o direito, ou quem sabe dever, de se meter na vida dos outros, que eu arranco a orelha desse rato grandão em seu colo.


Dafne novamente olhou para os olhos do rapaz, aquela ausência de expressão, de sentimento, perdurava naquele olhar que deveria ser jovial e teve certeza de que ele não mentia. Sem dizer mais nada, saiu do caminho, afastando seu cachorro o máximo possível do garoto, que imediatamente soltou o animal. O sinistro rapaz de olhar vazio continuou seu caminho sem nada dizer, sendo acompanhado, pelo olhar, por uma assustada senhora Dafne, que teve a certeza de que havia algum problema naquela mente perturbada.

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