Leis De Um Sacrifício
20 — Cap. 19
O casal caminhou até o bar, abraçados e envolvidos em uma conversa íntima sobre clássicos do cinema. Caroline estava tão presa à conversa com o Híbrido que nem ao menos notara seus amigos ali. Todavia, Klaus havia, mas por sua vez, não comentou nada sobre.
– Uma Gimlet e um Bourbon, por favor – Klaus pediu ao bartender, educadamente. Os dois sentaram-se nos bancos, à espera de seus drinks. Hábitos que haviam criado enquanto estiveram nas últimas semanas viajando de volta para Mystic Falls.
– Eu não acredito que você conheceu Audrey Hepburn... É, tipo... Ela... – Caroline gesticulava alheia a qualquer coisa. Audrey havia sido uma de suas atrizes preferidas. Ela se lembrava que poucos dias atrás, enquanto assistiam uma reapresentação de Bonequinha de Luxo, Klaus havia sussurrado para a loira que havia conhecido a atriz. Aquilo a havia deixado desnorteada. Por pouco, ela não perguntou-lhe se eles haviam se envolvido romanticamente, mas o fato de perguntar isso era estranho demais. Então, havia se contentado em dizer que não acreditava naquilo; que ele não havia conhecido a atriz pessoalmente.
Klaus gargalhou suavemente, imerso em sua rouquidão que a loira tanto adorava. Ela o assistiu recompor-se encantadoramente, completamente hipnotizada.
– Caroline? – uma voz os puxou de sua conversa, fazendo-os se virarem para ver cinco pessoas ali. Estes sorriam de orelha a orelha, felizes.
– Oh, meu Deus! – Elena exclamou, pulando em alegria.
– Eu conheço vocês? – a loira perguntou, franzindo o cenho. Klaus fez o mesmo, todavia, para a loira. Ela não se lembrava de seus amigos?
– Somos nós... Elena – Elena apontou para si mesma, embaraçada, logo, para os outros ali – Bonnie, Stefan, Damon e Matt...
– Eu... – a loira fez uma careta. Logo, seu sorriso se tornou tão grande quanto poderia ser, dando espaço para uma risada debochada. – Não sejam ridículos! Meu Deus... Eu senti tanta falta de vocês!
E então, abraçou-os um por um, enquanto Klaus se afastava, assistindo de longe. Vendo Tyler Lockwood sentado do outro lado do bar, com Jeremy Gilbert.
– Meu Deus! Você está diferente! – Caroline riu para Elena, abraçando-a e medindo-a dos pés a cabeça. Logo, virou-se para Bonnie. – Oh, meu Deus, Bonnie... O que aconteceu com seu cabelo? – perguntou, se referindo ao comprimento dele.
– Você gostou? – Bonnie riu, mexendo nestes. Pela primeira vez desde que chegaram, ela mostrou animo, o que deixou Elena ainda mais feliz.
– Está incrível! – riu a loira. Logo, tornou a abraçar Stefan.
– É bom tê-la conosco, Caroline – ele disse, apertando-a a ponto de suspendê-la do chão. – Eu realmente senti sua falta.
– Eu também – ela disse, agora, seu sorriso havia desaparecido. Engraçado como havia sido Stefan quem ela mais sentira falta. Mais quisera ter visto mais vezes, ter conversado mais vezes.
– Vivemos num mundo onde é possível mandar mensagens instantâneas – Damon zombou, abraçando rapidamente a loira. Ela sorriu, revirando os olhos. Logo atrás de seus amigos, podia ver Klaus bebericando de seu uísque, enquanto assistia a cena.
– Bom, digamos que eu perdi meu celular... – ela deu de ombros, sorrindo significativamente para Klaus que sorriu-lhe de volta. Damon percebeu, logo, fez uma careta.
– Eca – ele disse. – Isso é realmente nojento.
– Somos adultos. Supere isso – ela soltou-lhe uma piscadela. Em seguida, Matt a abraçou tão apertado quanto Stefan havia feito. Seus olhos marejados.
– Nós pensamos que você tinha morrido – ele disse. Sua expressão era séria, como quem repreende uma criança. Caroline teria se sentido mal em outros tempos, mas não nesses. Então, ela lhe sorriu como um velho Cheshire, mostrando-lhe os belos dentes. – E eu tenho certeza que ao menos se lembrou do número da sua mãe... Ela esteve louca aqui quando achamos que você esteve morta! Você simplesmente desapareceu pelo mundo, e depois de algumas semanas parou de ligar ou dar notícias. Eu sei que se tivesse sido qualquer um de nós você teria ficado louca.
– Você precisa relaxar – disse a loira, lentamente, logo, sentiu a raiva subindo novamente. – Não é como se vocês tivessem realmente sentido minha falta a ponto de estarem tristes ou depressivos... Ou chorando pelos cantos. Pelo contrário. Estavam brindando.
– O quê? Agora somos os errados? – Matt alterou-se. – Nós não estávamos por aí fodendo nosso inimigo.
– Whoa! – exclamou Caroline, levantando as mãos em falsa rendição, rindo friamente. – Yeah. Eu vejo agora... Eu deveria ter feito isso antes, uh? Já que eu teria sido julgada de qualquer forma. Se não fosse por vocês, pelo amiguinho ali de vocês. – Meneou a cabeça em direção aonde Tyler se encontrava, assistindo a cena de braços cruzados e expressão não muito boa. – Eu acho bom você se lembrar que temos coisas a resolver, Tyler... Você – ela apontou-lhe o dedo e, em seguida, para si mesma. – e eu.
Tyler retorceu-se da cadeira onde se encontrava, notando então a presença alerta por sua presença de Klaus. Sua expressão agora era terrivelmente dura, como se, a qualquer momento, ele fosse atacá-lo e matá-lo em definitiva. Mas havia uma breve trégua entre eles, já que Caroline havia se decidido ir embora com o híbrido por sua causa, para que ele pudesse voltar para casa.
Ele estava em casa agora, embora não se sentisse totalmente assim. Agora que Caroline havia voltado e não estava morta como todos pensaram que estava, não parecia mais certo estar ali sem a pessoa pela qual amava.
O problema era que ele sabia que Klaus provavelmente pensava a mesma coisa sobre isso. Então, decidindo fazer a coisa mais covarde possível, ele se levantou, apanhando suas coisas e comentando alguma coisa aleatória para Jeremy que havia continuado na mesa com ele.
Ao vê-lo começar a partir, Caroline sentiu Klaus se movimentar em direção à porta, para impedir o híbrido. Mas antes que o Original pudesse fazer algum tipo de besteira, a loira se movimentou, aproximando-se do loiro, tocando-lhe o braço levemente, apenas sacudindo a cabeça negativamente. E o incrível para os amigos da loira foi ver como Klaus apenas desistira, apenas olhara para ela, com uma expressão dura e tornou a beber de seu uísque. Ele simplesmente sabia que haveria comentários depois... Comentários sobre como Caroline simplesmente havia domado a um Original. Havia domado o maior e mais perverso de todos os predadores.
– Olha, Car... – Matt disse, passando a mão por sobre o rosto, exausto. – Seja lá o que tenha acontecido entre você e Tyler, não temos nada a ver... Não temos como saber o que está acontecendo à volta. Mas realmente pensamos que você havia morrido. Mas eu estou feliz que esteja aqui. Só... Por favor... Vá ver sua mãe.
Caroline procurou por algum sinal de mentira no loiro. Havia se tornado mais cautelosa sobre todas as pessoas desde os meses anteriores. O problema era que começara a se tornar assim com seus amigos. Havia transformado-os em estranhos.
– Eu vou – ela disse.
– Agora, venha cá e me dê um abraço... – o loiro sorriu abertamente, como se há poucos instantes não tivesse soltado farpas com a vampira. Tão Matt... – Eu estive realmente morrendo de saudades de você!
Então Caroline o abraçou fortemente, se perguntando se algum dia aquilo voltaria a ser familiar como antes. Porque, agora, era estranho estar ali com todos os outros e, não era muito de se admirar que Stefan havia notado a súbita estranheza da loira, como se estivesse distante, apenas tentando ser gentil, se adaptar enquanto ao passar da noite, os amigos conversavam animadamente.
Uma hora, o mais jovem dos Salvatore se aproximou o balcão, onde Klaus se encontrava sentado, degustando de seu uísque há algumas horas. Parecia profundamente entediado.
– Eu estou contente por terem voltado e dela estar viva – comentou Stefan após pedir uma bebida ao bartender.
– Eu também – disse Klaus, de forma distante.
– É verdade, não é? – Stefan perguntou, virando-se para olhar para Klaus. Conhecia o híbrido bem. Conhecia o suficiente para saber se iria mentir. – Ela realmente morreu, não?
Klaus não respondeu. Não precisava. Stefan esfregou uma mão no rosto, de forma preocupada.
– Como ficou quando voltou? Como voltou? – perguntou, temeroso.
– Eu não sei – disse Klaus, suspirando profundamente. – Nunca entendemos como isso aconteceu. Só surgiu no meio de uma pista no meio da noite de Samhain... Eu...
– Hey, não falem de mim pelas costas! – a voz estridente de Caroline soou. Ela se aproximou e sorriu para os dois homens ali, soando maravilhosa, como se tudo estivesse em suas mãos. Como se o mundo estivesse... E pelo visto, estava. – Você está pronto pra ir?
Klaus sorriu para ela, um pouco amargo, enquanto engolia seu uísque e tornava a beber todo o restante de seu copo.
– Desde que cheguei – ele disse, seu tom um pouco seco, mas fora ignorado pela loira que se aproximou e beijou seu rosto suavemente. Caroline então disse suas despedidas para Stefan, o abraçando e prometendo que conversariam depois, embora ela não almejasse aquela conversa, principalmente, quando ele começara de forma errada, perguntando diretamente a Klaus ao invés dela.
Após se despedirem de seus amigos, ela agarrou-se ao braço do Híbrido e caminharam para fora do Grill. As ruas de Mystic Falls estavam começando a esvaziar, exceto pelas pessoas que iam e vinham do bar naquele horário. Cogitou então que sua mãe estivesse dormindo à essa hora.
A torre do relógio na praça principal marcava um pouco mais além das duas da manhã. Ela enfiara suas mãos nos bolsos, enquanto caminhavam até o carro, deixado um pouco mais além da praça.
Quando entraram nesse, Caroline se viu aturdida. Um leve pulsar em sua cabeça, como uma dor de cabeça; exceto que vampiros não sentiam essas coisas. Apenas ela quando começava a escutar as malditas vozes sussurrando-lhe coisas ruins.
Ela endireitou seu cinto de segurança, enquanto Klaus dava a partida no carro. Foi então que ela olhou para o espelho retrovisor e avistou, um pouco distante do carro, próximo a um carvalho ali, alguém parado, vestindo um longo vestido branco, coberto de lama um pouco abaixo dos joelhos. Os cabelos desgrenhados e uma expressão pálida, cadavérica. Foi então que, pela primeira vez, Caroline viu um espírito que nunca imaginara realmente ver. Ela viu seu próprio espírito encarando-a de forma acusatória.
Embora estivesse longe, ela podia ver como o corpo translúcido se mexia, como seus cabelos sujos e desgrenhados mexiam-se com o ar, sendo empurrado um pouco contra o rosto pálido. Os lábios roxos abriram-se para sussurrar alguma coisa, mas Caroline não conseguia compreender o que era. Principalmente, quando alguma outra coisa chamou-a.
– Por que você fez aquilo? – Klaus indagou, um tanto enraivecido. A loira se autopuxou de seu devaneio, para então fitá-lo. Estava pálida, sombria.
– Fiz o que? – questionou ela, confusa.
– Me impediu de ir atrás de Tyler – apontou ele. – Eu não sei se se lembra, mas ele foi culpado por você ter partido...
– Ele não foi culpado sozinho – ela soltou antes de remediar o que diria. Sua cabeça começava a doer de verdade.
– Como?
– Você me escutou – ela decidiu que continuaria. Era o tipo de fato que não deveria pôr panos quentes sobre.
– Talvez se você não tivesse tido a proeza de tentar defendê-lo... Eu não sei se chamo de proeza ou burrice... Mas acredito que o último se encaixe mais.
Caroline olhou então para ele, suas orelhas aquecidas de raiva. Ela mordeu sua boca por dentro, enraivecida.
– Bom, então talvez a culpa fosse minha completamente. De todo caso, se não tivesse sido por você, eu não estaria aqui nem mesmo do meu décimo oitavo aniversário... – ela apontou, cínica. – Oh... Deixe-me ver... Ele não teria me mordido se não o tivesse transformado em híbrido.
– Yeah... – Klaus concordou, virando em uma esquina para a mansão dos Mikaelson em um conjunto de casas luxuosas um pouco distante do centro. – Esse é o tipo de erro que não cometerei pela quarta vez: deixá-lo viver.
– Acredito então que tenha sido mais vezes. Talvez devesse contar – ela soltou finalmente, saindo do carro antes que Klaus pudesse dar-lhe alguma resposta. A loira marchou para dentro da casa. As luzes acesas pareciam lhe incomodar ainda mais. Pressionando os olhos com força, ela correu até as escadas, temerosa de que mais alguma coisa aparecesse ou tentasse matá-la.
Ela podia escutar os passos enfurecidos de Klaus não muito longe. Ela podia ter certeza que ele estaria pronto para qualquer briga realmente séria agora. Simplesmente, pelo fato de ter sido questionado sobre tal assunto. Porque, na realidade, Caroline sabia que se Tyler havia sido poupado todo esse tempo, era por sua causa. E a qualquer momento, Klaus mudaria de ideia. Isso se o mesmo não decidisse matá-la.
Trancou-se no banheiro antes que ele adentrasse no quarto e dissesse coisas ruins e ela retrucasse como era de seu feitio. Pelo visto, não haveria lareiras ou varandas, nem nada mais romântico agora.
A loira se enfiou debaixo do chuveiro, molhando sua cabeça e deixando que a água escorresse por seu corpo. Aquilo parecia-lhe familiar, só que de forma ruim. Parecia haver alguma coisa em sua mente que dizia-lhe que estar sob a água de olhos fechados não a ajudava. Então, ela estava em alerta, com seu coração batendo forte, tão forte que, se fosse humana, teria tido algum tipo de ataque.
Então, sentiu uma leve fisgada em sua barriga. Olhou para baixo, para ver o vermelho da água no chão — sangue. E este era seu.
Pressionando a mão sobre o corte que surgira, ela segurou-o, esperando que este se curasse, mas não o estava fazendo. Logo, avistou cortes crescerem em seus pulsos, despejando sangue. Ela não encontrou forças para gritar. Não conseguia.
Apenas permaneceu de olhos fechados, sentindo ser sugada para alguma coisa ruim. Parecendo algum deja vu.
Havia então água, puxando-a pela correnteza, puxando-a para o fundo, embora que a loira lutava profundamente para se sobressair dali. Eram como correntes prendendo-a, puxando-a para o fundo lamacento; sujando-a.
Embora quisesse gritar, ela não conseguia. A água invadia seus pulmões, sufocando-a. E a pior parte era saber que, caso morresse afogada, voltaria a acordar, para morrer afogada novamente. Porque era um ciclo vicioso.
Ela sentira uma mão longa e negra aproximar-se. O que a fez se perguntar se era algum tipo de demônio, já que a coisa tinha dentes tão grandes, afiados como lanças e unhas gigantescas. Seu primeiro pensamento era que aquilo parecia uma salamandra, com sua pele viscosa. Seus olhos eram vermelhos e ele sorria. Ele era um demônio, pensou ela gritando novamente.
– Voccccê é minhaaaaa, Caroliiiiiiiineeeeeee... – aquilo silvou, sua longa língua bifurcada como de uma cobra chicoteou o rosto da loira, cortando-o. O sangue vermelho flutuando na água. – E logooo eleeee tambéeemm seeeeerá, comooo me fooooi prometiiiidooo por sua mãeeee. E seeeeeu muuuundooo seráaaa meeeeu.
E tudo o que Caroline conseguiu fazer fora tentar gritar. Em vão, afinal, sempre voltava para o mesmo ciclo, infinitamente.
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