Legendary
2 Sangue Azul
Notas iniciais
Ela se virou, o sangue disparado pelas veias, a respiração ofegante. Elizabeth correu, por mais que o ar gélido lhe ferisse os pulmões, correu. O garoto apenas a seguiu com os olhos, frios e vazios.
Seguiu a trilha que contornava o ginásio. Podia ouvir os tênis sobre o chão, as bolas, a respiração ofegante das pessoas que lá estavam. As aves pousando nos galhos secos. Mas o garoto, só o que havia a sua volta era o completo silêncio.
Apertou o passo. Corria como o vento sobre a fina camada de neve. Na primeira curva a tentativa de diminuir a velocidade falhou. Caíra aos pés das árvores secas. Um estalo, algo quente escória pelo braço. Ignorou. A arvore quase morta servira de apoio. A perna doía, ignorou mais uma vez.
– Isso não foi lá muito inteligente não acha? — Ergueu os olhos. Diante de si lá estava. O sorriso sádico, que lhe causava tanto desespero. Engoliu seco. Não o ouvira chegar, seus passos, respiração, qualquer coisa. Apenas a voz mansa quando já estavam cara à cara.
Correu mais uma vez, tentava prestar mais atenção no que fazia. Mas o sorriso do garoto, seus olhos, o jeito como a encarava, tão distante mesmo assim tão familiar. Aquela negritude. Não saiam de sua mente, embaralhava-a por completo.
Escorregou mais algumas vezes, contudo não caíra. Chegou enfim ao pátio dos fundos. O gradeado era baixo, resistente e fácil de se pular. Os fundos do colégio levavam a uma rua quase deserta. Alguns idosos a observavam enquanto corria, os olhares lentos de nojo para com a garota.
Não havia sinal do garoto, contudo ela continuava. Ele estava atrás dela, por mais que não pudesse ouvi-lo. Estava lá, ela sabia.
Elizabeth correu, até que sentisse os pulmões quase rasgarem pelo ar seco e frio. Até a perna sede-se. A este ponto já chegara perto de onde queria, a floresta. Os galhos das arvores se curvavam para baixo como garras, davam ao lugar uma aparência sombria ao lugar, sombria o bastante para afastar todo e quaisquer cidadãos. Elizabeth se esquivava, agora já andando, dos galhos. Puxavam roupas e cabelo de quem quer que passasse. Incluindo, ela acreditava o garoto.
Adentrava cada vez mais na floresta, os galhos cada vez mais baixo, fechava-a mais e mais em seu interior. Quando ao fim chegaram, seu rosto já estava levemente arranhado. Logo após os galhos havia uma clareira, pedras altas espalhadas para todos os lados. As árvores pareciam proteger aquele lugar de aparência milenar e intocada.
Ela apoiara contra uma pedra mais ao centro. Ouvidos em pé. Tentou acalmar a respiração e pensamentos. Aquele garoto, seu jeito, a voz, o sorriso, mas principalmente aqueles olhos, íris inteiramente negro piche. Vazias, como um interminável túnel com destino ao infinito. Tudo lhe causava sensação de pânico. Como se uma voz gritasse até que as cordas vocais se arrebentarem "corra!".
Suspirou, levou a mão ao braço, a ferida inicialmente fora profunda, algum galho devia ter, por azar, cortando-a. Contudo agora não passava de um feio corte. A perna latejava, mas não doía, apenas incomodava. Suspirou.
Não havia quaisquer sons, além de sua respiração aos poucos desacelerando. Talvez aquele garoto tivesse desistido. Talvez fosse apenas mais um louco da cidade tentando atormenta-la. Apoiou a cabeça nos joelhos. Mas aqueles olhos...
Sentira algo esquentar em seu peito. Um calor calmante, como o de uma lareira em pleno inverno. Um cheiro de queimado, semelhante ao daquele dia fatídico. Puxou a corrente, está mais gelado que a pedra.
A pedra do cordão queimava as luvas, entretanto era apenas morna sobre sua pele. Emanava um brilho azul, que pouco ao pouco aumentava.
– Sabe, já estava cogitando a ideia de desistir de você. — O garoto a encarava, o corpo apoiado na pedra, olhava o cordão em suas mãos. — Independente do quanto o Jagre te quisesse.
Elizabeth tentou levantar. Contudo desta vez o garoto a impediu. Não bastou nem um segundo para que o garoto estivesse ao seu lado segurando-a com uma mão e com a outra forçando algo contra sua face. Elizabeth tentou se debater, mas seus músculos iam ficando mais moles, a visão turva, sua mente cada vez mais vazia. Tudo ia perdendo o foco, escurecendo.
– Não precisa se preocupar. — Sua voz ia ficando distante — Não vou lhe fazer mal. Quero apenas... -Sua voz se tornou um eco distante. Tudo escureceu — Salva-la

Estaremos no hotel até as 18:00 de amanhã.
P.S: Não achei papel, só caneta. Desculpa.
– J.P
Escrevera em seu braço direito.
As pessoas desviavam dela quando passava, os olhos arregalados esboçando raiva, nojo e medo. Elizabeth mantinha a cabeça baixa, perdida em seus pensamentos.
O garoto havia a levado de volta ao orfanato. Acordou em seu quarto, na cama de Vanessa, ele errara por uma. Estaria ele a observa-la? A quanto tempo? ... Quero apenas salva-la.
Chegou a porta do primeiro, único e último hotel daquele vale. Respirou fundo e entrou. O hall simples como toda a cidade em si. Alguns sofás e mesas com plantas mortas.
– Boa tarde. Posso aju... — A expressão da balconista a mudou ao ver a cliente. O olhar feliz se transformou em puro pavor, o sorriso desmanchara. Elizabeth ignorou. Seguiu tranquila até o balcão. — Eles estão no último andar. Quarto 1510. — A mulher apontou para as escadarias, logo baixou a cabeça para uma revista, o medo ainda em seu rosto, as mãos tremiam.
Elizabeth dera nos ombros e fora até as escadas. A mulher resmungava a suas costas, ela apenas continuou a andar. Subia devagar, pensando consigo mesma, a quão boa era aquela ideia. Ir atrás do garoto que mais cedo fugira. Ir atrás de Jagre. Queria respostas, apesar de no fundo teme-las. Chegara no decimo quinto e último andar. Era estranho não haver elevador. Seriam a respostas para suas antigas perguntas? Ou apenas explicações do recente?
O corredor era razoavelmente longo. Sua mãe. Não havia decoração alguma, as paredes já haviam perdido a pintura. Talvez... O 1510 desbotava. Aquela noite... Hesitou em bater. Aquelas sombras... Bateu. Quase no mesmo instante a porta se abriu. Uma figura alta e magra sorria para ela.
– Sabia que viria.
Serviu a ela refrigerante e algumas balas. Estava sentada na cadeira da escrivaninha. Jagre sentara-se na cama a seu frete. Por algum motivo, sorria triunfante.
– Então o que quer saber? — Elizabeth mal sabia por onde começar.
– Eu... — Havia passado seu curto tempo pensando no que queria entender, havia tantas perguntas que não conseguia formular. — Eu... — O sorriso se tornara mais manso. Jagre apoiou a cabeça nas mãos.
– Primeiro acalme os pensamentos. Só sinto em dizer que não pode demorar muito. Nosso tempo é curto.
– Mais cedo um garoto estranho me perseguiu até a floresta... — Perguntara a primeira coisa que viera na cabeça — Ele mencionara seu nome... Por que... Quem, quem era ele?
– Ele? Era apenas o Joanh. Ninguém com que deve se preocupar, ele não é perigoso, a não ser que tenha bolo no meio. — Jagre franziu o cenho. — Joanh só é um pouco assustador as vezes, ele tem um certo senso de psicose. — Elizabeth resmungara puxando a corrente.
– Certo senso de psicose– resmungara — Bem... Por que ele me seguiu?
– Para te assustar na verdade. — Elizabeth semicerrou os olhos.
– Por que?
– Para ver a reação do Nixtriz, que é essa pedra no seu cordão. — Elizabeth franziu o cenho, confusa. — Caso ele ficasse apagado mesmo com o choque de adrenalina não haveria nada de especial em você. Mas ele reagiu, e isso quer dizer que você tem o sangue.
– Sangue... Sangue de quê? — Jagre sorriu.
– Você tem o que chamamos de Sangue Azul... — A voz de Jagre minguara. Um grito, esboçava agonia com toda foça ecoou, seguido de um estrondo.
– O que foi isso?
– Um disparo... Não pode ser ... Chegaram rápido demais. — Jagre levantara com um pulo da cama — Levante daí Elizabeth e abra a janela.
– Quem chegou? Jagre? — Jagre não respondera. Apenas em silêncio começara a recolher alguns objetos, maioria de metal, espalhados pelo quarto. Jogou-os sem jeito em uma mochila. Entregou-a à Elizabeth e logo empurrou-a até a janela. — Jagre o que você está fazendo?
– Escute. Você vai correr o máximo que puder. Siga até o centro, Joanh vai te encontrar lá e leva-la a algum lugar seguro. Eu vou distraí-los, encontro com você depois. Entendeu?
– Espera. — Jagre se virou e correu para porta.
– Apenas faça o que eu mandei. — Olhava-a melancólico — Por favor Elizabeth, confie em mim. — Fechou a porta atrás de si. Elizabeth ficara parada em pé ao lado da janela. Mais gritos. Algum lugar seguro. Ouvia vozes agora, passos, cada vez mais perto. Sentou-se no parapeito da janela. Olhou para baixo. Quinze andares, encarou a queda mortal. Gritos. Vozes. Passos. Suspirou. Ele sabia, realmente sabia? Disparos, gritos. Suspirou, fechou os olhos e pulou.
O vento bagunçava lhe os cabelos. Mãos e pés se tornavam frios, por mais que não visse sabia a cor que tomavam. O cordão ardera doce e voraz. Seu coração acelerara, seu sangue parecia ferver nas veias.
Era como tocar travesseiros. Elizabeth cambaleou ao chegar ao chão as pedras ruíam sobre sua mão. Concentrou-se, abriu os olhos. Olhou as mãos, ainda estavam brancas, frias, veias se destacando negras.
Ouve mais um estrondo. Algo fora atirada de uma das janelas. Caíra a pouco metros de Elizabeth a mistura de vidro e sangue sobre o corpo retorcido, mutilado da recepcionista. Se o menor sinal de vida, os olhos esboçando medo, apenas medo. Olhou para cima. Uma figura negra se debruçava sobre o parapeito de onde caíra o corpo. Aprecia um homem, apenas parecia.
Correu. As pessoas desviavam dela o mais rápido que podiam. Não olhara para traz, apenas corria. O centro nunca pareceu tão longe. O barulho da rua se isolava. O que está acontecendo? Atravessava as ruas sem se importar com os carros. Motoristas buzinavam. Corria, a imagem da mulher não saia de sua cabeça. O sangue, os ossos quebrados, seu rosto. Medo. Apenas medo.
Um carro entrara na sua frente por mais que core-se no passeio. Por pouco não pegara os outros pedestres. O vidro baixara.
– Estou buzinando para você desde duas quadras atrás. Por um acaso você é surda? — Elizabeth olhava abismada — Quer me fazer o favor de entrar no carro? — Joanh a encarava, os olhos negros brilhando por baixo dos óculos. Elizabeth deu a volta e entrou.
– Você tem idade para dirigir?
– Não. Mas vamos ser sinceros, ser pego pela polícia é um dos meus menores problemas. — Ele voltou à pista. Corria pelas ruas da cidade, não se importando com a mão. Motoristas contavam pneus e xingavam.
– Onde nós vamos?
– Para fora da cidade. Sinto em dizer que não vamos passar para pegar suas coisas. Um dia você volta e pega.
– Tudo bem. — Elizabeth olhara pela janela. Já estavam adentrando na estrada principal, que cortava a floresta. Respirou fundo, tentou se aclamar — Me diga, o que eram aquelas coisas? — perguntou sem tirar os olhos da paisagem.
– As coisas de preto? — Elizabeth assentira com a cabeça — São os caçadores. Eles trabalham paras colecionadores de espécimes raros. Caçam qualquer animal exótico sendo racional ou não. Mas há certo tempo eles estão caçando Sangues Azuis, não para levar aos chefes, mas apenas para mata-los. — Elizabeth silenciou-se. Dirigiu o olhar a estrada.
– Vão matar o Jagre?
– Talvez. Mas o Jagre é esperto, já vem fugindo deles a anos. Ele sabe como se virar.
– O que Sangues Azuis tem de tão especial. — Elizabeth permanecia com o olhar fixo nas árvores que passavam.
– Ele não conseguiu te explicar nada não foi?
– Não. — Joanh suspirou.
– Acho melhor chegarmos no avião primeiro. Lá estaremos seguros, pelo menos por enquanto. Depois te explico com mais calma. Também posso te mostrar os livros enquanto esperamos o Jagre.
– Avião?
– Sim, estamos fazendo quase uma turnê mundial em busca de mais Sangues Azuis. — Ele sorriu. — Carros não atravessam mares, pelo menos não aqui.
– Mas e se o Jagre não voltar?
– Vamos sem ele.
Loucura, aquilo devia lhe parecer loucura. Tudo aquilo. Mas cada momento ilógico parecia mais perto da realidade do que todos os anos naquele vale. A ilógica lhe parecia tão real.
Elizabeth permaneceu em silêncio, olhava a paisagem. Por entre as árvores, por entre os galhos, sobras dançavam, mãos, garras, dentes e olhos vermelhos como sangue, vazios como a escuridão que reinavam.
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