Legendary

1 Relíquias


Notas iniciais
Então pessoas aqui esta mais estória-não-tão-feliz da Strange Girl :3 Espero que gostem!!

Parte I

A Garota de Lugar Algum

Silêncio. Apenas um profundo e vasto silêncio. Naquela cidadezinha esquecida pelo tempo, quem viesse a se deparasse com suas ruas após o pôr-do-sol se veria perdido em um quase mundo fantasma. Sem nada vivos pelas ruas. Apenas silêncio, doce e vasto silêncio.

Já havia se passado exatamente quatro horas que a cidade se encontrava em seu estado fantasma. Ainda teriam de esperar mais uma até que fosse seguro sair. Era eminente o tédio, afinal as conversas deviam ser em tom baixo, nada de risadas, nada de quebrar abajures ou a perna da colega, nada de fazer nem um misero som que os ouvidos aguçados da diretora pudessem detectar. Mas no final valia apenas. Algumas horas de pura liberdade valiam a espera.

– Então alguém quer jogar um jogo? — Emilly batera as costas mais uma vez no baú da cama da irmã.

– Não, ninguém quer jogar nada. E mesmo que alguém aqui estivesse interessada não dá para jogar detetive no escuro. — Juliet rolava de um lado para o outro na cama, tentando dormir.

– Serio, a gente devia depois passar em alguma loja de brinquedos e roubar um jogo novo, não aguento mais jogar detetive.

– Então por que você queria jogar?

– Porque eu não aguento mais esperar!

– Durma então.

– Não quero dormir! Estou muito animada... — Algo voara pela escuridão do quarto, atingindo Emilly em cheio no rosto, a garota cambaleara, os olhos arregalados. — Nós não tínhamos combinado "Nada de guerra de travesseiros"?

– Sim, nós tínhamos mas se você não falar mais baixo juro que empurro esse ai pela sua garganta. — Não era possível ver a dona da voz.

– Ah! Você nunca faria isso Lila! Afinal se me matar, quem vai iluminar sua vida?

– O Sol Emilly, o Sol. — Emilly fritara a escuridão resmungando com sigo mesma.

– Como assim! O Sol nunca vai brilhar mais que eu!

– O Sol já brilha mais que você, Emilly, é o Sol. — Sem pensar a garota agrara a travesseiro, o objeto felpudo atravessara o quarto. Algo se quebrara, Emilly arregalara os olhos, o coração acelerara. Uma luz cortara a escuridão, Lila iluminava com a lanterna do celular, os cacos de vidro espalhados pelo chão.

– Como é que você consegue quebrar sempre o meu abajur?!

–Shiu! — Vanessa levara o indicador aos lábios por mais que as outras não fossem vela — Fiquem quietas — Sussurrou.

Passos. O batucar dos saltos na madeira cada vez mais perto. As garotas correram, os corações a mil. Se enrolavam de qualquer jeito nas cobertas, logo tentavam encenar de melhor maneira o sono pesado. Os passos se silenciaram, a luz do corredor fora acesa. Elas tentavam acalmar a respiração. A porta se abrira devagar, o rangido era de doer os ouvidos, o feixe invadia o quarto, luz, sombras e penumbras se misturavam.

Diretora Madelina entrara, calmamente deslizara a mão pela parede, sem desviar o olhar das garotas. A luz fora acesa. Elas ainda mantendo o papel de bem comportadas, se sentavam preguiçosamente nas camas, bocejando. Logo olhavam Madelina perfeitamente ereta, sua expressão seria como sempre. Seu olhar dilacerante como uma navalha observara calmamente as quatro camas da direta, logo as da esquerda, parando apenas na última, desarrumada e vazia.

– Onde está a Elizabeth? — Olhara as garotas como um predador diante a caça ferida. — Não vou perguntar de novo. — A voz se mantinha calma, porém severa e imponente tal qual um rugido. As meninas em desordenada sincronia apontaram para a sacada.

Ela começara a andar em direção as portas de vidro. As garotas agora de cabeça baixa mal se atreviam a mexer. Madelina cortara o cômodo, passara velos para a sacada. Varrera-a com o olhar.

– Mas...

– Olhe para cima Diretora — Vanessa lhe aconselhara, sem levantar a cabeça.

A mulher relutante olhara. Sentada no telhado, a pelo menos três metros da sacada do último andar estava Elizabeth. Toda a calma do mundo se exibia na garota, como se não estivesse tão perto de uma queda mortal. Ela apenas apreciava o vento, ouvia calmamente sua melodia, deixando tal pentear seus cabelos.

– Desça já dai Elizabeth! — A Diretora batera os pés no chão, nervosa. Elizabeth abrira os olhos mansamente, devagar os dirigira a figura cinzenta.

– Ah! Oi Tia Madelina!

– Não me chame de Tia! E desça logo daí! Você pode cair e se machucar!

– Por que eu iria querer descer? — Elizabeth sorria, sorria como se estivesse a enfrentar a ira de um dragão. De todas as pessoas da cidade, era ela a única a não temer as chamas de Madelina.

Madelina respirara fundo, sabia que podia gritar a noite inteira com a menina que ela ainda continuaria sentada lá.

– Porque eu tenho alguém que quer te ver. Ele disse que tem algo da sua família, que pertence a você. — A Diretora notara o brilho de curiosidade em seus olhos.

– Bom argumento. — Disse Elizabeth se levantando. — Se fosse alguém da cidade eu não iria. Mas como é alguém de fora que se deu o trabalho de vir até o fim do mundo para me ver, eu vou. Gosto de forasteiros afinal.

– Como sabe que é alguém de fora?

– Oras, o povo dessa cidade sem graça não sai à noite, e como a Senhora pode ver — Disse apontando para o céu estrelado — Está de noite. — A garota dera dois passos para traz.

– Elizabeth! Não faça o que você está pen... — Já era tarde a menina já saltara. Caíra quase ao lado da Diretora. O olhar severo não abalara o sorriso travesso da garota. — Vamos logo.

Elizabeth colocara rapidamente e de qualquer jeito uma roupa que não fosse seu pijama e saíra feliz pela porta ignorando os olhares fulminantes de Senhora Madelina, que seguia logo atrás.

– Eu quero que vocês limpem essa bagunça! E quando eu voltar não quero ver ninguém acordada. — Fechara a porta atrás de si.

– Seja educada — Elizabeth revirara os olhos, Madelina a fechara no escritório junto a um homem alto e esguio de aparência doentia. Era magro de mais, a pele tinha um tom morto e pálido, demonstrando nitidamente as veias. Ao nota-la, o homem se levantara do sofá velho que um dia fora vermelho.

– Olá! Eu sou Jagre e você deve ser a Elizabeth — Seu sorriso era caloroso, por mais que os dentes tivessem aspecto afiado. E ao contrário do que imaginara, eram tão brancos quanto a neve. Ele lhe estendera a mão, e Elizabeth a apertara. Havia alguma coisa familiar em sua brancura — É um prazer conhecê-la.

– Igualmente — Respondera sem ânimo. Queria saber logo o que aquele homem tinha que pertencia a sua família, não se importava com ele na real.

– Você não sabe como foi difícil encontrá-la! Achei que realmente os Bringzel tivessem sumido do mapa! — Elizabeth franzira o cenho, desaparecido. Até onde se lembrava, tinha Tios e Tias, que podiam ser encontrados facilmente. — Então vamos ao que interessa! — Ele voltara a se sentar, tocara um embrulho negro sobre a mesinha de centro, mas recuara — Primeiramente, você sabe quem eu sou?

– Não. — Sua voz era calma mas sem vida.

– Sou um antigo amigo da Laureen– Sua voz vacilara. Nome da mãe arrepiara a garota por completo — Eu te vi algumas vezes, quando era pequena. É claro que não se lembra de mim. — Sorriu mais para si mesmo do que para ela.

– Isto aqui — Ele pegara o embrulho — Era dela. — Elizabeth queria agarrar o embrulho, não tinha lhe restado nada, nada de sua mãe. Apenas seu rosto sorridente que com o passar dos anos ia se apagando. Ele fez sinal para que ela se sentasse ao seu lado, ela fora. — Tem muito tempo que eu o tenho — Ele o desfazia lentamente, dentre panos negros havia uma caixa antiga de madeira. Lhe entregara.

Elizabeth passava os dedos pela superfície lisa, rosas cheias de espinhos haviam sido talhadas, envolviam o B dourado levemente desgastado pelo tempo. Queria ficar apreciando mais a rustica beleza, mas desejava mais ainda descobrir o que havia em seu interior. Abrira-a levemente com medo de estragar. O veludo era negro como piche, cobria o interior por inteiro. A cor negra realçava mais ainda o cordão.

– Lindo não acha? — Elizabeth tocara de leve a corrente de prata, esta era grotesca com ar resistente. A corrente se ligava a uma pedra azul como o céu sem nuvens. Sua superfície era completamente irregular, mas delicada como as flores. Ele brilhava como uma estrela, refletindo toda luz em seu caminho. Um pequeno dragão prateado segurava-a com suas garras — É uma antiga, muito antiga relíquia de sua família. Ficou por muito tempo comigo, mas agora é seu — Elizabeth olhara o homem, o sorriso continuava esboçado em seu rosto. Ela sorrira de volta.

– Bem, se não se importa, queria saber o que isto fazia com o Senhor.

– Não sou tão velho assim para que me chame de Senhor.

– Jagre? — Detestava mesmo, as formalidades de Senhor e Senhora.

– É pode ser — Ele rira — Bem, sua mãe me deu a algum tempo, quando vocês estavam naquela corrida louca. Laureen achava muito perigoso ficar com ele, afinal é de grande valor. Ela pediu para que eu o guarda-se ... Por uns tempos, até que vocês estivessem bem de novo. Mas bem... o destino tinha outros planos para ela. — Jagre reclinara no sofá, suspirara — Passei quase três anos te procurando, seus Tios se recusavam friamente a falar de você. Pelo menos agora eu te encontrei. E ele está com a verdadeira dona não acha?

– É. — Elizabeth passara levemente os dedos pelo cordão como se seu toque fosse quebrá-lo.

– Quer colocá-lo? Faz muito tempo desde que ele esteve no pescoço de uma Belruz. — Sorrira, não queria admitir a si mesma, mas ficava feliz com a ideia de fazer parte de uma dessas famílias da qual o sobrenome é um grande legado.

– Acho melhor não. Prefiro deixa-lo na caixa — Ela a fechara — É mais seguro

– Entendo. Bem — ele se levantara — Acho que minha breve missão está comprida. E já vou-me indo. — Elizabeth se levantara repentina. Aquele homem era amigo de sua mãe. Talvez, ele lhe pudesse falar sobre ela, talvez tivesse fotos de quando era jovem, talvez lhe pudesse contar estória engraçadas sobre ela. Por mais que tentasse não fazê-lo, ficava a alimentar tal fantasia.

Jagre olhara a garota, as mãos apertando fortemente a caixa, como se ela pudesse escapar. Os olhos vidrados nele, sem saber o que dizer. Ele passara a mão sobre sua cabeça, bagunçando lhe os cabelos.

– Você com certeza sabe onde fica o Hotel da Mary? Afinal ele é o único hotel da cidade — Elizabeth assentira com a cabeça.

– Tenho quase certeza de que sei onde fica tudo por aqui. A cidade é pequena, mesmo que não soubesse seria fácil de achar.

– Então bem, caso precise de algo, ou queira apenas conversar me procure, vou ficar na cidade até amanhã à tarde. — Elizabeth permanecera calada, tentando disfarçar a felicidade de ter alguém que pudesse falar sobre sua mãe. Talvez, pudesse descobrir algo, talvez ele acreditasse nela. Só talvez...

A maior parte dos estudantes já havia voltado para casa quando elas saíram da escola. O vento congelante sucumbia todos aos agasalhos grossos e pesados. As oito meninas andavam devagar, não havia presa, afinal Madelina por mais rígida que fosse, apenas queria as garotas de volta ao orfanato quando o Sol já tivesse se afogado no Horizonte.

– O que vamos fazer hoje galerinha? — Clara perguntara.

– Alguém quer tomar sorvete? — Emilly se manifestara.

– Sorvete? Nesse frio? — Retrucara Lila.

– Olha pouco me importa o clima, por mim eu tomava sorvete todo dia.

As garotas continuavam a conversar, mas as vozes se tornaram distantes para Elizabeth. Eram simples ecos em sua cabeça. A garota havia desviado a atenção a figura do outro lado da rua. Trajava apenas preto, do cachecol as botas. Os cabelos tão loiros que pareciam brancos se destacavam. Aquela figura estava a lhe intrigar desde de manhã, cedo. Ela havia o visto quando saíram de casa. Todas as vezes que olhava pela janela das salas, lá estava ele do outro lado da rua. A curiosidade lhe martelava a cabeça...

– Ah, gente esqueci meu livro de matemática, vocês podem ir para... Vocês vão aonde mesmo?

– Nossa! Tinha alguém realmente boiando aqui! A gente vai estar na praça, ainda não decidimos o que vamos fazer. — Vanessa sorria — Você pode nos encontrar lá, tá Avoadinha? — Elizabeth assentira com a cabeça já se virando.

Não tendo outro lugar em mente, seguira realmente de volta ao colégio, a figura negra que permanecera do outro lado da rua, dera meia volta junto a ela. E continuavam a seguir pelo mesmo caminho. Talvez fosse apenas sua imaginação, influenciada pelas series policiais que andava assistindo com Margo. Mas duvidava totalmente que fosse mera coincidência.

Chegara novamente no colégio, parara de frente para o portão. Pelo conto do olho podia ver a figura parada do outro lado. Ela suspirara. E começara a cortar o jardim da frente, em direção as portas principais. O vidro, refletia não nitidamente, a o garoto de preto atravessando a rua.

Tudo já se encontrava vazio, não vira nem sombra do zelador. Havia seguido para o perfeito ambiente sem testemunhas. Tinha de ter permanecido no primeiro piso, onde ainda haviam alguns grupos se reunindo. Mas agora era tarde, devia ter começado a refletir sobre seus atos antes de subir para o último andar.

Passos, desde que entrara podia ouvi-los a suas costas. Não precisava olhar para saber de quem eram. O coração de Elizabeth batia em ritmo acelerado. Parara ao pé da escada, os passos cessaram. Ela respirara fundo, tinha de acalmar os pensamentos.

Seguiu devagar até o meio do corredor, onde realmente estava seu armário. Jogara boa parte das coisas que estavam na mochila lá, deixando-a mais leve e fácil de carregar. Pelo canto do olho podia ver a silhueta do garoto.

Trancara o armário, voltara a andar. O sangue pulsando nas veias, adrenalina correndo todo corpo. Ela andava devagar, o garoto lhe acompanhava o ritmo. Respirou fundo, e se virara repentina. Arregalara os olhos, não havia ninguém.

–Ma-mas.– As mãos tremiam — Eu o vi– sussurrou a si mesma. Virara-se para frente, permanecera parada.

Arrancara de repente. Ouvia os próprios passos e os e mais alguém. Parou usando o solavanco do corpo para virar, algo que não dera muito certo, a garota cambaleara, por pouco não caiu. Novamente não havia nada. Ela mordera o lábio, sentiu o gosto de sangue.

Andou e se virou. Andou e se virou. Ouvia passos que não eram seus, mas não havia ninguém. Ninguém. Elizabeth já estava cogitando a ideia de estar a enlouquecer. Quando quase na escada se virou. O grito morreu em sua garganta. O garoto estava parado, poucos metros dela. Com os braços cruzado e um olhar severo. Batucava um dos pés no chão, como Vanessa quando estava nervosa.

Elizabeth sem pensar correra. Descera a escadaria as presas, quase tropeçando nos próprios pés. Saíra correndo pela porta dos fundos. Logo acertara alguma coisa. Alguém na verdade. Mais uma vez seus gritos morreram na garganta. O garoto estava a sua frente, ele sorria, sorria friamente.

Notas finais
O que acharam? A trilha sonora ainda não foi totalmente montada, então passo ela para vocês no próximo capítulo U-U P.S: Comentem, não pode estar tão ruim assim... ou Pode? Não... P.S.S: Feliz agora Carol?