A sala de armas do castelo estava impregnada com o cheiro de couro, óleo de linho e o fumo leve que subia dos charutos de Richard e Julian. Era um reduto masculino onde, entre uma inspeção de lâminas e outra, as conversas costumavam migrar dos campos de batalha para os salões de baile.

​Caelum, Gaspar, Richard e Julian estavam sentados em volta de uma mesa de carvalho, discutindo alianças necessárias para a estabilidade do reino.

​— O Duque das Terras do Sul está pressionando por um compromisso — comentou Caelum, massageando as têmporas. — Ele tem dois filhos em idade de casar, e os olhos dele brilham toda vez que o nome de Siena é mencionado.

​— Siena casada? — Richard soltou uma fumaça densa e riu. — O pobre rapaz não duraria uma semana. Ela o faria saltar de uma janela ou o venceria no cansaço antes da lua de mel.

​— Brincadeiras à parte, Richard — interveio Gaspar, com o tom sério de quem já viu dinastias ruírem por falta de herdeiros — ela é a princesa herdeira. O casamento dela não é apenas uma união, é a garantia de que nosso sangue continuará no trono de Astúria. Ela precisa de alguém que saiba domar aquele espírito.

​Arthur estava encostado em uma pilastra de pedra, mais afastado da luz das velas. Ele limpava uma adaga de prata com uma obsessão silenciosa, parecendo ignorar completamente o assunto. Sua postura era de indiferença absoluta, até que Julian mencionou:

​— Talvez devêssemos começar a apresentar pretendentes mais... firmes. Alguém que ela respeite.

​O som da adaga de Arthur batendo na mesa interrompeu a fala do pai. Ele se empertigou, a sombra escondendo parte de seu rosto, mas sua voz cortou o ambiente com a precisão de uma lâmina fria.

​— Siena está diferente — soltou Arthur, sem olhar para ninguém em específico.

​O silêncio caiu sobre os homens. Caelum franziu o cenho, curioso com a intervenção súbita do sobrinho, que raramente opinava sobre assuntos domésticos.

​— Diferente como, Arthur? — perguntou o Rei.

​Arthur deu um passo à frente, entrando no círculo de luz. Seus olhos estavam endurecidos, e o maxilar parecia travado em uma tensão constante desde o café da manhã.

​— Ela está perdendo a noção dos limites — continuou ele, a voz baixa e carregada de uma autoridade que fez até Gaspar se emproar na cadeira. — O que vocês chamam de "espírito livre", eu chamo de imprudência perigosa. Ela precisa ser ensinada, e logo. Há coisas que ela precisa saber que não se pode fazer. Há regras que não são etiquetas de salão, mas protocolos de dignidade.

​Julian soltou uma risada nervosa, tentando aliviar o clima.

— Ora, Arthur, você sabe como ela é. Ela sempre foi uma loba...

​— Não, pai — Arthur o cortou, os olhos faiscando. — Uma loba sabe quando recuar diante do perigo. Siena está agindo como se o mundo fosse o seu salão de jogos particular, sem medir as consequências de suas invasões. Se ela for entregue a um marido agora, ela destruirá a aliança antes do amanhecer por pura... falta de controle.

​Caelum observou o sobrinho com atenção renovada. Ele notou a intensidade incomum na fala de Arthur, algo que ia além da preocupação de um primo.

​— E quem você sugere que a ensine, Arthur? — perguntou Caelum, com um tom calmo, mas testando o terreno. — O Mestre de Armas? Catarina?

​Arthur sustentou o olhar do Rei por um longo momento. A lembrança do calor de Siena sobre seu peito na noite anterior e o cheiro do vinho em seus cabelos pareciam queimar em sua memória.

​— Alguém que não tenha medo de confrontá-la — respondeu Arthur, ríspido. — Alguém que a faça entender que a coroa que ela carrega exige mais do que apenas teimosia. Ela precisa entender que certas portas não se abrem sem permissão, e que certos limites, uma vez cruzados, mudam tudo.

​Ele guardou a adaga na bainha com um estalo seco.

​— Com licença. As patrulhas noturnas me esperam.

​Quando Arthur saiu, o silêncio na sala era pesado. Richard olhou para Julian e depois para Caelum.

​— Alguém mais sentiu que ele não estava falando apenas de mapas e pretendentes? — sussurrou Richard.

​Gaspar sorriu de forma enigmática, limpando sua taça.

— O Falcão está tentando manter o voo estável, mas a Loba parece ter descoberto como morder as asas dele. Isso vai ser mais interessante do que qualquer tratado de paz.