Legado de Sangue e Ouro livro 3
8 Reunião
A sala de armas do castelo estava impregnada com o cheiro de couro, óleo de linho e o fumo leve que subia dos charutos de Richard e Julian. Era um reduto masculino onde, entre uma inspeção de lâminas e outra, as conversas costumavam migrar dos campos de batalha para os salões de baile.
Caelum, Gaspar, Richard e Julian estavam sentados em volta de uma mesa de carvalho, discutindo alianças necessárias para a estabilidade do reino.
— O Duque das Terras do Sul está pressionando por um compromisso — comentou Caelum, massageando as têmporas. — Ele tem dois filhos em idade de casar, e os olhos dele brilham toda vez que o nome de Siena é mencionado.
— Siena casada? — Richard soltou uma fumaça densa e riu. — O pobre rapaz não duraria uma semana. Ela o faria saltar de uma janela ou o venceria no cansaço antes da lua de mel.
— Brincadeiras à parte, Richard — interveio Gaspar, com o tom sério de quem já viu dinastias ruírem por falta de herdeiros — ela é a princesa herdeira. O casamento dela não é apenas uma união, é a garantia de que nosso sangue continuará no trono de Astúria. Ela precisa de alguém que saiba domar aquele espírito.
Arthur estava encostado em uma pilastra de pedra, mais afastado da luz das velas. Ele limpava uma adaga de prata com uma obsessão silenciosa, parecendo ignorar completamente o assunto. Sua postura era de indiferença absoluta, até que Julian mencionou:
— Talvez devêssemos começar a apresentar pretendentes mais... firmes. Alguém que ela respeite.
O som da adaga de Arthur batendo na mesa interrompeu a fala do pai. Ele se empertigou, a sombra escondendo parte de seu rosto, mas sua voz cortou o ambiente com a precisão de uma lâmina fria.
— Siena está diferente — soltou Arthur, sem olhar para ninguém em específico.
O silêncio caiu sobre os homens. Caelum franziu o cenho, curioso com a intervenção súbita do sobrinho, que raramente opinava sobre assuntos domésticos.
— Diferente como, Arthur? — perguntou o Rei.
Arthur deu um passo à frente, entrando no círculo de luz. Seus olhos estavam endurecidos, e o maxilar parecia travado em uma tensão constante desde o café da manhã.
— Ela está perdendo a noção dos limites — continuou ele, a voz baixa e carregada de uma autoridade que fez até Gaspar se emproar na cadeira. — O que vocês chamam de "espírito livre", eu chamo de imprudência perigosa. Ela precisa ser ensinada, e logo. Há coisas que ela precisa saber que não se pode fazer. Há regras que não são etiquetas de salão, mas protocolos de dignidade.
Julian soltou uma risada nervosa, tentando aliviar o clima.
— Ora, Arthur, você sabe como ela é. Ela sempre foi uma loba...
— Não, pai — Arthur o cortou, os olhos faiscando. — Uma loba sabe quando recuar diante do perigo. Siena está agindo como se o mundo fosse o seu salão de jogos particular, sem medir as consequências de suas invasões. Se ela for entregue a um marido agora, ela destruirá a aliança antes do amanhecer por pura... falta de controle.
Caelum observou o sobrinho com atenção renovada. Ele notou a intensidade incomum na fala de Arthur, algo que ia além da preocupação de um primo.
— E quem você sugere que a ensine, Arthur? — perguntou Caelum, com um tom calmo, mas testando o terreno. — O Mestre de Armas? Catarina?
Arthur sustentou o olhar do Rei por um longo momento. A lembrança do calor de Siena sobre seu peito na noite anterior e o cheiro do vinho em seus cabelos pareciam queimar em sua memória.
— Alguém que não tenha medo de confrontá-la — respondeu Arthur, ríspido. — Alguém que a faça entender que a coroa que ela carrega exige mais do que apenas teimosia. Ela precisa entender que certas portas não se abrem sem permissão, e que certos limites, uma vez cruzados, mudam tudo.
Ele guardou a adaga na bainha com um estalo seco.
— Com licença. As patrulhas noturnas me esperam.
Quando Arthur saiu, o silêncio na sala era pesado. Richard olhou para Julian e depois para Caelum.
— Alguém mais sentiu que ele não estava falando apenas de mapas e pretendentes? — sussurrou Richard.
Gaspar sorriu de forma enigmática, limpando sua taça.
— O Falcão está tentando manter o voo estável, mas a Loba parece ter descoberto como morder as asas dele. Isso vai ser mais interessante do que qualquer tratado de paz.
Fale com o autor