O estábulo estava imerso no cheiro familiar de feno seco e couro. Arthur não havia solicitado a ajuda de nenhum cavalariço; ele mesmo escovava o seu garanhão negro com movimentos mecânicos e vigorosos. Cada passada da escova no pelo do animal era carregada de uma força desnecessária, denunciando a tempestade que ele tentava conter desde a noite anterior.

​O som leve de passos sobre a palha fez o cavalo relinchar suavemente. Arthur não parou. Ele sabia quem era. A presença dela agora parecia uma frequência que ele conseguia captar antes mesmo de ver.

​Siena parou a alguns passos de distância. Ela não trazia a garrafa de vinho, nem o sorriso malicioso. Estava vestida com trajes de montaria, e o semblante, embora ainda marcado pelo cansaço, carregava uma humildade rara.

​— Arthur — ela chamou baixinho.

​Ele continuou a escovação, ignorando-a completamente. O som rítmico da escova era a única resposta.

​— Arthur, eu... eu vim pedir desculpas — ela insistiu, dando um passo à frente. — Pela noite passada. Eu passei dos limites. Eu sei disso.

​Arthur parou o movimento bruscamente. Ele encostou a testa no flanco do cavalo por um segundo, fechando os olhos com força, antes de se virar. Quando o fez, Siena recuou instintivamente. O olhar dele não era o "mármore" habitual; era puro fogo e desprezo.

​— Desculpas? — A voz dele saiu grave, vibrando com uma raiva que ele não conseguia mais mascarar. — Você acha que um "sinto muito" apaga a imagem de uma Princesa de Astúria se rastejando bêbada pelos aposentos de um oficial? Você tem ideia da humilhação que isso representa?

​— Eu estava fora de mim, eu não...

​— Exatamente! Você está sempre fora de si! — ele cortou, dando um passo em direção a ela, a altura dele projetando uma sombra imponente. — Você brinca com o perigo, Siena, porque sabe que todos aqui limpam a sua sujeira. Mas eu não sou seu brinquedo. O que você fez não foi uma "travessura". Foi um ataque à minha honra e à sua própria dignidade.

​Siena sentiu a dureza das palavras como se fossem bofetadas. O orgulho dela começou a arder, mas a culpa ainda era maior.

​— Eu não queria te ofender, Arthur. Eu só queria...

​— Você queria o quê? Provar que consegue me descontrolar? Provar que sua vontade está acima das regras? — Ele soltou a escova, que caiu pesadamente no chão. — Enquanto eu me matava de estudar estratégia e disciplina para proteger este reino, você se tornava uma mulher que não consegue nem controlar os próprios impulsos. Você não é uma loba, Siena. Lobos têm hierarquia. Você é apenas uma criança mimada que ganhou uma coroa antes de ganhar juízo.

​— Chega, Arthur! — ela gritou, os olhos começando a marejar de raiva e dor.

​— Não, não chega! — ele sibilou, encurtando a distância até que seus rostos estivessem a poucos centímetros. — Você quer ser tratada como adulta? Então comece a agir como uma. Se você cruzar a soleira da minha porta daquele jeito outra vez, eu juro pelos deuses que te levo arrastada até o Rei, não como sua prima, mas como uma infratora que esqueceu o próprio lugar.

​Arthur respirou fundo, tentando estabilizar o peito que subia e descia rapidamente. O cheiro dela ainda o perturbava, o que só aumentava sua raiva.

​— Saia daqui — ele ordenou, voltando-se para o cavalo, a voz agora fria e final. — Suas desculpas não têm valor enquanto o seu comportamento for o mesmo. Eu não tenho tempo para lidar com suas crises de atenção. Tenho um reino para proteger, inclusive de você.

​Siena ficou estática, sentindo o frio do estábulo penetrar em seus ossos. Arthur nunca fora tão cruel. Ela queria retrucar, queria gritar, mas a verdade nas palavras dele era um peso que ela não conseguia empurrar de volta. Sem dizer mais nada, ela deu as costas e saiu, mas desta vez, o silêncio que deixou para trás não era de vitória, era o som de algo que, pela primeira vez, parecia ter quebrado de verdade.