Legado de Sangue e Ouro livro 3
20 Flagrados
O silêncio da biblioteca real era absoluto, interrompido apenas pelo som rítmico das páginas que Arthur virava. Ele estava concentrado em um antigo tomo sobre as fortificações do Norte, tentando focar sua mente no dever para não pensar no calor do corpo de Siena.
O som da porta se fechando suavemente foi o seu primeiro aviso. Siena caminhou entre as estantes, o som de seus sapatos na madeira ecoando como uma contagem regressiva. Ela parou atrás dele, inclinando-se sobre seu ombro para ler o texto em latim.
— Mapas e poeira, Arthur? — ela sussurrou rente ao seu ouvido, a voz carregada de uma malícia que o fez travar. — Eu pensei que, depois de ontem, você preferisse pesquisas mais... orgânicas.
Arthur fechou o livro com um estalo seco.
— Eu tenho um reino para proteger, Siena. E você deveria estar na sua aula de etiqueta.
— Ah, mas eu estou praticando — ela provocou, contornando a mesa e sentando-se sobre o tampo, bem em cima do mapa que ele estudava. Ela puxou a gola da túnica dele levemente. — Queria ver se sua disciplina é tão resistente quanto esse couro que você usa. Ou se você é apenas um soldado que sabe obedecer ordens, mas não sabe tomar o que quer.
A corda do autocontrole de Arthur finalmente arrebentou. Ele se levantou bruscamente, a cadeira arrastando com um ruído estridente. Em um movimento rápido e possessivo, ele a agarrou pela cintura, puxando-a para fora da mesa e prendendo-a contra uma das estantes de livros.
— Você não faz ideia do que eu quero, Siena — ele sibilou, os olhos escuros como uma tempestade.
Antes que ela pudesse retrucar, ele a beijou. Não foi um beijo de descoberta, mas um beijo de domínio, urgente e profundo, que fez os livros ao redor vibrarem. Siena correspondeu com a mesma intensidade, as mãos puxando o cabelo dele, os corpos colados em um desafio que já não tinha mais volta.
— Ahem.
O som foi curto, seco e carregado com o peso de uma coroa.
O mundo pareceu parar. Arthur e Siena se separaram como se tivessem sido atingidos por um raio. Ofegantes, com as roupas levemente desalinhadas e os lábios avermelhados, eles se viraram lentamente.
Caelum estava parado a poucos metros, com os braços cruzados atrás das costas. O rosto do Rei era uma máscara de seriedade imperial, mas seus olhos brilhavam com uma intensidade que fazia o ar na biblioteca parecer rarefeito.
— Majestade — Arthur reagiu primeiro, colocando-se instantaneamente em posição de sentido, embora sua respiração ainda estivesse descompassada.
Siena limpou o canto da boca com as costas da mão, tentando recuperar a dignidade real, mas o rubor em suas bochechas a traía completamente.
— Pai... eu... — ela começou, mas a voz falhou.
Caelum caminhou lentamente até a mesa onde o livro de Arthur estava. Ele olhou para o tomo fechado e depois para os dois jovens à sua frente. O silêncio durou uma eternidade, quebrado apenas pelo estalo da madeira na lareira distante.
— Eu vim buscar um registro sobre as colheitas — disse Caelum, a voz calma, mas vibrando com uma autoridade que exigia cada centímetro da atenção deles. — Mas parece que encontrei um tipo de... estratégia de união que não estava nos meus planos originais para esta tarde.
Ele fixou o olhar em Arthur, que mantinha o queixo erguido, pronto para aceitar qualquer punição.
— Capitão Arthur — disse o Rei, dando um passo em direção ao sobrinho. — Eu esperava que você estivesse vigiando as fronteiras. Não imaginei que a fronteira que você estava mais interessado em cruzar era a da minha própria linhagem.
Siena deu um passo à frente, protetora. — Pai, a culpa foi minha, eu o provoquei...
— Eu sei exatamente quem provocou quem, Siena — Caelum a cortou com um gesto de mão, mas seu olhar suavizou apenas um milímetro. — Eu fui jovem uma vez. E eu conheço o fogo dos Mackenzie e a teimosia dos Valória. Mas lembrem-se de uma coisa: este castelo é feito de pedra, mas tem olhos de vidro.
Ele se virou para sair, mas parou na porta, olhando-os por cima do ombro.
— Arthur, na minha sala. Agora. Siena... vá encontrar sua mãe. Ela tem algumas palavras sobre "discrição" que eu acredito que você finalmente está pronta para ouvir.
Caelum saiu, deixando para trás um rastro de tensão e a certeza de que o segredo deles, embora agora sob a proteção do Rei, acabara de se tornar a questão mais importante de Astúria.
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