Legado de Sangue e Ouro livro 3
21 A verdade
O clima nos aposentos da Rainha Catarina era de uma calma enganosa. O chá estava servido, e o sol da tarde filtrava-se pelas janelas, mas o silêncio entre as mulheres era carregado. Catarina, Aria e Katrina estavam sentadas em semicírculo, os olhos fixos em Siena, que remexia a colher na xícara sem emitir um som.
— Siena — começou Catarina, sua voz suave mas com a firmeza de quem não aceitaria menos que a verdade. — Seu pai não saiu daquela reunião com Arthur com uma expressão de quem discutiu apenas impostos. E você tem andado com um brilho que não vem apenas do sol de Astúria.
Siena sentiu o cerco se fechar. Ela olhou para a mãe, depois para a tia Aria — que mantinha um olhar compreensivo, mas expectante — e, finalmente, para a avó Katrina, que exibia um sorriso enigmático.
— Eu... nós... — Siena começou, a voz falhando. Ela suspirou, largando a colher que bateu na porcelana com um estalo. — Não adianta mais esconder, não é? Vocês já sabem.
— Queremos ouvir de você, querida — disse Aria, inclinando-se para frente. — Queremos saber o que mudou entre o ódio e esse... novo sentimento.
Siena respirou fundo e, de uma vez só, as palavras começaram a transbordar.
— Tudo mudou naquela noite que eu fui ao quarto dele. Eu estava bêbada, queria provocá-lo, queria quebrar aquela armadura de gelo que ele usa. Mas ele me deu uma lição de dignidade que me destruiu e me reconstruiu ao mesmo tempo. Ele não me aproveitou, ele me protegeu... de mim mesma.
As mulheres ouviam em silêncio absoluto. Siena continuou, o rosto corando conforme as memórias mais recentes vinham à tona.
— Depois disso, o silêncio dele me machucou mais que qualquer grito. Eu percebi que não queria apenas a atenção dele, eu queria o respeito dele. E quando finalmente conversamos... quando ele veio ao meu quarto... — ela hesitou, mas o olhar de Catarina a encorajou a prosseguir. — Nós descobrimos que aquele fogo que usávamos para brigar era, na verdade, algo muito mais profundo.
— E os beijos, Siena? — perguntou Katrina, com a franqueza direta das matriarcas.
— Foram os primeiros de ambos — confessou Siena, a voz sumindo em um sussurro, mas os olhos brilhando. — Nós não sabíamos o que estávamos fazendo no início. Foi desajeitado, urgente... e perfeito. Arthur me confessou que lutava contra isso há anos. E eu... eu descobri que cada provocação minha era um pedido desesperado para que ele me notasse como mulher, não como a prima irritante.
Aria sorriu, visivelmente emocionada.
— Meu filho sempre foi um túmulo para os próprios sentimentos. Saber que ele finalmente se abriu para você... é um alívio para o meu coração.
— Mas não foi só isso — Siena continuou, agora mais firme. — Na biblioteca, hoje... ele me agarrou com uma força que eu nunca imaginei. Ele perdeu o controle, e eu adorei cada segundo disso. Até que o meu pai apareceu.
Catarina soltou um suspiro longo, encostando-se na poltrona.
— Então é real. Não é apenas um capricho de verão ou uma vingança contra a disciplina.
— É a nossa vida, mãe — afirmou Siena, encarando a Rainha. — Eu não quero nenhum daqueles pretendentes do Sul. Eu quero o homem que conhece meus piores defeitos e, ainda assim, decide ficar para me ensinar a ser melhor.
Catarina olhou para Aria e Katrina. Houve uma comunicação silenciosa entre as três — um pacto de gerações que entendiam o peso do amor dentro de uma dinastia.
— Bem — disse Catarina, levantando-se e colocando a mão no ombro da filha. — Se é assim, prepare-se. Seu pai e Arthur estão decidindo os próximos passos agora. Mas saiba de uma coisa: uma loba e um falcão juntos são uma força que ninguém em Astúria poderá deter. Só peço que, da próxima vez, escolham um lugar com menos tráfego que a biblioteca real.
Siena riu, sentindo o peso do segredo finalmente se esvair. Ela tinha o apoio das mulheres da sua linhagem, e agora, o futuro de Astúria parecia não apenas seguro, mas intensamente brilhante.
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